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terça-feira, 19 de março de 2013

A América Latina e a Te(le)ologia da Ditadura

Hot Pursuit -- Klee
Cena 1, o cardeal Bergoglio é aclamado como o Papa Francisco I, primeiro Francisco, primeiro latino-americano, primeiro jesuíta a liderar mundialmente o catolicismo romano -- a despeito de sua obscura participação na ditadura argentina e, também, de uma curiosa articulação de um cardeal mezzo-conservador brasileiro, Dom Cláudio Hummes, que, no entanto se opôs à ditadura em nosso país. Cena 2, no Brasil, depois de quase quatro décadas, a certidão de óbito do jornalista Vlado Herzog foi, finalmente, retificada: só agora, o outro judeu que morreu para nos salvar, não é mais legalmente suicida, mas sim vítima de tortura cometida pelo Estado local, sob a ditadura militar. Ainda no Brasil, uma cerimônia que lotou a Catedral da Sé aclamava Alexandre Vannucchi, estudante morto há quarenta anos pela ditadura.

"Ditadura" é um termo onipresente na América Latina. Com um uso muito diferente do qual ela tinha em Roma, quando era o instituto jurídico que designava o governo temporário e especial em tempos de guerra -- com duração, atribuições e controles (pelo Senado) devidamente previstos, no entanto. Marx empregou "ditadura" em "ditadura revolucionária do proletariado" no sentido romano. Carl Schmitt, jurista do Nazismo, não: católico por tradição, eugenista e platônico ao extremo, ele redefiniu o termo para usa-lo como involucro do neo-absolutismo que ele engendrou e, afinal de contas, tomou forma histórica no regime nazista. Ditadura passou a ser sinônimo de tirania. Schmitt popularizou sua definição do termo como pretendia, mas não do jeito que desejava. Na América Latina, tornou-se uma entidade, um espectro que nos torturou, matou, escondeu nossos corpos, roubou nossas crianças.

Países latino-americanos deram passos fortes em direção do resgate de sua História. Certamente mais do que o Brasil. Grosso modo, Argentina e Uruguai são grandes exemplos. O Chile também. A Argentina, aliás, teve a mais implacável ditadura do continente e, lembremos, seus tenazes movimentos de contestação -- como as mães e avós da Praça de Maio -- pouco puderam contar com a piedade dos religiosos locais, incluso o atual Papa, embora tenham contado com a dos brasileiros. No Brasil, a ditadura não foi nada branda, mas esteve longe da violência dos seus vizinhos -- e quando se aproximou, assistiu à oposição da mesma Igreja que lhe sustentou inicialmente. Apesar disso , a reconstrução da memória histórica aqui é mais difícil do que, por exemplo, no Chile  pós-Pinochet ou na Argentina pós-Videla.

O processo hispano-americano de reconstrução da memória e da verdade, no entanto, está próximo de ser abortado. Até que ponto Francisco I deseja ver isso continuar em curso? No Brasil, o que será do que já começou devagar? Se "ditadura" ganhou outro sentido, ou mesmo teve seu sentido elastecido e resultou na tirania, o catolicismo latino-americano não é menos ambivalente: ele esteve a favor e contra as ditaduras, o que parece paradoxal quando se esquece que o governo e a lei dos homens é apenas secundária em relação ao Plano; portanto existe uma postura ortodoxa de ambas "as partes". A aparente águia bifronte do atual papado -- entre as denúncias de Verbitsky e as loas de Boff, entre Bergóglio e Dom Cláudio -- resolve-se num grifo glorioso. Como a dualidade entre ditadura e democracia na América Latina se resolve na unidade e continuidade substancial do Estado como representação política do Deus bíblico.

