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domingo, 15 de julho de 2018

O Adeus da Copa da Rússia e a França campeã

A. Namenov (AFP_
O término de Copas do Mundo nos fazem refletir sobre o tempo. É como se esses ciclos de quatro anos ativassem nossa memória afetiva -- ela sempre o é, mas eu digo a memória dos afetos mesmos, uma certa ternura que fica em cada momento. Onde estávamos há quatro anos ou oito anos, há doze? Que fazíamos? Como estávamos como indivíduos como estava o país? 

Muito se passou, a idade começa a chegar, uma certa nostalgia de outros tempos irremediavelmente bate, sobretudo nesse nosso momento atual -- no qual mais do que presente, nos falta futuro.

A Copa da Rússia, disputada em um momento terrível do Brasil e do Mundo, não deixa de ter sua importância simbólica: de um povo tão marcado pelas guerras, pelas agressões estrangeiras, por mais de cem anos de cerco das mesmíssimas potências e potestades ocidentais. 

Para muito além do "grande evento", seus problemas e aporias, havia algo de um esforço russo em se mostra uma nação como qualquer uma outra, para além de uma demonização internacional, tanto premeditada como profissional -- a ponto de um comentário como este ser considerado "russófilo", quando o que ele pede é que russos e seus líderes, e seu povo, deveriam ser julgados, absolvidos ou condenados, com a mesma medida que americanos ou europeus são ou deveriam sê-lo.

Tão previsível quanto dolorosa, a derrota brasileira ilustra o espírito do tempo nacional: entre a ansiedade crônica e uma certa presunção (que no fundo é uma resposta defensiva e infantil), somos um país que ou negamos nossas tradições ou as afirmamos como estereótipo de brasilidade da farsa global. O Neymarismo como vítima de si mesmo e, portanto, seu próprio algoz. Um país bipolar e não tratado: sempre da mania à depressão.

Ganharam os franceses, multirraciais e multicoloridos, que mantém a tônica gaulesa desde os anos 1980: boas gerações, com hiatos generosos e reaparições gloriosas; da França de Platini para a França de Zidane ao bi mundial com Mbappé e Pogba. 

E que não se diga a França dos imigrantes e refugiados, que o aparado pós-colonizador arregimentou e colocou para levar o país às glórias futebolísticas: ao contrário, o futebol como instância de representação nacional sempre tratou, não só na França como na Europa, de excluir árabes e negros e se abriu pela força deles. 

Na França, onde Platini, um franco-italiano, era lido como um branco e, portanto, um nacional Zidane o era menos e Mbappé uma verdadeiro escândalo, por não ser apenas  não branco como fruto da miscigenação entre imigrantes árabes e negros.

Nessa França, a polaridade racial é tão brutal que a inclusão à brasileira, cordial e malandramente opressora, nem é possível: lá ou seria inclusão à força pela luta ou seria exclusão pura e simples -- e inclusão contra um imaginário que inclusive cogitou instaurar cotas para limitar o acesso de crianças negras e árabes (sim, isso aconteceu mesmo, não é suposição) ao futebol e, por conseguinte, tornar o futebol francês "mais branco".

E que não se chamem os croatas puramente de "nazistas", embora a extrema-direita diga muito sobre como o país hoje, muitos jogadores de sua seleção e ao trágico desmonte da Iugoslávia, no qual a Croácia sob o comando de forças ocidentais ajudou a detonar um conflito horrendo -- que vitimou, a bem da verdade, mais bósnios e sérvios.

A Croácia, em si, seria nazista? Não, mas muitos jogadores seus simpatizam. E sua vitória era parte de uma estratégia de propaganda nacionalista de direita. Ao contrário da França, em que pese  o paradoxo de ser a nação das luzes e, ao mesmo tempo, um país colonialista indômito -- que conserva sua violência via cosmopolitismo neoliberal --, mas não tem no seu time nacional, a sua maior expressão -- embora Macron, esperto como o diabo de Bergman saiba bem jogar com isso.

Na bola e no campo, onde as coisas se decidem, um vareio de bola da França sob o comando de Griezmann, francês de origem luso-alemã, e com toques de talento do menino-prodígio Mbappé e do espetacular Pogba -- o que permitiu até erro crasso do bom goleiro Lloris.

Fica a memória. Onde estaremos daqui a quatro anos, como fãs de futebol e brasileiros, é a grande incógnita.






quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Ano VI: No Meio do Caminho da Democracia havia um Fusca.

O ano de 2014 começou na velocidade da luz. Para quem apostou no fim, ou no enfraquecimento, das manifestações a potência do protesto contra a realização da Copa do Mundo surpreendeu. Antes, o fenômeno dos rolezinhos impôs uma dura derrota ao elitismo e ao racismo tradicionais. Neste post, que marca o aniversário de cinco anos d'O Descurvo e a entrada no Ano VI, a nossa hipótese para essa tremenda esfinge é a seguinte: não se trata de um processo explicável pela análise de correlação de forças políticas, do equilíbrio macroeconômico ou algo do tipo, mas sim de algo que decorre de uma nova composição social, de uma nova forma de sociabilidade e, até, de pensamento para além da vida em "sociedade". 

Parece simples, mas não é. O avanço do capitalismo cognitivo, o trabalho imaterial, a globalização, a internet etc trouxeram mudanças sim relevantes, mas o que interessa aqui é que graças a uma nova perspectiva antropológica tudo isso tomou um significado novo. E quando falamos em homem, com efeito, é de desejo que estamos falando: o que há de relevante nas mudanças brasileiras dos últimos anos, não é que tudo mudou pelo motivo de que reformas socioeconômicas mudaram objetivamente as coisas, mas que aquilo que há de relevante nessas transformações foi uma intensa liberação do desejo.

Trocando em miúdos, as gentes mestiças e pobres, as minorias oprimidas no sistema brasileiro, sentiram-se autorizadas a desejar. Numa sociedade marcada por um esquema rígido de exclusão e opressão, isso mudou tudo. É, numa simplificação grosseira, uma nova sociedade brasileira, marcada por novas tensões e, consequentemente, um novo equilíbrio. É preciso aceitar que um novo mundo já está aí, e que no Brasil, mais ainda.  

Enquanto os velhos atores políticos conservadores procuram criar, do caos, a saída para seu beco sem saída, a esquerda partidária aproveita mais porque se reporta, e quer se reportar, a um mundo que não existe mais -- um mundo no qual o partido, o sindicato, o jornal geravam tendências.

Nunca antes na história [recente] desse país houve tanto movimento para gerar transformações. Mas ao mesmo tempo, a resposta que nós temos é a retranca política. A realização da Copa do Mundo, que será ainda objeto de muita discussão e quetais, é simples: exige envergadura política do governo. Não adianta surfar em uma onda de repressão e escândalo público. A Copa exige geração de direitos. A juventude precisa olhar para o horizonte e poder sonhar com mais do que uma vida média. 

Da parte da esquerda, é necessário independência, prudência e a fuga constante do fascismo. Não como ameaça externa, mas como o próprio risco de nos tornamos algo menos do que vampiros. E não apenas o fascismo sujeito histórico, mas o conceito de fascismo. A vontade de resolver o que não se compreende pela violência, a atração fatal pelo poder. A diferença entre o autoritário e o democrata será sempre a postura adotada face aos questionamentos políticos, num primeiro momento, incompreensíveis. É isso. 

P.S.: Sem mais essa história essa de fusca queimado por manifestantes.  Não foi nada disso que aconteceu. A violência que importa, aqui e agora, é a violência de Estado (a menos que você concorde com coisas como isso ou isso).

P.S. 2: Se Dilma se reuniu ou se reunirá com sua equipe para discutir a Copa, eu não sei. Mas ela que se toque do que está acontecendo. Fazer política não dói, ou não deveria -- como o Mais Médicos poderia ter ensinado.





quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Tatu do Bem? por Luis Henrique Mello


Em uma análise sobre simbolismos e iconoclastias, Luis Henrique Mello analisa a questão dos ataques aos tatus da coca-cola espalhados pelo país como mascotes da Copa.

