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sexta-feira, 22 de julho de 2011

A Crise no Império de Murdoch e a Mídia Brasileira

O magnata australiano Rupert Murdoch construiu um império de mídia ao redor do mundo nas últimas décadas. Jornais, canais de TV, tudo o que você puder imaginar. Naturalmente, sua influência política se fazia imensa: Se nas democracias representativas, cada vez mais previsíveis e consensuais, políticos têm prazo para exercerem o mando - e os desmandos também -, os barões de mídia, por outro lado, são eternos - parafraseando aqui o indispensável Oscar Wilde -, logo, o beija-mão dos primeiros em prol dos segundos é de lei - só escapando à regra aqueles raros nomes e forças que ainda ousam escapar ao óbvio da encenação. O mítico jornalista Robert Fisk, inclusive, deu seu testemunho pessoal sobre como funciona a peculiar relação de poder no mundo de Murdoch.

No entanto, o jogo arriscado de Murdoch parece ter encontrado o seu limite: o tabloide britânico News of the World, com quase duzentos anos de existência e de propriedade de seu conglomerado empresarial-midiático, se viu envolvido numa trama bizarra, na qual telefones de milhares de pessoas foram grampeados - dentre eles, autoridades, celebridades e até pessoas comuns vítimas de crimes. O bombardeio a Murdoch e ao seu grupo  começou com as denúncias, ano passado, do jornalista Sean Hoare sobre as práticas do tabloide e do envolvimento de Andy Coulson - ex-assessor de imprensa do primeiro-ministro britânico David Cameron e diretor do News à época -, até que explodiu este ano, há poucas semanas, com novas denúncias, dessa vez de um detetive particular que prestou seus serviços para o jornal.

O que mais chocou o público britânico foi o fato do celular de uma menina de 13 anos, desaparecida e já morta, ter sido grampeado e sua caixa postal ter tido mensagens apagadas para que as mais antigas pudessem ser escutadas, o que  deu esperanças de que ela estivesse viva à família. O Guardian divulgou impiedosamente a trama, mas algo pior aconteceu em seguida: na medida em que mais e mais indícios do caso apontavam para a participação pouco digna de membros do Partido Conservador, ora no governo, e se aproximaram perigosamente do gabinete do premiê David Cameron, o denunciante Hoare apareceu morto. Para além das tragédias pessoais e o desrespeito aos direitos individuais, a trama tem uma dimensão política inquestionável e sua amplitude vai para muito além da ilha de Shakespeare. 

Murdoch e seus principais cabeças foram chamados a depor no Parlamento. David Cameron, idem, e ainda precisou se retratar, mas acabou triturado pelos trabalhistas naquilo que pode ser o início do seu processo de fritura. Algo impensável no Brasil, onde nossos onipotentes barões de mídia, diante de qualquer crítica, colocam-se imediatamente como vítimas de alguma conspiração contra a liberdade de imprensa - ao passo que movimentam seus lacaios habituais nos bastidores da República, para terem a devida cobertura oficial; tais lacaios e qualquer outra autoridade que esteja junto deles é imediatamente poupada. E isso não é, de forma alguma, uma prova de como são superiores as instituições britânicas em relação às brasileiras: Murdoch exerceu seu mando na terra da rainha da mesma forma que as famílias proprietárias da mídia nacional fazem no Brasil - e a promiscuidade é a mesma.

A diferença entre o caso britânico e o Brasil é que as forças políticas e sociais organizadas resolveram, finalmente, enfrentar a situação. Sim, o Estado britânico dispõe de instituições que facilitam isso, mas sem a atuação corajosa do Guardian - e da imprensa séria do Reino Unido - bem como dos atuais líderes do Partido Trabalhista, as coisas poderiam ficar por isso mesmo. Como ficam por isso mesmo no Brasil. Por exemplo, sobre o caso Palocci/Caseiro Francenildo, é sabido - pelo depoimento do próprio diretor da Revista Época - que as informações obtidas por meio da quebra do sigilo do caseiro, protagonista das denúncias contra o então ministro da fazenda, foram publicadas devido a um acordo direto entre o próprio Palocci e os Irmãos Marinho, os principais acionistas das Organizações Globo, proprietária da Época. 

Sobre o passado nebuloso de Palocci, então questionado pelas denúncias de Francenildo, pouco se investigou, mas a retaliação político-midiática contra o caseiro ocorreu de forma quase automática; o gesto impensado de Palocci, apesar do respaldo todo, lhe derrubou do cargo, mas isso se deu de uma forma tão singela que ele ainda teve forças para retornar à Casa Civil de onde foi nova e felizmente defenestrado este ano. Se tivesse se fingido de morto em vez de quebrar o sigilo do caseiro, talvez Palocci jamais tivesse caído da Fazenda. As Organizações Globo, parte imprescindível nessa história toda, passaram incólumes.

Para além do caso Palocci, um petista de convicções e alianças estranhas, muito mais aconteceu nesses últimos anos. A Veja, por exemplo, largou sua habitual retórica punitivista em matéria de Segurança Pública quando da prisão do banqueiro Daniel Dantas,  momento em que passou a lutar contra um suposto "Estado Policialesco", fazendo referências a autoridades que teriam sofridos grampos telefônicos - por parte da inteligência do Estado brasileiro -, mas que, no entanto, jamais foram mostrados. Ademais, como nem todos os petistas têm o charme e as ideias peculiares de um Palocci, essa mesma mídia assumiu uma postura sacro-santa de fazer campanha para o PSDB e seu então candidato José Serra. Quanta coisa não é omitida no noticiário - sobretudo o paulista -, não? Não dá para saber o que é mais assustador, o que se passa nos meandros do governo estadual bandeirante ou o silêncio sobre isso.

A urgência por uma reforma da comunicação social no Brasil, portanto, é extrema. Assustador é saber que a Constituição de 1988 já previa a regulação da mídia, garantindo não apenas a liberdade de imprensa, mas também assegurando a liberdade de informação dos cidadãos - por um esquema claro de limitação de propriedade cruzada e demais inerências da aplicação da função social à propriedade midiática, algo sofisticadíssimo. Hoje, quase trinta e três anos após a promulgação da Carta Política, o máximo que temos é uma Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão do Congresso Nacional na criação de leis que, por sua vez, serviram para complementar os dispositivos constitucionais que regulam a mídia. O caso Murdoch/News of the World abre um precedente interessantíssimo. O papel dos movimentos de luta por liberdade de informação, por sua vez, devem se estender para muito além do devido cumprimento da ordem constitucional, apontando para um horizonte de construção de um espaço público de comunicação, no qual a expansão da Internet sem amarras é um belo instrumento. O governo Dilma fez pouco sobre isso até agora, mas se não se mover, é ele quem será a próxima vítima do monstro que alimenta. 



