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quarta-feira, 19 de março de 2014

Crimeia e Rússia: Liberdade ou Anexação?

Conferência de Yalta: Churchill, Roosevelt e Stalin, os líderes aliados
A Crimeia é um dos centros de equilíbrio das rússias. Agora, com o referendo que a retirou do controle da Ucrânia e a tornou parte da Federação Russa, ela é destaque dos noticiários globais. Ou melhor, reapareceu no centro do jogo geopolítico mundial. Não nos esqueçamos que foi lá onde ocorreu a famosa derrota russa para as forças ocidentais, com o apoio turco, na guerra que definiu a sorte do Império tsarista em meados do século 19º: a derrota em Sebastopol, e a consequente redução do país a uma potência secundária no plano internacional, foi a pedra de toque para os eventos que culminaram na efervescência política e social que desaguou na Revolução Russa -- a submissão aos ditâmes do capitalismo industrial franco-britânico, o fim da servidão feudal para a proletarização dos ex-servos e o resto da história, bem, todos conhecemos. Ainda, na Segunda Guerra, na cidade de Yalta, localizada na península, foi realizada a famosa conferência  que contou com as maiores lideranças dos aliados: Churchill, Roosevelt e Stalin, na discussão sobre os espólios da guerra.

Conquistada pelos russos nos fins do século 18º, a península com litoral tanto para o pequeno Mar de Azov quanto para o Mar Negro, é área estratégica para a marinha russa, seja no que envolve o acesso a águas quentes ou no que diz respeito à eventual atuação no Mar Mediterrâneo. Em 1954, quando o líder sovietico Nikita Khrushchiov passou, por decreto, seu controle para a então R.S.S. da Ucrânia, não houve maiores problemas para Moscou -- até o desmembramento da União Soviética, quando o Kremlin manteve a base naval e o controle de facto de uma região que, formalmente, era ucraniana. 

A Crimeia é habitada desde tempos remotos, tendo passado pelo controle de cimérios, citas, gregos, venezianos, mongóis, turcos, tártaros, russos e tantos outros povos. O que poderia ser chamado de povo autóctone de sua pequena população de dois milhões de habitantes são tártaros da Crimeia, os quais são minoritários -- quase 60% dos locais são russos étnicos, em geral resultado de migrações planejadas no período soviético. Aliás, os tártaros locais foram acusados de colaboração com os nazistas na guerra, o que lhes valeu uma deportação interna -- a exemplo do que se passou com os chechenos por outras razões --, em um processo que só foi interrompido nos anos 1960 e, por fim, revertido com a Perestroika -- o chamado Surgun. 

Sob a liderança de Mustafá Dzemilev, os tártaros da Crimeia apoiaram fortemente Viktor Yanukovich nas últimas eleições presidenciais (2010). Entre os russos étnicos, nem se fala. Em uma eleição profundamente acirrada, na qual as graves divisões regionais já se faziam sentir, a Crimeia só forneceu menos votos para o ex-presidente, pró-Rússia, do que regiões como Donetsk e Lugansk: no total quase 80% dos votos da Crimeia no segundo turno, enquanto nas duas outras regiões esse número chegou à casa dos 90%. E, agora, com a derrubada do governo pró-russo em Kiev, e a realização de um referendo fortemente apoiado pela máquina de propaganda do Kremlin, não é espantoso que mais de 95% dos votos tenham sido favoráveis à "passagem" da região para a Federação Russa enquanto "República Autônoma".

2010: Quanto mais para Leste-Oeste, mais  partidário de um lado ficava o eleitor
Se nas eleições de 2010, a divisão do país expressa no mapa eleitoral já era escandalosa -- com Tymoshenko e Yanukovich tendo os votos quase absolutos de, respectivamente, Oeste e Leste --, por outro lado, ainda havia um grau mínimo de legitimidade para o governo eleito -- fosse qual fosse, certamente não haveria um consenso sólido, o que não equivalia, contudo, ao desmembramento do país. O fracasso objetivo do governo Yanukovich levou, no entanto, à erosão dessa frágil unidade nacional. E esse fracasso veio não só com os resultados sociais e econômicos insatisfatórios (a economia do país registra o terceiro ano de estagnação depois do baque de 2009), as óbvias e vergonhosas concessões feitas a Moscou, mas, sobretudo, com o resultado da repressão às manifestações favoráveis à aproximação do país com a União Europeia -- o que certamente foi mais relevante, em termos da derrubada de Yanukovich, do que a querela pró ou contra adesão à Europa.

De todo modo, se mesmo no século 19º, a velha geopolítica explicava muito mal o processo em curso, no século 21º menos ainda. Os imperialismos variados só podem ser considerados como arcaísmos, como máquinas de escrever, que se ainda existem, devem sua existência a condições específicas que demandam certa consistência. No caso, existe os interesses do bloco de poder burocrático do departamento de Estado americano de um lado, os euroburocratas no meio e o putinismo em curso. Não que o Império Global, com a profunda interconexão de fluxos de capital possa tolerar uma guerra efetiva. Quem está separado, ainda, são as pessoas comuns na Rússia, Ucrânia, Europa ou nos Estados Unidos, não suas respectivas elites políticas e, tampouco, suas elites econômicas.

Apesar da Crimeia, nesse contexto, parecer a vitória do Kremlin, ao contrário, ela retrata o fracasso do projeto de liderança regional elaborado por Putin, onde os membros da antiga União Soviética funcionariam, ainda, como satélites. A própria Ucrânia, mesmo antes da Revolução Laranja (2004), jamais ratificou o tratado da Comunidade dos Estados Independentes (CEI), a forma pela qual Moscou pretendia manter essa influência. Os países bálticos jamais fizeram parte do arranjo. Yeltsin ou Putin não conseguiram elaborar um sistema de poder que, de um lado, fornecesse algum bem-estar ilusório ou, mesmo, no pior sentido, criasse redes funcionais de oligarquias regionais. O Kremlin foi incompetente no bom e no mal sentido de se criar uma zona de influência.

Nesse sentido, do mesmo modo que na guerra vencida pela Rússia contra Geórgia em 2008, a vitória militar pontual não resultou na volta do ex-satélite ao controle do Kremlin, mas na criação de "repúblicas autônomas" controladas pela Federação Russa -- no caso da Geórgia, a Abkhazia e a Ossétia do Sul, no da Ucrânia, por ora, a Crimeia -- que se tornam enclaves militares. Não que o "ocidente", ou seja, a parte do arranjo imperial talvez majoritária, consiga prover, do outro lado, o bem-estar dessas populações -- vide que os líderes da Revolução Laranja, certamente um movimento "menos espontâneo" do que este, foram deixados a ver navios por Washington e Bruxelas em momentos dificílimos, sobretudo quando da eclosão da presente crise mundial -- a Ucrânia não se recuperou até hoje da queda de quase 15% do PIB em 2009, fato talvez decisivo para a ala pró-Moscou ter voltado ao poder, muito embora ela também não tenha dado um jeito na confusão.