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Uma simples imagem de um homem gravemente ferido na cabeça, compartilhada no facebook por minha irmã, sintetiza toda a loucura ocorrida na última manifestação popular em frente à prefeitura de Porto Alegre: "Para proteger o tatu inflável da Coca-Cola, a polícia moeu de pau uma galera em Porto Alegre", com o subtexto "Um boneco inflável da Coca-Cola vale mais que a integridade física das pessoas (...)". 

Li a reportagem e, naturalmente, compartilhei, sem me importar com meandros. Eis que inesperadamente um ex-colega de faculdade, que hoje trabalha na marinha, contesta-me, apontando o vandalismo do boneco inflável como o verdadeiro responsável da batalha campal em frente à prefeitura de Porto Alegre, fazendo uma analogia que à primeira vista pode parecer absurda mas que, à luz da lógica do controle social capitalista, faz todo o sentido: "Se você estivesse sozinho em sua casa, tivesse uma arma, e 10 pessoas desarmadas invadissem sua casa, e dessas, 3 começassem a quebrar suas coisas. O que você faria?" Certo. O locus social (casa) como propriedade privada do Estado (eu) e este como detentor do monopólio da violência (arma) na defesa do Capital (coisas). 

A imediata associação da manifestação com trespassadores é o primeiro ponto. Afinal, o banditismo é a forma mais vulgar e primitiva da rebeldia que, se minimamente organizada, alimenta o medo do caos social. Todos se lembram do pânico generalizado causado pela violência do crime organizado em 2006 - milhares de cidadãos foram tomados pelo desespero interiorizado pela consciência do abismo social existente no Brasil e que, enfim, o dia apocalíptico em que os marginalizados subitamente diriam um 'basta' e fizessem justiça com suas próprias mãos finalmente chegara. É o medo das massas. Enfim, respondi que segundo esta argumentação eu teria o direito e a razão de atirar nessas 10 pessoas se 3 delas jogassem minha escova de dentes no lixo, ateado fogo em uma folha de papel e, no máximo, bebido uma garrafa de cerveja sem minha permissão, dado o valor insignificante de um boneco inflável gigante para uma corporação de bilhões de dólares. 

Respondeu-me que o boneco inflável representa para muitos a conquista do Brasil em sediar a copa e, voltando à analogia por ele proposta, disse que "mandaria bala em todos antes mesmo de chegarem na minha cozinha." Gelei. Procurei então ler os comentários da foto no facebook e da matéria no jornal. Para minha desagradável surpresa, a maioria das pessoas dizia coisas no tom de "tem que dar porrada mesmo nesses vagabundos", "a polícia devia ter batido mais, muito mais", ou pior. É uma revolta. Uma revolta contra a revolta. Este é o segundo ponto. 

É um fenômeno social interessante pois, dada a atomização da ação política do indivíduo na era das democracias de massas, o sujeito sente-se impotente perante todos os absurdos sócio-políticos que toma conhecimento, seja por experiência cotidiana ou através da mídia, e sublima esta revolta na submissão completa de sua vontade política ao confortável berço da Ordem. Eis a chave do controle social moderno. O cacetete da polícia transforma-se em uma extensão de seu próprio corpo justiceiro, reprimindo os elementos 'anti-sociais' tão logo seja encontrada uma brecha legal que legitime a Exceção. Neste caso, foi a defesa da propriedade privada. Voltando ao reino da representação mencionado pelo meu colega, retruquei: "O boneco inflável representa a rendição do patrimônio público ao privado. Esse foi o motivo da manifestação, a privatização de espaços públicos de Porto Alegre para empreiteiras ligadas à Coca-Cola. 

Já não é a 'nossa' copa, é a copa da Coca-Cola. Furar o boneco não é vandalismo. Vandalismo é quebrar a Pietà, pixar a Monalisa. Não danificar algo que com um pedaço de fita isolante e menos de 5 minutos de ar comprimido estará novinho em folha. Furar o boneco é um ato simbólico. É um ato político. Portanto, a repressão da BM foi uma repressão política - estavam apenas esperando um 'motivo' para encher a galera de porrada. Fosse o contrário, a BM teria apenas detido aqueles que invadiram o espaço do boneco, e não generalizado a violência para todo o público presente." Coincidentemente (ou não), vi a notícia de outro tatu inflável da Coca-Cola furado em São Paulo. Neste caso é visível a ação higienizadora das empreiteiras, dado os múltiplos incêndios nas favelas em regiões altamente valorizadas da paulistéia e que, para surpresa de ninguém, os membros da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) montada na Câmara Municipal de São Paulo para investigar os incêndios em favelas são financiados por empresas ligadas à construção civil e ao setor imobiliário. 

Onde houver tatu, haverá uma agulh a. Enfim, do medo das massas umbilicalmente ligado à revolta contra a revolta nasce o ovo-da-serpente do protofascismo expressado em gritos raivosos de "vagabundo tem que apanhar mesmo", "bandido bom é bandido morto" ou, pior, "direitos humanos para humanos direitos

segunda-feira, 12 de março de 2012

Cai Ricardo Teixeira

Teixeira no perfil da Piauí: o começo do fim
E sediar a Copa do Mundo, por vias tortas, deixou a sua primeira herança bendita para o Brasil: Ricardo Teixeira, presidente da CBF, renunciou ao cargo. O controverso Teixeira, oligarca de primeira hora do futebol brasileiro, deixa um legado que pode parecer ambíguo a um primeiro (e desatento) olhar, mas que, na verdade, é pouco equívoco: sua importância histórica é o de ter sido o condutor da erosão do futebol brasileiro, parasitando sua potência cultural no processo que o tornou esse pastiche mercantil.

Nada de má consciência, o problema de Teixeira não está em ter sido, como dirigente, um mau exemplo para a cristandade, mas de ter levado a cabo um processo que, com desvios morais ou não, foi politicamente desastroso para o país e para o futebol. Foi pôr o Brasil em função de um mercado internacional inclemente, como mero exportador, enfraquecendo os clubes e tornando a Seleção uma marca qualquer que, de amistoso caça-níquel a amistoso caça-níquel, se converte em um fantasma.

A problemática da realização da Copa no Brasil, atrasos de obras, ameaça de uso do seu poder para prejudicar jornalistas e determinados órgãos da mídia que não lhe eram simpáticos e afins,  o levaram a inesperada queda. E não preciso muito: Dilma não fez força para que caísse, mas também não lhe serviu de arrimo, coisa que Lula, por uma infinidade de motivos, fez. E isso foi o suficiente para que Teixeira, que balançava desde os anos 90, caísse.

Se era um velho sonho de Lula trazer a Copa para o Brasil, o que o fez aturar Teixeira por tanto tempo, o custo disso para o derretimento do futebol brasileiro foi altíssimo. E Teixeira, achando-se o dono da situação e ameaçando a todo momento melar a competição, morreu como peixe, pela boca: ele achou pairar sobre os interesses econômicos da Copa, quando ele próprio tornou-se um problema, amplamente denunciado pela imprensa internacional e falando pelos cotovelos como na épica entrevista à Piauí.

Sua saída, alegando motivos de saúde, e a posse de José Maria Marin, malufista de carteirinha, ex-governador de São Paulo nos anos 80 - tendo assumido brevemente no lugar de Maluf, de quem era vice -, se não é animador, também não marca qualquer tipo de rearticulação da ordem, mas sim uma solução tampão.Agora, mais do que nunca, o horizonte de possibilidades em relação à democratização do futebol brasileiro se reabre. Ela certamente não virá dos céus, como a queda de Teixeira, não veio, mas é o cenário mais favorável em tempos. Embora a luta seja bem dura.




sexta-feira, 23 de julho de 2010

Atualizado depois da Teixeirada --> Seleção: Muricy Ramalho é o técnico (ou não)





Honestamente, achei uma escolha surpreendente. Pelo que se avizinhava, Mano Menezes era o favorito - desde o momento em que Felipão recusou a proposta. Muricy, seja pela postura independente ou por não estar no auge de sua carreira  - embora ensaie uma recuperação nessa remontagem do Fluminense, ora líder do nacional - não me parecia o nome predileto da CBF pelos motivos errados e pelos certos. Sim, trata-se de um dos três técnicos mais vencedores do futebol nacional nos últimos dez anos, numa lista que tem, claro, Felipão e Luxemburgo, mas ainda assim não era meu palpite nem o meu nome favorito.


