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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Relógios

Dalí e seus relógios
Saber que o tempo passa é uma questão que se resolve olhando no relógio ou, se muito, vasculhando o armário onde estão os calendários amarelados de outrora. Sentir o tempo passar é outra coisa, uma experiência mais profunda e, às vezes, bem mais dolorosa. É não apenas se deparar com as criancinhas de ontem já adolescentes ou quase adultas hoje - ou com lugares queridos que desaparecem, cinemas fechados, prédios modificados ou demolidos -, mas também assistir aos velhos morrendo -e se dar conta que os velhos que morrem hoje não eram tão velhos assim quando você era criança e, afinal de contas, tinha o mundo nas mãos. Aliás, é curioso quando esses velhos que partem são pessoas célebres, que jamais conhecemos, mas cujas vidas tiveram algum significado em nossa infância. Dia desses, mexendo em uns papéis velhos, topei com uns desenhos meus - de quando tinha uns seis anos - onde uma das figuras representadas era o recém-falecido Itamar Franco, então Presidente da República, que se diferenciava dos demais personagens - todos esqueleticamente representados - pelo topete protuberante e pelo óculos. Foi uma sensação estranha de passagem do tempo. Um pouco diferente - e pior - é a sensação de enterrar velhos familiares, cujos ritos fúnebres acabam por atrair uma multidão relativa à longevidade do falecido; ver os pequenos primos que cresceram tão rápido, encontrar tios sumidos e topar com outros parentes com quem não se mantém contato por qualquer motivo que, perto da morte,  se tornam tão mesquinhos: basta a dor da perda oscilar um pouco para sentir esse estalo. Outro ponto é como o tempo, essa curiosa medida da existência, vai se tornando mais irrelevante quanto mais se vive; oito anos de poder, aquilo pelo que matam e morrem muitos dos homens mais brilhantes da República, aos poucos vai se tornando uma medida efêmera. Vivemos o antes, vivemos o depois. O relógio talvez só pese mais com o passar do tempo para os fugitivos da Justiça - ou realizadores de pequenos delitos perfeitos - que rezam pela prescrição de seus crimes; o tempo que falta para que a agonia acabe passa a ter a intensidade de todos os anos que já passaram juntos - ao contrário do tempo nas prisões ou nos hospícios, pois é sabido que sem liberdade o tempo torna-se um mero detalhe ou mesmo um nada, uma vez que nesses lugares, a existência que ele representa pouco ou nada passa a significar. O tempo nos mata, portanto, é bom ser grato e aprender a mata-lo também.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Uma carta, um devir

Chegada de Maria de Médici em Marselha -- Rubens
Querida D.B.,


Sim, de fato, há muito não nos falamos e é claro que esse desencontro se deu por culpa exclusivamente minha, mas peço que não me compreendas mal. Isso foi bom para nós dois, tu sabes muito bem das razões para tanto e no fundo hás de concordar comigo - do mesmo modo que não hás de se amolar pelo fato de, apesar de tanto tempo já ter passado, ainda assim eu me referir a ti usando a segunda pessoa do singular. Agora, me escreves para falar sobre teu vindouro casamento e, como se não fosse o suficiente, ainda assumes uma postura inquisitorial, questionando-me sobre o que eu penso de uma instituição tão precária e provisória  quanto o matrimônio. Confesso que me sinto tentado a te responder com uma troça, mas pela consideração mútua, declino - ou, quem sabe, eu decline porque, talvez, não desacredite nele de um todo, desde que isso seja tomado como uma possibilidade existencial e não como uma necessidade social ou, quem sabe, por eu ser bem mais conservador do que gostaria de ser; a minha relação com o matrimônio é curiosa, embora eu não me conceba em um - e grande parte dos casamentos que eu já tenha testemunhado tenham dado errado -, justo aquele que eu presenciei de mais perto, acabou por dar certo. 

Creio que há qualquer coisa de racional nisso, quem sabe se as partes se esmerarem em desenvolver a capacidade de saber conjugar suas vidas no plural, mas também existe a parte obscura, em relação à qual não temos controle algum - e por isso tanto nos amedronta -, que é justamente a que diz respeito ao sensível: certamente a sustentabilidade da vida conjugal passa por uma afinidade demente pelos defeitos do outro - o que não se explica nem se aprende, apenas se sente. Se a vida pós-burguesa, egocêntrica ao infinito, nos faz não aguentar nem mais a nós mesmos, não sei como operaríamos isso ainda hoje - se bem que é tão bom saber que não podemos ter o controle total sobre as coisas, pois isso significa que sempre nos depararemos com uma saída, nem que seja a própria morte, afinal, sempre haverá razões que a própria razão desconhece. 

Mas talvez tudo isso seja uma bobagem tremenda da minha parte. Eu estou dissertando longamente sobre o tornar-se perfeito cônjuge, quando isso, a bem da verdade, pouco importa: talvez fosse tanto mais útil para ti falar no devir eterno amante, o qual há de coincidir com isso que pretendes experimentar tão logo. Antes de mais nada, convém diferir o tornar-se do devir: jamais poderás tornar-te novamente uma linda menininha - como deves ter sido -, mas é possível devires menininha sempre; tornar-se é passar a ser, enquanto devir é sentir a intensa emoção de ser. Preocupar-se com o que podemos - ou pior, devemos - ser é o pior dos pesadelos, enquanto sentir a intensidade de ser é justamente libertar-se das amarras do destino. Portanto, esqueça-te desde já de pensar em uma maneira de tornar-te bem sucedida nesse pacto que ensejas, devenha eterna amante: como já disse o Poeta, e quem sou eu para contradizê-lo, que seja imortal enquanto dure, posto que é chama. Pouco importa a duração, a quantidade, tente sentir isso ao máximo, pois o infinito só existe em ato.

Espero que ele te mereça tanto quanto eu mereço a desdita.

saudações tão cordiais quanto cordial é o meu povo, do teu
F.E.