Mostrando postagens com marcador Putin. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Putin. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

A Encruzilhada Bielorrussa


(Foto: SERGEI GAPON / AFP)

O levante da Bielorrússia tem a ver com democracia e liberdade ou é apenas uma intervenção Ocidental? Isso não tem uma resposta simples, pois envolve questões internas e geopolíticas bastante dúbias e ambivalentes. Vamos a um fio grandinho (mas necessário)

Das antigas repúblicas soviéticas de maioria eslava, A Bielorrússia era uma das mais pobres nos tempos da URSS. Detalhe: quando falo isso, me refiro à Rússia, com toda sua diversidade, e à Ucrânia. Lituanos e letões são apenas primos distantes que são, contudo, vizinhos.

Quando acabou a URSS, a Bielorrússia assim como a Ucrânia e a Rússia voltaram a adotar símbolos nacionais antigos e a preparar reformas neoliberais. Os comunistas se levantaram em todos os três, mas na Bielorrússia surgiu um movimento nacional-populista forte pelo meio.

Em suma, Lukashenko ganhou as eleições de 1994 e reverteu muitas das reformas neoliberais e travou todas que vinham em curso, retomou a bandeira dos tempos soviéticos e manteve o Estado forte na economia, contradizendo Moscou e Kiev.

Lukashenko era o típico dirigente de cooperativa agrícola soviética: um tipo secundário em qualquer parte da URSS, jamais politizado, mas talvez justamente por isso popular: um homem médio soviético, mas muito esperto politicamente a ponto de criar um movimento.

O resultado é que, embora do ponto de vista econômico Minsk discordasse de Moscou, geopoliticamente ela inclusive se reaproximou do Kremlin -- ao contrário da Ucrânia, que seguia o mesmo modelo neoliberal, mas rifava a Rússia em prol de uma aproximação com o Ocidente.

Ao contrário de ex-repúblicas soviéticas que passaram a afirmar um nacionalismo antirrusso, que levou a desconsiderar os direitos das minorias russas em seus territórios, o governo de Lukashenko reconheceu a língua russa e o aspecto binacional do país.

Fontes ocidentais enxergam nisso uma "sujeição a Moscou", o que significa que eles esperam que um governo de Minsk deveria oprimir a minoria russa para ser "democrático".

O resultado do governo Lukashenko, 26 anos depois, é que o país cresceu proporcionalmente MUITO mais do que a Ucrânia e tem um IDH semelhante ao russo, mesmo sendo mais pobre do que a Rússia, embora junto tenha problemas da era soviética.

Para falar a verdade, a Bielorrússia tem, hoje, mais do que o dobro do PIB per capta da Ucrânia, mas para os analistas ocidentais, certamente foram os ucranianos que fizeram "tudo certo" nas reformas e na geopolítica. A desigualdade na Bielorrússia é ínfima.

A Bielorrússia, por sinal, é mais rica do que o Brasil e perde por pouco para Argentina e Uruguai. Tudo isso sem ter se quedado ao Ocidente, se desindustrializado, privatizado ou desnacionalizado suas empresas. A prova de que se pode funcionar de outra forma.

Isso é diferente da Rússia, mesmo sob Putin, onde ao contrário do que se pensa no país, a gestão da economia nunca deixou de ser neoliberal e austera -- ainda que autônoma nacionalmente.

Putin gosta de Lukashenko pela geopolítica alinhada, multilateral e não sujeita ao Ocidente, mas não gosta do fato de saber que, na medida das suas forças, Minsk adota uma linha bastante própria, vide seu modelo econômico.

Esse nacional-estatismo econômico cria problema, p.ex., para as empresas privadas russas adentrarem na Bielorrússia *na forma como elas gostariam* -- e, igualmente, faz de Minsk um agente autônomo para negociar com Pequim a Nova Rota da Seda.

Isso explica por que na última eleição Lukashenko deu declarações se diferenciando de Putin, que, imagino, se irritou. A Bielorrússia quer uma aliança com a Rússia, não ser englobada por Moscou novamente.

Lukashenko é um socialista? Evidentemente, não. Ele manteve coisas boas e ruins do modelo soviético e desenvolveu um mercado, criando um tipo híbrido entre o socialismo de mercado chinês e um capitalismo de Estado.

Igualmente, há restrições das liberdades e uma incapacidade do governo sequer imaginar uma hegemonia guiada para uma uma transformação radical. Lukashenko é o que os eleitores ingênuos de Bolsonaro pensam que "nosso" presidente é, mas que Jair nunca nem seria.

Lukashenko é isso, um líder comunitário, um paizão, fazendo às vezes de um líder nacional, incapaz de destruir os ganhos sociais soviéticos, mas igualmente incapaz de resolver o beco sem saída que, afinal, atravessou e colapsou a URSS.

Os bielorrussos o apoiaram todos esses anos, não por burrice, mas porque nunca caíram na cantilena de que seriam recebidos e desenvolvidos pela Europa, nem que reformas neoliberais iriam melhorar suas vidas, muito pelo contrário

Mas vejam, Lukashenko igualmente jamais criou um partido político organizado, sempre se cercando de uma miríade de políticos "independentes", todos unidos por um senso comum "nacional" e sob sua liderança.

O movimento contestatório atual na Bielorrússia, obviamente, conta com apoio de operativos externos (é a geopolítica!), mas igualmente existe uma certa fúria popular pelo desgaste do governo e, possivelmente, a maneira como Lukashenko está lidando com a pandemia.