Depois de um começo ali pelo São Paulo nos anos 90, certas turbulências o fizeram ir para do Guarani, por onde passou em 97, para em seguida embarcar para a China. Votou treinando equipes do interior paulista até que em 2001 foi para o Náutico de Pernambuco, no ano do centenário daquele tradicional clube recifense, onde iniciou a guinada na sua carreira. Foi bicampeão pernambucano tirando o Náutico da lama, teve uma passagem boa pelo Figueirense no Brasileirão de 2002, livrando-o do rebaixamento certo, foi para o Inter em 2003, onde foi campeão gaúcho, mas pediu demissão por não emplacar uma boa campanha. No São Caetano em 2004, comandou uma recuperação inacreditável no Paulistão daquele ano e foi campeão - e ficou entre os oito melhores da Libertadores, mas acabou injustamente demitido. Voltou para o Inter no mesmo ano fazendo boas campanhas, ganhou o Gauchão em 2005 e só não levou o Brasileirão do mesmo ano por conta do famoso escândalo de arbitragem envolvendo Edílson Pereira de Carvalho, que fez vários jogos serem repetidos, prejudicando seu time.


Em 2006, assumiu o São Paulo campeão mundial no ano anterior, abrindo uma nova página na sua carreira. Perdeu um Paulistão - jogado em pontos corridos em turno único (?!) - pela ressaca que o time vinha, depois de ter levado o Mundial e, depois, perdeu a Libertadores, na final, em um épico duelo tático com Abel Braga. Muricy se recupera no Brasileirão daquele ano, mantendo a base tática herdada de 3/5/2, zaga bem postada, marcação, forte e jogadas rápidas pelas alas e foco na bola parada - foi um passeio. Em 2007, acabou eliminado do Paulistão pelo invocado - e surpreendente - São Caetano de Dorival Júnior e perdeu para o operário Grêmio de Mano Menezes nas oitavas da Libertadores - novamente, se redimiu no Brasileirão, mostrando que sabia jogar como ninguém um torneio longo, estilo maratona, com todas as peculiaridades que bem conhecemos, novo passeio e segundo título seguido pelo tricolor.2008, o filme se repete, eliminação no Paulistão para o Palmeiras/Traffic de Luxemburgo e derrota na Libertadores para outro time brasileiro, o Fluminense de Renato Gaúcho nas quartas, nova recuperação no Brasileirão e, contra tudo e contra todos, leva o nacional pela terceira vez. 2009, é eliminado do Paulista pelo Corinthians de Mano Menezes e é eliminado a Libertadores para o Cruzeiro de Adílson Baptista - desta vez, no entanto, é demitido pela diretoria são-paulina, pelos atritos com o presidente Juvenal Juvêncio e pela sua  incapacidade de vencer torneios eliminatórios - ainda que eu discorde de sua demissão durante o Brasileirão do ano passado.


Depois da sua saída do São Paulo, Muricy, acaba recebendo proposta pública do Presidente do Palmeiras, recusa e, semanas mais tarde, acaba voltando atrás. Assume o time em primeiro lugar, mas algumas declarações anteriores - bem como sua recusa - fizeram-no assumir o time num clima ruim - num ambiente altamente delicado -, o que se agravou com sua postura distante dos jogadores: O Palmeiras perdeu o campeonato mais vencido de todos os tempos, não conseguindo, sequer, classificação para a Libertadores. Mesmo assim, permaneceu no cargo para 2010, mas acabou perdendo definitivamente o controle do elenco no Paulistão e caiu ainda no meio da Primeira fase. Meses depois, ele retorna a um clube brasileiro, promovendo uma reestruturação no Fluminense, sendo ainda eliminado da Copa do Brasil pelo Grêmio de Silas. Ainda assim, conseguiu o recuperar o time para o Brasileirão deste ano e, por ora, lidera o torneio.


Creio que o auge da carreira de Muricy foi em 2006, a partir dali, se seguiu uma estabilidade: Embora ele não tenha conseguido crescer mais - isto é, fazer sues times terem mais sangue em jogos eliminatórios ou saberem jogar atacando -, ele se manteve no mesmo nível. Sua passagem desastrosa pelo Palmeiras, apesar de todos os problemas do clube e o fracasso do bom time montado no começo do ano passado, também teve responsabilidade sua, admita ou não. Seu trabalho no Fluminense ainda é muito recente para qualquer avaliação. O melhor nome, ao meu pensar, era o de Mano Menezes, o melhor copeiro que apareceu no futebol nacional desde Felipão. Não foi. Ele terá um desafio muito grande pela frente, se a cobrança em cima de um treinador da Seleção já é absurda, o encarregado de conduzir o time para um Mundial em relação ao qual seremos sede terá de suportar a mesma pressão, no mínimo, dobrada. Não sei até que ponto Muricy pode funcionar nesse contexto.


Atualização das 17:30: Como Mauro Betting bem colocou, Muricy é o ex-novo técnico da Seleção Brasileira. E não, não foi um passa-moleque que a imprensa - ou o humilde blogueiro que vos escreve - tenha tomado, mas sim da fanfarronice de Ricardo Teixeira, o glorioso ditador presidente da CBF que anunciou publicamente seu nome sem que Muricy tenha aceitado formalmente (?!). Depois de tudo o que aconteceu na Copa da África, nuvens turvas acenam no horizonte para a Copa do Mundo do Brasil. Aguardemos o desenrolar da novela. Muricy, claro, também tem suas responsabilidades nessa conversa toda, assim como no caso do Palmeiras ano passado. Ele só deveria ter negociado, caso tudo estivesse certo entre ele e o Fluminense.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Notas da Copa: O Balanço

Terminou ontem o mundial da África do Sul, primeira Copa do Mundo a ser disputada em solo africano, com direito a final e campeão inédito - além de um trilha sonora peculiar ao som de vuvuzelas e com jabulanis voando por aí. O título, em mãos espanholas, não foi surpreendente. Muito embora não tenham apresentado até o atual torneio um bom desempenho em Copas, a Fúria teve um quadriênio altamente positivo e agora junta ao título europeu, o título mundial - a última vez que isso aconteceu foi com a França de Zidane que, em situação inversa, venceu o Mundial de 98 e depois a Euro 2000. A Espanha foi mesmo o melhor time da Copa e, ainda que não supere o Brasil de 2002, é uma equipe bem melhor do a Itália de 2006. Na média, esse mundial foi melhor que os dois últimos, ainda que bem inferior ao de 1998 disputado na França e vencido pela seleção local.

O título ficou na mão das quatro melhores seleções dos últimos anos: Brasil, Espanha, Alemanha e Holanda eram as equipes que, salvo uma escorregada ali ou acolá, davam mostras de firmeza. O ponto é que enquanto muito se espera de brasileiros e alemães, escolas historicamente bem-sucedidas em mundiais, espanhóis e holandeses sempre levaram a pecha de frustarem suas torcidas, seja por jogarem menos do que podem ou, mesmo jogando bem, não consiguerem ser suficientemente decisivas. Isso mudou. O Brasil foi eliminado pela Holanda - em um jogo das quartas de final que praticamente decidiu um dos finalistas - e a Alemanha perdeu para a Espanha numa semi-final. Na decisão, deu Espanha contra um futebol holandês que, muito embora não tenha levado sua melhor geração para a Copa, aprendeu a jogar para ganhar.

Italianos e argentinos vinham mal antes da Copa, mas prometiam surpreender, seja pela tradição ou pela animação - em especial da Argentina que levou no banco de reservas, como treinador, seu maior ídolo dentro das quatro linhas, Diego Armando Maradona. Ambas fracassaram. A Itália pelo esgotamento do seu futebol defensivista além de uma dificuldade muito grande de se renovar e a Argentina pela dificuldade de ser algo mais que um amontoado de bons jogadores - o que somado aos problemas na defesa, provocaram um desastre. O Uruguai foi o destaque positivo do torneio. A Inglaterra foi outro destaque negativo; as dificuldades do time jogar de forma séria enquanto Seleção, a previsibilidade tática e a arrogância de alguns atletas foi fatal. A França, time que historicamente vive ciclos onde ora está entre os melhores, ora nem entre o segundo escalão consegue se manter, manteve sua média e foi um desastre. Portugal caminha para voltar a ser o mero coadjuvante de sempre.