O fato ocorrido na Crimeia, no entanto, não pode ser interpretado como "anexação" -- termo  popularizado pela máquina de propaganda nazista para, assim, justificar sua política expansionista na Europa dos anos 30 --, do mesmo modo que o levante pró-UE na Ucrânia não  foi uma conspiração gigantesca, mas antes de tudo, uma expressão de inconformismo contra uma situação econômica e social realmente ruim, além da vontade de autonomia dos ucranianos -- e ainda que haja manipulações para cá ou para lá, é fato que, antes de tudo, é preciso ter matéria-prima para tanto, isto é, muita gente insatisfeita, o que era precisamente o caso.

A solução para o caos da região pós-soviética está longe de ser alcançado. Mas ainda que uma dose de afirmação de diferenças culturais seja bom, pelo menos como antídoto, é preciso a conexão das forças democráticas de canto a canto nas rússias. Uma tarefa difícil que exige, afinal de contas, o desmonte da estrutura burocrática criada pelo stalinismo que tanto Putin quanto  seus aliados, e até adversários, na região ainda se usam -- ainda mais onde isso gera um efeito de "estabilidade" como na Bielorrússia.  Os nacionalismos de canto a canto -- e o nacionalismo ucraniano, em suas facções extremistas, restou fortalecido só no momento em que o cerco putinista se desenhou -- apenas dividem aquilo que precisa estar unido (de verdade). 








quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Entre os Dois Golens de Lenin: 10 Questões sobre a Ucrânia

Brendan Hoffman/Getty Images Via The Big Picture: Boston Globe
A crise ucraniana ocupa as páginas, físicas ou virtuais, da mídia global. Manifestantes, quase sempre mascarados, foram às ruas em protestos radicalizados duramente reprimidos pelas forças de segurança daquele país. O resultado é chocante, inclusive visualmente, uma pilha de mortos e feridos, destruição e algo que vacila entre o fim do impasse da existência do país e o seu fracasso definitivo. No último final de semana, o presidente da república foi destituído pelo Parlamento após ter tentado, em vão, costurar um pacto de governabilidade com a antecipação das eleições -- além do mesmo parlamento ter libertado a oposicionista  Yulia Timoshenko. O que diabos importa a situação da distante Ucrânia para o Brasil? Nada e tudo. Os resultados das manifestações ucranianas são apontados como exemplo para os rumos do que pode acontecer por aqui, no entanto, quais resultados são, realmente, esses, a despeito da captura política de lado a lado? Vamos, pois, por pontos.

1.  Esse fenômeno está conectado aos recentes levantes globais ou é algo local?

O levante ucraniano é parte dessa onda iniciada na Primavera Árabe, na Tunísia, justamente porque reflete uma tendência global e local: a conjunção de uma população fortalecida pelo absurdo acesso à informação promovido pela Internet -- e a cultura que isso envolve -- contrastada com um cenário de incertezas para o futuro -- sobretudo os mais jovens -- e, de tal forma, forçada a agir dentro de cada contexto social e local. Essa revolta não poupou dos Estados Unidos à Rússia, do Brasil de Lula e Dilma ao Chile de Piñera. Mas ela se mostra, em cada lugar, na forma que o calo aperta para cada sociedade. É um levante que se volta a cobrar as promessas não cumpridas da modernidade.

2. Washington e Berlim conspiraram para a derrubada do presidente Yanukovich?

Sim, mas tanto quanto Moscou e seus aliados trabalharam para eleger, e manter, o agora ex-presidente no poder. De certa maneira, em toda parte os blocos políticos internos se apoiam em blocos de poder globais que são ajuntamentos, mais ou menos coesos, o que pode ser mais intenso em Estados mais problemáticos. Na Ucrânia, o Partido das Regiões, de Yanukovich é pró-Rússia -- e vice-versa -- enquanto a oposição -- formada por muitos ex-burocratas "comunistas" -- é apoiada sim pelos EUA. Mas isso não é que o determinou o fato de manifestações gigantescas e radicalizadas tenham acontecido no país. Existem demandas muito reais que se impuseram, e a multidão ucraniana joga com as armas que tem ao passo que os blocos de poder busca captura-las a seu favor -- num jogo onde as duas partes se usam mutuamente.

3. A queda de Yanukovich foi um golpe de Estado, deposição dentro da Lei ou um processo revolucionário?

O parlamento ucraniano, a Verkhovna Rada, democraticamente eleito antes dos fatos em questão, aprovou o impeachment do presidente da república em um momento no qual, aliás, ele havia perdido amplamente sua legitimidade: sem tropas defendendo sua residência e com os palácios e os manifestantes ocupando as ruas, não havia o que fazer. Embora a atual Constituição Ucraniana, datada de 1996, tenha sido radicalmente transformada com o tempo, da Revolução Laranja (2004) e, depois, com o retorno de Yanukovich (2010) para, pouco antes da queda do presidente, voltar aos termos de 2004, é fato que não parece haver dúvidas de que o Parlamento é competente para remover o presidente da república -- como se depreende do capítulo V da Constituição, o qual regula os poderes do presidente, sobretudo o artigo 111.  De tal sorte,  o ex-mandatário ucraniano foi julgado e destituído pelo seu juiz natural. Mas pode se dizer que houve cerceamento de defesa pela rapidez do julgamento -- que é sim político e judicial --, fato sobre o qual a Suprema Corte local, no entanto, detém a última palavra. A rigor, foi um procedimento, em abstrato, dentro da ordem posta, embora possa se dizer que houve erro, a ser avaliado pela Suprema Corte. Do ponto de vista, político mais prático, no entanto, não resta dúvida que ele perdeu o controle. Pior que isso, Yanukovich possivelmente cometeu crimes contra a humanidade.  Mas, como sempre, o direito constituído se moveu de acordo com a constituição de direitos da multidão nas ruas.

4. A aproximação, ou não, da Ucrânia em relação à União Europeia, pivô da crise, seria um bom negócio para os ucranianos?

Sim e não. O que os ucranianos querem, em um primeiro momento, é garantir sua autodeterminação que, possivelmente, está ameaçada pela Rússia. E autodeterminação, aqui, é tanto política quanto cultural. Nesse sentido, o distanciamento de Putin é visto com bons olhos pelos diferentes setores da sociedade local. Se a aproximação política e econômica com a União Europeia, para além de mitigar a influência de Moscou, daria certo, é difícil dizer. A crise dos países periféricos da Europa -- vide Grécia, Portugal e Espanha --, a crise do próprio modelo da União Europeia, nos levam a crer que talvez isso seja um sonho impossível para ambas as partes, isto é, que logo da cara seria muito remota a chance do bloco europeu assimilar o país, quanto mais lhe gerar algum benefício econômico -- e antes das coisas explodirem, gente que acompanha a sério a região apontava para isso --, mas é preciso botar no cálculo o avanço do autoritarismo na Rússia e os efeitos práticos disso na vida dos ucranianos.