É errado pensar em teologia-política como a política desenvolvida pela Igreja à margem dos Estados. Isso chama-se, sem sombra de dúvida, política eclesiástica. A função real da Igreja como forma Estado, complementando-o como dispositivo desinvestidor de desejo -- sendo Estado sem sê-lo propriamente -- não, isso é um legítimo papel o teológico-político. Mas não é que o teológico-político seja regra, seja  a realidade catastrófica de, por exemplo, uma República Democrática na qual Sarney ainda resta, ele está atravessado por uma série de fatores e resistências que, de fora, desconfirma a racionalidade soberana. Isso está em toda parte, inclusive posto para o catolicismo. Sem essa resistência, haveria crítica ao acobertamento de práticas pedófilas na Igreja, ou a necessidade de reconhecer os pobres nem que seja para adestra-los? 

A aparente ambivalência católica frente às ditaduras -- uma eventual oposição aqui ou a vergonha de ter feito, ou ser acusado de ter feito parte, acolá versus o apoio às rupturas miraculosas dos golpes -- explica-se por uma questão mal-resolvida de sua metafísica. A bem da verdade, o totalitarismo como o conhecemos é católico sem sê-lo, pois não é fruto da teologia universalista, embora, seja, terrenamente (historicamente), uma doutrina advinda da tradição e da prática hierárquica católica na Europa. Entre o universalismo e o totalitarismo existe uma diferença inconciliável; enquanto o primeiro advoga a validade incondicional [e prévia] de (alg)um verbo  no segundo há o verbo que faz valer. A Lei universal contra a Decisão total. Schmitt, de tão católico torna-se o menos católico entre os católicos ao voltar a Platão ignorando o neoplatonismo, produzindo, assim, uma inversão ontológica da função do verbo na teologia.

Em outras palavras, supondo que isso fosse um debate numa redação, pela perspectiva do universalismo discutiríamos qual fato jornalístico merece estar na manchete no jornal de amanhã, enquanto pelo totalitarismo sabemos que o que for escolhido como manchete será, portanto - a decisão sustenta a legitimidade e não contrário, portanto. Um universalismo dependeria, antes de mais nada, de uma ordem prévia e, para tanto, de uma ordem espaço-temporal na qual o tempo fosse ente real e o espaço estivesse junto com ela e apartado das categorias. Deus como interventor ou como relojoeiro sempre foi uma discussão tão importante quanto a velha discussão entre graça e obra.

A eventual impossibilidade do universal diante da contingência da realidade, exposta como ferida, abre espaço para dois desdobramentos possíveis: (i) o da resolução do caos por uma ordem transcendental unitária que opera a posteriori, resolvendo as pretensões em decisões baseadas na fidelidade ideal e (ii) o amor pelos infinitos modos, o encontro do caos que o contempla não como distopia, mas como maravilha múltipla e, ainda, cuja forma de não fazer as diferenças tornarem-se buracos negros é conceber o que há de comum entre elas. O totalitarismo, a pretensão de todo, contra a imanência.

O catolicismo não se resume ao flerte com o totalitário para evitar o caos, nem à dogmática do universal,  uma vez que ele, na prática, também contempla esse comunismo -- e a teologia da libertação, ironicamente, foi menos universalista (tampouco totalitária) do que, em grande parte, o movimento comunista internacional durante o século 20º, que oscilou entre o universal (como na Itália de Berlinguer) e o totalitário por reação (como em Stalin ou Mao). Em tantos momentos, a teologia da libertação sequer foi teológica e mereceu, de fato, a acusação de comunista, mesmo que o comunismo não possa ser ontologicamente uma acusação.  História, enfim, prega peças. Ainda que no limite, os membros da TL sejam padres, esses fantásticos seres que sintetizam os rabinos com os sábios romanos -- a dívida infinita e o monopólio do conhecimento da essência oculta das coisas. 

Essa ditadura, o espectro que assombra aqui-agora a América Latina, é fruto desse totalitarismo ontológico: foi a hora e a vez na qual viu-se que as pretensões várias, expressas na forma da luta de classes, provaram que não havia ordem prévia que ancorasse tudo -- que a Lei posta desde a colonização não era real, mas real como desejo que fosse aquilo mesmo --, mas que essa ordem ancoradora era nada mais do que o desejo de ver as coisas ancoradas -- como sempre estiveram --, o que poderia tomar forma pela ação de destruição criativa: o golpe de Estado. 