segunda-feira, 18 de abril de 2011

O Caso Paulo Teixeira/Folha

 Foto: Edson Santos/ AG. Câmara
Para variar, a Folha. Dessa vez, o ilustre jornal paulistano resolveu demonizar o líder do PT na Câmara, Paulo Teixeira, por ele defender políticas de redução de danos no que toca às drogas - como a descriminalização da maconha. Como se fosse alguma novidade que o deputado - dos melhores quadros do PT na Câmara, senão o melhor -, que trata da questão há anos, tenha essa posição - como tantas outras pautas libertárias em termos de direitos civis que ele tem por bandeira. Nem precisamos falar do panfletarismo nisso, afinal de contas, é público e notório que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em um dos seus raros momentos de lucidez política, defende publicamente uma proposta muito parecida com a do deputado e nada lhe acontece. De repente, frases soltas de uma palestra acabam tomando uma forma curiosa e servem para fritar, não por acaso, a figura do deputado. Por que justo ele? É público e notório como o sistemão gosta de "enquadrar" políticos petistas mais combativos - e me refiro tanto à mídia tradicional quanto quadros mais centristas do partido -, ainda mais alguém como Teixeira, que faz essa função com maestria. Venhamos e convenhamos, acontece coisa realmente relevante e grave o Congresso para se investigar, não é preciso criar factóides para conseguir manchete - se estivéssemos falando de jornalismo, claro. Também não é possível que tanta irresponsabilidade no tratamento de um tema tão sério por parte de um jornal. Esse processo de fritura, é evidente, não visa somente a enfraquecer o mandato de Teixeira, mas sim toda aquela ala do governo que não está dobrada ao comodismo do consenso - isto é, quem está fora do coro de contentes e (ainda) está disposto a propor novas saídas para questões polêmicas. É preciso abrir o olho.

Atualização de 21/04 às 11:42: Leiam o belo artigo no qual Paulo Teixeira responde a reportagem da Folha, publicado na mesma graças à conquista de direito de resposta.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A Internet e o Vigilantismo

retirado daqui
Uma sombra nada amigável ronda a Internet brasileira. Hoje, lendo um post no blog do Tsavkko, vi como andava uma situação absurda, cujas notícias já ouvia há alguns dias, mas ainda não tinha parado para entender atentamente: Quem usa os serviços de Internet da Telefonica no Brasil não pode acessar sites como o Diário Liberdade* e sites pró-independência do País Basco; por outro lado, o CMI está sendo bloqueado por quem usa internet móvel pela Claro e pela TIM. Isso é gravíssimo. Dentro de um cenário no qual nos vemos rondados pelo horrendo projeto de lei de controle da Internet do Senador Azeredo (PSDB-MG) - o chamado AI-5 digital - e blogueiros de esquerda como Eduardo Guimarães defendem leituras desapaixonadas do libelo autoritário, é assustador ainda  acontecerem casos de bloqueio a sites por parte de empresas privadas, ora concessionárias de um serviço público. Se o controle e o vigilantismo estatal são um verdadeiro risco à liberdade, um cenário onde empresas que mexem com os negócios de Internet bloqueiam, por conta própria, o acesso a certos sites é absurdo porque somos pegos de surpresa. Isso é revelador, aliás, de como se estruturam os mecanismos de controle na sociedade contemporânea, certamente não falamos de uma anomalia decorrente de regimes tirânicos - e bárbaros no imaginário corrente -, mas de práticas comuns àquilo que de melhor há na civilização e que vão para muito além do Estado. Evidentemente, quando se trata do Estado democrático que está pautando isso - por meio de um de seus representantes -, surge inevitavelmente algum debate - ainda que cheio de armadilhas e cortinas de fumaça, mas ele acontece -, afinal, dentro da democracia representativa é preciso dar legitimidade e um ar de racionalidade ao projeto - para que a plateia queira aquilo que os representantes querem -, o que abre flancos para combatê-lo - dentro de um confronto desigual, mas ainda possível. Aqui, entretanto, a conversa é outra. Uma empresa vai lá discricionariamente e elimina o que quer, não há previsibilidade, acontece e é preciso correr atrás do dano. E são sites em relação aos quais se pode discordar, mas sequer é possível usar os fantasmas pró-censura habituais contra eles - a pedofilia, o terrorismo. Isso é ilustrativo de como vai se estruturar a luta nos nossos tempos, a Tecnologia - uma ciência que vai para muito além da Robótica ou da Informática e seus produtos - será um área de confronto inevitável. O modo como as recentes tecnologias da informação transformaram a política é impressionante, ao mesmo tempo em que existem mecanismos de vigilância inacreditáveis, as redes sociais são capazes de produzirem uma troca de informações tão intensa e veloz que regimes autoritários se veem vulneráveis como nunca - o discurso nunca foi tão facilmente desconstrutível quanto agora e o controle disso é essencial para o Poder. 

*Hoje, estranhamente, consegui acessar o Diário Liberdade, mas há meses não conseguia.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Pós-Lula: A Primeira Quinzena de Dilma

Dilma visita as áreas destruídas pelas enchentes do Rio -- foto retirada daqui


Estamos na segunda quinzena do Governo Dilma. Sim, o projeto que guiou o país desde 2003 continua de pé. Por ora, grande parte da mídia tradicional continua fixada demais na figura de Lula, a quem não deixa de agredir. Lula saiu da Presidência, mas a mídia tradicional não saiu ainda da Presidência dele. Para além de eventuais diversionismos - que tentam desconstruir Lula para depois desgastar Dilma -, existem constatações verdadeiras como já adiantávamos aqui em dezembro (e sobre o que o Sérgio Leo escreveu um belo post): Lula e Dilma são mesmo diferentes. Um nasceu politicamente como sindicalista, a outra como guerrilheira. Sim, o Novo Sindicalismo e o Foquismo são escolas diferentes, mas isso não muda o fato de estarem do mesmo lado das barricadas. A duplicidade de poder na área econômica fazia todo sentido para Lula e nenhum sentido para Dilma - tanto é que isso mudou. Sem crise: Lula sabia disso melhor do que qualquer um de nós, quando tomou a decisão de indicar a candidatura de Dilma. O Planalto não deve ser conivente com tentativas de atacar o legado de Lula, mas isso não pode ser confundido com negar as diferenças - e como a esquerda lida mal com a Diferença, não? - entre ambos, isso seria trair o próprio legado de Lula que, ao contrário do seu antecessor FHC, não quis mudar as regras do jogo em curso para tentar um terceiro mandato, mas sim respeitou o que estava posto e deu andamento à rotatividade do poder, elegendo uma mulher cujo histórico de vida é bem diferente do seu. O desafio está em ressaltar diferenças para afirmar o caráter próprio do atual governo, mostrando que isso não implica em juízos de valor que hierarquizem o hoje em relação ao ontem, nem contradiz o fato de estarmos dentro de uma fase diferente de um mesmo projeto. Por ora, as coisas seguem o seu ritmo previsível - que, em último caso, é o melhor que se poderia pôr em prática na atual conjuntura. 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O Futebol e o Espetáculo: Ronaldinho Gaúcho