Depois de anos ensaiando voltar com dignidade para o cenário das disputas mundiais, o Uruguai fez uma grande Copa do Mundo e ficou em quarto lugar. Para um equipe que nos últimos anos encontra dificuldades absurdas para chegara à Copa, foi maravilhoso vê-los finalmente se acertar e desfilar em campos africanos um ataque como Cavani-Suárez-Forlán. Os paraguaios, sempre subestimados e desdenhados na América do Sul, mantiveram seu futebol de forma ascendente cravando, desta vez, um vaga nas quartas de final vendendo cara a derrota para a futura campeã mundial Espanha. Enquanto os africanos foram mal, se estagnando pela ausência do desenvolvimento de um estilo de jogo próprio - salvo Gana, que foi muito bem nas mãos do sérvio Milovan Rajevac -, os outros foram mal. Dos asiáticos, o mais notável foi a evolução do Japão que se continuar como vai, chegará muito bem no Brasil em 2014 - os coreanos do sul se mantiveram meio que na mesma e a Coreia do Norte sentiu o peso de um mundial.

Aqui n'O Descurvo, cobrimos - isto é, eu e minhas várias personalidades - a Copa de forma incansável e ensandecida. Termino com a Seleção da Copa, no esquema da Copa, o 4/2-3/1, só com um pequena variadinha na frente para se fazer justiça - já adianto: Forlán e Villa se alternando como ponta-esquerda e centroavante para se fazer jus aos dois que brilharam pela ponta num mundial no qual os centroavantes não chegaram a estourar.

1-Casillas (Espanha)_ Na Hora que o bicho pegou foi decisivo, não teve culpa alguma nos dois gols que tomou. [reserva: Neuer (Alemanha)]
2- Maicon (Brasil)_ Não comprometeu na defesa e arrebentou no ataque, foi o melhor do time brasileiro. Pena não ter continuado no mundial. [reserva: Lahm (Alemanha)]
3- Lugano (Uruguai)_A velha categoria de sempre somada à disposição física, sua ausência foi sentida no jogo da eliminação. [reserva: Lúcio (Brasil)]
4- Puyol (Espanha)_Garra, disciplina tática e muita, muita fome de vitória. Foi uma boa surpresa e uma boa mostra de como a vontade serve para superar muitas deficiências no futebol. [reserva: Mertesacker (Alemanha)]
6-Fábio Coentrão (Portugal)_ Numa Copa na qual poucos se destacaram pela posição, foi seguro na defesa e apoiava muito bem. [reserva: Salcido (México)]
5-Khedira (Alemanha)_ Grande marcador e ainda sabia sair jogando. [reserva: Busquets (Espanha)]
8- Xabi Alonso (Espanha)_Toque de bola refinado somado a disposição tática. Um craque. [reserva: Schweinsteiger (Alemanha)]
10-Sneijder (Holanda)_É um camisa dez descomunal, sabe distribuir o jogo, fazer lançamentos e ainda chega bem na frente. [reserva: Ozil (Alemanha)]
7- Thomas Müller (Alemanha)_Foi a revelação da Copa, jovem, veloz e com grande capacidade de definição, fez muita falta na semi contra a Espanha. [reserva: Robben (Holanda)]
9-Forlán (Uruguai)_Que jogador, ofensivo e dono de uma categoria ímpar. [reserva: Klose (Alemanha)]
11- David Villa (Espanha)_ Ainda que não tenha brilhado nos dois últimos jogos, foi simplesmente decisivo em todo o resto. O craque do time espanhol. [reserva: Tevez (Argentina)]

Técnico: Milovan Rajevac (Gana)_Soube como trabalhar com as necessidades do time africano, mexendo no time de acordo com o jogo. [auxiliar: Gerardo Martino (Paraguai)]
Árbitro: Carlos Eugênio Simon (Brasil)_Apitou dois jogos e foi perfeito neles. Voltou à velha forma na Copa e merecia ter apitado a final.

Por fim, fica o agradecimento a todos que visitaram, comentaram ou xingaram o blog desde o começo da Copa, foi um período bem legal ;-)

domingo, 11 de julho de 2010

Notas da Copa: Espanha campeã

(foto retirada daqui)

A Espanha foi campeã mundial hoje na final contra a Holanda. 1x0. Jogo duro, marcado, parelho como já era de se esperar. Foi o melhor jogo da Holanda na Copa, embora ela tenha batido - e batido muito. A Espanha, novamente, jogou muito bem, desfilando sua excelência técnica e, em muitos momentos, demonstrava uma vontade de vencer sem par neste Mundial. Vontade. Acho que essa foi a palavra chave para o título mundial dos espanhóis, mais do que o equilíbrio do time e sua qualidade técnica. Vontade, fome de vitória, disposição. Isso explica porque mesmo uma defesa com sérias limitações como a sua fez uma copa dessas. Como o meio desfilava em campo. Como o ataque, mesmo longe do brilhantismo da Euro 08, se superava.

No jogo de hoje, a Holanda encaixou perfeitamente a marcação: Van der Wiel marcava Pedro, um Villa, novamente como centroavante, se perdia no meio dos esforçados Heitinga e Mathijsen, Van Bronckhorst marcava de perto Iniesta, De Jong e Van Bommel marcavam Xavi e Xabi Alonso. Tudo isso para deixar Sneijder e os três atacantes jogarem. Mesmo com um bom início espanhol, uma boa defesa de Stekelenburg, a Holanda equilibrou o jogo devagarinho e chegou pouco a pouco perto do gol, demonstrando a inteligência que lhe colocou na final. Se sobrava engenho, lhe faltou arte. O primeiro tempo vira 0x0 sem o dez laranja brilhar, com Robben perdido pela direita, Van Persie perdido em meio aos zagueiros e Sergio Ramos dando tamanho baile em Kuyt que chegava a conseguir subir ao ataque. A Holanda, no entanto, se afobava em lances bobos e tomava amarelos às pencas.

O jogo recomeça no Segundo Tempo com a mesma tônica. Times encurtando o gramado. A Holanda fazendo muito bem linha de impedimento. Navas no lugar de Pedro fazendo às vezes de ponta direita deu novo gás ao jogo espanhol. Iniesta cresceu. Villa continuava mal - talvez o grande erro de Vicente del Bosque foi insistir com ele como comandante de ataque. Sneijder não aparecia muito, mas quando aparecia, era cortante. As duas melhores chances do segundo tempo foi uma enfiada de bola genial de Sneijder para Robben perder - sim, foi ele que perdeu, apesar da boa saída de Casillas, grande Casillas -, depois o ponta-direta perdeu lance parecido, ganhando na correria dos zagueiros espanhóis para perder na cara do gol. Fim do tempo normal, prorrogação. Jogo igual. O técnico holandês resolve ousar botando Van der Vaart e transformando assim seu 4/2-3/1 num 4/1-3/2. Foi a primeira vez que Bert van Marwijk pareceu um técnico holandês na Copa. O time saiu para ganhar, correndo o risco de tudo perder - e foi o que aconteceu: Heitinga tomou o segundo amarelo, arrebentou com o esquema e a Espanha começou a ameaçar mais, até que Iniesta fez, no segundo tempo da prorrogação, o gol do título. Título espanhol.

Honestamente, continuo não achando a Espanha um super-time - ela assim como a Itália de quatro anos atrás não foram melhores do que o Brasil de Felipão, que mesmo não sendo nenhum esquadrão, foi um excelente campeão, nem muito menos que a França de 98, só pra ficar em campeões recentes. Ainda assim, a Espanha é de fato o melhor time do mundo. Não brilhou tanto aqui quanto na Euro, mas venceu com méritos e o título, apesar das dificuldades, nunca saiu muito da sua mão.

sábado, 10 de julho de 2010

Notas da Copa: Análise da Final























Amanhã, às 15:30, horário de Brasília, Holanda e Espanha disputarão a final da Copa do Mundo. Como já dito aqui é uma final inédita em vários sentidos.Tratam-se de duas importantes escolas do futebol europeu que fracassaram em decisões ao longo do tempo. A Espanha, sem dúvida, muito mais que a Holanda. Essa é a primeira final espanhola contra a terceira final holandesa. Ambas fizeram campanhas lapidares nos últimos quatro anos, sendo que a Espanha, inclusive, é a atual campeã europeia, enquanto a Holanda tombou nas quartas-de-final daquele torneio.