No universalismo -- no catolicismo por tabela -- Deus não está no Mundo, está acima, antes e a despeito dele. No fascismo, ele está  no mundo e a descoberta (chocante) disso nos obrigaria a representar Deus e fazer valer o Plano -- o fascismo é o choque do católico diante de uma constatação de impossibilidade do universal, portanto, nada mais "ateu" no sentido que um padre usaria o termo. Para Espinosa, a quem doía tanto a acusação de ateu -- como Marx, que via o ateísmo como uma questão incipiente --, Deus é e está no mundo-- e está tudo resolvido pelo amor, não um amor incondicional e sumamente válido, mas um amor imanente ao ser capaz de fazer corpos, modos finitos e diferentes entre si, comungarem -- e aí um modelo capaz de dar conta a uma democracia absoluta.

Planos teológicos e/ou ontológicos são, entretanto, respostas abstratas e complexas à questões, problemas, que nascem, por sua natureza, da política. No fundo, há a multiplicidade de homens vivendo, para seu azar, em grupo, rodeados de todas as suas pretensões; mais do que uma luta pela sobrevivência, a história humana é marcada pela luta por uma vida melhor, pela liberdade que é, sobretudo, estar isento do pior trabalho (ou do trabalho ele mesmo), da função mais biologicamente extasiante: não há forma de pensar a divisão do trabalho do que, menos do que o prodígio humano da especialização, como a luta para empurrar o que há de pior para o outro (como poucos marxistas analíticos discordariam).

Na ordem de coisas latino-americanas, a Lei Universal não é o que, de forma ideal, justo e objetivamente demonstrável. A relação de sujeição não deixa de ser universalizável, uma vez que o desejo do dominado é pode ser o de dominar e, assim, ele próprio é capaz de aceitar a dominação à qual é submetido. Não é questão de estar na pele do outro, ou saber o que é estar na pele do outro, pois muitas vezes assentimos com a dominação mesmo que ela se aplaque sobre nossa própria pele. O choque diante da transformação desse estado de coisa, a desconfirmação da ordem que vinha desde os tempos da colonização muda tudo. A ordem não está dada é, pois, preciso garanti-la, nem que seja miraculosamente.

A perplexidade trazida pelos novos tempos, os novos costumes, as novas relações sociais perturbou ou derrogou a ordem -- talvez pior, apresentou a possibilidade de que a ordem não é objetiva, mas uma construção subjetiva e complexa, à qual está sujeita às decisões e interferências políticas. A Igreja, em sua existência terrena e humana, não deixou de estar sujeita ao abalo formidável nas suas convicções e foi do pior ao melhor, retirada do seu próprio centro -- embora do seu conservadorismo culpado ao seu libertarianismo reticente, as formas abstratas e dispositivas do pensar e agir teológico, além do culto ao mistério da escassez sejam uma constante. 

Ditaduras, como as que vimos por aqui, são formas de manter uma ordem injusta, uma sujeição perfeita que pôs certos grupos numa zona de conforto às custas do sacrifício, até desnecessário mesmo para esse fim, de negros, nativos e brancos pobres. Ilustres cidadãos brancos da América Latina só começaram a morrer torturados mesmo -- não em guerras, mas na situação de seres matáveis -- durante esse ciclo ditatorial, pois só aí parte desses cidadãos se juntou, em maior escala, à luta de negros e nativos contra a opressão -- devieram negros e índios, logo, morreram e se tornaram matáveis como tais.

