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segunda-feira, 9 de junho de 2014

O Rolezinho de Negri (e do Negrianismo) por São Paulo

Cocco e Negri no Cacs-PUC
No topo dos seus oitenta, quase oitenta um, anos, o pensador italiano Antonio Negri é uma figura adorável. A uma primeira vista, aquele senhor alto, de jeito sereno e olhar bondoso chama a atenção pela simpatia, mas assim que se pronuncia, ele impressiona ao desfilar um repertório intelectual potente e polêmico: e, enfim, não há como ficar neutro diante do pensamento de Toni Negri, dos mais iconoclastas, criativos e coerentes pensadores do nosso tempo. Coerência que, aliás, lhe custou caro quando confrontou a farsademocrática italiana do pós-guerra e, por isso, foi parar no cárcere em 1979, acusado de ser "mandante moral" do assassinato do premiê Aldo Moro ocorrido um ano antes -- acusação movida pela natureza revolucionária da sua obra -- e também sob alegação de ser cattivo maestro -- isto é, mau mestre, corruptor de jovens como Sócrates. A "farsa democrática" em questão se fundava no  grande acordo  da direita democrata-cristã, com seus parceiros socialistas, e a esquerda “comunista” em torno de um indeterminado "progresso": a direita fazia concessões pelos direitos sociais, mas, em troca, a esquerda deveria condicionar seus sindicatos a impedir greves e reivindicações da sua base trabalhadora -- e também vetar, ou levar em banho-maria, certas demandas insurgentes ligadas aos direitos de minorias, que emergiam com singular potência desde os anos 1960.

Negri, há pouco, esteve no Brasil, onde deu um giro pelo Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. Cá, participou de conferências, deu entrevistas, circulou entre movimentos sociais, participou de lançamento de livros, conversou com estudantes etc.  Essa foi uma de suas muitas visitas ao país, sendo a primeira no fim do ultimo período em que esteve no preso -- entre a primeira prisão de Negri e a última, houve o exílio na França, onde se tornou professor da prestigiosa Universidade de Paris; o retorno voluntário para Itália, nos anos 1990, que culminaria em novo período no cárcere, foi uma tentativa de dar visibilidade à causa dos refugiados italianos dos anos de chumbo. De lá para cá, o Brasil de Lula e as experiências latino-americanas foram importantes objetos de reflexão-ação de Negri. 

Há, é verdade, um longo caminho que separa a Itália do fim dos anos 1970 do Brasil de 2014, mas há  coincidências importantes: tanto a "direita” quanto a "esquerda” partidárias se confundem cada vez mais -- enquanto, no mesmo processo, a(s) esquerda(s) se descola(m) da realidade social e política do país; o cálculo político passa, então, a girar em torno do consenso em um “progresso” que justifica quase tudo, inclusive a repressão militar e judicial de movimentos sociais, minorias e afins. Como na Itália, houve um processo anterior de empoderamento econômico, e autonomização subjetiva, mas o sistema político e econômico chegou no limite do que poderia tolerar. Lá, no entanto, a esquerda parlamentar aparecia como parte do sistema, mas não em um primeiro momento como cabeça dele, coisa que cabia à conservadora democracia cristã. Aqui, as mudanças foram deflagradas por uma ampla coalizão política e um forte movimentação social, a princípio, protagonizada pela esquerda. 

Negri foi, e é, dos maiores apoiadores internacionais das transformações sociais pelas quais o Brasil passou nos últimos anos, sendo dos primeiros entusiastas internacionais do governo Lula -- enquanto os pensadores de esquerda estavam ora encantados com uma Terceira Via, ao estilo de Tony Blair, do nosso FHC e dos profetas do Fim da História; ora tributários de uma velha esquerda saudosa de modelos burocráticos como o da velha União Soviética ou da velha social-democracia, ambas formas mais ou menos referentes à falecida sociedade industrial. Lula, apesar das ambiguidades, trouxe uma lógica de governo virtuosa e aberta, voltada aos afetos e à subjetividade, mas agora se vive outro momento; o Lulismo parece, voluntariamente, ter se resolvido em desenvolvimentismo científico, no qual o gerencialismo e a técnica tomaram o lugar da política.