A Espanha sempre pagou o preço das suas intempéries  políticas, seja do seu processo de unificação ou, mais especificamente, quando o grau de violência teve uma escalada ímpar a partir da sanguinolenta Guerra Civil dos anos 30 que resultou em décadas de um regime fascista, cuja existência tardia se sustentava em um nacionalismo madrilenho que oprimia as diversas outras etnias que vivem em seu território. As feridas permaneceram e permanecem em aberto, com muitas vezes o futebol servindo para a afirmação política de certos grupos. Durante o fascismo, o único modo dos catalães expressarem sua cultura era torcendo e financiando o Barcelona. O Real Madrid, era o time que simboliza o poder central. A rivalidade entre ambos, superava, certamente, o que havia nas quatro linhas e se refletia na possibilidade de existir um time unificado da Espanha que funcionasse. Ainda que a duras penas e de modo acidentado, a integração entre as várias nacionalidades que vivem em território espanhol evoluíram sob a égide das eleições livres, do europeísmo e de progressos - ainda que questionáveis - nos instrumentos políticos de respeito às culturas locais. A base desse time espanhol é o Barcelona e boa parte desses jogadores são catalães. Nem o Barça, perdeu sua função junto à nação catalã, mas, de modo impensável, anos atrás, serviu de base para a seleção espanhola.


A Holanda, por sua vez, não era um futebol relevante na Europa até os anos 70. Muito embora não se tenha notícias de grandes conflitos internos no país, ele foi um dos que mais sofreram durante a Segunda Guerra Mundial. Sua destruição quase que total marcou o surgimento de um novo país, no qual, antes e mais do que qualquer outro país europeu, cresceu uma cultura laica e progressista - a Holanda foi o primeiro país onde houve algo que se pudesse chamar de tolerância religiosa e muito da sua organização político-social influenciou o que veio a ser os Estados Unidos, essas mudanças nada mais fizeram do que contemplar algo que estava em suas origens. O futebol holandês se destaca quando da revolução tática e física pela qual passou o futebol europeu; mais do que a evolução da medicina esportiva e da tecnologia, esse salto se deu sob o impacto da superioridade técnica que a Seleção Brasileira desfilou nos gramados em 70. A partir dali, o futebol nunca mais foi mesmo. E os holandeses saíram na frente. O time de Rinus Mitchel era algo muito a frente de seu tempo e, infelizmente, perdeu duas decisões contra os dois anfitriões - respecitivamente Alemanha Ocidental em 74 e Argentina em 78.


Time por time, o retrospecto nos últimos quatro anos é bastante alto: O espanhóis chegaram à Euro 08 com 77% de aproveitamento, foram campeões daquele torneio empatando apenas um jogo - contra Itália, a quem derrotou nos pênaltis -, mas foram eliminados pelos EUA na semi-final da Copa das Confederações, ficando com o terceiro lugar do torneio. Venceram todos os jogos das eliminatórias da Copa. Agora, na África do Sul, sofreram um  revés inesperado logo na primeira rodada, na derrota para a Suíça (1x0), mas venceram os outros cinco jogos - ainda que só um por mais de um gol, contra Honduras (2x0) -, fez 7 gols e tomou 2. A Holanda se classificou para a Euro 08 com 72% de aproveitamento - mas ficou em segundo lugar no seu grupo, atrás da Romênia, a quem superou no seu próprio grupo na Eurocopa -, venceu todos os jogos da primeira fase na Eurocopa, mas sofreu uma inexplicável derrota para a Rússia de Arshavin nas quartas-de-final (3x1). Nesta Copa venceu tudo que disputou, marcando 12 gols e tomando 5.


O time espanhol, na atual Copa jogou todos os jogos no 4/2-3/1, alternando mais para um 4/3/3 do que para  um 4/5/1. Casillas foi o goleiro, perfeito no gol, tomando apenas quando da falha de Piqué contra a Suiça e de um chute de fora da área do Chile - que resvalou ainda na zaga -; Sérgio Ramos e Capdevilla são os laterais e compensam suas limitações jogando para o time e atuando na marcação, no miolo de zaga, Piqué e Puyol fazem o mesmo e ambos têm jogado melhor do que poderia se imaginar. Busquets foi o primeiro-volante de forma sóbria enquanto Xabi Alonso - alternando como um segundo-volante e um meia-armador - e Xavi - o maestro do time - marcaram o compasso da equipe com boa qualidade no passe, disciplina tática e ofensividade. Na frente, tivemos uma configuração consideravelmente mais rotativa, sempre da direita para a esquerda como centroavante no meio, contra a Suíça o ataque foi Silva-Villa-Iniesta, contra Honduras Navas-Torres-Villa, contra o Chile Iniesta-Torres-Villa, nas oitavas no clássico contra Portugal o time alternou um pouco no 4/4/2, mantendo Iniesta-Torres-Villa e recuando o primeiro para o meio de vez em quando, contra o Paraguai novamente Iniesta-Torres-Villa e, por fim, no jogo contra a Alemanha Pedro entrou pela ponta-esquerda para tirar a responsabilidade de Villa acompanhar Lahm, deixando-o no comando de ataque - onde não rende tão bem -, enquanto Iniesta repetiu a função de ponta/exterior-direito do jogo contra Portugal. A experiência mostra que o ataque mutável e mutante da Espanha dependeu demais de Villa, o time cria, cria e cria, mas depende na maior parte das vezes da conclusão ou da assistência do atacante - a exceção à regra é o último jogo - e ele rende bem melhor como ponta-esquerda, vindo de trás e entrando em diagonal. Se Fernando Torres seria uma escolha lógica para centroavante, sua atual fase o desabilita a tanto. Iniesta, ainda que não tão cortante pela direita, traz mais inteligência para o ataque. Fala-se que Vicente del Bosque irá entrar com o mesmo ataque do jogo passado - Iniesta-Villa-Pedro -, mas não me parece muito certo. A equipe, via de regra, está apresentando mais estabilidade defensiva do que poderia se supôr, o meio apresenta um toque de bola refinado, mas o ataque está dependendo demais das atuações individuais de Villa - que, quando não anotou, criou problemas.


A Holanda, inventora do 4/2-3/1 joga nesse sistema como ninguém, só que com que uma proposta muito mais operária do que ofensivista - como ainda era há dois anos atrás. Nada de perder jogando bonito, o objetivo é levar a Taça - essa é proposta de jogo de Bert van Marwijk. Stekelenburg faz uma boa Copa, apesar das falhas do último jogo contra o Uruguai, mas não tem uma defesa tão segura quanto a de Casillas. Pelas laterais, Van der Wiel sempre foi sóbrio na marcação, sem mais ímpetos ofensivos - mas teve sérias dificuldades contra Robinho, no primeiro tempo contra o Brasil - e Boulahrouz é o mesmo, Van Bronckhorst pela esquerda compensa suas limitações com sobriedade e experiência e fez um golaço contra o Uruguai, no miolo de zaga, a velha prática - nem sempre bem-feita - de fazer linha é a marca de defensores baixos, sem muita impulsão e que já falharam bastante neste Mundial: os titulares foram Heitinga e Mathijsen, mas Ooijer jogou contra o Brasil. No meio, De Jong e Van Bommel são os dois cães de guarda e suas atuações tem sido eficientes, mas nada espetaculares. Sneijder é o diferencial do meio - e do time: Meia completo, sabe como ninguém armar o jogo, distribuir a bola, fazer lançamentos e ainda chegar de trás como um meia-atacante. No ataque, Robben voltou, atuando bem pela ponta-direita, mas fazendo lances surpreendentes e gols, junto com ele jogam Van Persie, que faz o mais uma função de pivô do que de centroavante e Kuyt, pela ponta-esquerda, que compensa a falta de técnica com muita entrega em campo.