Ronaldinho no Flamengo
Este blogueiro que vos escreve já gostou tanto de futebol, mas tanto, que é até difícil dizer. Hoje, não muito. Sim, um pouco do meu desgosto tem a ver com as desditas do bom e velho Palmeiras - não tanto pelas derrotas, mas pela maneira particularmente tristes como elas se sucederam nos últimos anos -, mas o desânimo tem muito mais a ver com dinâmica do futebol mundial nos últimos anos e, em particular, do brasileiro. Muitas coisas colaboram para isso, desde o derretimento do futebol numa massa pastosa e indeterminada à luz de holofotes tantos até a degeneração do craque em celebridade e garoto-propaganda que (eventualmente) joga bola, passando, ainda, por uma imprensa esportiva que cansa (e como). Boa parte dos jovens craques brasileiros, nascidos e crescidos numa época em que os "empresários" controlam o mundo da bola e o grande objetivo é jogar num clubegrandedaeuropa - que, não raro, se torna um clube da segunda divisão italiana que lava dinheiro para máfia -, se perderam ainda tão novos e hoje fazem bons comerciais de Televisão, mas não conseguem construir uma carreira minimamente estável. Um grande exemplo da nossa época é Ronaldinho Gaúcho. Era para ter se tornado um dos nossos grandes, mas se apequenou (e como) num mundo de glamour, altos salários e paparicação sem limites; depois de grandes temporadas no Barcelona, refugou vítima do próprio ego, se omitiu de responsabilidades, desapareceu numa Copa do Mundo na qual tinha tudo para brilhar e diminuiu no próprio futebol de clubes. Eis que depois de uma mal-fadada ida para a Itália, ele reaparece num verdadeiro leilão, onde seu irmão-agente - o equivalente contemporâneo da mãe de miss - o oferece para clubes ávidos por darem satisfações às suas torcidas, tudo em troca de um salário maior do que aquele que ele ganhava no Milan. De repente, todos ganharam o que queriam, Ronaldinho volta a ficar em evidência e irá ganhar um baita salário no Flamengo, enquanto dirigentes de Palmeiras e Grêmio se mostraram pró-ativos. Um grande espetáculo midiático que, naturalmente, não garante nenhum espetáculo futebolístico futuro - como tem sido a tônica da carreira do meia gaúcho nos últimos anos. Torço para que ele dê certo na Gávea, apesar de duvidar que isso aconteça - e se acontecer, tenho dúvidas que isso seja minimamente duradouro -, mas não tenho como não ficar feliz por ele não ter ido para o Palmeiras...

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Algumas Reflexões sobre a "Blogosfera Progressista"

A Blogosfera, nossa musa
Em Agosto deste ano que está às vésperas de se encerrar, aconteceu o primeiro encontro de blogueiros progressistas. Sim, eu estive lá. Apesar das minhas ressalvas a certos itens da organização e ao próprio nome do evento - como eu ressaltei à época e anotei aqui mesmo -, eu não deixei de ir porque considerei importante um encontro de porte entre blogueiros do país inteiro. Isso fazia parte daquilo que esse blog se propõe, de ser um instrumento crítico à avalanche de informações que nos soterra e, ao mesmo tempo, tentar dar uma utilidade prática a essa pequena máquina no sentido de produzir alguma intervenção social útil, em meio a essas tristes tempos que testemunhamos - embora, claro, soubesse das limitações objetivas óbvias do evento. Agora, com o caso de Luís Nassif e as feministas - narrado nesse bom post da Cynthia Semíramis - algumas contradições vieram à tona e é necessário pontuar algumas outras coisas por aqui.

Antes, cabe uma recapitulação. Este meio no qual escrevo era, no nosso país, um espaço profundamente incipiente há menos de dez anos. A pequena Internet brasileira, quando debatia, o fazia em listas de e-mails, fóruns e alguns poucos blogs, enquanto o grande debate transcorria na grande mídia tradicional. A expansão da Internet por meio do crescimento econômico dos últimos anos proporcionou um ingresso massivo de público na rede. Gente ciosa pela informação em tempo real e por interatividade que, no caso nacional, também gente que não aguentava mais uma mídia que deixava cada vez mais o jornalismo de lado para se pôr no papel de oposição. Nesse momento, alguns jornalistões copiam o modelo de blog americano, não mais como um diário virtual qualquer, mas algo que tem uma função clara no debate público.

Ainda assim, os blogs que aparecem nessa época ainda tinha fortes ares de artigos de periódicos apesar do meio virtual, até mesmo na linha editorial que seguiam em seu conteúdo - um Noblat, por exemplo. Para além de pequenos blogs, passam a surgir blogs de jornalistas famosos, muitos dos quais defenestrados da grande mídia por não seguirem a linha oficial. Paralelamente, acadêmicos e intelectuais começam a escrever um material de bom nível, independente e crítico pela rede. Tudo muito embrionário, antes do grande boom do segundo mandato de Lula. Essa blogosfera da intelectualidade, em muitos momentos, concorda com essa blogosfera jornalística "não-alinhada" - até pelo fato de ambos os espaços ser majoritariamente esquerdista, ainda que não apenas -, embora não se misture com ela, seja em linguagem, perspectivas ou mesmo em propósitos. 

Ambos, no entanto, são simpáticos a Lula - ou pelo menos não o perseguem com tochas - em um momento em que a mídia nacional, na contramão da sociedade e até da comunidade internacional, assume uma posição amplamente negativa. A aproximação entre ambos os espaços se dá com a aproximação do processo eleitoral. É mais ou menos nesse clima que sai o encontro de "blogueiros progressistas", organizada pelo núcleo duro da blogosfera jornalística pró-Dilma, por um Nassif, Azenha, Rodrigo Vianna e um Paulo Henrique Amorim. Gente com boa quantidade de acessos fruto da popularidade obtida na grande mídia que facilitou o (bom) trabalho que fizeram na rede - e aqui não entro no mérito do trabalho, mas na sua eficiência de difundir notícias e atrair público. Em seus defeitos e virtudes, esses jornalistas não se confundem com acadêmicos que construíram suas carreiras na blogosfera e ainda que defendam o voto no PT - e até militem em favor disso como fizeram na campanha -, exercem uma função crítica como é o caso do Idelber Avelar ou do Celso de Barros. 

O nome, na verdade, foi uma saída política dentro do próprio comitê organizador para manter gente como PHA que, como todos sabem, não é homem de esquerda nem dado a esquerdismos - ao mesmo tempo em que, na costura vertical de sua organização buscava ser mais plural possível, o que, convenhamos, destoa da esquerda, mas não deixa de ilustrar um pouco do que o governo de Lula, em seu amplo arco que vai da direita popular evangélica - e da direita nacional-desenvolvimentista - até as alas esquerdas do PT. Nesse sentido, o encontro foi positivo porque ele foge ao modo como se estabelece a hegemonia midiática - patrimonialista e oligárquica - em um novo meio que está, econômica e politicamente ainda em disputa, e com limitações sérias quanto ao grau de mudanças que esse acordo é capaz de estabelecer (sobretudo aquilo que ele pode ceder).