A luta, mais do que política, no sentido de pensar por dentro do Estado contra o Estado, por dentro do capitalismo e contra o capitalismo, é pensar uma saída econômica e ecológica -- a lei e o verbo da Casa que  compartilhamos -- que dê conta de dar vida à essa saída política, que dê carne para que essa democracia possa ser corpo e não vento: o problema prático é resolver como distribuir o produto e a produção, como fazer os fluxos fluírem sem a interdição entre produção e consumo. Como dar suporte à democracia política, desfazendo o mistério: na multiplicação não há milagre, não há peixes de menos nem para todos, mas o mar está aberto.


domingo, 24 de abril de 2011

Reflexões sobre a Natureza do Fascismo

Marcha Nazista 
"Soberano é quem decide sobre o Estado de Exceção"
Carl Schmitt na Teologia Política 
"E sobre essa linha melódica de variação contínua constituída pelo afeto, Spinoza irá determinar dois pólos, alegria-tristeza, que serão para ele as paixões fundamentais: a tristeza será toda paixão, não importa qual, que envolva uma diminuição de minha potência de agir, e a alegria será toda paixão envolvendo um aumento de minha potência de agir. Isso permitirá que Spinoza, por exemplo, realize uma abertura em direção a um problema moral e político muito fundamental, que será sua própria maneira de estabelecer o problema político: como acontece que as pessoas que têm o poder, não importa em que domínio, tenham necessidade de afetar-nos de uma maneira triste? As paixões tristes como necessárias: inspirar paixões tristes é necessário ao exercício do poder. E Spinoza diz, no “Tratado teológico-político”, que esse é o laço profundo entre o déspota e o sacerdote: eles têm necessidade da tristeza de seus súditos"
(Deleuze sobre Spinoza em aula de Janeiro de 1978 em Vincennes, lembrada por aqui, há um ano)



O debate sobre o Fascismo voltou à baila com força pelas redondezas blogosfera brasileira. Há poucos dias falávamos sobre isso aqui. E não é à toa. A alteração da disposição relativa de status na nossa na sociedade é um fenômeno não só acachapante como paradoxal: se ela produziu a melhora de vida de enormes contingentes humanos em um curto espaço de tempo, por outro lado, ela criou bolhas de ódio inacreditáveis. Vejam bem, se a democracia trouxe uma autonomia política jamais vivenciada para os trabalhadores e o fim da hiperinflação criou certa segurança social, as conquistas do desenvolvimento social nos anos Lula terminaram por colocar o Brasil tradicional em pane. Uma reação violenta se seguiu a isso, basta ver exemplos como a recente manifestação fascista na Avenida Paulista, em apoio a um obscuro deputado cuja plataforma demagógica se baseia justamente no ataque ao novo Brasil. O que eu gostaria aqui, é que refletíssemos juntos um pouco mais sobre o advento do Fascismo em nosso meio.

O fenômeno do fascismo hegemônico pode ser, a um primeiro olhar, causado por alguma crise político-econômica brusca em sociedades ocidentais industrializadas, o que leva a instituição de certo tipo de regime no Estado que é contrário aos princípios basilares do Iluminismo, no qual o poder e a vigilância são totais sob a regência de um Líder todo poderoso que nos guia na marcha incessante do (para e pelo) Progresso de acordo com certas premissas. No entanto, isso não explica a existência do Fascismo como fenômeno, afinal, ele independente de ser hegemônico para existir - via de regra, ele não costuma ser ou ter condições para tanto - e, também, ele aparece em cenários onde não há escassez generalizada como próprio caso brasileiro atesta - ou mesmo a Europa dos anos 90 . Temos, portanto, de pensar a questão do Fascismo por meio do conceito de relação. 


Trata-se de um fenômeno radical que apresenta uma constante: existe uma perturbação socioeconômica que altera rapidamente o status de um grupo em relação ao outro - os alemães em relação aos ingleses, a velha classe média brasileira em relação aos trabalhadores, os franceses "legítimos" em relação aos franceses descendentes de magrebinos-, na qual a relação a mestre-escravo não é exaurida, mas vira de cabeça para baixo de repente e o movimento parece tender a pior, o que tem um impacto violento sobre o inconsciente das pessoas. Não é necessário cairmos para o mesmo patamar dos outros, os outros podem ascender perigosamente para perto de nós. Em todas as relações, há (1) um corte fundamental entre o eu e o outro, (2) uma relação hierárquica que se transforma - e expõe a verdade sobre os limites sociais - e, também, (3) um conceito de linearidade no que toca à economia e ao tempo - a ideia de uma História em linha reta.