Os gritos e as bandeiras lá não têm nada de revolucionário, apenas um nacionalismo fake e sujeito ao Ocidente. Lukashenko vai sofrer sim para se segurar e caso continue, dependerá mais do Kremlin do que gostaria.

A questão é que a Bielorrúsia é central para Pequim na estratégia da Nova Rota da Seda, e por isso o Ocidente quer um líder seu no poder lá, mas Putin tampouco quer um Lukashenko fortalecido para negociar diretamente com Xi.

O resultado disso será a queda de Lukashenko nas próximas semanas ou meses, *menos por falta de apoio e mais por falta de um partido organizado ainda que nacionalista*, ou sua manutenção com largas concessões a Moscou.


P.S.: Vou começar a postar essas coisas aqui, para não se perderem nas brumas do Face ou do Twitter. E trazer arquivos de outras mídias.

sábado, 3 de maio de 2014

Putin e seu Rasputin: Notas sobre Dugin e o Olavismo.

Dugin, simpaticíssimo, na Ossétia em 2008: Guerra Russo-georgiana
A atual crise russo-ucraniana trouxe uma novidade para o meio intelectual: de repente, a figura do pensador russo, e conselheiro de Putin, Aleksandr Dugin (pronuncia-se "Duguin") e seu  neoeurasianismo (isso mesmo: novo + Europa + Ásia) ganharam uma curiosa notoriedade. Dugin, anti-liberal, místico e barbudo parece ter se tornado o norte ideológico do claudicante regime russo, que de um neoliberalismo radical com Yeltsin ganhou mais e mais características nacionalistas e populistas com Putin -- sobretudo após os protestos massivos dos fins de 2011, quando o presidente russo viu seu nome, já em baixa, ser colocado em xeque depois de uma possível fraude eleitoral, com vistas a favorecer seu partido, nas eleições parlamentares.

Quando eu ouvi falar em Dugin, sua retórica pop e suas referências intelectuais -- uma verdadeira mistureba que vai do misticismo aos pensadores da nova direita francesa e os pensadores nazistas (sim, os nazistas!)  --, o nome do nosso Olavo de Carvalho me veio à mente -- não que Olavo seja fascista, mas pelo sua maneira, digamos, exótica de misturar ideias (no caso, astrologia e ultraliberalismo genérico) e retórica para defender uma posição reacionária qualquer. O Pior de tudo é que Dugin, que fez um longo tour pelo Brasil em 2013, com direito a palestras na USP e em outras universidades, debateu com Olavo em 2011 (!!!); por trás do debate e das visitas, uma galera ligada à "nova direita cultural" no Brasil.

Desde a revolução de outubro, e apesar do Stalinismo, do Revisionismo e do Neoliberalismo pós-soviético, costumamos associar a Rússia à esquerda -- ainda mais porque as geopolíticas de esquerda do governo Lula e da América Latina encontraram em Putin um (acidental?) aliado. Por outro lado, a direita brasileira sempre esteve associada aos Estados Unidos. Daí o fato de Olavo não ter curtido Dugin -- e, em sentido inverso, a razão (ou falta dela) que levou a política de Putin para a Ucrânia ter sido aplaudida pela esquerda progressista brasileira (que em seus blogs chegaram a dar eco a Dugin). 

É claro, o que se pode dizer de uma genuína esquerda russa, soterrada no mar de ultrapatriotismo dos últimos tempos, certamente não deve estar feliz com tal "engano". E parte da esquerda brasileira, pelo menos aquela que não foi sequestrada pelos delírios do Brasil Maior, tampouco. O próprio discurso triunfante de Putin em relação à incorporação da Crimeia acusa o golpe da influência duginiana: foi a principal fala política contrária aos levantes globais que se tem noticia, o que coloca tão ou mais à direita que Obama, que colocou no mesmo patamar, malandramente, o Tea Party e o Occupy Wall Street.

Dugin, que já esteve próximo de um certo saudosismo soviético, depois dos Nacional-Bolsheviks -- a versão "nacionalista" dos velhos bolsheviks -- até  conseguir finalmente o posto de conselheiro real -- coisa que não são poucos "intelectuais", mesmo de esquerda, que desejam.  É claro, Dugin tem mais consistência que os Olavos e quetais, mas só o fato dele ter debatido com O.C. em pessoa, já indica todo o rigor do seu pensamento ou de seus apoiadores internacionais. 

E seu neoeurasianismo é só uma teoria que serve bem a Putin e aos seus hoje na disputa entre os velhos blocos de poder nacionais. A teoria em questão, aliás, é sobretudo uma forma de destruir a União Europeia, o que construiria uma inevitável proeminência do Estado russo -- e talvez aí se explique a aliança de Putin com a extrema-direita francesa e, também, porque Washington esteja reticentes em confrontar abertamente Moscou na questão ucraniana, justamente por ver nisso um meio de enfraquecer Bruxelas. 

Enfim, isso é só um relato sobre como um mundo parece fazer cada vez menos sentido -- ou como velho poder, de olho no comando ou em formas de agenciamento com a "economia global", parece cada vez mais tributário de literatura barata (do mesmo modo que Reinaldo Azevedo influencia políticos tucanos). Se há poucos dias, o mestre Bruno Cava trouxe em seu blog um magnífico debate sobre a atualidade de Lenin, me parece que pelo menos um novo Rasputin já temos. Só para lembrar Cava, precisamos de uma *segunda via* para essa coisa que aí está -- e eu digo ao som das Pussy Riot, de preferência, por mais que elas sejam cândidas com Obama. Eis o estado da Arte, e a arte do Estado, deste grande pornô nonsense que é o Global.