O termo "progressista", em um país de forte influência positivista como o nosso, é antes de tudo agregador.  Quem é contra o progresso, afinal? Eu duvido que até mesmo a direita atual se diga contra - talvez essa tenha sido uma das poucas brigas ganhas na história do debate político brasileiro, afinal, pelo menos parte da direita monarquista do século 19º era contra (os conservadores), depois isso virou tema superado. A doutrina de progresso e desenvolvimento nacional foram de tal forma inseridas no inconsciente brasileiro que isso contaminou a própria esquerda nascente; se uma leitura vulgar no materialismo já leva ao desenvolvimentismo, como advertiu Marx na Crítica ao Programa de Gotha e Benjamin em suas Teses sobre o Conceito de História, o viés positivista, a marcha incessante pelo caminho reto da História  em direção à evolução, nunca deixou de ser um fantasma presente na história, até mesmo, da nossa esquerda.  Trata-se de uma concepção naturalizada em nossa ideário que marca uma oposição ao Atraso - à inércia do Brasil coronelístico que não consegue pensar a economia para além da escravidão ou similares. A questão do Progresso continua posta porque esse Atraso continua a existir, embora o primeiro seja apenas uma linha de fuga em relação ao segundo, com seus problemas todos como bem sabemos. O enorme desafio da esquerda brasileira é resolver essa questão e, ao mesmo tempo, se livrar da tradição do progressivismo, o que passa antes de mais nada, pela sua reflexão.

O problema aqui não é que o comitê organizador deliberou conscientemente em favor desse equívoco histórico, mas é que ele só referendou algo que está inscrito no desejo,  no inconsciente de nossa sociedade, e, ao mesmo tempo, constitui-se em um equívoco histórico em relação ao qual já pagamos um preço alto. É justamente a inconsciência do gesto o fato que constitui o grande erro da questão em específico, é ainda estar sujeito a esse desejo e alheio a essa reflexão, o que mostra que o projeto em questão não reconhece a natureza e o tamanho do desafio real que se apresenta. No fim das contas, não há um blogosfera progressista, existe um grande arco de blogs cujos editores, no calor causado pela maneira como o debate político foi estabelecido nos últimos anos - sobretudo o último debate eleitoral -, tenderam a um apoio à continuidade do projeto do PT por meio da eleição de Dilma Rousseff, mas isso é um acordo político, o que cria aliados, mas não faz companheiros; talvez isso seja a expressão de uma faceta do projeto lulista sobre a sociedade civil. A própria falta de identidade entre os atores levou a isso, a uma representação de algo tão natural quanto o símbolo do progressivismo. 

Chegando ao caso concreto, temos a peleja de Nassif com as feministas. Antes de mais nada, repito aqui o que disse no Twitter, ele está errado e ponto final. Ainda que tenha recuado no fim das contas, fez mal, deu desculpas ruins e sai manchado dessa conversa toda. A questão aqui não está em criticar o feminismo - ou ter transformado em post o comentário de um leitor que o fazia -, mas de fazê-lo em bases infantis, leigas e ofensivas como o post em questão e ter reagido mal às críticas, seja pelo Twitter ou no blog. Isso não é novidade em certos temas que Nassif tenha posições fixas em matérias que ele não tem conhecimento de causa. Basta relembrar como ele polemiza em questões das cotas raciais ou em relação à revisão da Lei de Anistia - temas que, ao contrário da maioria de seus leitores, ele é contra. Sobre esse seu modo de polemizar, aliás, o caso em tela não é nenhuma novidade, como já tratei aqui mesmo há quase um ano. É uma falta de conhecimento de causa, somado a problemas estruturais do blog - transformar comentários de leitores, em meio a polêmicas, em post sem publicar um contraponto, publicar muito material de fora, às vezes sem link etc etc - e sua profunda incapacidade autocrítica.

A questão despertou uma série de outras tantas, a inquietação quanto ao significado dessa blogosfera progressista e gerou críticas para quem é contra ela - pelos motivos certos ou errados. O que, convenhamos, é um debate bizantino. Não existe essa unidade e mesmo que existisse, Nassif responde pelo que faz e não uma hipotética rede de blogs. O fato ocorrido também não me causa muito espanto, quem chegou na blogosfera ontem deve imaginar que Nassif é algum petista histórico, quando, na verdade, ele é um jornalista da área econômica que nutre posições historicamente centristas e se afastou do PSDB na medida em que esse se afastou do próprio centro político - enquanto o PT preenchia também esse espaço. Isso não justifica as atitudes dele de modo algum, mas ajuda a entender como se desenrola o jogo pela análise de suas matizes. Desse modo, há quem esteja usando-se da oportunidade para atacar o "bloguismo progressista" e há quem em nome desse fantasma esteja blindando o Nassif. Ambos estão errados. Enquanto os primeiros devem tentar entender do que se trata a conversa toda, os segundos tem de entender que a crítica é central nesta atividade aqui. Nassif não é um personagem sem suas matizes e contradições e seu papel histórico na blogosfera não se confunde com os erros que comete - e vice-versa. Neste meio, não divinização que resista, nem demonização que persista. Critica-lo aqui é, antes de mais nada, saudável, mas é preciso determinar o campo. Eu, da minha parte, espero que todo o potencial da Internet sirva para a construção de movimentos mais orgânicos e colaborativos, mas é uma luta difícil.


terça-feira, 9 de novembro de 2010

A Bola da Vez: O ENEM

O sistema educacional brasileiro, especialmente no que toca ao ingresso à Universidade, é terrivelmente falho e, sobretudo, valoriza demais a mimese e o controle emocional e dá pouco valor para a criatividade e a capacidade de interpretação dos estudantes - além de ser marcado pela ideia absurda de um corte entre o ensino médio e o ensino superior, expressão máxima de uma lógica estamental, que ainda encontra voz e vez em nossa elite em pleno ano da graça de 2010 e vê a Universidade como uma fábrica de mero status que não pode nem deve ser acessada por qualquer um. Tudo isso dentro de um esquema de classe e, sobretudo, de interesses empresariais no que toca à indústria do Vestibular.


O ENEM, Exame Nacional do Ensino Médio, representou, nesse contexto, um pequeno porém profundo avanço, quer seja porque o modelo da prova - ainda que ele fosse melhor antes, quando tinha 63 questões - que dá algum valor para a interpretação e para a criatividade em detrimento da decoreba, pelo fato de representar uma base nacional razoável pela qual se pode aferir o nível do ensino médio nas variadas regiões e condições e, sobretudo, pelo fato de ser um exame federal que é aplicado em relação àquilo que é aprendido no Ensino Médio só que voltado para o ingresso na Educação Superior - rompendo com esse corte arbitrário entre os dois níveis de ensino .


Aliás, o ENEM se mostrou uma ferramenta bastante útil, servindo como base para a seleção do Prouni e passando, progressivamente, a uniformizar o processo de ingresso nas universidades federais - e é aí, creio, que a porca torce o rabo. O ENEM se tornou, sob o atual Governo, uma chave interessante para consolidar o avanço da inclusão universitária, o que incomoda uma direita medieval que domina a oposição - tanto que tem a desfaçatez de descer baixo como o DEM desceu  no caso da ADin contra as cotas sociais e étnicas; aqui não falo de um partido qualquer de oposição, mas sim da segunda maior agremiação dela, tão influente que indicou o inesquecível candidato a vice-presidente da chapa de José Serra, Índio da Costa.