5. A Ucrânia está dividida?

Sempre esteve. O lado oriental do país, mesmo dentre os falantes de ucraniano, vê sua relação de uma forma diferente com a Rússia do que o oeste. Só há uma solidez nacional no oeste do país. Ao longo do tempo, os ucranianos se aproximaram mais do ocidente ou do oriente conforme a situação. É um movimento pendular defensivo marcado pela necessidade de sobrevivência. Se o primeiro Estado russo foi construído em torno de Kiev, depois as contingências da história fizeram os ucranianos se afastarem dos russos, mirarem o ocidente, o que lhes valeu o domínio polonês na Idade Moderna. Depois, uma nova reaproximação com a Rússia, a União Soviética e uma difícil reconstrução como nação independente.  O oeste, agora, é mais pró-Europa, o leste, pró-Rússia, muito embora ser pró-Rússia não se confunda com "pró-Putin", o que foi decisivo neste momento.


6. O que tem a ver a herança Soviética, sobretudo a questão nacional, e a atual crise?

Rosa Luxemburgo, em um de seus textos clássicos, A Revolução Russa, aponta o equívoco da estratégia leninista em insuflar o nacionalismo ucraniano com o intuito de derrubar o Tsar, o que lhe custaria caro mais adiante. Evidentemente, Rosa falava não afirmação da diferença nacional e cultural ucraniana, mas de um movimento extremista local. Ela acertou e a soma disso com a política de homogeneização, e russificação, da União Soviética quando do Stalinismo levou a um combate inevitável e inclemente no qual milhões de inocentes pereceram direta ou indiretamente. o nacionalismo ucraniano sempre caminhou entre a (necessária) afirmação da diferença cultural local, mas, por outro lado, numa variação negativa, ele também aparece, ou varia, como forma de criar uma unidade falsa que naturaliza a opressão interna em nome de inimigos externos. Não há como analisar de forma maniqueísta a questão. Mas o fracasso da política soviética de nacionalidades, um dos compromissos étnicos fundamentais e fundantes da União Soviética, foi decisiva para construir o atual quadro de tensão lá e em outros países da região: da homogeneização à força que começou em Stalin resultou o extremismo nacionalista como reação. Entre Stalin e os nacionalistas locais, os ucranianos ficam entre os dois golens de Lenin

7. A União Soviética era anti-ucraniana?

Não, a União Soviética chegou a ser governada por ucranianos -- Nikita Khrushchov e Leonid Brezhnev --, o que houve é que, colateralmente, a política de homogeneização russa -- levada a cabo, vejamos só, por um georgiano como Stalin -- e o autoritarismo que valia contra qualquer variante ideológica e cultural vitimou profundamente o povo ucraniano. Em duas situações trágicas isso foi evidente, a primeira no chamado Holomodor, a peste de fome causada pela estatização stalinista da agricultura e, depois, pelo desastre nuclear de Chernobyl, causado pela incompetência de uma já decadente União Soviética em lidar com o acidente. Há um uso, pela Ucrânia independente, de colocar isso nos termos de um declarado e específico anti-ucranianismo pelo poder soviético, o que não aconteceu propriamente.


8. A extrema-direita ucraniana tem, agora, o controle da situação?

Não propriamente. O nacionalismo, por n razões, é fortíssimo na Ucrânia. Mas não é ela que, sozinha, determinou ou motivou todo o conjunto de manifestações. Inclusive porque é um movimento que cresceu, sobretudo, por conta da resistência popular à violência policial e militar e que defende, ainda que de maneira ingênua, os valores do europeísmo -- o que tem determinado processos regulares de direito nos procedimentos postos em prática. Mesmo em um cenário que as coisas mudem, é altamente improvável que a ultra-direita tome o poder e consiga mantê-lo. O novo governo, inclusive, terá de moderar suas posições para que o país não se divida. Muito mais grave, nesse aspecto, é a situação de um país como a Hungria, o qual aconteceu dentro de um processo eleitoral regular.

9. O que isso diz para a Rússia?

A Rússia, em tese, tem se recuperado do duro processo que foi da estagnação soviética à reabertura, mas, ao mesmo tempo, o avanço gradual do autoritarismo de Putin lhe é um problema interno. A crise ucraniana faz com que a questão cruze suas fronteiras.  As demandas por democratização chegam à região. Isso ajuda ao imperialismo americano? Talvez, mas é ridículo, em pleno século 21º, que em nome da contenção à conduta americana, que se tolere abusos autoritários em nome disso, inclusive porque eles não só são desnecessários como, aliás, fortalecem a posição intervencionista americana pelo globo, uma vez que permite apresentar tropas como legítimas defensoras da liberdade. Difícil é crer, num primeiro momento, que possa haver uma junção entre os movimentos russos e ucranianos, o que é ruim, mas também não quer dizer que isso não possa acontecer.

10. A crise ucraniana diz o que para o Brasil?

Que existe uma demanda global por mudanças, que essa multidão permanente, constituinte da grande rede de produção, sobretudo seus jovens, não é capaz de aceitar, conformadamente, um futuro qualquer, mas que ela luta de acordo com as contingências que lhe cercam: não esperem um coerência ou uma fidelidade "ideológica" tal como compreendida no século 20º. Mais ainda, que respostas repressivas para essas demandas é o caminho para um desastre, muito embora esse confronto seja melhor do que a manutenção inercial de um regime de força. Falar em como manifestações levam, necessariamente, ao fascismo é de um raciocínio limítrofe. A aceitação bovina de uma doutrina de segurança, repressão e leis de exceção certamente são mais perigosos em matéria de fascismo.







domingo, 25 de dezembro de 2011

Vinte Anos sem a URSS

Yeltsin e Gorbatchiov -- Artífices do fim da URSS
Hoje é Natal, mas não apenas: o fim da União Soviética também completa exatos vinte anos. A situação russa, neste exato momento, não é nada boa, como não era no começo dos anos 90. As manifestações massivas nas ruas de Moscou, ontem, são uma continuação da revolta contra as últimas eleições parlamentares, provavelmente fraudadas, realizadas no início do mês. Não só: elas aludem ao agravamento da crise pela qual passa o país.

O atual grupo dirigente da Rússia, liderado por Vladimir Putin, ascendeu dentro do caos dos anos 90, quando Boris Yeltsin implementou uma série de reformas econômicas liberais fracassadas, reagindo, depois, com mão forte contra os manifestantes e instaurando uma crônica instabilidade. A farsa de Yeltsin, feito herói no início dos anos 90 pela mídia mundial e por burocratas ávidos em tomar para si para o patrimônio estatal, caiu por terra em poucos anos.

Putin e os seus uniram as ilhas de poder do país, surgidas desde o fim do Partido como demiurgo geral do nação - os serviços secretos, as forças armadas, os oligarcas  (os antigos dirigentes comunistas que enriqueceram com a privataria local) e a burocracia do Estado. Dentro do mais puro dirigismo, inseriram o país na economia mundial sobretudo como exportador de hidrocarbonetos - e mesmo como um agente global duro, não deixaram, no fim das contas, de fazer o jogo do Ocidente, a União Europeia que o diga...