Atualização de 04/05/2014 às 02:03: Bruno respondeu com um post de fôlego que dialoga com este e os dois posts anteriores sobre a temática russo-ucraniana.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Fausto de Sokurov: Maniqueísmo e a Grandeza da Nova Rússia

Exuberante e misterioso. Se fosse o caso de definir em duas palavras o Fausto de Alexandr Sokurov, depois de assisti-lo, seriam essas duas: exuberante e misterioso. Planos belíssimos, uma composição digna do melhor da pintura alemã do início do século XVII (ou das paisagens de Turner), uma trama delicada e cheia de armadilhas sutis, filmada no idioma de Goethe. É assim que o cineasta russo conclui sua tetralogia sobre o Poder, que inclui Moloch (sobre Hitler), Taurus (sobre Lenin) e o Sol (sobre Hiroíto). É claro, se a exuberância - da filmagem e das atuações - é autoevidente, o que nos resta, para variar, é o mistério. 

Fausto, para os incautos, é uma fábula germânica do século XV sobre o médico e astrólogo homônimo que vendeu sua alma para o diabo em troca de todo o conhecimento do mundo e do amor de sua adorada Margarida. A história terminou imortalizada na Literatura por nomes como Goethe e Mann (e, de certa forma, também por Mikhail Bulgakov), devindo comum pelo mundo. 

Pois bem, nas muitas versões da história, ela vai de uma fábula moral cristã moralista - e recalcada - até uma crítica do racionalismo e sua postura infantiloide frente ao desejo. O que há de concreto ali é a relação problemática do homem com sua, vamos dizer, vontade de potência, dentro de uma montagem permeada de simbolismos. Então, digamos que em termos gerais Sokurov fez uma escolha feliz ao optar por Fausto como a conclusão de sua tetralogia, independentemente de como a tenha conduzido.


Há quem reclame, no entanto, que o problema da história toda é o fato de Sokurov ter escolhido como fecho da sua tetralogia uma fábula, depois de ter tratado de personagens reais até aqui. Ledo engano. Certamente não é essa a questão. Ter pensado a história como a história dos grandes nomes e homens talvez, ter feito uma crítica do poder pelo viés da moral (a "reprodutibilidade do mal") certamente. É aí que sua apropriação de Fausto, de pronto, já se afigura temerária.
 
Sokurov, por sua vez, reconstrói a fábula de um modo bastante particular. Ele a reposiciona no século 19º e seu diabo é uma figura completamente grotesca, muito longe de possuir qualquer charme. Um diabo que não seduz, muito pelo contrário, repele e enoja a todos, mas que nem por isso deixa de ser invocado por atormentados de toda natureza como intermediador de sua relação problemática com o desejo: é como contrato, e por meio de uma dívida, que ele estabelece esse vínculo e o articula a partir dali. Mas o desejo, notem, resta sublimado pela validação de uma gramática moral.

E Fausto é uma figura inconstante. O perfeito homem racional em seus dilemas e tormentas internas, movido por forças interiores grandes demais para si. Ele não pode podendo, portanto, deseja poder desejar. E é um diabo grotesco quem pode lhe facilitar isso, a um alto custo, naturalmente: conhecer, ter a doce Margarida etc. Mas Sokurov gosta menos de tratar do desejo e prefere colocar a questão no preto e branco - ao contrário das tintas sofisticadas com as quais ele retrata sua película: é de um mal transcendental,  de sua reprodutibilidade e possibilidade de sua neutralização que ele prefere tratar aqui. O que não é diferente dos três outros filmes.


O mistério que permeia Fausto, e está em todas as outras partes da tetralogia, é justamente  uma questão sobre a natureza do mal e sua relação com a ação, e antes disso com a potência, humana. A maneira como ele é demonstrado se escondendo, dentro de um plano estético praticamente perfeito, é fascinante, mas isso cai logo ali adiante, quando olhamos para além da casca. Como o homem pode fazer coisas tão horríveis podendo fazer o bem? Porque ele deseja, e quando concebemos verdadeiramente o desejo - que perpassa a película inteira, sendo seu invisível evidente -, fatalmente somos remetido para além do bem e do mal. 


A questão da dívida, do diabo como agenciador da servidão, é afirmada ao modo medieval. O diabo é um usurário e sempre que a dívida é trata pelo prisma da usura temos menos uma arqueologia e uma crítica sua - e, por tabela, da culpa - e mais um ataque ao seu roubo pelos meros mortais: o homem medieval, cristão e bom, ao acusar os proto-banqueiros de usurários, atacava menos a ideia de dívida, e e a relação de sujeição que ela produz, e mais o fato da capacidade de endividar ter sido roubada pelos meros mortais, tirada do monopólio de deus. Os proto-banqueiros, grande parte deles judeus, eram odiados não pela dívida, mas por serem como um povo-Prometeu, claramente roubando e usando o fogo dos deuses - ou do Deus. Aqui é assim: se livrar do diabo não é superar a mediação para desejar, mas acabar com o mal que faz uma transgressão.


É claro que essa fábula filmográfica toda representa, também, uma alegoria política muito pouco ingênua, por mais que isso pareça esotérico. Quando o produtor Andrey Sigle disse que Fausto é "um grande projeto cultural russo e é muito importante para Putin" e que "ele o vê como um filme que pode introduzir a mentalidade russa dentro da cultura europeia, promovendo a integração entra ambas as culturas", existe algo bem maior do que mera política de boa vizinhança com o atual dono da Rússia que, afinal de contas, financiou o filme e possibilitou sua realização.