O ponto é que, de repente, não mais do que repente houve um problema na aplicação da prova. Isso acontece pelo segundo ano consecutivo, depois do lamentável vazamento do ano passado, este ano aconteceu um problema em menos de 1% das provas. Claro, não há porque não se criticar o Ministério da Educação por essa falha (reiterada), mas não há como nivelar o que aconteceu este ano com o que houve ano passado, além do fato da maneira como a mídia corporativa repercutiu a notícia foi muito pouco esclarecedora e espetacularizadora - é como se todas as provas, de repente, estivesse toda errada. Infelizmente, acreditar que isso é mero mau jornalismo ou apenas pensar nisso como um partidarismozinho é ingênuo; para além de qualquer crítica ao Ministro da Educação e ao Governo, o que está posto é uma crítica ao ENEM e não à sua aplicação, tampouco é proporcional ao que aconteceu. 


O problema, que está na forma de aplicação do ENEM e não no exame em si, torna-se, de repente, problema do ENEM como um todo e, sendo ele meio e não fim, mira-se na política de inclusão para a qual ele serve como instrumento - em suma, aquilo que Serra fez durante toda a campanha, defender uma política excludente de forma indireta, pelos silêncios e pelos subterfúgios. Sempre que fugia pela tangente ao ser perguntado sobre o Prouni, Serra surgia com a história do "Protec", bolsas para inclusão em "ensino técnico", mas nem refutava ou, ao menos, conseguia explicar o posicionamento do DEM nessa ação contra o referido programa de inclusão. Em suma, mais um dos silêncios gritantes de Serra. A mídia, por sua vez, merece o troféu Weslian Roriz por sua defesa obstinada de uma causa irracional.


P.S.: Esclarecedora a twitcam do Idelber sobre o assunto.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Da Crítica aos Tempos Bicudos

Segue aqui um artigo do meu grande amigo Carlos de Lucca sobre a recente - e tragicômica - manifestação ocorrida em São Paulo contra o Presidente Lula - que, aliás, ilustra a capa da CartaCapital desta semana. Lula, para variar, foi acusado de autoritarismo e quetais, mas o pior do episódio é o caráter bisonhamente semelhante da referida manifestação com outra, realizada há 46 anos atrás - não por coincidência no ano do Golpe Militar. Isso é um recado claro: Não se trata apenas de um jogo eleitoreiro baixo, mas, sobretudo, de uma amostra do desespero que os setores de direita estão sentindo diante da liquefação de seu instrumento partidário, o PSDB, e de como a tensão de forças entre as classes sociais irá se expressar ao longo dos próximos anos, com o fortalecimento da classe trabalhadora diante das radicais alterações pelas quais passa a sociedade brasileira. Tal manifestação também contou com a inusitada (ou nem tanto) participação de nomes da "esquerda" como o jurista Hélio Bicudo que, estranhamente, assumem uma posição contraditória neste momento, deixando-se levar tanto por desavenças pessoais quanto por uma incapacidade analítica crônica - própria dos idealistas -, a tal ponto que acabam fazendo o jogo da direita - ou, no caso específico de Bicudo, unindo-se a extrema-direita - sob os auspícios de um delirante risco à democracia creditado, por sua vez, à ampla vitória petista que se anuncia no horizonte destas eleições gerais - confirmando uma das objeções deleuzianas à psicanálise: Não se delira determinações familiares, mas sim o Mundo, portanto, os delírios são geográfico-políticos. Bem, já me demorei muito neste intróito, segue o texto:

Bicudo como Todo Tucano

Quando a classe dominante começa a temer os dominados, o carcereiro se torna o prisioneiro, e seu medo gera consequências catastróficas ao mais fraco.


A cidade de São Paulo, na semana passada, foi palco de uma forte mobilização que manifestava o inconformismo de alguns setores de nossa sociedade com as declarações recentemente feitas pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, com relação a alguns veículos de comunicação, acusando-os de comportarem-se como partidos políticos, em razão da oposição desregrada feita a ele, a seu partido e à candidata à Presidência, Dilma Rousseff. Neste ato foi assinado um manifesto - cujo "apartidarismo" é duvidoso - onde se dizia, dentre outras coisas, estar o Brasil marchando rumo ao autoritarismo.

Depois dessa cena lamentável, na qual intelectuais, juristas e religiosos, valendo-se do prestígio que tais qualidades conferem perante nossa sociedade, assinam um manifesto de conteúdo muito semelhante a outros que precederam, por exemplo, o golpe militar de 1964. Resta-nos agora a pergunta: Quem está em movimento de regressão? A atual política brasileira personalizada, pelo tal manifesto, tão somente em Lula e nos grupos que lhe conferem apoio, ou esta parcela de nossa sociedade que, sublevadas por interesses elitistas e golpistas, vão às ruas (muito embora sustentando um discurso em defesa da democracia e da liberdade [!]) para externar seu descontentamento com um presidente que goza de amplo apoio popular?

Desta feita, é muito oportuno colacionar o manifesto do general Odílio Denys, do almirante Sílvio Heck e do brigadeiro Grum Moss, publicado quando da possível volta ao Brasil de João Goulart, que assumiria a cadeira de presidente deixada por Jânio:

“No cumprimento de seu dever constitucional de responsáveis pela manutenção da ordem, da lei e das próprias instituições democráticas, as Forças Armadas (...) manifestam (...) a absoluta inconveniência, na atual situação, do regresso ao País do vice-presidente João Goulart (...) As Forças Armadas estão certas da compreensão do povo cristão, ordeiro e patriota do Brasil.” (grifamos alguns termos desse curto trecho do manifesto militar que são utilizados, também, ao longo do “manifesto Bicudo”)

Como se sabe, mais tarde esse grupo militar, com apoio de outros setores conservadores, marcharam rumo ao golpe de 64. Convém, também, registrar quem são algumas dessas forças de mobilização constituídas à época e que se assemelham muito com as que se unem contra Lula, quando não são as mesmas: a classe média alta, a Igreja Católica (à exceção de católicos de esquerda), a Ordem dos Advogados do Brasil que, pasmem, aprovou uma moção em que proclamava a necessidade de se preservar e garantir o livre funcionamento dos poderes constituídos da República, diante da situação (ainda bem que os todos “juristas” são os arautos da liberdade no Brasil... Que saudades de Francisco Campos, o “Chico Ciência!). Dentre outras.

Antes do golpe, também, o centro de São Paulo assistiu, nas imediações da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, uma manifestação aos moldes desta da semana passada. Foi a chamada “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, que reuniu milhares de pessoas que eram contra as chamadas “reformas de base” de João Goulart; dentre elas, a reforma agrária. Era apenas a direita tentando conservar seus interesses, sem pretensão alguma...

O que temiam? A mesma coisa que temem hoje: um governo que possivelmente irá cercear a liberdade de imprensa. Leiam bem: possivelmente. Assim como a motivação da invasão do Iraque se baseou em indícios de posse de armas de destruição em massa, as declarações de Lula sobre a mídia de oposição não passam de declarações enquanto não existentes no plano concreto do mundo dos fatos, como ocorre na Venezuela de Hugo Chávez.