Ironicamente, se era até normal que conservadores como Demétrio Magnolli ou Merval Pereira atacassem Negri, de repente, um nome de esquerda como Marilena Chauí (em virtude da inspiração de parte dos manifestantes de Junho) foi ao ataque; depois, quando Negri, sem desmerecer os avanços do período Lula, fez críticas ao estado de coisas do impasse atual, ele passou a ser renegado pelo governismo oficial -- os mesmos que, até então, mantinham suas opiniões sobre o pensamento negriano guardadas para si ou faziam uma leitura domesticadora dele, como se il vecchio Toni fosse apenas um reformista de retórica radical. Antes, talvez,  Mas a causa do desentendimento atual é claro, os motivos que levaram, e levam, Negri a defender certo legado de Lula são uns, o deles, por certo, são outros -- o que não se resolve numa disputa sobre a qual pertence a melhor análise, mas sim para onde cada um pretende direcionar o que aí está.

O mais recente desses ataques veio de Mino Carta, editor da mais relevante publicação pró-governo: ele chamou Negri de “profeta do apocalipse”, teceu elogios ao Compromisso Histórico que unia comunistas a democratas-cristãos na Itália dos anos 1970 e fez uma defesa do desenvolvimentismo implacável: nada de “cultura da favela”, o papel do governo é civilizar e educar os favelados e diferentes. Após Negri fazer críticas aos megaeventos, Carta finalmente teve a oportunidade para abrir sua caixa de ferramentas, afinal, tudo pode ser dito contra quem ousou falar mal da Copa e quetais. E muito do que permanecia guardado vem à tona, seja a velha rixa sobre a política italiana ou a defesa do desenvolvimentismo, dois fatos historicamente diversos e conceitualmente parecidos. 

Enfim, é a mesma fúria que Carta investiu contra uma outra figura envolvida na oposição ao Compromisso Histórico italiano, o ativista Cesare Battisti: após ser condenado em um esdrúxulo processo político nos anos 1980, acabou refugiado em uma série de países, vindo parar no Brasil, onde foi preso e alvo de um processo de extradição digno de um Dreyfus. Na ocasião, Carta chegou a investir mais tempo e virulência em prol da extradição de Battisti para o sedento Estado italiano do que a própria direita brasileira, mas seus esforços foram em vão, sobretudo pela intervenção da ala esquerda do governo Lula -- representada naquele momento pelo então ministro da justiça Tarso Genro.

Carta, por certo, há de atribuir a Battisti, e muito mais a Negri, a responsabilidade pelo desastre político italiano, o que é uma hipótese que chega a ser mais louca do que inverossímil: A verdade é que não foi a esquerda revolucionária que jogou a Itália em um caos político simbolizada pelos longos e  tragicômicos governos de Silvio Berlusconi, e agora pela política europeia de austeridade aplicada com as bençãos de um presidente ex-comunista e um gabinete de centro-esquerda, mas o próprio Compromisso Histórico que implodiu por suas próprias pernas, depois da derrota de pirro que impôs aos movimentos sociais italianos.

Sublinhe-se que pouco depois da morte de Aldo Moro, o gabinete do premiê Bettino Craxi – do pequeno partido socialista local, sócio minoritário desde sempre dos democratas-cristãos e do grande consenso – implodiu em escândalos incontroláveis de corrupção. Isso foi seguido da própria implosão do Partido Democrata-Cristão, anos mais tarde, incapaz que era de se sustentar diante de mínimas investigações contra a máfia. Fim não muito diferente teve o partido comunista local, que se autoextinguiu com o fim da União Soviética, de quem ele alegava ter “críticas” e “manter distância”.

A “esquerda extraparlamentar” italiana, na verdade, expôs a fabulosa fraude política na qual a esquerda de Estado escolheu se enfiar. Esse é o motivo do ódio de Carta e tantos outros, que com sua narrativa fantástica imputam, até hoje, a responsabilidade do desastre aos denunciantes, como se Noé fosse o culpado pelo Dilúvio. E algo semelhante se opera no Brasil, onde a reiteração da tragédia italiana ressurge na ironia triste da repetição das posições de Carta e Negri, já anciãos, sobre fatos tão atuais e brasileiros, mas que poderiam muito bem se referir à Itália dos anos 1970. 