Por que Putin diria e faria isso por um filme sobre uma lenda alemã, que embora russo é inteiramente falado na língua de Goethe, cujas referência visuais vêm da pintura oitocentista tedesca? Ainda mais levando em conta que se trata de uma tetralogia sobre o poder, coisa que poderia não ser do seu agrado. Pois bem, é bem verdade que Putin é germanófilo, mas ajuda saber que Sokurov é seu sincero apoiador. E Fausto não é uma obra europeia ou europeizante, ao contrário, ela é como Pedro, o Grande - que não só fundou a Rússia como também é objeto de culto por parte de Putin -, quando vivia escamoteado pela Europa, aprendendo de tudo um pouco sem que ninguém suspeitasse que se tratava de um russo, tampouco um czar.


Se Pedro era o mais russos entre os russos, Fausto é uma obra russa, mais do que qualquer uma outra. Uma obra russa que se faz europeia no modo devir-cavalo de Tróia do seu fundador. Mas como uma fábula sobre o Poder, visto pelo prisma do Mal, poderia servir a Putin? Sendo honesto, é preciso pontuar que não é possível comparar Putin com um Hitler ou um Hiroíto, mas tampouco é possível comparar nenhum dos três citados com Lenin, sopesados seus defeitos, e a incandescente ausência de Mussolini, por exemplo. Mas se a crítica é sobre o Poder, venhamos e convenhamos, que não seria o caso de ter Putin junto nem que fosse estrategicamente.


Ainda assim, tudo faz um enorme sentido. O projeto cultural para a Rússia que Putin, a duras penas, tenta pôr em prática, e que Sokurov remetendo vagamente a Tarkovsky - embora longe de sua virtù - ajuda a construir pelo cinema, não é incoerente ao criticar ao mesmo tempo Hitler, Hiroíto e Lenin, porque ele não é, em verdade, nem nazista, "asiático", (digamos, num sentido marxista) ou revolucionário. Mas se o faz os criticando justamente grandes figuras é porque esse projeto se ancora numa perspectiva histórica de grandes nomes e homens que fazem às vezes das multidões, na fé na estabilidade trazida pelo conservadorismo político e na moral.


Se Tarkovsky era inimigo do regime soviético, e reterritorializava sua arte na desterritorialização renascentista - tão livre frente às formas rígidas da Rússia -, Sokurov é aliado dos czares (esclarecidos) do seu tempo, trata-se de um homem oitocentista ou, com algum esforço, dezenovista. Fausto é uma obra enormíssima e magnânima, um arroubo estético que ilustra a grandiosidade de um projeto cultural muito maior, cujos impactos reais sobre a civilização russa ainda não sabemos dizer, mas certamente conseguimos supôr pela maneira como ele (não sabe como) agencia(r) o desejo.





domingo, 25 de dezembro de 2011

Vinte Anos sem a URSS

Yeltsin e Gorbatchiov -- Artífices do fim da URSS
Hoje é Natal, mas não apenas: o fim da União Soviética também completa exatos vinte anos. A situação russa, neste exato momento, não é nada boa, como não era no começo dos anos 90. As manifestações massivas nas ruas de Moscou, ontem, são uma continuação da revolta contra as últimas eleições parlamentares, provavelmente fraudadas, realizadas no início do mês. Não só: elas aludem ao agravamento da crise pela qual passa o país.

O atual grupo dirigente da Rússia, liderado por Vladimir Putin, ascendeu dentro do caos dos anos 90, quando Boris Yeltsin implementou uma série de reformas econômicas liberais fracassadas, reagindo, depois, com mão forte contra os manifestantes e instaurando uma crônica instabilidade. A farsa de Yeltsin, feito herói no início dos anos 90 pela mídia mundial e por burocratas ávidos em tomar para si para o patrimônio estatal, caiu por terra em poucos anos.

Putin e os seus uniram as ilhas de poder do país, surgidas desde o fim do Partido como demiurgo geral do nação - os serviços secretos, as forças armadas, os oligarcas  (os antigos dirigentes comunistas que enriqueceram com a privataria local) e a burocracia do Estado. Dentro do mais puro dirigismo, inseriram o país na economia mundial sobretudo como exportador de hidrocarbonetos - e mesmo como um agente global duro, não deixaram, no fim das contas, de fazer o jogo do Ocidente, a União Europeia que o diga...

Depois de um breve período de euforia capitalista sob a liderança  de Putin, os russos assistiram ao esgotamento do seu modelo coincidir com o vendaval da crise econômica, que expôs definitivamente os pés de barro da new economy à qual a Rússia aderiu não mais como potência, mas sim como país periférico. A dependência externa, de um mercado mundial em crise, e a improdutividade causada por um sistema político autoritário fazem com que o arranjo de poder russo, como temos insistido por aqui há tempos está ferido de morte.

Nesse cenário, a figura de Mikhail Gorbatchiov reaparece. Se há vinte anos, ele, enquanto último líder soviético, conduziu o fim do país de forma controlada, hoje, ele emerge não mais para descer a bandeira vermelha do Kremlin, mas para pedir que Putin renuncie às ambições presidenciais em 2012. A voz do último líder soviético, no entanto, tem pouco ou nenhum peso em seu país, uma vez que ele é apontado como culpado da decadência russa, na medida em que suas reformas, além de não surtirem efeito algum, serviram como janela para os apparatchiks aumentaram mais ainda o seu poder, se apoderando das estatais que geriam. 