No início deste texto referi-me ao “manifesto” como de "apartidarismo" duvidoso. O que evidencia tal afirmação é o trecho: 

“É aviltante que o governo estimule e financie a ação de grupos que pedem abertamente restrições à liberdade de imprensa, propondo mecanismos autoritários de submissão de jornalistas e empresas de comunicação às determinações de um partido político e de seus interesses. 










É repugnante que essa mesma máquina oficial de publicidade tenha sido mobilizada para reescrever a História, procurando desmerecer o trabalho de brasileiros e brasileiras que construíram as bases da estabilidade econômica e política, com o fim da inflação, a democratização do crédito, a expansão da telefonia e outras transformações que tantos benefícios trouxeram ao nosso povo.”

Ora, este trecho se refere também a um veículo de comunicação cujo nome não escreverei, mas da mesma forma como existem revistas e jornais que fazem oposição ao atual presidente da república, há quem concorde com atual governo em alguns pontos, tendo a total liberdade para discordar em outros, como fez Mino Carta, da Revista CartaCapital (que é evidentemente de esquerda), quando da discussão judicial sobre extradição de Cesare Battisti, em que se posicionou a favor da embaixada italiana. Mas, olhem bem, o “manifesto bicudo” acusa o veículo de comunicação ao qual não dei nome de ter sido mobilizado para “reescrever a História procurando desmerecer o trabalho de brasileiros e brasileiras que construíram as bases da estabilidade econômica e política, com o fim da inflação, a democratização do crédito, a expansão da telefonia e outras transformações que tantos benefícios trouxeram ao nosso povo.”

Ora, o “manifesto” se refere ao governo Fernando Henrique Cardoso! Tais atos de governo foram praticados por ele, quando foi presidente pelo PSDB! O que dizer sobre ser esse “Movimento pela Democracia” apartidário? Estamos há pouco menos de duas semanas do pleito eleitoral e sabemos a desvantagem do candidato do PSDB frente à candidata do PT. Parece-me mais um movimento inspirado pela direita conservadora brasileira, tal como no momento pré-golpe militar com a finalidade de, para dizer pouco, manipular o povo brasileiro a se posicionar contra o partido que ora governa o país e, numa tentativa de buscar apoio popular para o caso de um eventual Golpe de Estado à guisa do de 64, mas nesse caso, um golpe civil. Sabemos que a direita brasileira sempre se socorreu em golpes toda a vez que viu seu Poder sofrer a possibilidade de ser enfraquecido. Mas tudo pela liberdade de democracia, é claro. É só fazer uma remissão à história republicana. Não há necessidade de reescrevê-la para provar tal tese.

Ao ler este texto, podem dizer que aqueles eram outros momentos. Estávamos vivendo a Guerra Fria; havia o medo do comunismo. Bom, hoje não vivemos a Guerra Fria, mas temos como vizinhos governos socialistas sustentados com apoio popular. E o que a direita teme, no momento, é que o Brasil venha a ser como a Venezuela, por exemplo. E esse medo é suficiente para levar intelectuais, juristas, artistas, dentre outros a apoiarem manifestos como o do “Movimento pela Democracia”, uma versão mais atualizada do finado “Cansei”, onde a elite paulista foi à Praça da Sé protestar dizendo, “fora Lula” e que cansou de pagar para o avião do Presidente ser seguro e o dela não.

Dito tudo isso, o que temos que temer e quem está em movimento de regressão? O “manifesto Bicudo” ou a remotíssima possibilidade de um governo que venha a cercear a liberdade de imprensa? Sabemos que a liberdade de expressão é um direito fundamental, cravado como cláusula pétrea em nossa Constituição, direito de que sou e sempre serei defensor. E quando me deparar com uma concreta violação dele, certamente estarei escrevendo um texto como esse para preservar essa liberdade, assim como neste momento defendo a soberania do povo brasileiro em escolher, por si mesmo, quem será o responsável pelos rumos da nação, como quis o parágrafo único do primeiro artigo de nossa Carta Magna quando declara que “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.”

Carlos Augusto de Lucca Batistela. 25 anos. Estudante de Direito do 3º ano da Faculdade de Direito da PUC-SP.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Pochmann na Caros Amigos: Algo para Refletir

(imagem retirada daqui)


Pesquei agora há pouco pelo Google Reader do Alan Patrick, um post do Azenha sobre a boa entrevista de Márcio Pochmann a Caros Amigos - sim, eu sei muito bem das limitações da referida revista, mas ela tem sim seus méritos: O primeiro, de realizar de tempos em tempos boas entrevistas (como essa), o outro de trazer alguns bons artigos (e seus artigos, mesmo que se percam muitas vezes num extremismo bobo, ao menos não são raivosos). No caso em questão, goste-se ou não do que o Pochmann diz, há de se reconhecer que ele é um dos melhores economistas do Brasil hoje e um dos raros que está realmente bem antenado no debate contemporâneo, em especial, no que toca os aspectos estratégicos da coisa. Os dois pontos arrolados no post do Azenha são, respectivamente:


1.“O Brasil não fez as reformas clássicas do capitalismo contemporâneo, não fez a reforma agrária, não fez a reforma tributária e não fez a reforma social. O Brasil tem uma estrutura fundiária hoje pior do que era nos anos 50 quando ganhou a primazia a defesa da reforma agrária. Nós estamos falando de 60 anos de reforma agrária e a estrutura fundiária brasileira piorou, nós não enfrentamos a questão fundiária, da tributação, os pobres continuam pagando mais impostos, os ricos continuam pagando menos impostos. Qualquer país desenvolvido tem uma estrutura fundiária menos concentrada, uma estrutura tributária progressiva e não regressiva. O que avançou mais foi a estrutura social, o enfrentamento das questões do presente que se vinculam com as questões do passado. Estamos colhendo resultados muito importantes, tem a ver com a Constituição de 88, com melhor sofisticação e orientação das políticas sociais que se combinam com o econômico no governo Lula. Mas, para nós, estamos gestando um novo ovo da serpente, cujos sinais de exclusão são muito maiores do que esses que nós conhecemos agora. São questões do presente que se vinculam com o futuro."
Esse é o ponto que tenho abordado com certa frequência por aqui: O projeto petista resolveu alguns dos nós górdios decorrentes da longa agonia do Estado Varguista e das idiossincrasias do projeto tucano, mas ele fez isso contornando o delicado e partindo para o óbvio, reposicionando o Estado novamente como indutor da economia - só que de uma forma inteligente e responsável - e e construindo políticas efetivas de distribuição de renda. Ótimo. Isso não quer dizer que o governo não tenha precisado comprar boas brigas, mas não foram as maiores brigas que ele poderia ter comprado - e se eu certos casos não dava para ter ido além mesmo, em outros, ele não criou caminhos e não deu passos além quando poderia ter dado. Concordo quando dizem que Lula construiu uma nova forma de confrontação, inteligente e efetiva, mas também não é incorreto dizer que ele entrou na fogueira totalmente. O ponto é que o tempo passa e o teto abaixa, tornando cada vez mais iminentes - para a manutenção do próprio processo de desenvolvimento que o PT inaugurou - a necessidade das reformas agrária, tributária, política, midiática - sendo que a última depende apenas da regulamentação dos dispositivos constitucionais já em vigor desde 88. Isso seria um baita desafio para Dilma, em seu eventual (e provável) governo: se o PT não encampar essa luta, ele próprio projetou as condições para que outros grupos o façam, o problema é que isso abre uma janela perigosa, tudo isso precisa ser feito - e bem feito -, deixar para outros grupos a primazia por essas lutas é correr o risco de perder espaço no debate político por inércia - dando um programa de bandeja para seus rivais na esquerda - ou queimar demandas sérias deixando-as na mão de partidos de esquerda - seja no sentido em que eles podem fracassar na sua resolução (o que é bem provável) ou respondê-las tragicamente mal com custos para a democracia. Pode ser também que a própria direita consiga bloquear tudo (o que jogaria o país numa grave crise) ou articular de uma maneira conservadora, mudando tudo para não mudar nada - mantendo o status quo. Seja como for, a História não vai esperar sentada o PT desenvolver meios efetivos para resolver isso, nem vai parar caso o PT queira ignorar tais reformas - ainda que, nesse momento, o Partido dos Trabalhadores seja o único partido com material humano, amplitude e penetração social capaz de executar tal tarefa. O PSDB, hoje, tentaria articular tudo para achar as linhas de fuga que o certos setores empresariais precisam, mas sem a mesma organização - e penetração - que ele tinha nos anos 90, ou seja, estaríamos diante de uma tentativa mal-fadada de servir a setores atrasados da economia nacional - como os ruralistas, p.ex. -, o que se constituiria em um grande desastre, uma tentativa desinteligente de manter o funcionamento da ordem, o que poderia dar em paralisia, autoritarismo - ou, milagrosamente, em correção de rumo durante o trajeto, o que julgo improvável.