Esse corte entre o eu e o outro não é senão a expressão dos processos de individualização e a atomização, inerência da máquina capitalista  - uma ética deixa de ser possível porque eu não me reconheço na face do meu semelhante, o que, em situações limite, toma um caráter explosivo. O outro ponto, a hierarquização social, exprime algo bastante antigo e profundo nos grupos humanos e seu abalo, por sua vez, responde pela mais pura forma de horror social - quando as pessoas se deparam com a verdade horrenda por detrás dos limites deslocados. 


Pensemos no juízo da advogada em relação ao pedreiro em um shopping, "você não devia estar aqui porque não tem dinheiro para comprar nada" - mas, e se ele tivesse dinheiro? -, ou mesmo o francês "legítimo" em relação ao imigrante magrebino, "você não tem esses direitos porque é estrangeiro, resigne-se" - e se ele não for um imigrante? -; em ambos os casos, a causa de tais vedações - seja a reprovação moral ou a proibição jurídica - se aplicavam sobre seu status, embora fossem legitimadas por juízos racionais que escondem desejos ocultos - eu quero que ele não tenha, eu quero que ele não seja -, a causa verdadeira da contenda; o medo profundo em questão é o de pedreiros não serem piores do que advogados ou magrebinos étnicos não serem piores, por sua condição de ser, do que franceses (ou pior, poderem ser mesmo "franceses"), a possibilidade de um futuro no qual a disposição do status social mude para pior.


O terror que percorre a alma vem à tona quando se constata que não há mais o álibi, quando o pedreiro tem o dinheiro para estar ali e o magrebino é mesmo cidadão francês; aquele medo que alimentava a reprovação e a negação de direitos torna-se realidade, o que faz as regras, aquelas amigáveis ficções sociais ou jurídicas, ruírem, elas perderam sua razão de ser. A relação hierárquica está ali, mas ela mudou de disposição contra o Eu - e do nós, o  Eu expandido - e a favor dos Outros. Não importa se Eu (ou nós) caímos ou se eles ascenderam, mas o fato é que o vento mudou e não foi a nosso favor. Os dois exemplos que eu utilizei retratam não casos específicos, mas fenômenos sociais relevantes no Brasil - a ascensão econômica da classe trabalhadora - e na França - a ascensão social dos magrebinos, absorvidos pela sociedade francesa, o que exige que, uma vez incorporados, tenham seus diretos reconhecidos pelo Estado francês -, o que produz reações radicais por meio de fenômenos de segregativos com articulações sociais e políticas.


E medo é uma palavra importante aqui: como dizia o bom Spinoza, trata-se de uma tristeza incerta - eu não sei se vai acontecer, mas pode acontecer e minha capacidade de agir diminui - e o mesmo vale para a esperança - uma alegria sob as mesmas condições -; ambos dependem de um certo conceito de tempo, trata-se de uma questão cronológica altamente enraizada em nossa cultura ocidental. A saber, a terceira condição que eu elenquei para o surgimento de um fenômeno fascista. o Tempo como seta, como diria um tal de Walter Benjamin. 


O Fascismo não é o único fenômeno que irá decorrer disso, naturalmente. Mas ele depende disso, o tempo precisa ser uma linha reta para, diante dos fenômenos anteriores surgir uma perspectiva na qual é preciso reagir contra o futuro (enquanto entidade) - no qual os pedreiros mais e mais estarão infestando todos os ambientes ou magrebinos idem - e voltar a um passado (também entificado) no qual as coisas estavam no seu devido lugar, para, de acordo como as coisas eram, progredir rumo ao futuro certo. Não é uma marcha rumo à utopia, mas a garantia da tradição, da pureza e da segurança numa marcha que também mira o horizonte. Eu fico triste e alegre pelo que nem aconteceu porque dou um status real ao tempo.