Se Gorbatchiov não é um problema relevante, por outro lado, não custa lembrar que já não é de hoje que Putin está em maus lençóis: suas negociações para tentar um terceiro mandato fracassaram e ele teve de optar pela saída de lançar seu braço direito, Dmitri Medvedev, como candidato presidencial em 2008 - com Putin, no entanto, chefiando o país, inconstitucionalmente, como premiê nos últimos anos. 

Isso ilustra o caráter farsesco das instituições russas: de repente, o semi-presidencialismo russo tornou-se um parlamentarismo porque era Putin o premiê. De repente, Putin não emplacou as reformas políticas que queria, mesmo tendo vantagem no parlamento naquele instante, porque para as instâncias reais de poder, era melhor se apresentar com uma aparência de "normalidade" para o Ocidente. 

A multidão que hoje lota as ruas de Moscou, por sua vez, é difusa e está alheia a isso. Ela é composta de neo-comunistas propondo um modelo chinês até nacionalistas falando abertamente em corporativismo, passando por anarquistas. Eles querem novas eleições parlamentares, uma vez que as fraudes no último pleito são evidentes e o Rússia Unida, partido de Putin, certamente não teve a metade dos votos que reivindica - ficando com maioria fraca (relativa) no parlamento ou atrás dos comunistas, cujos dirigentes, ao contrário de sua militância, estão por demais satisfeitos com o resultado manipulado de um pleito no qual eles foram os prováveis ganhadores, o que ilustra apenas a sordidez das relações entre os grupos políticos russos e o Kremlin putinista.

As novas eleições marcariam o fim da era Putin e, de certo modo, o fim da era Yeltsin também, uma vez que Putin é uma descontinuidade dentro da mesma linha. Putin, no entanto, é ainda o maior fiador desse esquema. Sem ele, qualquer substituto que tentasse manter o status quo estaria fadado ao fracasso. Isso lhe garante um bolsão de oxigênio, embora as chances dele sofrer um golpe estejam crescendo nas bolsas de apostas, pois seu personalismo pode fazer com que com sua queda, gatopardianamente, acalme os ânimos nas ruas - e dar tempo da elite russa negociar um novo arranjo para o esquema, o que, advirto, tem poucas chances de ser eficaz.

A finada União Soviética, aliás, ficou para trás mesmo de seus pares ocidentais pelo uso que deu à tecnologia espacial, incapaz que era, pelo seu sistema político, em avançar na  produção intensiva de tecnologias de informação e comunicação, justamente o ponto de virada dos anos 70, com a economia do conhecimento - que, no entanto, não parece tão conciliável com o Capital quanto proclamavam os profetas yuppies da new economy. 


O que determinou o fim da União Soviética não foi uma crise "natural", "objetiva" - que teria exposto a impossibilidade de qualquer opção ao capitalismo -, mas sim o fruto de contingências e de decisões políticas sobre o que e como produzir tal e qual os limites daquele sistema político e a opção de não reforma-lo - algo evidenciado, inclusive, pelo caráter de continuidade na forma de exercício do poder e de seus atores dos anos 80 para cá.

A ausência do Estado soviético no cenário global  tem um significado incerto; é claro que o fim de uma URSS, nos moldes imperiais dados por Stalin, facilitou o processo de constituição do  processo de globalização, cujo grande entrave tem sido, fundamentalmente, a tensão hegemonista norte-americana, sem hora nem lugar, uma vez que o capitalismo transcendeu, irremediavelmente, os limites de qualquer fronteira nacional. 

Em virtude disso, para ter sobrevido aos anos 90, o Estado soviético precisaria de uma reforma profunda. Tivesse acontecido isso e a pressão pela constituição de um multilateralismo entre Estados estaria em um estágio certamente mais avançado, pela impossibilidade do unilateralismo americano.

O fato é que as contingências da História puseram fim a um sistema de organização tirânico, ironicamente nascido do desvio de um processo revolucionário magnífico,  só que da pior forma possível, aprofundando-o em outros termos, o que, agora, está em crise novamente. A desestabilização russa é um dos grandes assuntos de 2012 e, sem dúvida alguma, precisa ser visto em paralelo com a crise da Europa, pois uma pode mudar decisivamente os rumos da outra. 



sábado, 10 de dezembro de 2011

Montanha Russa

Manifestantes nas Ruas
Enquanto a agonia do Euro prossegue no Oeste, Moscou viveu um dia agitado hoje: milhares de manifestantes marcharam nas ruas da capital russa contra as possíveis (e plausíveis) fraudes nas últimas eleições parlamentares. Também estavam presentes outros tantos manifestantes pró-Putin, além de um contingente imenso de policiais e forças de segurança, isolando o Kremlin. Não que fraudes não sejam uma comuns naquele país: em 1996, até as pedrinhas da rua sabem que Boris Yeltsin, que em 1993 rasgou a Constituição e jogou tanques contra o Parlamento legalista, venceu o comunista Gennady Ziuganov em uma enorme fraude e que a tônica dos anos seguintes, sob Vladimir Putin, era do esmagamento contínuo das vozes dissonantes, com direito a supressão de partidos e com trapaças  mais ou menos descaradas nas urnas. No entanto, as medidas putinistas de combate aos efeitos da crise, sem dúvida, trouxeram à tona uma revolta considerável.