Depois de um breve período de euforia capitalista sob a liderança  de Putin, os russos assistiram ao esgotamento do seu modelo coincidir com o vendaval da crise econômica, que expôs definitivamente os pés de barro da new economy à qual a Rússia aderiu não mais como potência, mas sim como país periférico. A dependência externa, de um mercado mundial em crise, e a improdutividade causada por um sistema político autoritário fazem com que o arranjo de poder russo, como temos insistido por aqui há tempos está ferido de morte.

Nesse cenário, a figura de Mikhail Gorbatchiov reaparece. Se há vinte anos, ele, enquanto último líder soviético, conduziu o fim do país de forma controlada, hoje, ele emerge não mais para descer a bandeira vermelha do Kremlin, mas para pedir que Putin renuncie às ambições presidenciais em 2012. A voz do último líder soviético, no entanto, tem pouco ou nenhum peso em seu país, uma vez que ele é apontado como culpado da decadência russa, na medida em que suas reformas, além de não surtirem efeito algum, serviram como janela para os apparatchiks aumentaram mais ainda o seu poder, se apoderando das estatais que geriam. 

Se Gorbatchiov não é um problema relevante, por outro lado, não custa lembrar que já não é de hoje que Putin está em maus lençóis: suas negociações para tentar um terceiro mandato fracassaram e ele teve de optar pela saída de lançar seu braço direito, Dmitri Medvedev, como candidato presidencial em 2008 - com Putin, no entanto, chefiando o país, inconstitucionalmente, como premiê nos últimos anos. 

Isso ilustra o caráter farsesco das instituições russas: de repente, o semi-presidencialismo russo tornou-se um parlamentarismo porque era Putin o premiê. De repente, Putin não emplacou as reformas políticas que queria, mesmo tendo vantagem no parlamento naquele instante, porque para as instâncias reais de poder, era melhor se apresentar com uma aparência de "normalidade" para o Ocidente. 

A multidão que hoje lota as ruas de Moscou, por sua vez, é difusa e está alheia a isso. Ela é composta de neo-comunistas propondo um modelo chinês até nacionalistas falando abertamente em corporativismo, passando por anarquistas. Eles querem novas eleições parlamentares, uma vez que as fraudes no último pleito são evidentes e o Rússia Unida, partido de Putin, certamente não teve a metade dos votos que reivindica - ficando com maioria fraca (relativa) no parlamento ou atrás dos comunistas, cujos dirigentes, ao contrário de sua militância, estão por demais satisfeitos com o resultado manipulado de um pleito no qual eles foram os prováveis ganhadores, o que ilustra apenas a sordidez das relações entre os grupos políticos russos e o Kremlin putinista.

As novas eleições marcariam o fim da era Putin e, de certo modo, o fim da era Yeltsin também, uma vez que Putin é uma descontinuidade dentro da mesma linha. Putin, no entanto, é ainda o maior fiador desse esquema. Sem ele, qualquer substituto que tentasse manter o status quo estaria fadado ao fracasso. Isso lhe garante um bolsão de oxigênio, embora as chances dele sofrer um golpe estejam crescendo nas bolsas de apostas, pois seu personalismo pode fazer com que com sua queda, gatopardianamente, acalme os ânimos nas ruas - e dar tempo da elite russa negociar um novo arranjo para o esquema, o que, advirto, tem poucas chances de ser eficaz.

A finada União Soviética, aliás, ficou para trás mesmo de seus pares ocidentais pelo uso que deu à tecnologia espacial, incapaz que era, pelo seu sistema político, em avançar na  produção intensiva de tecnologias de informação e comunicação, justamente o ponto de virada dos anos 70, com a economia do conhecimento - que, no entanto, não parece tão conciliável com o Capital quanto proclamavam os profetas yuppies da new economy. 


O que determinou o fim da União Soviética não foi uma crise "natural", "objetiva" - que teria exposto a impossibilidade de qualquer opção ao capitalismo -, mas sim o fruto de contingências e de decisões políticas sobre o que e como produzir tal e qual os limites daquele sistema político e a opção de não reforma-lo - algo evidenciado, inclusive, pelo caráter de continuidade na forma de exercício do poder e de seus atores dos anos 80 para cá.

A ausência do Estado soviético no cenário global  tem um significado incerto; é claro que o fim de uma URSS, nos moldes imperiais dados por Stalin, facilitou o processo de constituição do  processo de globalização, cujo grande entrave tem sido, fundamentalmente, a tensão hegemonista norte-americana, sem hora nem lugar, uma vez que o capitalismo transcendeu, irremediavelmente, os limites de qualquer fronteira nacional. 

Em virtude disso, para ter sobrevido aos anos 90, o Estado soviético precisaria de uma reforma profunda. Tivesse acontecido isso e a pressão pela constituição de um multilateralismo entre Estados estaria em um estágio certamente mais avançado, pela impossibilidade do unilateralismo americano.

O fato é que as contingências da História puseram fim a um sistema de organização tirânico, ironicamente nascido do desvio de um processo revolucionário magnífico,  só que da pior forma possível, aprofundando-o em outros termos, o que, agora, está em crise novamente. A desestabilização russa é um dos grandes assuntos de 2012 e, sem dúvida alguma, precisa ser visto em paralelo com a crise da Europa, pois uma pode mudar decisivamente os rumos da outra. 



sábado, 10 de dezembro de 2011

Montanha Russa

Manifestantes nas Ruas
Enquanto a agonia do Euro prossegue no Oeste, Moscou viveu um dia agitado hoje: milhares de manifestantes marcharam nas ruas da capital russa contra as possíveis (e plausíveis) fraudes nas últimas eleições parlamentares. Também estavam presentes outros tantos manifestantes pró-Putin, além de um contingente imenso de policiais e forças de segurança, isolando o Kremlin. Não que fraudes não sejam uma comuns naquele país: em 1996, até as pedrinhas da rua sabem que Boris Yeltsin, que em 1993 rasgou a Constituição e jogou tanques contra o Parlamento legalista, venceu o comunista Gennady Ziuganov em uma enorme fraude e que a tônica dos anos seguintes, sob Vladimir Putin, era do esmagamento contínuo das vozes dissonantes, com direito a supressão de partidos e com trapaças  mais ou menos descaradas nas urnas. No entanto, as medidas putinistas de combate aos efeitos da crise, sem dúvida, trouxeram à tona uma revolta considerável.