2."O ovo da serpente que estamos gestando está estruturado em dois grandes eixos que estruturam as sociedades pós-industriais, que é para onde estamos indo muito rapidamente. O primeiro está vinculado à mudança demográfica, profunda mudança demográfica. Primeiro lugar porque há uma queda na taxa de fecundidade. Estamos hoje sem condição de repor a população, uma taxa de fecundidade de 1,8 filhos. Em 92 eram 2,8 filhos, mulheres brancas com mais escolaridade já estão com a taxa de fecundidade 0,9. Hoje o Brasil já é um país formado por não-brancos. Não falo isso por uma questão preconceituosa, falo isso por que os não-brancos são os mais vulneráveis no Brasil ainda hoje. E requerem uma política de atenção específica para este segmento. Segunda questão é que a partir de 2030 o Brasil terá uma situação inédita, que é a redução absoluta de sua nação. O número de nascidos será bem menos que o número de pessoas que morrem. Em 2030, o Brasil terá possivelmente 207 milhões de brasileiros. Os demógrafos estimavam há 20 anos que em 2030 o Brasil teria cerca de 240 milhões de brasileiros, vamos chegar a 207 e em 2013 nós teremos uma redução absoluta da população. Ou seja, em 2040 é esperado que tenhamos 205 milhões. Isso abre uma outra discussão, para os militares, republicanos em geral a demografia sempre foi estratégica, hoje a questão da demografia está em segundo plano, nós estamos satisfeitos com os 207 milhões de habitantes, o Brasil precisa ter mais população ou menos população, o tamanho de uma economia está diretamente ligado ao tamanho de uma população, ainda mais pelo fato de que o grosso da população brasileira está na parte litorânea do país, a densidade demográfica no Centro-Oeste é baixíssima. Esse é um ponto: a questão da mudança demográfica. Entraremos em uma fase de escassez de mão-de-obra e o Brasil sempre foi abundante em mão-de-obra. Quem farão os serviços mais simples do Brasil? Serão os paraguaios, os bolivianos, será uma outra realidade se manter esta trajetória, estou aqui especulando um pouco sobre a trajetória, com base em hipóteses."
É essa visão estratégica que o Pochmann tem e eu gosto. Esse debate que ele levanta não é só fundamental como bem longo. Em um primeiro lugar, falta essa visão estratégica ao governo mesmo. Você tem toda a questão do desenvolvimento demográfico do país, como isso interfere no desenvolvimento nacional não apenas pelo seu volume e velocidade, mas pela forma como ele se dá - e Pochmann não aborda esse tema diretamente nesse ponto, mas é um dos fios que ele suscita -, mas é preciso pensar, por exemplo, no impacto econômico da distribuição desequilibrada da população brasileira e como essa desconcentração é essencial para o desenvolvimento. Claro, toda essa questão se articula com as demandas que justificam uma reforma agrária e uma reforma urbana - para ficar no que impacta diretamente. Por outro lado, um ponto que ele levanta e é bastante relevante é: (i) muito provavelmente chegaremos a um estágio a partir do qual a população começará a decair sem que tenhamos atingindo um nível produtivo satisfatório - o que tem impactos violentos sobre a própria produção, especialmente pela questão previdenciária, nesse aspecto, recomendo que olhemos com atenção o caso russo, que é semelhante ao quadro hipotético que o Brasil pode enfrentar daqui há vinte anos; (ii) é bem provável que continuaremos a ser um país capitalista, o que demanda, desde já, que pensemos a questão da reposição da mão de obra e do desenvolvimento de tecnologia visando superar essa nova contradição que se anuncia no horizonte - ou então, poderíamos ser um pouco mais criativos e poderíamos inovar na política econômica repensando as relações de produção e trocas materiais, antes até do que isso, o que é complexo, mas é sim uma boa opção. 


De todo modo, recomendo a revista e, sobretudo, as reflexões que Pochmann lança em sua entrevista.

sábado, 21 de agosto de 2010

Fotos do Primeiro Dia do Encontro de Blogueiros Progressistas

Depois de ter virarado a noite de ontem no aniversário de uma grande amiga minha e de passar o dia inteiro no Encontro de Blogueiros Progressistas, vou apenas divulgar as fotos e algumas poucas impressões sobre o primeiro dia do evento blogosférico - deixo a análise para depois, quando o encontro tiver concluído. Já posso adiantar que, no cômputo geral, o dia foi bem positivo e ainda que tenha muita coisa a ser ponderada,  eu me diverti bastante. Foi legal conhecer pessoalmente o Túlio Vianna e o Miguel do Rosário - com quem conversei -, trocar uma ideia com o Tsavkko e conhecer o pessoalzinho fisicamente.

PHA, Leandro Fortes e Rodrigo Vianna - a primeira mesa
Leandro Fortes, Débora Silva, Luis Nassif e Emir Sader


Paulo Rená, Túlio Vianna, Diego Casaes e Marcel Leonardi












Tsavkko
















Guto Carvalho, Emerson Luis, Eduardo Guimarães, Maria Frô e Azenha
Maria Quitéria e Taquaral

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Sobre o Desmonte da TV Cultura

A TV Cultura está ameaçada de desmonte pelo Governo do estado de São Paulo. Isso é gravíssimo. Estamos falando de um dos maiores patrimônios públicos do estado São Paulo, não apenas pelo alcance que tem enquanto rede de televisão como pelo seu histórico que unia qualidade e luta por democracia - que remonta aos anos de chumbo, quando, sob a égide de um tal Vladimir Herzog, aquele canal ousava fazer jornalismo de verdade. A Cultura, nos fins dos anos 80 e anos 90, exercia uma importante função no sistema de comunicação nacional, principalmente no que concerne a um nicho subestimado: O dos programas infantis - enquanto todos os canais brasileiros, desde o início dos anos 80, insistiam em produzir voltados para instalar uma verdadeira pedagogia do consumo, o canal público bandeirante produzia um material que conseguia ser ao mesmo tempo crítico e inteligente e popular.   