Ainda que o desempenho holandês nesta Copa seja melhor do que o da Espanha, sinto mais firmeza do time ibérico. Quando ele realmente precisou jogar, ele jogou - e venceu. Isso não quer dizer que a Holanda não tenha jogadores que não possam desequilibrar, mas no conjunto, a Espanha vence. O problema, claro, mora no fato que até agora ninguém parou Sneijder e Robben e que os gols laranjas não dependem apenas dos pés deles - enquanto a Espanha prossegue com seus problemas ofensivos e a dependência do excepcional David Villa. A aposta d'O Descurvo é na Espanha - ainda que o futebol holandês mereça muito um título mundial, não sei se o time atual faça jus a tanto.


P.S.: Decisão de terceiro lugar sempre é complicado, a Alemanha é muito mais time, mas o Uruguai está mais animado. Pela prostração do time alemão ao fim do jogo contra a Espanha, eu fico mais com o Uruguai.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Notas da Copa: Espanha e a Final Inédita

(Puyol vibra - Marca)

A Espanha se classificou à final da Copa. Será uma final inédita que nos dará um campeão mundial inédito. Nenhuma novidade quantos aos dois classificados, afinal de contas, são duas das quatro equipes do grupo de seleções que mais se destacou nos últimos quatro anos - junto com a Alemanha e o Brasil, eliminados, certamente não à toa, pelos dois finalistas, muito embora o prognóstico apontasse para um ligeiro favoritismo dos dois derrotados. Não, eu não julgava a Espanha favorita para o jogo de hoje e o mesmo - em maior grau, é verdade - da Holanda em relação ao Brasil. Mas a graça do futebol é essa.

A Espanha, vitoriosa hoje, estreou com derrota para o potente ferrolho suíço, recuperou-se sem brilho contra Honduras, sofreu para derrotar o Chile e bateu Portugal e Paraguai mais apertado do que poderia se supor - o time mostrou brilho, leveza, elasticidade, mas sua defesa assustava e seu ataque mostra pouca qualidade de concretização. Hoje, as coisas foram diferentes, ainda que o placar mínimo frente à Alemanha iluda, a Fúria fez seu melhor jogo na Copa, encaixou a marcação em cima de um time que sabe atacar e soube articular jogadas contra um time que sabe se defender. Até o jogo de hoje, a Espanha parecia mais uma equipe que joga um belo futebol, mas depois, se afirmou como um time campeão.

No entanto, a Alemanha, sem Müller, suspenso, teve uma perda maior do que a ausência de seu ponta-direita: A mudança do seu esquema para o 4/4/2 lhe fez mal, tirando boa parte da força ofensiva com a qual ela marchou sobre a Inglaterra e a Argentina. Hoje, foi diferente. Mesmo a boa marcação sobre a Espanha no primeiro tempo esbarrava numa incrível ausência de jogadas pelas pontas, justamente onde morava sua força. Por outro lado, a estrela de Casillas brilhou novamente, a defesa espanhola jogou bem. Xavi e Xabi Alonso brilharam especialmente hoje. O mesmo se pode dizer de Iniesta. Villa esteve um pouco abaixo da média, Pedro estava nervoso. Mas Puyol foi heroico com sua planada no escanteio perfeitamente batido por Xavi. Foi o diferencial de um jogo profundamente equilibrado.

Na decisão, pegamos uma Espanha que vinha derrapando, mas quando precisou, mostrou firmeza.Muita firmeza. Do outro, uma Holanda que entre erros e acertos, venceu todos os jogos com suas falhas passando batido - e, sobretudo, suas jogadas de ataque acertando, cirurgicamente, o calcanhar de Aquiles do rival. A Espanha me parece mais inteira, mas futurologia e prognósticos não são comigo, mas com esse polvo-profeta que dizem que existe por aí - hoje, ele me venceu, não tenho esperança alguma em vencer caso ele diga o contrário.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Notas da Copa: Holanda na Final

(será?)

Hoje, a Holanda de Bert van Merwijk chegou à final da Copa ao derrotar o bravo Uruguai por 3x2. O futebol da Laranja se mostrou, novamente, mecânico, nem tanto por qualquer referência a certa agressividade kubrickiana, mas sobretudo pela maneira previsível e amarrada que joga. Trata-se de um autômato com pouco originalidade. As mesmas falhas do seis jogos anteriores que não foram bem aproveitadas por nenhum dos seus adversários: Todos derrotados - inclusive o Brasil. O Uruguai de Oscar Tabárez bem que tentou, mas errou mais do que o rival e, muito embora tenha lutado bravamente, caiu.

A Celeste Olímpica entrou sem o centroavante Suárez, o que levou a uma mudança de esquema: Saiu o 4/2-3/1 entrou o 4/4/2 com duas linhas, onde Gargano reforçou o meio, liberando asim Forlán e Cavani para o ataque. A Holanda manteve exatamente o mesmo esquema de sempre, seu 4/2-3/1, com um novo espírito operário, fruto da filosofia de seu treinador e de uma inquietação de seu país por nunca ter levado a Copa - o que se explica também pela própria composição do elenco: Apesar de equilibrado nos setores, apenas Sneijder e Robben são capazes de brilhar.

A Holanda impôs seu ritmo de jogo sobre um assustado rival e abriu o placar: Chutaço de Van Bronckhorst no ângulo de Muslera. Depois, seguiu o jogo morno, com os holandeses controlando o jogo frente a um rival que ia crescendo a medida que seus nervos iam se assentando, mas que ainda assim não conseguia aproveitar as muitas falhas da defesa adversária. No fim do Primeiro Tempo, Forlán, o craque uruguaio, se viu sem marcação na frente da área assim como viu um Sketenlemburg adiantado: O Uruguai empatou.

Na segunda etapa do jogo, o improvável acontecia com o Uruguai marcando a Holanda sob pressão e tomando a iniciativa do jogo. A Holanda mal conseguia contra-atacar. Mas de chance perdida em chance perdida, a Holanda foi reassumindo o controle do jogo. o 4/4/2 em linha quando confrontado com o 4/2-3/1 produz coisas interessantes, mas acaba reduzindo o meio de campo há dois homens de cada lado, na medida em que os exteriores de um avançam e os pontas do outra fazem o mesmo - restando ainda um volante que faz a sobra -, o que é minimizado com equipes descansadas reduzindo o campo, mas que fica exposto na Segunda Etapa.

O Uruguai não conseguiu virar, mas a Holanda, em um contra-ataque estranho, retomou a dianteira do placar com Sneijder chutando, a bola desviando na zaga e com o impedido Van Persie atrapalhando Muslera. 2x1. A Celeste sente o gol e a Holanda em contra-ataque pela esquerda e o esforçado Kuyt centrou, como um ponta das antigas, para Robben, sem precisar pular, cabecear e fazer 3x1. O jogo seguiu em banho-maria até que nos acréscimos, o Uruguai, que parecia morto, descontou em belo chute de Maxí Pereira. Por incrível que pareça, os últimos cinco minutos de jogo foram incrivelmente disputados, mas não deu, nada de empate. A Holanda chegou a sua terceira final de Copa.

Honestamente, o time de Van Merwijk, ainda que represente uma das melhores escolas da Europa e venha jogando bem há quatro anos, não me encanta muito nesta Copa. Não é uma questão do time jogar um futebol de resultados, muito pelo contrário, já era mesmo da Holanda largar mão do preciosismo e equilibrar mais seu time, o ponto aqui é o quanto a Holanda erra por jogo e depende de algum lance de efeito de Sneijder e Robben que, por ora, deitaram e rolaram sempre em cima da desatenção das defesas adversárias e não por mérito próprio. A defesa erra muito também. Amanhã, Alemanha e Espanha farão o grande jogo das semi-finais - há quem fale em final antecipada e eu não duvidaria disso -, mas será que a injustiça se inverterá e uma das piores holandas que eu vi jogar romperá com a sina dela ser a seleção mais injustiçada da história das Copas?

domingo, 4 de julho de 2010

Notas da Copa: Análise do Brasil


O Brasil venceu três jogos, empatou um e perdeu o outro. Ficamos na sexta colocação da Copa com a eliminação nas quartas de final com 10 pontos - portanto, dois pontos a menos do que a Argentina, três a mais do que Gana e quatro a mais do que o Paraguai. O time marcou nove gols e tomou quatro. Qualitativamente, a equipe fez uma estreia meramente razoável embora tenha vencido, cresceu muito na segunda partida e aproveitou mal o último jogo da primeira fase, quando já estava classificado. A partida contra o Chile nas oitavas marcou a retomada do bom futebol, o que durou até o intervalo do jogo contra a Holanda. O segundo tempo contra a Laranja foi o pior momento do Brasil em toda a Copa - e foi fatal.