Cerco ao Kremlin
O resumo da ópera das eleições do último dia 04 é simples: o Partido Rússia Unida - uma espécie de PMDB russo comandado pela figura pessoal e personalista de Putin - perdeu a maioria constitucional e ficou, em tese, com apenas metade das cadeiras na duma estatal - a câmara dos deputados local -, mas ao que tudo indica, esse resultado se deve a fraudes grosseiras que escondem uma queda de votos ainda maior, talvez até uma derrota daquele partido para os comunistas. A metade das cadeiras serviria para garantir a governabilidade do país nos termos putinistas, coisa que uma "maioria relativa" não daria conta. Putin e Medvedev, seu fantoche presidencial, certamente não esperavam por essa derrota, daí os gestos desesperados e acintosos. Agora, só resta mobilizar sua militância e partir para o enfrentamento nas ruas, enquanto que, por outro lado, se manobra com as forças de segurança e de espionagem, em um movimento que deve endurecer o autoritarismo local. 

Mais caminhões militares
As manifestações por parte do possível vencedor das eleições russas, o Partido Comunista da Federação Russa (PCFR), são, até o presente momento, tímidas. É provável que tenha acontecido novos acordos de bastidores com o Kremlin, como é comum de Ziuganov. Aliás, em um primeiro momento, convém esclarecer que o atual Partido Comunista russo não é herdeiro real do velho Partido Soviético, uma vez que grande parte dos burocratas da URSS se converteram em oligarcas - bilionários em dólar que enriqueceram por terem surrupiado as velhas estatais soviéticas e as terem inserido, como propriedade suas, no mercado global - ou em apparatchiks do Rússia Unida -, portanto, resta ao PCFR a posição de pastiche, mera alegoria de saudosistas dos tempos soviéticos, todos unidos por um discurso nacional-popular, que apela para o estatalismo, o tradicionalismo e, até, para o cristianismo ortodoxo (!).

Ziuganov, eterno líder do PCFR, comporta-se como um príncipe herdeiro de monarquia derrubada: sonha com a volta dos velhos tempos, o que irremediavelmente lhe devolveria o poder que é seu "por direito". No entanto, é óbvio que se a velha União Soviética não tivesse sido implodida, não seria ele o secretário-geral ou um burocrata de segundo escalão ao menos. Ele é só um líder demagogo que reconstruiu em torno de si o saudosismo soviético depois que Yeltsin permitiu a volta de uma legenda "comunista" na Rússia - uma vez terminado o perigo do verdadeiro partido ressurgiu. A oposição que Ziuganov fez para Yeltsin e, depois, para Putin é tão ambígua que nem parece ser concreta. Como agora. 

Declaram os comunistas russos, em todo o seu ecletismo e ostentando velhos quadros de Stalin, que desejam um "modelo chinês" para seu país, mas nos parece claro que se não há muitos chineses na Rússia, também não há muitos stalinistas na China. O eleitorado russo, frustrado com os rumos do salvacionismo putinista e suas medidas de repasse dos custos da crise para os pobres, está desorientado, mas também não está animado com o PCFR. Outros partidos que também cresceram nas últimas eleições, como o Rússia Justa (social-democrata e filiado à Internacional Socialista) também parece ter vínculos demais com Kremlin e projetos de menos. Já o Partido Liberal-Democrata, do tragicômico Vladimir Zhirinovsky, é voto de protesto. A tendência eleitoral aqui é a mesma de outros lugares pelo mundo, punição das forças governistas por erros que cabem a todo o sistema partidário, diminuição do comparecimento nas urnas e desilusão com a democracia representativa - sem, no entanto, a organização de novos modos de intervenção política.

"onde está o pecado, eles riem" -- um tanto ortodoxo, não?
Por ora, de todos os Brics, a Rússia foi a mais afetada pela crise global e isso não parece ser aleatório. O Rússia Unida é, aí sim, o velho PCUS, Igreja velha de crença renovada, ortodoxamente voltado à adoração de um capitalismo que, hoje mais do que nunca, vive de pura fé. A incapacidade dele resolver os três problemas centrais da Rússia desde a agonia do tzarismo, é patente: restam aí a questão nacional - o genocídio cultural das minorias não-russas, sobretudo as não-eslavas, o que se agravou depois do fim da URSS, embora nela a questão ainda estivesse em aberto -, a questão da desigualdade - que passa da aristocracia imperial para os oligarcas contemporâneos, passando pelos velhos burocratas 'comunistas' - e questão da liberdade - sempre fagocitada pelas reterritorializações que representam o engessamento da máquina despótica ortodoxa. Nisso, putinistas fracassam tão fragorosamente quanto os ultra-liberais dos anos 90 ou os bolsheviks. Se livrar da linha rígida, seja da política ortodoxa ou da religião stalinista, por meio de linhas de fuga mundialistas, como o trostskysmo - apesar de sua crítica moralista - tentou a seu tempo, nunca deixou de ser a melhor saída para os russos.

Uma possível implosão da Rússia, junto com o destino nada animador do Euro - à deriva no mar de hesitações, recuos e boçalidades infinitas do eixo franco-germânico - podem marcar um agravamento seríssimo do cenário europeu; as décadas de paz da Europa Ocidental podem estar chegando ao fim com a implosão do europeísmo, ao mesmo tempo em que na Rússia, Putin e os seus estão entrando em uma espiral de deslegitimação que podem fazê-los perder o controle das coisas mais rápido do que se supõe no Ocidente - para forças ainda desconhecidas, mas que podem perfeitamente passar por fora, e a despeito, do decrépito sistema partidário russo. Isso, aliás, acende uma luz amarela para China e Brasil, sobre a qual voltaremos a falar tão logo. Enfim, próximos dos vinte anos do fim da União Soviética, ainda estamos às voltas com os ecos do fracasso enormíssimo da Perestroika.

