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| Viveiros de Castro - Lucas Zappa |
DELEUZE E A ANTROPOLOGIA
Para a minha geração, o nome de Gilles Deleuze evoca de pronto a mudança de orientação no pensamento que marcou os anos em torno de 1968, durante os quais alguns elementos-chave de nossa presente apercepção cultural foram inventados1. O significado, as conseqüências e a própria realidade dessa mudança são objeto de uma controvérsia que ainda grassa. Para os servidores espirituais da ordem, aquelas muitas "petites mains" que trabalham pela Maioria2, a mudança representou sobretudo algo de que foi e continua a ser preciso proteger as gerações futuras – os protetores de hoje tendo sido os protegidos de ontem e vice-versa e assim por diante –, difundindo a convicção de que o evento-68 se consumiu sem se consumar, ou seja, que na verdade nada aconteceu. A verdadeira revolução se fez contra o evento e foi ganha pela razão (para usarmos o eufemismo de praxe), força que firmou o Império como a máquina planetária em cujas entranhas realiza-se a união mística do Capital com a Terra – a "globalização" – e a sua transfiguração gloriosa em Noosfera – a "economia da informação", ou "capitalismo cognitivo". (Se o capital não está sempre com a razão, dir-se-ia que a razão está sempre com o capital.) Para muitos outros, ao contrário, os inservíveis que não conseguiram não escolher uma trajetória minoritária, insistindo romanticamente (para usarmos o insulto de praxe) que um outro mundo é possível, a propagação da peste neoliberal e a consolidação tecnopolítica das sociedades de controle só poderão ser enfrentadas se continuarmos capazes de conectar com os fluxos de desejo que subiram à superfície por um brilhante e fugaz momento; já lá vão quase quarenta anos. Para esses outros, o evento puro que foi 68 ainda não terminou, e ao mesmo tempo talvez nem sequer tenha começado, inscrito como parece estar em uma espécie de futuro do subjuntivo histórico.3(Filiação Intensiva e Aliança Demoníaca -- artigo de Eduardo Viveiros de Castro na Edição n. 77 da Revista Novos Estudos da Cebrap)
Eduardo Viveiros de Castro é, certamente, um dos maiores intelectuais brasileiros em atividade. Antropólogo reverenciado no mundo inteiro, dileto discípulo de Lévi-Strauss, seus estudos sobre as etnias amazônicas são de lapidar importância para a compreensão desse enorme enigma no qual consiste o humano - sobretudo no que concerne ao chamado perspectivismo ameríndio, conceito me relação ao qual ele foi um dos criadores, a partir de suas experiências junto às etnias ameríndias do Brasil, nas quais ele buscou investigar seu particular modo de enxergar a vida, o mundo e a si mesmos e recorreu ao conceito filosófico de perspectivismo - e ao aparato conceitual de Deleuze-Guattari - para traduzir, antropologicamente, os comos e os porquês daquelas culturas aos nossos olhos. A Antropologia é uma ciência fascinante, ela retira muitas das certezas que nós temos do mundo, verdades que nos são dadas e que somos incapazes sequer de questionar, na medida em que elas são postas de modo a parecer que sempre foram assim e, portanto, sempre serão - e se não foi, devia ter sido e deverá ser. Ela rompe essas nossas certezas e seguranças mais profundas, cumprindo a função fundamental de desfazer o véu do dito discurso ideológico - que articula as coisas para demonstrar os únicos caminhos possíveis - e nos faz refletir sobre as possibilidades da Ética - cuja função é chegar aos caminhos