Notas do último Jogo:

1. Júlio César: Falhou no primeiro gol e ficou desestabilizado. 4,0
2. Maicon: Bem marcado por Kuyt, ainda tenou bastante. 6,5
3. Lúcio: Em tese, cumpriu sua missão, que era marcar Van Persie, mas falhou, junto com o resto da zaga no posicionamento quando das bolas paradas. 5,5
4. Juan: O mesmo que Lúcio. 5,5
6. Michel Bastos: Marcou Robben melhor do que se esperava, mas em certos lances se afobou demais.  4,5
(16. Gilberto)  Entrou para marcar Robben e nem comprometeu nem acrescentou. 5,0
5. Felipe Melo: Uma bela enfiada de bola no lance do primeiro gol e um segundo tempo desastroso com direito a gol contra e expulsão. 3,0
8. Gilberto Silva: Sua marcação sobre Sneijder estava perfeita, até o time entrar em pane. 6,0
13. Daniel Alves: Realmente não conseguiu fazer a função de Elano. Errou quase tudo, por mais volutarioso que tenha sido. 3,5
10. Kaká: Bem marcado e sem condições físicas ideais, conseguiu ainda produzir dois lances de perigo contra o gol adversário. 6,5
11. Robinho: Fez o gol e um excepcional primeiro tempo. Depois, caiu com o resto do time. 7,0
9. Luís Fabiano: Perdeu a briga para a zaga laranja. 4,0
(21. Nilmar) Poderia ter entrado antes, tentou botar fogo no jogo. 5,5  
Nota Média: 5,11
T. Dunga:  O time estava bem distribuído em campo e tinha o controle do jogo no primeiro tempo, mas sofreu uma pane no intervalo. Substituiu bem, ainda que Nilmar pudesse ter começado um pouco antes. As ausências de Ramires e Elano fizeram a diferença. 4,5


Nota Média Geral e Avaliações:


1. Júlio César: Mostrou segurança ao longo da Copa, não teve culpa no gol contra a Coreia - embora pudesse ter abafado -, foi vítima da zaga no gol de Drogba, falhou no primeiro gol contra a  Holanda e não teve culpa no segundo. 6,2
2. Maicon: Foi o melhor jogador da equipe na Copa. Não deu brechas na marcação e apoiou com eficácia. Marcou o primeiro gol do time. 7,4
3. Lúcio: Demonstrou técnica, mas foi displicente nos lances dos gols em termos de posicionamento. 6,0
4. Juan: Marcou até gol, mas de resto foi igual a Lúcio. 6,1
6. Michel Bastos: Aposta arriscada numa posição que não deu muitas escolhas para Dunga, fracassou. 4,5
16. Gilberto: Pelas contingências, merecia ser o titular na lateral-esquerda, mas acabou entrando pouco. 5,0
5. Felipe Melo: Outra aposta arriscada, quando ia perdendo a posição, Ramires foi suspenso e acabou indo do céu ao inferno contra a Holanda. 4,2
18. Ramires: Entrou bem nos jogos da primeira fase, mas só ganhou a vaga de titular com a contusão de Felipe Melo. Quando ia dominando a posição, foi suspenso de maneira boba. 7,5
8. Gilberto Silva: Não chegou à Copa no seu auge, mas é de longe o melhor primeiro-volante revelado no futebol brasileiro desde a aposentadoria de César Sampaio. Se não ajudou tanto desta vez, também não comprometeu. 5,7
20. Kléberson: Entrou só no fim de um jogo.
7. Elano: Fez dois jogos muito bons, mas foi criminosamente tirado da Copa. 7,2
13. Daniel Alves: A verdade é que foi mal, sentiu a pressão de uma Copa e diminuiu. 4,4
10. Kaká: Duas Copas, uma em que ele foi traído por um grupo que jogou contra si, outra em que ele foi traído pela sua condição física. Lutou o quanto pôde e foi bem. 7,0
19. Júlio Bapstista: Só teve oportunidade fora de sua posição e foi mal. 4,0
11. Robinho: Jogou para o time e foi crescendo no decorrer da Copa, infelizmente a equipe parou antes de chegar no apíce. 6,8
9. Luís Fabiano: Foi fundamental contra a Costa do Marfim, funcionou contra o Chile, mas foi mal no resto. 5,9
21. Nilmar: Merecia mais oportunidades, entrou sempre no fim dos jogos para dar gás. 5,5

Dunga: Em termos gerais, foi vítima de uma entre-safra do futebol nacional e escalou o melhor que pôde. Falhou na armação do sistema de marcação no meio; na lateral-esquerda, fez o que pôde. Ainda foi prejudicado por contusões - provocadas ou não - e suspensões ao longo do torneio. 6,1

Média da Seleção no jogo a jogo: 5,702

Elas por elas, o nosso melhor jogador foi Maicon, afinal, Ramires só jogou um jogo e a parte final de outro.

sábado, 3 de julho de 2010

Notas da Copa: Alemanha e Espanha


(Schweinsteiger e Villa vibram)







A América do Sul colocou quatro equipes nas quartas de final, mas terá apenas um time seu na semi-final. Os três europeus passaram adiante. O único resultado que fugiu à normalidade foi a vitória holandesa diante de um Brasil que apagou no Segundo Tempo e tomou a virada. De resto, hoje assistimos à Argentina tomar uma goleada da Alemanha (4x0) e o Paraguai, valente, sendo eliminado pelo placar mínimo frente à Espanha. Os placares mais parecem ter sido invertidos. De qualquer modo, assistiremos agora à repetição da final da Euro 08 com o jogaço entre Alemanha e Espanha enquanto a Holanda, precocemente eliminada naquela ocasião, pegará o improvável Uruguai - uma boa equipe, mas que necessitará que o espírito do Maracanaço se abata sobre essa Copa.

Pela manhã, prevaleceu a bola cantada: A Alemanha, cuja jogada forte é pelas pontas, pegou uma Argentina, cujo calcanhar-de-aquiles eram as laterais. O conflito pelo domínio do meio, que eu esperava ser mais disputado, resultou numa vitória alemã, com demasiada facilidade. Foi assim que surgiu o lance do primeiro gol. Falta em cima de um ponta Podolski, falta cobrada pelo segundo volante Schweinsteiger e gol do outro ponta, Müller. Tentativa de reação do time argentino durante todo o primeiro, mas a boa zaga alemã salvava, enquanto o quarteto Di Maria, Messi, Higuaín e Tévez abusava da individualidade. Segundo tempo. Ou a Argentina fazia o gol de empate ou tomava o segundo. A Alemanha contra-ataca e faz 2x0. Ali o jogo acabou. O resto foi o desequilíbrio da Argentina resultando em mais dois gols germânicos com Klose se aproveitando para passar Ronaldo na artilharia das Copas. 4x0. Tristeza de Maradona.

Depois, Espanha contra Paraguai. Gerardo Martino, um grande técnico, armou bem a retranca paraguaia, fez seu time marcar sob pressão a Espanha mostrando a deficiência da defesa espanhola em saber sair jogando, chances iguais no primeiro tempo e um gol mal-anulado do seu time. A Espanha parece se restringir a Villa. O resto do time joga bem, mas se o seu camisa 7 não decidir, nada feito. O Paraguai teve a bola do jogo com Cardozo, mas a estrela de Casillas brilhou e ele defendeu o pênalti. Em seguida, pênalti para a Espanha defendido por Justo Villar. As equipes não quiseram administrar para levar para a prorrogação e partiram para fazer o que, na prática, seria um gol de ouro: Num gol chorado, ele, Villa fechou o placar. Passadas chances desesperadas do Paraguai, não convertidas pela falta de categoria dos seus atacantes, acaba o jogo.