Cerco ao Kremlin
O resumo da ópera das eleições do último dia 04 é simples: o Partido Rússia Unida - uma espécie de PMDB russo comandado pela figura pessoal e personalista de Putin - perdeu a maioria constitucional e ficou, em tese, com apenas metade das cadeiras na duma estatal - a câmara dos deputados local -, mas ao que tudo indica, esse resultado se deve a fraudes grosseiras que escondem uma queda de votos ainda maior, talvez até uma derrota daquele partido para os comunistas. A metade das cadeiras serviria para garantir a governabilidade do país nos termos putinistas, coisa que uma "maioria relativa" não daria conta. Putin e Medvedev, seu fantoche presidencial, certamente não esperavam por essa derrota, daí os gestos desesperados e acintosos. Agora, só resta mobilizar sua militância e partir para o enfrentamento nas ruas, enquanto que, por outro lado, se manobra com as forças de segurança e de espionagem, em um movimento que deve endurecer o autoritarismo local. 

Mais caminhões militares
As manifestações por parte do possível vencedor das eleições russas, o Partido Comunista da Federação Russa (PCFR), são, até o presente momento, tímidas. É provável que tenha acontecido novos acordos de bastidores com o Kremlin, como é comum de Ziuganov. Aliás, em um primeiro momento, convém esclarecer que o atual Partido Comunista russo não é herdeiro real do velho Partido Soviético, uma vez que grande parte dos burocratas da URSS se converteram em oligarcas - bilionários em dólar que enriqueceram por terem surrupiado as velhas estatais soviéticas e as terem inserido, como propriedade suas, no mercado global - ou em apparatchiks do Rússia Unida -, portanto, resta ao PCFR a posição de pastiche, mera alegoria de saudosistas dos tempos soviéticos, todos unidos por um discurso nacional-popular, que apela para o estatalismo, o tradicionalismo e, até, para o cristianismo ortodoxo (!).

Ziuganov, eterno líder do PCFR, comporta-se como um príncipe herdeiro de monarquia derrubada: sonha com a volta dos velhos tempos, o que irremediavelmente lhe devolveria o poder que é seu "por direito". No entanto, é óbvio que se a velha União Soviética não tivesse sido implodida, não seria ele o secretário-geral ou um burocrata de segundo escalão ao menos. Ele é só um líder demagogo que reconstruiu em torno de si o saudosismo soviético depois que Yeltsin permitiu a volta de uma legenda "comunista" na Rússia - uma vez terminado o perigo do verdadeiro partido ressurgiu. A oposição que Ziuganov fez para Yeltsin e, depois, para Putin é tão ambígua que nem parece ser concreta. Como agora. 

Declaram os comunistas russos, em todo o seu ecletismo e ostentando velhos quadros de Stalin, que desejam um "modelo chinês" para seu país, mas nos parece claro que se não há muitos chineses na Rússia, também não há muitos stalinistas na China. O eleitorado russo, frustrado com os rumos do salvacionismo putinista e suas medidas de repasse dos custos da crise para os pobres, está desorientado, mas também não está animado com o PCFR. Outros partidos que também cresceram nas últimas eleições, como o Rússia Justa (social-democrata e filiado à Internacional Socialista) também parece ter vínculos demais com Kremlin e projetos de menos. Já o Partido Liberal-Democrata, do tragicômico Vladimir Zhirinovsky, é voto de protesto. A tendência eleitoral aqui é a mesma de outros lugares pelo mundo, punição das forças governistas por erros que cabem a todo o sistema partidário, diminuição do comparecimento nas urnas e desilusão com a democracia representativa - sem, no entanto, a organização de novos modos de intervenção política.

"onde está o pecado, eles riem" -- um tanto ortodoxo, não?
Por ora, de todos os Brics, a Rússia foi a mais afetada pela crise global e isso não parece ser aleatório. O Rússia Unida é, aí sim, o velho PCUS, Igreja velha de crença renovada, ortodoxamente voltado à adoração de um capitalismo que, hoje mais do que nunca, vive de pura fé. A incapacidade dele resolver os três problemas centrais da Rússia desde a agonia do tzarismo, é patente: restam aí a questão nacional - o genocídio cultural das minorias não-russas, sobretudo as não-eslavas, o que se agravou depois do fim da URSS, embora nela a questão ainda estivesse em aberto -, a questão da desigualdade - que passa da aristocracia imperial para os oligarcas contemporâneos, passando pelos velhos burocratas 'comunistas' - e questão da liberdade - sempre fagocitada pelas reterritorializações que representam o engessamento da máquina despótica ortodoxa. Nisso, putinistas fracassam tão fragorosamente quanto os ultra-liberais dos anos 90 ou os bolsheviks. Se livrar da linha rígida, seja da política ortodoxa ou da religião stalinista, por meio de linhas de fuga mundialistas, como o trostskysmo - apesar de sua crítica moralista - tentou a seu tempo, nunca deixou de ser a melhor saída para os russos.

Uma possível implosão da Rússia, junto com o destino nada animador do Euro - à deriva no mar de hesitações, recuos e boçalidades infinitas do eixo franco-germânico - podem marcar um agravamento seríssimo do cenário europeu; as décadas de paz da Europa Ocidental podem estar chegando ao fim com a implosão do europeísmo, ao mesmo tempo em que na Rússia, Putin e os seus estão entrando em uma espiral de deslegitimação que podem fazê-los perder o controle das coisas mais rápido do que se supõe no Ocidente - para forças ainda desconhecidas, mas que podem perfeitamente passar por fora, e a despeito, do decrépito sistema partidário russo. Isso, aliás, acende uma luz amarela para China e Brasil, sobre a qual voltaremos a falar tão logo. Enfim, próximos dos vinte anos do fim da União Soviética, ainda estamos às voltas com os ecos do fracasso enormíssimo da Perestroika.

*Fotos do meu amigo Lucas Barducco, que foi testemunha ocular, auditiva e olfativa das manifestações russas de hoje.

terça-feira, 26 de abril de 2011

União Soviética: Do Sorriso de Gagarin a Tchernobyl

Lenin segue imponente em Tchernobyl
Neste mês de Abril, as duas principais datas da metade final da antiga potência soviética fizeram aniversário. A primeira delas é considerada motivo de felicidade para toda a humanidade, enquanto a outra foi uma pequena amostra de juízo final, mas ambas, no entanto, são variações da mesma curva. O mês no qual comemoramos os cinquenta anos que Yuri Gagarin, um jovem tenente da força área soviética, se tornou o primeiro ser humano a viajar ao espaço é o mesmo em que velamos as vítimas do desastre nuclear de Tchernobyl, ocorrido há vinte e cinco. Os dois momentos, dramáticos como os clássicos da literatura russa, marcaram, respectivamente, o ponto mais alto e o mais baixo que a superpotência soviética - de grandezas monumentais, mas cuja existência foi pequenina como a vida de um homem - experimentou; o ápice e o ocaso de sua tecnologia, vendida pelos seus líderes, desde seus primórdios, como a panaceia necessária para que o Paraíso na Terra fosse construído. A tecnologia, cá deste lado do mundo, também não é  - como nunca foi - vendida sob um rótulo tão menos pretensioso, embora na União Soviética a perspectiva da utopia, da própria Salvação - em termos ditos materialistas -, a transformasse na própria dádiva do não-deus. Gagarin foi ao espaço e não viu Deus algum - como dizia a propaganda soviética pró-ateísmo da época -, o que não era nada menos do que o óbvio: Deus esteve sempre aqui embaixo entre nós, sobretudo na teologia que se esconde sob certa concepção de progresso, no qual devemos avançar sem parar e a qualquer custo.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Rússia, Setembro de 93