Talvez nem tudo esteja perdido, ainda, no Brasil, mas enquanto o neoliberalismo espreita para retornar, o governo liderado pelo partido dos trabalhadores ainda vacila quando não é plenamente ambíguo: ou tristemente inequívoco, quando insiste na militarização da segurança da Copa ou trata a violência de Estado como um problema menor das manifestações. Manifestações que, aliás, deveriam ser ouvidas antes de serem julgadas e condenadas de pronto e por inteiro.

Fica a proposta de desentender menos o enigma político brasileiro a partir, vejamos só, da análise da composição de classe: pensar as transformações do PT, e a inflexão reacionária da classe média brasileira à luz das transformações do capitalismo industrial para o rentista -- como ele mesmo suscitou em roda de conversa no Centro Acadêmico de Ciências Sociais da PUC de São Paulo. Ou de pensar e atuar cada vez mais nos movimentos em forma de enxame, os quais são mais e mais comuns na atual onda grevista brasileira. Também resta o exemplo da trajetória de luta de Negri. E da sua, aí sim, autêntica generosidade com os outros -- com a qual nos brindou ao longo dos últimos dias em São Paulo. 

P.S.: Foi a terceira vez que acompanhei uma visita de Negri ao Brasil, mas de todas elas, está me foi a mais marcante: engraçado e impressionante vê-lo em meio ao centro acadêmico que adotei e onde já debati tanto sobre a obra dele -- perto dos seus próprios livros e ao lado de gente tão querida.

domingo, 12 de junho de 2011

Mino Carta e a Síndrome de Moby Dick

"The White Whale swam before him as the monomaniac incarnation of all those malicious agencies which some deep men feel eating in them, till they are left living on with half a heart and half a lung. That intangible malignity which has been from the beginning; to whose dominion even the modern Christians ascribe one-half of the worlds; which the ancient Ophites of the east reverenced in their statue devil; -- Ahab did not fall down and worship it like them; but deliriously transferring its idea to the abhorred white whale, he pitted himself, all mutilated, against it. All that most maddens and torments; all that stirs up the lees of things; all truth with malice in it; all that cracks the sinews and cakes the brain; all the subtle demonisms of life and thought; all evil, to crazy Ahab, were visibly personified, and made practically assailable in Moby-Dick. He piled upon the whale's white hump the sum of all the general rage and hate felt by his whole race from Adam down; and then, as if his chest had been a mortar, he burst his hot heart's shell upon it."


Muitas pessoas não leram Moby Dick, clássico do imortal Melville, mas certamente são poucos que desconhecem a lendária saga do Capitão Ahab, um delirante paranoico que dedica sua vida a perseguir, a bordo do mitológico baleeiro Pequod, a cachalote branca que empresta seu nome ao livro e que um dia lhe decepou a perna. É uma obra fantástica, sem dúvida. Moby Dick é muito mais do que uma mera cachalote: pouco nos interessa sua existência por ela mesma, mas sim a interação dela com um investimento do desejo de tal ordem, por parte de Ahab,  da qual decorre uma assombrosa relação diferencial, que torna a perseguição à baleia a razão transcendental pela qual aquele navio e os pobres-diabos dos seus tripulantes são guiados. Moby Dick é o delírio que serve para justificar racionalmente aquela jornada incessante e suicida; um ser objetificado inconscientemente enquanto falta para que a vida atormentada - e interditada - de Ahab tenha uma válvula de escape: que não é encontrar a baleia, mas ter uma causa para cruzar os mares e ainda ter como personificar os seus demônios interiores.

Nessa nossa atribulada contemporaneidade, um fenômeno que só poderia ser descrito como Síndrome de Moby Dick tem se tornado cada vez mais recorrente: no lugar de cachalotes, deliramos inúmeros outros fantasmas que nos servem ao mesmo tempo de impulso e justificativa para jornada persecutórias que, no fim das contas, servem tão somente para preencher o vazio de uma vida (cada vez mais) capturada pelos dispositivos de controle - nos quais, de certa forma, acabamos nos convertendo, seja na escala molar ou na molecular. Só isso pode explicar a jornada persecutória absurda na qual se embrenhou o lendário jornalista ítalo-brasileiro Mino Carta, idealizador, editor e proprietário da CartaCapital, nas páginas da sua revista quando eclodiu o caso Battisti: editoriais furiosos a favor da extradição de seu compatriota se tornaram recorrentes e, de repente, Battisti converteu-se não apenas em uma sub-humana personificação do mal como também na onipresente pauta daquele seminário, movimento seguido de uma campanha de desmoralização das autoridades e grupos que defendiam a negação da extradição dele até que, de repente, tudo se tornou ensejo para se atacar Battisti, do escândalo sexual de Strauss-Kahn em Nova Iorque à queda de Palocci da Casa Civil.