*Fotos do meu amigo Lucas Barducco, que foi testemunha ocular, auditiva e olfativa das manifestações russas de hoje.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Rússia, Setembro de 93


(Setembro de 93-- a morte prematura da democracia russa)

Há dezessete anos atrás, estava em curso na Rússia o episódio que ficou conhecido pelo eufemismo de "Crise Constitucional" - na verdade, um Golpe de Estado clássico e manjado, promovido por Boris Yeltsin quando ele se viu diante de uma reação institucional à sua terapia de choque; o  termo "crise constitucional", além de pomposo, é um falseamento do que aconteceu: simplesmente o Presidente decidiu passar por cima da Constituição e do Parlamento para exercer o seu mando, a despeito dos custos humanos que isso representasse. Se havia crise ali, ela era de natureza econômica e social -  e com o golpe, se tornou política também. Como quem tem padrinho não morre pagão, o aliado do ocidente Yeltsin, tornou-se apenas um chefe de Estado envolvido em uma reles "crise constitucional" - fosse um secretário-geral da União Soviética fazendo o mesmo e seria transformado em pária internacional, acusado de genocídio. 


Não, aqui não se encontra nenhuma apologia ao sistema soviético, muito pelo contrário, o ponto é outro porque o buraco é mais embaixo: Estou fazendo uma condenação incondicional do autoritarismo, seja lá sob qual bandeira sobre qual ele se encontre - ou em que aliança -, o que é sim, sobretudo, uma crítica de como as ideologias - e as cortinas de fumaça pelas quais elas operam - levam as pessoas a relativizarem aquilo que está de acordo com os fins do plano maior que elas defendem. Isso não é um fenômeno exclusivamente russo, mas aquelas terras sofreram como poucas por conta disso; a origem, claro, está na tradição filosófica hegemônica do Ocidente: Existe uma razão transcendental em relação a qual só alguns iluminados têm acesso e isso, em maior ou menor gradação - de uma forma mais ou menos tosca -, lhes autoriza a designar a Ordem.


Existe uma tese, cujo argumento central é que houve um ponto de inflexão histórico na Rússia com a queda da URSS, o que teria alterado substancialmente as relações entre Estado e a multidão, o que eu discordo. A mudança ocorrida na Rússia pós-soviética foi nos acessórios de dominação na medida em que os meios do Poder Político designar a ordem do sistema econômico mudou, mas isso não alterou em essência aquela forma de pensar e executar projetos: Os iluminados simplesmente chegaram à conclusão que a economia planificada é uma má ideia e que o  mercadismo conduziria a Rússia ao paraíso, daí, aplicaram o projeto a qualquer custo. Nada de novo sob o Sol. É uma lógica muito parecida com aquela que Stalin e seus burocratas executavam as metas dos planos quinquenais. Se adotarmos a representação como paradigma, ficaremos presos em um debate falso sobre qual foi o verdadeiro mal necessário na história russa, quando, na verdade, as políticas econômicas soviéticas e a terapia de choque de Yeltsin/Gaidar nutrem um viés identitário quanto ao que realmente importa: Os procedimentos de elaboração e aplicação do projeto. Sim, são as duas faces da mesma moeda.


Antes que se diga qualquer coisa, a rebelião que opôs o então Soviete Supremo à Presidência da Federação Russa foi liderada por duas figuras insuspeitas de stalinismo: O líder do Parlamento, o economista Ruslan Khasbulatov - um cara que já criticava duramente o modelo econômico soviético enquanto Yegor Gaidar ainda era um intelectual do Partido, não só reproduzindo a linha oficial como censurando seja lá quem fosse quando comandava um naco importante da imprensa soviética - e o vice-presidente Iury Rutskoy, um militar popular e herói da Guerra do Afeganistão que depois se aventurou na carreira política. Ambos foram contra o Golpe da Linha-Dura e ambos faziam parte do staff - ou melhor, do balaio de gato - que girava em torno de Yeltsin até ele decidir um lado para onde imbicar - e não foi o da democracia, certamente.


A Terapia de Choque russa, como o Rutskoy bem definiu, tratava-se de genocídio econômico: O Governo russo resolveu praticar um "ajuste econômico ortodoxo", o qual consistia em uma singela mercadificação total - e acelarada - da vida posto em prática por meio de privatizações fraudulentas - o que produziu, entre os ex-burocratas do partido, uma boa quantidade de bilionários -, acabando com a rede de proteção social abruptamente, o que desembocou em uma súbita diminuição da expectativa de vida - e das condições de vida de um modo geral. O PIB contraiu e se concentrou.  O parque industrial russo, construído em grande parte no período soviético com os recursos que o Partido - enquanto grande corporação nacional - extraía da mais-valia dos trabalhadores, passou, sem mais nem menos, para mãos privadas que evidentemente não reembolsaram os cofres públicos - o que recentemente, com a Crise Mundial, resultou em mais bizarrice, com os recursos públicos sendo usados para cobrir os rombos dos oligarcas, o que resultou em uma dupla perda para a sociedade russa, como acentua o analista russo Boris Kagarlitsky (por coincidência um dos ativistas presos há dezessete anos atrás).

A dita crise, em si, é fruto de todo um tensionamento entre Yeltsin e o Parlamento, primeiro para tentar aprovar seu braço direito, Yegor Gaidar como primeiro-ministro ainda em dezembro de 92 e, depois, no verdadeiro cabo de guerra ao longo de todo ano de 1993, quando o Parlamento se negava a aprovar as emendas constitucionais exigidas pela administração - e depois de convocar uma nova constituinte - enquanto Yeltsin, por meio de atos unilaterais, declarava um Estado de Exceção - denominado como "regime especial". A confusão persiste contando com tentativa falha de impeachment de Yeltsin no Parlamento no começo do ano e segue até quando o Parlamento o cassa e ambos, Executivo e Legislativo, marcam eleições para meses diferentes de 94 - a situação evoluiu para o clímax, quando Yeltsin, em nova medida, "dissolveu" o Parlamento e  "convocou" novas eleições já no final de 93, fazendo o legislativo federal respondendo com a declaração de nulidade da decisão e a ordem de demissão de ministros chave.