(Setembro de 93-- a morte prematura da democracia russa)

Há dezessete anos atrás, estava em curso na Rússia o episódio que ficou conhecido pelo eufemismo de "Crise Constitucional" - na verdade, um Golpe de Estado clássico e manjado, promovido por Boris Yeltsin quando ele se viu diante de uma reação institucional à sua terapia de choque; o  termo "crise constitucional", além de pomposo, é um falseamento do que aconteceu: simplesmente o Presidente decidiu passar por cima da Constituição e do Parlamento para exercer o seu mando, a despeito dos custos humanos que isso representasse. Se havia crise ali, ela era de natureza econômica e social -  e com o golpe, se tornou política também. Como quem tem padrinho não morre pagão, o aliado do ocidente Yeltsin, tornou-se apenas um chefe de Estado envolvido em uma reles "crise constitucional" - fosse um secretário-geral da União Soviética fazendo o mesmo e seria transformado em pária internacional, acusado de genocídio. 


Não, aqui não se encontra nenhuma apologia ao sistema soviético, muito pelo contrário, o ponto é outro porque o buraco é mais embaixo: Estou fazendo uma condenação incondicional do autoritarismo, seja lá sob qual bandeira sobre qual ele se encontre - ou em que aliança -, o que é sim, sobretudo, uma crítica de como as ideologias - e as cortinas de fumaça pelas quais elas operam - levam as pessoas a relativizarem aquilo que está de acordo com os fins do plano maior que elas defendem. Isso não é um fenômeno exclusivamente russo, mas aquelas terras sofreram como poucas por conta disso; a origem, claro, está na tradição filosófica hegemônica do Ocidente: Existe uma razão transcendental em relação a qual só alguns iluminados têm acesso e isso, em maior ou menor gradação - de uma forma mais ou menos tosca -, lhes autoriza a designar a Ordem.


Existe uma tese, cujo argumento central é que houve um ponto de inflexão histórico na Rússia com a queda da URSS, o que teria alterado substancialmente as relações entre Estado e a multidão, o que eu discordo. A mudança ocorrida na Rússia pós-soviética foi nos acessórios de dominação na medida em que os meios do Poder Político designar a ordem do sistema econômico mudou, mas isso não alterou em essência aquela forma de pensar e executar projetos: Os iluminados simplesmente chegaram à conclusão que a economia planificada é uma má ideia e que o  mercadismo conduziria a Rússia ao paraíso, daí, aplicaram o projeto a qualquer custo. Nada de novo sob o Sol. É uma lógica muito parecida com aquela que Stalin e seus burocratas executavam as metas dos planos quinquenais. Se adotarmos a representação como paradigma, ficaremos presos em um debate falso sobre qual foi o verdadeiro mal necessário na história russa, quando, na verdade, as políticas econômicas soviéticas e a terapia de choque de Yeltsin/Gaidar nutrem um viés identitário quanto ao que realmente importa: Os procedimentos de elaboração e aplicação do projeto. Sim, são as duas faces da mesma moeda.


Antes que se diga qualquer coisa, a rebelião que opôs o então Soviete Supremo à Presidência da Federação Russa foi liderada por duas figuras insuspeitas de stalinismo: O líder do Parlamento, o economista Ruslan Khasbulatov - um cara que já criticava duramente o modelo econômico soviético enquanto Yegor Gaidar ainda era um intelectual do Partido, não só reproduzindo a linha oficial como censurando seja lá quem fosse quando comandava um naco importante da imprensa soviética - e o vice-presidente Iury Rutskoy, um militar popular e herói da Guerra do Afeganistão que depois se aventurou na carreira política. Ambos foram contra o Golpe da Linha-Dura e ambos faziam parte do staff - ou melhor, do balaio de gato - que girava em torno de Yeltsin até ele decidir um lado para onde imbicar - e não foi o da democracia, certamente.


A Terapia de Choque russa, como o Rutskoy bem definiu, tratava-se de genocídio econômico: O Governo russo resolveu praticar um "ajuste econômico ortodoxo", o qual consistia em uma singela mercadificação total - e acelarada - da vida posto em prática por meio de privatizações fraudulentas - o que produziu, entre os ex-burocratas do partido, uma boa quantidade de bilionários -, acabando com a rede de proteção social abruptamente, o que desembocou em uma súbita diminuição da expectativa de vida - e das condições de vida de um modo geral. O PIB contraiu e se concentrou.  O parque industrial russo, construído em grande parte no período soviético com os recursos que o Partido - enquanto grande corporação nacional - extraía da mais-valia dos trabalhadores, passou, sem mais nem menos, para mãos privadas que evidentemente não reembolsaram os cofres públicos - o que recentemente, com a Crise Mundial, resultou em mais bizarrice, com os recursos públicos sendo usados para cobrir os rombos dos oligarcas, o que resultou em uma dupla perda para a sociedade russa, como acentua o analista russo Boris Kagarlitsky (por coincidência um dos ativistas presos há dezessete anos atrás).

A dita crise, em si, é fruto de todo um tensionamento entre Yeltsin e o Parlamento, primeiro para tentar aprovar seu braço direito, Yegor Gaidar como primeiro-ministro ainda em dezembro de 92 e, depois, no verdadeiro cabo de guerra ao longo de todo ano de 1993, quando o Parlamento se negava a aprovar as emendas constitucionais exigidas pela administração - e depois de convocar uma nova constituinte - enquanto Yeltsin, por meio de atos unilaterais, declarava um Estado de Exceção - denominado como "regime especial". A confusão persiste contando com tentativa falha de impeachment de Yeltsin no Parlamento no começo do ano e segue até quando o Parlamento o cassa e ambos, Executivo e Legislativo, marcam eleições para meses diferentes de 94 - a situação evoluiu para o clímax, quando Yeltsin, em nova medida, "dissolveu" o Parlamento e  "convocou" novas eleições já no final de 93, fazendo o legislativo federal respondendo com a declaração de nulidade da decisão e a ordem de demissão de ministros chave.

A partir daí, protestos eclodem em toda Rússia, a tensão aumenta nas repúblicas separatistas, o Parlamento passa a ser protegido pelos seus simpatizantes enquanto, de lado a lado, articulações são feitas nos bastidores para cooptar as Forças Armadas, até ali divididas. Rutskoy e Khasbulatov perdem a briga e a Casa Branca (sim, o Soviete Supremo ficava num edíficio chamado Casa Branca...) é cercada por uma divisão de tanques que a bombardeia até os líderes do Parlamento capitularem e se renderem derrotados. Um número até hoje não calculado de manifestantes, em geral anti-Yeltsin, morreram nas ruas moscovitas, vítimas da polícia e do exército. A partir dali, o Presidente Russo, torna-se senhor absoluto do país, dissolvendo o parlamento e promovendo as reformas que desejava, via referendo - cuja apuração foi menos duvidosa apenas que as presidenciais de 96, vencida pelo mesmo Yeltsin.