Repeteco da final europeia. Para mim, os espanhois precisaram jogar tudo que não jogaram até agora. Os alemães denotam uma certa dificuldade contra times que sabem encaixar a marcação e ter volume de jogo, mas não contra equipes que se lançam ao ataque e, ao meu ver, eles têm tudo para conseguirem a desforra. Do lado de lá, a brava celeste, sem Lugano e Suárez, terá um confronto quase impossível contra a Holanda. Dois germânicos contra dois latinos, três europeus e um intruso sul-americano. As três melhores equipes da Europa contra o mais improvável sul-americano.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Notas da Copa: Uruguai classificado

(A Alegria de Forlán - El País de Motevideo)

Jogo tenso, disputado e equilibrado. O Uruguai, nos pênaltis, eliminou Gana após Muslera, à la Taffarel, pegar duas cobranças e de Suárez, no último minuto da prorrogação ter salvado um gol certo com a mão - resultando em um pênalti que foi parar no travessão. Foi, sem embargo, o jogo mais emocionante da Copa. O escrete de Oscar Tabárez, depois de uma difícil classificação para a Copa, é a equipe que encanta, se não pela técnica, pela disposição e espírito. Há muito o futebol uruguaio merecia isso, tem quarenta anos que o futebol daquele país - bicampeão olímpico quando as Olímpiadas eram o principal torneio futebolístico e vencedor de dois dos quatro primeiros mundiais - fora reduzido à mediocridade - ou menos do isso - e todos as tentativas de renascimento - a saber, no começo da década com a geração de Recoba - fracassaram. Dessa vez parecia ser igual, uma campanha pífia nas eliminatórias sul-americanas onde, ainda que o Equador não tenha conseguido se renovar, os uruguaios se viram ultrapassados pelos chilenos, um doído confronto na repescagem contra a Costa Rica e um grupo complicado na Copa - com a África do Sul anfitriã, o México em boa fase e a França vice-campeã mundial. Primeira colocação, vitória contra os sul-coreanos e, hoje, contra o time mais bem armado da Copa, vitória heroica. De Gana, a ausência de Ayew pesou e bastante. A Celeste Olímpica vai para uma semi-final na qual não é favorita, mas tem chances.

Atualização de 03/07 às 00:33: O Lance de Ontem


Notas da Copa: Brasil eliminado

(Júlio César em prantos - Reuters)

Eu vi o Brasil eliminar por duas vezes a Holanda em Copas. A primeira, quando tinha seis anos - e já me entendia por gente - com aquele gol de Branco. 3x2 apertado. Épico. Quatro anos mais tarde, já grandinho, vi o Brasil de Ronaldo, Dunga e Taffarel eliminar, nos pênaltis, aquele excelente time laranja treinado por Guus Hiddink. Isso foi uma desforra para a geração dos meus pais que viu aquela eliminação doída contra Laranja Mecânica, a legítima, em 74 - o time de Rinus Mitchel, o melhor produto da revolução tática e de preparação física pelo qual a Europa passou no início dos anos 1970. Hoje, foi o meu dia de ver o Brasil perder para o futebol holandês.

Tudo tem um lado bom, antes perder para a Holanda do que para as itálias ou franças da vida - para a segunda, vi duas vezes. Nada contra os países, mas sim em relação às suas escolas. Horríveis. Frias. Espero que o fracasso nesta Copa produza uma revolução em ambos os países e que, daqui a quatro anos, vejamos uma Itália e uma França jogando um futebol mais alegre. Muito embora a Holanda de 2010, do glorioso Bert van Merwijck, seja uma equipe que não necessariamente jogue um futebol tão bom quanto a Holanda poderia, ainda assim, trata-se de uma escola que há quarenta anos representa o melhor que o futebol europeu  produz, em termos técnicos e de inovações, portanto, suas vitórias são merecidas.

Aliás, o esquema 4/2-3/1 que todos jogam atualmente foi desenvolvido, ao que me conste, na Holanda do início dos anos 2000: Trazer de volta a figura dos três atacantes e do ponta - adaptando esta figura à dinâmica do futebol contemporâneo, transformando num jogador que varia do meio para frente conforme a necessidade do jogo. Podem existir outros exemplos, mas quem realmente deu relevo para o esquema foram os laranjas e o mesmo aconteceu também com o 3/5/2 e com o 4/4/2 - na forma que se popularizou no Brasil, não o inglês. A Holanda, mesmo com a vitória de hoje, ainda nos deve uma atuação consistente - e aqui não falo de "futebol-arte" que só existe na cabeça de alguns, mas de um futebol consistente mesmo.

Sobre o Brasil, a equipe a exemplo de 2006, chegou na Copa com os créditos do título da Copa América, da Copa das Confederações e de uma grande eliminatória. A diferença, é que em 2006 Parreira selecionou um grupo de jogadores que era fruto da communis opinio da imprensa esportiva - da rota e da sofisticada. Jogadores acima de qualquer suspeita, de qualquer crítica, mesmo chegando à Copa dez quilos acima do peso. Claro, as críticas vieram quando o óbvio se fez e Parreira se viu rifado por quem o insuflava: O vento mudou, a previsão foi-se junta. Dunga não, seu trabalho teve coerência interna ao longo do ciclo.

Não é porque agora o time perdeu um jogo - e Copas são particularmente traiçoeiras - que agora se deva fazer linchamentos. Primeiro, isso é um esporte, ainda que toda uma série de variáveis políticas e psicológicas faça com que as coisas saíam do controle. Depois, é necessário fixar os olhos no que realmente houve. O exagero nos superlativos é a característica mais patente da má crítica futebolística. A Seleção não estava jogando o melhor futebol, mas não era a pior equipe, alternou momentos, mas os seus piores se concretizaram no jogo de hoje. Isso difere consideravelmente da eliminação para a França há quatro anos. Ali, havia uma linha de coerência entre o que deu errado e a forma como se deu o desfecho.

O Brasil venceu com nervosismo a Coreia do Norte, cresceu contra Costa do Marfim num mata-mata antecipado - e sofreu uma grande baixa, perdendo Elano, violentamente tirado da Copa -, jogou mal contra Portugal num jogo que poderia ter aproveitado melhor, jogou o firme contra o Chile e perdeu um jogo estranho para a Holanda: Num duelo contra uma das boas seleções da Europa, dominou o primeiro tempo, largou na frente, poderia ter definido logo aí, depois, num erro crasso da defesa levou o gol de empate no primeiro tempo e se abateu mortalmente...daí para nova falha e novo gol tomado foram dois passos. Invertemos o anátema, em 2006 foi uma farsa, 2010 foi uma tragédia.

Dunga fez suas apostas e acertou muito mais do que errou, seus erros, no entanto, coincidiram com a tragédia. A defesa, uma das melhores da Copa, foi displicente nos quatro gols que tomou na Copa. Hoje, tomou dois, quando sua média era o inverso disso. Felipe Melo sempre foi um erro, mas hoje, foi mais. Ramires, que poderia ter tomado a posição, tomou um amarelo burro contra o Chile. Michel Bastos, apesar dos pesares, não comprometeu contra Robben. Não foi sua falta que ocasionou o gol de empate, foi a saída errada de Júlio César e a afobação de Felipe. Robinho jogou muito.Como evoluiu esse jogador. Antes, era mais um sou-jovem-craque-risonho-que-faço-pose-para-foto - como Ronaldinho e Cristiano Ronaldo -, hoje, assumiu responsabilidades e aprendeu a ser sério. O mesmo se pode dizer de Kaká que mesmo com sérias limitações físicas fez uma grande Copa. De Maicon.

Enfim, foi uma pena. Que daqui para frente a Holanda jogue o que não jogou até agora e que o Brasil se prepare bem para daqui a quatro anos. A vida dos sul-americanos, como adiantava aqui ontem, não está fácil. Logo mais, o Uruguai terá um jogo difícil, embora seja favorito, amanhã, no meu entendimento, nem a Argentina muito menos o Paraguai o são. É evidente que estarei na torcida pelos três, em especial por Don Diego.

Atualização de 03/07 às 21:23: Fiz algumas alterações no texto para arrumar alguns erros de ortografia.