A partir daí, protestos eclodem em toda Rússia, a tensão aumenta nas repúblicas separatistas, o Parlamento passa a ser protegido pelos seus simpatizantes enquanto, de lado a lado, articulações são feitas nos bastidores para cooptar as Forças Armadas, até ali divididas. Rutskoy e Khasbulatov perdem a briga e a Casa Branca (sim, o Soviete Supremo ficava num edíficio chamado Casa Branca...) é cercada por uma divisão de tanques que a bombardeia até os líderes do Parlamento capitularem e se renderem derrotados. Um número até hoje não calculado de manifestantes, em geral anti-Yeltsin, morreram nas ruas moscovitas, vítimas da polícia e do exército. A partir dali, o Presidente Russo, torna-se senhor absoluto do país, dissolvendo o parlamento e promovendo as reformas que desejava, via referendo - cuja apuração foi menos duvidosa apenas que as presidenciais de 96, vencida pelo mesmo Yeltsin.

O líder russo, naquele momento, removeu as amarras institucionais que lhe seguravam e, com a simpatia dos oligarcas e o comando das Forças Armadas levou a cabo seu programa, tudo isso sob os auspícios do bom-mocismo liberal - que aqui, pelas circunstâncias, toma a feição de "remédio amargo" - e do apoio do ocidente, apesar dos pesares. O PIB russo contraiu até os fins da década de 90, enfrentando ainda a grave crise de 98, enquanto, simultaneamente, centenas de milhares de pessoas morriam na Guerra da Chechenia. O movimento que gera Putin no fim dos anos 90 é simplesmente o de um grupo pró-modernização conservadora ligado a Universidade de São Petersburgo, plenamente alinhada com todo o processo narrado; era necessário assumir uma agenda mais autônoma nas relações exteriores e pensar no "desenvolvimento nacional" - propriedade grilada, propriedade a se desenvolver -, com um pouco mais de arrocho ali ou acolá contra os direitos civis. A, digamos, propaganda negativa reservada ao atual primeiro-ministro russo atual  é apenas uma cortesia de Washington pela sua política externa, no duro, ele é o sucessor de Yeltsin sem qualquer contradição nisso. A Rússia de hoje é o cruzamento de um pseudo-liberalismo ao pior estilo Veja com uma represssão semelhante - pior, para ser mais justo - ao Brasil dos anos 70; de certa forma, lembra o Chile de Pinochet e não há como entender isso sem pensar nos eventos que aconteceram em 1993.  

P.S.: Pravda na Pravdu, do grupo de rock DDT é uma obra que ilustra bem o momento. O título da música em russo, traz um trocadilho genial com a palavra "pravda" - que significa "verdade" (em sentido factual) e também é o nome do jornal oficial do Estado russo/soviético desde tempos imemoráveis (na verdade, o jornal foi fundado com o nome de Zvezda, por Trotsky). O trocadilho funciona melhor em russo porque não existem artigos: Em português, seu título seria O Verdade sobre a Verdade. O vídeo abaixo é muito bom.


segunda-feira, 29 de março de 2010

Atentados suicidas no Metrô de Moscou [Atualizado]

(Foto retirada do NYT) 

Aconteceu hoje um atentado terrorista gravissímo no metrô de Moscou. Dúzias de pessoas morreram e segundo os informes do momento, trataram-se de ataques suicidas com alvos bem direcionados: Estações próximas às sedes de núcleos do poder russo como a FSB (sucessora da KGB) e o Ministério do Interior - em suma, a poucos quilômetros de distância do Kremlin. As evidências e o modus operandi apotam para terroristas do Cáucaso. Trata-se de mais um capítulo sangrento da relação entre o poder central russo e as províncias não-eslavas do Cáucaso, o que acumula centenas de milhares de mortos desde o fim da União Soviética - e ocorre simultaneamente a grave crise que vive o país, o mais atingido pela crise mundial dentre os membros do BRIC e que, ainda por cima, vive uma crise de hegemonia profunda, na qual assiste a crescentes manifestações da oposição, fenômenos em relação aos quais, os atentados não estão totalmente alheios. Estamos a espera de mais informações e da reação de Moscou a isso.

Atualização de 30/03/2010: Por ora, a desinformação reina numa Rússia onde o Estado, mais e mais, volta a controlar os meios de comunicação; as evidências continuam a apontar para os guerrilheiros tchechenos, mas há quem teça teorias de que isso poderia ter o dedo do governo central. Seja como for, o que aconteceu, no mínimo, será um pretexto cômodo para a escalada de autoritarismo que Putin tem promovido na Rússia; se durante seus anos na Presidência, seu governo foi caracterizado por seguir uma vertente nacional-desenvolvimentista um tanto extemporânea - mas não extremista -, os anos que se seguem ao movimento bizarro onde ele trocou de lugar com o seu primeiro-ministro - que, constitucionalmente, teria menos poderes do que ele, mas que na prática não é isso que se vê agora - apontam para uma degeneração aguda das liberdades individuais e políticas, o que tem sido alvo de protestos de grupos que vão dos anarquistas aos ultranacionalistas, passando pelos comunistas e liberais.