O líder russo, naquele momento, removeu as amarras institucionais que lhe seguravam e, com a simpatia dos oligarcas e o comando das Forças Armadas levou a cabo seu programa, tudo isso sob os auspícios do bom-mocismo liberal - que aqui, pelas circunstâncias, toma a feição de "remédio amargo" - e do apoio do ocidente, apesar dos pesares. O PIB russo contraiu até os fins da década de 90, enfrentando ainda a grave crise de 98, enquanto, simultaneamente, centenas de milhares de pessoas morriam na Guerra da Chechenia. O movimento que gera Putin no fim dos anos 90 é simplesmente o de um grupo pró-modernização conservadora ligado a Universidade de São Petersburgo, plenamente alinhada com todo o processo narrado; era necessário assumir uma agenda mais autônoma nas relações exteriores e pensar no "desenvolvimento nacional" - propriedade grilada, propriedade a se desenvolver -, com um pouco mais de arrocho ali ou acolá contra os direitos civis. A, digamos, propaganda negativa reservada ao atual primeiro-ministro russo atual  é apenas uma cortesia de Washington pela sua política externa, no duro, ele é o sucessor de Yeltsin sem qualquer contradição nisso. A Rússia de hoje é o cruzamento de um pseudo-liberalismo ao pior estilo Veja com uma represssão semelhante - pior, para ser mais justo - ao Brasil dos anos 70; de certa forma, lembra o Chile de Pinochet e não há como entender isso sem pensar nos eventos que aconteceram em 1993.  

P.S.: Pravda na Pravdu, do grupo de rock DDT é uma obra que ilustra bem o momento. O título da música em russo, traz um trocadilho genial com a palavra "pravda" - que significa "verdade" (em sentido factual) e também é o nome do jornal oficial do Estado russo/soviético desde tempos imemoráveis (na verdade, o jornal foi fundado com o nome de Zvezda, por Trotsky). O trocadilho funciona melhor em russo porque não existem artigos: Em português, seu título seria O Verdade sobre a Verdade. O vídeo abaixo é muito bom.


domingo, 18 de abril de 2010

Spinoza, Deleuze e a Função da Tristeza na Dominação

Quando eu passo da idéia de Pedro à idéia de Paulo, eu digo que minha potência de agir é aumentada; quando eu passo da idéia de Paulo à idéia de Pedro, eu digo que minha potência de agir é diminuída. Isso equivale a dizer que quando eu vejo Pedro, sou afetado de tristeza; quando eu vejo Paulo, sou afetado de alegria. E sobre essa linha melódica de variação contínua constituída pelo afeto, Spinoza irá determinar dois pólos, alegria-tristeza, que serão para ele as paixões fundamentais: a tristeza será toda paixão, não importa qual, que envolva uma diminuição de minha potência de agir, e a alegria será toda paixão envolvendo um aumento de minha potência de agir.Isso permitirá que Spinoza, por exemplo, realize uma abertura em direção a um problema moral e político muito fundamental, que será sua própria maneira de estabelecer o problema político: como acontece que as pessoas que têm o poder, não importa em que domínio, tenham necessidade de afetar-nos de uma maneira triste? As paixões tristes como necessárias: inspirar paixões tristes é necessário ao exercício do poder. E Spinoza diz, no “Tratado teológico-político”, que esse é o laço profundo entre o déspota e o sacerdote: eles têm necessidade da tristeza de seus súditos. Aqui, vocês compreenderão com facilidade que ele não toma "tristeza" num sentido vago, ele toma "tristeza" no sentido rigoroso que ele soube lhe dar: a tristeza é o afeto considerado como envolvendo a diminuição da potência de agir.
(Trecho de uma aula de Deleuze sobre as ideias, os afetos e afeccções em Spinoza)

Recentemente, em uma conversa por e-mail sobre Spinoza, a minha amiga Flávia Cera - dona da excepcional Mundo-Abrigo -, me deu uma excelente dica sobre o pensador luso-holandês: O Webdeleuze, site onde está publicado uma quantidade interessante de cursos que ninguém mais, ninguém menos do que Gilles Deleuze deu sobre pensadores como Kant, Leibniz e, claro, o próprio Spinoza, além de manuscritos, imagens e aúdios. Ontem, estava lendo um desses cursos, datado de Janeiro de 78 - onde o pensador francês trata das ideias, dos afetos e das afecções em Spinoza - e topei com esse trecho, absolutamente genial que me provocou um estalo.

Resumindo um pouco do que se trata o texto, encontramos que, embora Spinoza adote, a princípio, a definição clássica de ideia como um símbolo representantivo de alguma coisa, ele afirma que as ideias, em si, são uma coisa própria e se diferem dos seus ideados - a coisa representada -; mais do que isso, nossa relação com o mundo não se resume às ideias que temos sobre ele, mas também aos afetos - no sentido de sentimento mesmo - que temos sobre as coisas que conhecemos - quando você, meu caro leitor, entra neste blog, você não apenas tem certa ideia do que ele significa, mas também sente alguma coisa, portanto, sua compreensão sobre ele não se limita a como você o representa mentalmente, mas também como você o sente. Além disso, há outra espécie, que são as afecções, grosso modo, o resultado da interferência de uma corpo sobre o outro, mas não vou entrar nessa parte em específico.

O que me chamou a atenção mesmo foi esse parágrafo em especial que eu transcrevi. Uma sacada de Deleuze sobre uma das muitas ideias que Spinoza levantou no Tratado Teológico-Político (mas também tem algo da Ética aí): A dominação política tendo por fundamento a tristeza. O trecho fala por si próprio. Spinoza, que era um intelectual profundamente atuante em seu tempo, lutou tanto contra as superstições que fundamentavam a dominação religiosa quanto contra o despostismo esclarecido da Casa de Orange - que era esclarecido, mas não deixava de ser despotismo -, portanto, ele sabia muito bem sobre o que falava.

Exemplos históricos não nos faltam. Desde a forma de dominação realizada pelo bolshevismo na União Soviética, responsável por arruinar a Revolução com o maior potencial emancipatório da história humana - bem como os seus regimes derivados pelo mundo -, até a esquizofrenia do nosso mundinho globalizado e pós-modernoso se sustentam na necessidade de ter pessoas frustradas, apáticas e, portanto, incapazes de exercer seu potencial criativo, estando, assim, submetidas à sujeição.

No nosso tempo, as pessoas estão submetidas a um sistema que lhe rouba o significado na vida e as condiciona a guiarem suas ações para um enriquecimento meramente material, elemento que lhes permitirá adquirir coisas de todos os tipos de coisas, vendidas sob as promessas de servirem como o bálsamo definitivo para essa lacuna nas suas existências, mas esse vazio nunca fecha; quanto mais consumimos, mais nos sentimos frustrados por não termos mais. Estamos tristes o tempo inteiro. Quanto mais a sociedade de consumo avança, mais estamos consumidos enquanto os donos do poder, aqueles que ganham o que gastam, estão incólumes. 