Dentro de uma lógica de tempo e sociedade na qual se marcha para - e pelo - progresso, ser ultrapassado por quem estava atrás - ou abaixo, conforme se veja a situação - é motivo para um ódio profundo, trata-se do deflagrador de uma neurose aguda. E essa perspectiva que põe necessariamente o tempo como uma linha reta é um dos traços do argumento central do pensamento ocidental, a saber, a relação promíscua entre Teologia e Filosofia Política agenciada por Platão - isto é, o condicionamento da criação dos conceitos sobre as coisas da pólis a um divino transcendente e não alcançável pelos incautos. 


A Salvação, a grande cura para todos os males na forma de Um totalizante, torna-se a meta da política, mas é uma meta tão inalcançável quanto o horizonte - o que, por conseguinte, acaba como qualquer chance de liberdade; nunca alcançamos o que procuramos e nossa insignificância nos frustra profundamente, só nos resta depositar a nossa vida nas mãos dos iluminados capazes de chegarem ao horizonte. Estamos abandonados, ainda mais quando eles surgem e tomam o nosso lugar.

No século 17º, entre o polimento de uma lente e outra, Baruch de Spinoza ousou desafiar esse postulado. Não há tempo em linha reta, afinal, o tempo nada mais é que um modo de pensar que serve à nossa localização na existência. Não existe transcendência, pois o próprio Deus é causa e efeito de si mesmo, portanto, Ele não passa da própria Natureza. O seu Tratado Teológico-Político é muito mais que uma obra sobre tolerância religiosa; ele é uma contestação radical da essência da própria dominação tal como a conhecemos: não existe e não pode existir realmente Salvação, a incalcançabilidade do horizonte é sua própria condição de existência como tal, e, por conseguinte, todo profeta é só mais um charlatão que transforma a miséria humana - a própria maravilha do mundo - em defeito ou imperfeição para vender seu bálsamo falso. Uma redenção totalizante é impossível, logo ela serve - ou conduz - unicamente à dominação. A luta verdadeira que pode ser travada é por uma Libertação - de nós mesmos, dos nossos medos, da culpa, da honra, da glória - que nos reconcilie com o Mundo.

Em sentido inverso, o pensamento nazista no século 20º vem à atar de maneira mais radical ainda a relação entre Teologia e Política. O pensamento de um Carl Schmitt não é racionalista, mas nem por isso escapa à tradição ocidental. O soberano é o messias, isto é, a materialização, em pessoa, da totalidade e o condutor inquestionável da marcha incessante para a Salvação. Trata-se de uma forma de idealismo tremenda. O discurso tirânico, assentado na polaridade medo-esperança, reaparece com força - e tampouco estamos falando do soberano hobbesiano, pois ele mesmo o era por conta de um contrato que estaria suspenso caso ameaçasse a vida dos seus súditos: aqui não há contrato, mas a suspensão dele por um ato unilateral da vontade do Um, assentado na necessidade premente da Salvação. Os mesmos motivos que fizeram o Leviatã ser proscrito, não se enganem, são os mesmos que fizeram Schmitt ser aclamado pelo Poder em seu tempo. 