Em seu mas recente editorial na CartaCapital, Mino, ao proclamar que o governo Dilma finalmente começaria agora que Antônio Palocci caiu da Casa Civil - como se uma coisa tivesse relação com a outra -, acaba mudando completamente o foco do texto, em pleno  quarto parágrafo de um total de quatorze, para voltar a falar de sua cachalote branca, Battisti, furioso por ela ter novamente escapado novamente à fúria de seu arpão: o STF, mesmo que da forma precária e periclitante que expusemos por aqui, acabou por determinar a soltura do ex-ativista italiano, cuja extradição já havia sido negada pelo Presidente Lula em seu derradeiro ato como governante. De repente, tudo se tornou uma grande conspiração na qual, por certo, políticos petistas supostamente envolvidos com o banqueiro Daniel Dantas, acusados sem prova alguma pelo editorialista, teriam determinado a libertação de Battisti - como se, aliás, Gilmar Mendes, relator do processo e autor de surreal voto pró-extradição de Battisti no julgamento que decidia sobre sua soltura, tivesse más relações com aquele notório financista. De repente, Mino deveio Ahab, a Carta Pequod e sua redação deveio sua tripulação.


A fuga sem fim de Battisti se explique: para cada fuga esquizofrênica pelo mundo existe uma perseguição delirante e infinita que a cause; a jornada que o conduziu para o nosso país é não somente o elo transversal entre o estado de exceção brasileiro - que chegou a ser declarado nos tempos da Ditadura Militar - e o italiano - que é caso de livro no que toca a maneira como exceção e regra co-habitam a mesma Casa -, mas também entre os dois consensos políticos de ambos os países - sendo o italiano já firmado há décadas entre o Partido Comunista (PCI) e a Democracia Cristão, sendo a causa imediata do derretimento de seu sistema político e da ascensão de Berlusconi, enquanto o brasileiro segue ainda em vias de ser travado entre os arautos da marcha implacável do progresso (e da ordem, por óbvio).


A perna decepada de Mino-Ahab não foi resultado da obra individual de Battisti-Moby Dick, mas de como a juventude da qual fez parte Battisti, ao se insurgir contra o acordão que sepultou de vez qualquer dignidade revolucionária do PCI, deceparam a perna da horrenda criatura nascida do Compromisso Histórico, passando a ser perseguidos desde então por um monstro que não obstante o fato de ser horrendo, ainda é coxo - que se concretiza em pelotão de linchamento a perseguir a multidão viva e vibrante. Carta, herdeiro que é do velho PCI, reproduz uma perseguição que nem mais em sua época teve sentido, agora tanto menos. Por outro lado, no Brasil de hoje se ergue um horrendo consenso em torno da ideia de um progresso a ser conquistado gerencial e desumanamente, com suas doses de choques de ordem, como no caso dos bombeiros cariocas, e punitivismo, o que nos lembra o caso italiano em seu início. Cá, ainda há chance de salvação - como a própria decisão de Lula, ano passado, ilustra -, mas na Itália na qual Berlusconi - um dos perseguidores de Battisti - impera, tenho sérias dúvidas quanto ao mesmo.


De nada adianta surgir com denúncias bombásticas contra o consenso - e válidas, até certo ponto - como as que dizem que o PT esqueceu dos trabalhadores para logo mais estar do mesmo lado de Gilmar Mendes - sem ele ter mudado um centímetro de lado -, defendendo o mais obtuso punitivismo, que é aquele transformado em fim em si mesmo e expresso em  bases estritamente reterritorializantes, tudo isso parar honrar o consenso italiano dos anos 70 - enquanto se ajuda a criar um outro consenso se foma aqui, com consequências igualmente autoritárias. Só espero que o senhor Carta se dê conta enquanto é tempo, com o brilhantismo que lhe é peculiar normalmente, pois cá, ao contrário da representação literária, o arpão disparado nessas condições não mata apenas nós mesmos, tendo consequências históricas muito maiores e mais trágicas para todos nós.