Para fechar o quadro, os setores que se prestam a promover o discurso e a ação contra-hegemônica, nos mais variados espaços, não raro, trazem em seu interior uma lógica de dominação; quantos partidos de esquerda não se organizam numa estrutura profundamente hierarquizada, que barra a ação criativa e criadora de seus membros de modo decisivo, repetindo internamente a mesma lógica de dominação que dizem combater? O bolshevismo russo é um belo exemplo disso, seja enquanto organização contra-hegemônica ou, depois, enquanto corporação total - e totalizante - da União Soviética - bebendo na frustração aguda de uma sociedade que não podia se expressar, onde o exercício da política, assim como de todas as outras artes, era monopólio exclusivamente seu.

Em suma, tudo isso faz um enorme sentido. A verdadeira ação política libertadora deve ser norteada pela alegria, pela superação do binarismo e representar, assim, uma subversão da prática da dominação, não a sua substituição - onde entraria em cena um leviatã escarlate, demiurgo social, cujo lider, revolucionário e herói, estará destinado a ser ser déspota e sumo-sacerdote do credo oficial.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Tensões na Moldávia


É provável que você nunca tenha ouvido falar da Moldávia na sua vida. Ela é uma ex-república soviética de quatro milhões de habitantes que hoje possui um PIB per capta miserável de pouco menos de US$ 3.000,00 (em valores reais de 2008) e o mais baixo índice de desenvolvimento humano de toda a Europa - menor, por exemplo, que o da Bolívia. Seu povo fala majoritariamente o moldávio, uma variante dialetal do romeno - no entanto, em certos enclaves como a Transdniestria vivem russos étnicos, ucranianos e moldávios pró-Rússia quase que na mesma proporção populacional e por isso tal região mantém uma independência de facto auxiliada pela Rússia numa situação não muito diferente da Ossétia do Sul e da Abkhazia. Como se não bastasse, uma parcela considerável da população economicamente ativa vive fora do país.


Politicamente, o Partido dos Comunistas é hegemônico na Moldávia- o que talvez seja um caso único nas ex-RSS - e em sua oposição encontram-se o Partido Liberal e o Partido Liberal-Democrático. O x da questão é que os comunistas se mantém no poder aqui por um simples fato: Eles são a única força política que mantém o país unido frente as tensões secessionistas tanto à leste, no Transdniester, quanto à oeste, na fronteira com a Romênia onde apologistas do pan-romenismo defendem que o país seja fundido à Romênia - e dentre os entusiastas do fim da Moldávia via romenificação estão muitos liberais, daí a fragilidade política dos dois partidos que se identificam como tal: Como vencer uma eleição em um país que você aberta ou veladamente pensa em pôr fim?

É nesse clima político que foram realizadas eleições parlamentares na Moldávia, o que implicou em nova vitória dos comunistas que obtiveram mais da metade dos votos e que levando em conta a clásula de barreira ficaram com 60 das 101 cadeiras do parlamento - o que é importantíssimo para eleição do Presidente da República, que precisa ser referendado por 61 deputados. Segundo observadores da UE e de inúmeras organizações internacionais, as eleições transcorreram normalmente, no entanto, do resultado das urnas irrompeu uma verdadeira revolta principalmente por parte de jovens, o que tem causado distúrbios violentos em todo o país.

O que explicaria isso? Como vimos recentemente, ocorreram na Ucrânia e na Geórgia ditas "revoluções", no entanto, qualquer exame mediano da forma como elas se deram aponta não apenas para o apoio como o financiamento dos EUA que, fazendo uso de demagogos bem financiados (como Yushchenko e Yulia Timoshenko na Ucrânia e Saakashivili na Geórgia), usaram da insatisfação popular contra os velhos e incompententes líderes pró-Rússia para enfraquecer a influência do Kremelin na região. No caso da Moldávia, no entanto, líderes ocidentais não estão aparecendo na Televisão para questionar a validade das eleições como também não há uma liderança clara a frente das ações recentes em Chisnau. Seria isso uma nova tática do Ocidente?

Para complicar, os comunistas moldávios não podem ser classificados exatamente como apoiadores de Moscou como suscita a própria questão da Transdniestria, onde eles se encontra em lado oposto ao do Kremelin. No máximo, eu poderia dizer que eles ajudam a refrear o avanço do Ocidente à leste. Por outro lado, se os russos tem interesse na Transdniestria, seja como parte do território - como enclave tipo Khaliningrado - ou como Estado fantoche, tenho minhas dúvidas sobre o desejo dos líderes romenos em ficarem com o "resto", dadas as próprias limitações econômicas de Bucareste, ainda mais nesse cenário de Crise Mundial.

Dessa forma, a situação mais do que confusa é complexa, afinal, ela reflete várias coisas ao mesmo tempo: A disfuncionalidade do capitalismo naquele país; o vácuo político pós-URSS que ali, como nas demais ex-RSS, se materializa na não-criação de instituições no lugar das que tombaram há quase vinte anos; a bomba-relógio étnica presente em todo território da ex-URSS; o desejo dos jovens da região em verem algo melhor, ainda que não tenham a menor ideia de como fazer isso. O caso Moldávio, portanto, não pode ser ignorado na medida em que, à sua maneira, ele expressa mais do que a problemática da ex-URSS, mas sim aquilo que está dando errado e o que pode dar errado na Europa dos anos vindouros...


atualização - 10/04 às 13:51 - Acabo de receber notícias sobre protestos na Geórgia exigindo a demissão do Presidente da República, Mikheil
Saakasvlli. A acusação diz respeito a fraudes eleitorais, desrespeito aos direitos e garantias fundamentais entre outras coisas. Saakashvili, assim como os atuais líderes ucranianos, é fruto da desastrosa estratégia da administração Walker Bush em apertar o cordão sanitário que envolve a Rússia; basicamente, a burlesca revolução rosa que o colocou no poder transformou Tblisi em um posto avançado dos interesses anti-russos, energéticos e de fornecimento de contingente militar para o Ocidente, em especial, para os EUA - ver envio de tropas georgianas para o Iraque. Em troca, as forças armadas georgianas receberam treinamento e armamento americano via Israel. Mas Saakashvili se enganou com o poder ganho e cometeu uma ação pueril ao tentar assumir o controle da Abkhazia e da Ossétia do Sul, sofrendo uma vergonhosa derrota para Moscou - muito provavelmente no intuito de desviar o foco da opinião pública de seu país sobre os problemas de seu governo, o que, na verdade, acabou o enfraquecendo mais ainda. É muito provável que depois de ter se provado pouco confiável, Washington esteja pouco disposta em mantê-lo no poder - principalmente agora que a administração Obama visa diminuir a tensão com os russos. Esperemos e vejamos, prometo um post em breve e repito: Olho na região pós-soviética.