O discurso complexo do nazismo, por exemplo, é expressão do fenômeno fascista na Alemanha do entreguerras visando a transforma-lo em força hegemônica. Como nos lembra Leandro Calbente em um recente (e belo) artigo - retomando Benjamin e Esposito -, parte relevante do discurso nazista era estético; a ruga, o ferrugem no metal, a folha que cai, o velho prédio, toda as diferenças que constituem a realidade são reduzidas à imperfeição. Uma marcha nazista não apaixona os observadores por desperta-lhes alegria, mas por entristecê-los; o mundo é mau porque é feio - e a feíura resulta da existência de tanta "imperfeição" e de tantas assimetrias (isto é pela existência de tantas diferenças, em outras palavras, pelo fato do mundo sê-lo tal e qual é), é isso que as manifestações nazistas, com seu ritmo bem marcado, suas bandeiras e sua música queriam dizer e é dessa maneira que afetavam os mais incautos. Se o velho Spinoza pretendia construir uma Ética na qual, cá no nosso mundinho, se poderia construir uma sistemática de convivência por meio da compreensão e interação entre as diferenças, os ideólogos do Nazismo eram novos profetas que vendiam a eliminação do Outro (reduzido a Inimigo) como o fim do programa e condição necessária para o Progresso. Se Spinoza quer construir um modo do Eu interagir com o Mundo, os Nazistas querem resolver esse problema cindindo-os de forma perpétua.


A estetização da política, como bem lembra o Leandro, não se esgota no Fascismo - e o Fascismo não se esgota à Europa do Entreguerras, acrescentamos -, o que nos põe frente a frente com sua problemática no aqui-agora; e não será o desenvolvimento econômico e social que o jogará na lata do lixo da história, afinal, aí estaríamos nos valendo do mesmíssimo raciocínio sobre a qual o próprio Fascismo, por vias outras, se assenta - e se desenvolve. São intervenções artísticas - políticas, inclusive - no aqui-agora que afetem a todos em volta, aumentando nossa capacidade de agir, mostrando que a maravilha do mundo é sua dita imperfeição - o real contraposto ao ideal angustiante e angustiador -, enfim, uma política de alegria e não de esperança, pois a esperança demanda a crença na existência do Futuro enquanto ente real e ele só consegue sê-lo na retórica dos profetas (onde serve para, apenas e tão somente, nos sujeitar, fazendo-nos progredir para onde eles querem que nos movemos). Não precisamos provar algo como "o Outro não é imperfeito, mas sim diferente", basta mostrarmos que a imperfeição não é outra coisa senão a própria beleza.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O Debate sobre Deus na Blogosfera e as Arábias

Manifestantes oram para Ala no dia da derrubada de Mubarak -- Pedro Ugarte/AFP

Recentemente, um debate interessantíssimo voltou a ser travado pela blogosfera sobre a questão religiosa e o ateísmo. O André Egg, por exemplo, tem publicado uma série de posts sobre isso que tem me chamado a atenção. Embora discorde de algumas colocações dele - algo perfeitamente compreensível pela nossa diferença de formação, André vem de um lar batista enquanto eu tive uma educação laica e não sou religioso -, eu concordo com a perspectiva que ele adota nesse debate: Calma gente, ninguém é dono da verdade nessa conversa toda. Não, os ateus não estão na mesma condição de pessoas que têm religião, eles são uma minoria oprimida, mas do mesmo modo que os eles não são inferiores aos religiosos pelo simples fato de não crerem em Deus, a recíproca também é verdadeira. Usar o cientificismo - e é assim que se chama a Ciência quando passa a ser usada como instrumento de veridicção e afirmação do Poder - como forma de atestar a "ignorância religiosa" é um erro grave e perigoso - por isso eu discordo da linha que um Dawkins assume como expus lá no próprio André, ela não apenas soa arrogante como passa batido pela questão central do extremismo religioso e promove um debate que é tão metafísico quanto o que condena, é evidente que por uma perspectiva materialista, a questão da religião não passa pela afirmação ou negação de Deus (o que Dawkins faz, inclusive, é afirmar pela negação). Em suma, a minha linha nessa conversa toda é mais ou menos a linha de um post que o NPTO escreveu há um tempo atrás - em relação ao qual eu concordo sobre a perspectiva em relação ao debate entre religiosos ou não religiosos, mas discordo quanto à avaliação que ele faz da participação dos religiosos na política, acho que o buraco é mais embaixo, afinal, o Estado é laico (o que não se confunde com ateu, mas também não significa religioso), o que é uma grande ficção, claro, mas tem uma utilidade prática importante. Por outro lado, alguns intelectuais ateus, de influência iluminista, não raro se amparam em certas muletas kantistas (que mal sabem eles, mas são mais teístas do que o Papa), assumindo uma concepção de tempo em linha reta onde a religião pertenceria ao velho, ao "atraso", o que é falso: A religião é fenômeno social e político que existe em ato, mesmo o religioso mais radical e aparentemente atrasado é um fenômeno atual, ou seja, um amish é um amish de 2011, sua identidade religiosa é determinada pelas relações econômicas e sociais que atuam no aqui e agora - atribuir ao amish uma identidade um anômala em relação à História é, sobretudo, conceber a possibilidade de uma identidade cultural transcendental, em outras palavras, é quase beijar a religião que aparentemente se renega. A minha posição pessoal nessa conversa toda, claro, é de que não existe mesmo um Deus pessoal como na Bíblia, o que não quer dizer que Deus não exista: Existe, enquanto alguma coisa, real ou abstrata - a própria natureza, uma personagem ficcional etc - e que, de algum modo, produz transformações práticas. Mas não é apenas isso que me faz não me declarar como ateu, mas o fato de não aceitar a maneira como aparato institucional monoteísta põe a questão - desproblematizando-a, aliás -, em suma, eu me recuso solenemente em ser uma negativa de uma dicotomia que eu não considero como válida. É essa linha que uso quando eu analiso questões como a do extremismo religioso no Maghreb por aqui - por isso, inclusive, eu entrei nessa polêmica com o Daniel Lopes -: Religião - e seu eventual extremismo -, ao meu ver, trata-se de um fenômeno social e político atual, cuja relação com o sistema econômico e político vigente deve ser analisada, o que, a julgar pelos números de crescimento do extremismo islâmico junto da penetração do Capitalismo por lá ao longo do século 20º, não apontam para uma oposição entre o Capitalismo - e a esquizofrenia que parte do centro para a periferia, de um modo que hoje em dia nem se sabe mais o que é centro ou periferia -, mas o exato inverso; como ordens políticas ditatoriais a serviço do sistema capitalista internacional usaram a religião como instrumento de "pacificação" da classe trabalhadora local e, no fim das contas, acabaram perdendo o controle (o Irã que o diga) da situação. Também não podemos confundir  os religiosos não-extremistas articulados na sociedade civil - isto é, a grande maioria das pessoas religiosas - com defensores da teocracia, ou melhor, podemos fazê-lo tanto quanto  acusamos os democratas-cristãos europeus de defenderem uma Teocracia quando vão às urnas.

P.S.: Finalmente o ditador Mubarak renunciou e foi-se embora do Egito. Sua figura pessoal simplesmente implodia qualquer possibilidade de negociação pelo alto, com fins gatopardianos, como pretendiam os setores situacionistas do Egito e os EUA: Algo precisava mudar para que nada mudasse, esse algo não poderia ser apenas Mubarak no fim do ano, mas, quem sabe, logo agora. Evidentemente, não deixa de ser uma vitória do movimento revolucionário, mas trata-se de uma batalha vencida, não da própria guerra. Agora, mais do que nunca, é preciso se mobilizar, pois a falácia de que não há mais problemas porque o ditador foi embora certamente será usada para operar uma saída "razoável": Foi-se o ditador, mas ficou a ditadura (nos aparelhos e respirando com ajuda, mas ficou), ainda nem começou a transição e há muito o que se fazer tanto lá quanto na Tunísia.

Atualização de 13/02 às 01:10: Interessante - e estarrecedor - este texto sobre a relação entre a Fraternidade Muçulmana e os Estados Unidos - que eu pesquei lá no excepcional Outras Palavras. Só confirma aquilo que temos sustentado por aqui: A relação causal entre a atuação do sistema global e o crescimento do fundamentalismo islâmico, às vezes de uma forma até mais direta do que pensamos.