É necessário recapitular: A decadência da TV Cultura coincide com a decadência econômica e política de São Paulo. O ciclo industrial dos anos da ditadura era insustentável e está destinado a entrar em um ciclo precoce de desindustrialização; a ausência de partidos e grupos políticos com um projeto à altura de responder às demandas geradas por esse fenômeno provocaram uma decadência econômica aguda; os governos Quércia e Fleury foram particularmente fracassados e eis que o PSDB ascende com Covas: Enquanto o projeto petista se volta para a disputa do Governo Federal, com algum foco de organização de alternativas de política regional restrito quase que apenas na capital, o grande capital bandeirante, em decomposição pelos problemas da indústria, buscava por um braço partidário capaz de privatizar os bens públicos e assim lhe conceder o acesso a tal nicho. 

Eis aí que nasce o longo domínio tucano em São Paulo, o que tem servido, inclusive, como plataforma para disputas em níveis federais - em aliança com certas oligarquias do Nordeste. Por outro lado, o PT, embora sediado no mesmo estado, jamais lançou mão de uma política local efetiva para estabelecer um efetivo contraponto - nem ele, nem nenhum outro partido de esquerda. Nesse contexto, a máquina privatista tucana atropelou tudo, embora tenha procurado respeitar os dois grandes estandartes de resistência de um projeto público e humanista de São Paulo, nomeadamente, a USP e a TV Cultura. Hoje, a segunda está sob ataque direto depois de ter sido consumida aos poucos pelos Governos Covas, Alckmin e Lembo - e sofrido violenta interferência de Serra/Goldman, sendo que o primeiro deixou tal movimento de desmonte engatilhado quando saiu do cargo para concorrer à Presidência da República.   

Na prática, o que temos é a demissão de mais de mil funcionários e a provável extinção de uma série de programas. Em suma, o fim da TV Cultura que ainda resistia aos acintes político-partidários que causaram as demissões de Luís Nassif e mais recentemente de Heródoto Barbeiro, a deformação do jornalismo e, até mesmo, o assassinato do Roda Viva enquanto programa questionador, crítico e, sobretudo, independente. Por que isso é ruim? Porque é um passo atrás para a resolução de uma das demandas mais urgentes do Brasil contemporâneo: A democratização da informação. Vivemos numa era na qual informação se torna poder de maneira mais direta e pungente, o oligopólio da mídia, para além dos efeitos econômicos imediatos, produz efeitos posteriores e mais relevantes pela concentração da produção e difusão da economia em si - o que concentra poder em certos grupos em detrimento de todo o resto do sistema. Democratizar mídia não é apenas fazer uma espécie de bondade, mas garantir a própria democracia e a sustentabilidade da economia, é realizar uma tarefa tão urgente e necessária quanto uma reforma educacional ou uma reforma agrária. Quando o PSDB retrocede neste ponto, está dando mais mostras perigosas do seu projeto. 

terça-feira, 20 de abril de 2010

Breve Análise da Cobertura da Corrida Eleitoral

A corrida eleitoral continua assim mesmo,  muito corrida e pouco pensada, pouco refletida e menos debatida ainda. Dos meios de comunicação tradicionais, o único que anda fazendo um trabalho decente é a CartaCapital - e goste-se ou não de Mino Carta (eu, por exemplo, discordo de muita coisa dele), mas o fato é que ele produz hoje o melhor semanário do país e, novamente, faz a melhor cobertura das eleições, dando espaço para todos os candidatos (Plínio e Marina tiveram um bom espaço na edição que está nas bancas). A Carta segue uma postura transparente que deverá resultar em declaração de voto em Dilma tão logo, provando que um meio de comunicação ser honesto quanto aos seus ideais, não influi negativamente na sua capacidade crítica, muito pelo contrário. De resto, temos o tradicional apoio velado dos maiores órgãos de mídia para o candidato mais conservador; a singela capa da Veja com Serra sorrindo é uma prova disso, mas temos de ressalvar que desta vez há coisas piores do que a revista que abriga RA e Mainardi: Um comercial da Globo, que supostamente deveria servir à comemoração os 45 anos da emissora, usando-se da enorme coincidência para colocar um número 45 enorme num fundo azul, usando, ainda por cima, o slogan de Serra foi um fato simplesmente jocoso - e nos lembra que não importa o que aconteça ou quanto tempo passe, mas a Vênus Platinada continua a mesma. 

sexta-feira, 16 de abril de 2010

As Pesquisas, de Novo

O debate eleitoral prossegue sendo pautado pelas pesquisas e pelo tapetão. O grande ponto que eu vejo é: Existe uma elefantíase da importância das pesquisas, já não é de hoje, no debate eleitoral no Brasil. O ponto peculiar, diz respeito às peculiaridades da campanha deste ano; a disputa acirrada entre o Lulismo e o anti-Lulismo personificado por Serra antecipou em um ano o debate e produziu intrigas particularmenente mais quentes do que a média. Isso faz com que a figura as pesquisas, essa figura tão onipresente, ganhassem uma nova figura.

O raciocínio é simples: Lula é enormemente bem avaliado - seja pelos seus êxitos ou pela incapacidade da oposição em pautar propostas que lhe superem - e isso significa transferência sim de voto para seu candidato. O ponto é que no Brasil, como em qualquer outro lugar, há um ano das eleições, o candidato da oposição tende a aparecer bem colocado nas pesquisas  porque é seu eleitorado que está mais mobilizado, quando as eleições se aproximam, aí as coisas costumam se desenhar, muito em virtude de como os eleitores veem o governo em exercício. 

Como normalmente, o eleitor brasileiro é bastante complacente com a situação nos planos estadual e nacional, então as coisas sempre são complicadas para o candidato oposicionista. Basta ver que a única mudança de rumo numa eleição presidencial que nós já aconteceu por aqui foi em 2002, quando o projeto tucano já estava à deriva há pelo menos dois anos. Serra foi o candidato ali e a diferença entre aquela situação e essa pode ser resumida numa definição apócrifa que eu pesquei lá no blog do João Villaverde: "Em 2002, [Serra] era continuidade tentando mostrar que não era. Agora, não é continuidade tentando mostrar que é".
  
Para demonstrar um exemplo às avessas, lembremos da derrota de Marta Suplicy (PT) em São Paulo para o situacionista Kassab. Uma conjuntura muito parecida, onde ela disparou, mas não conseguiu converter sua liderança inicial em uma liderança real - em suma, não consegiu, discursivamente, provar para os eleitores porque eles deviam mudar o voto e perdeu.

Voltando ao caso em questão, temos duas polêmicas centrais: A do caso da pesquisa do Datafolha que apresentava um crescimento de Serra do nada, o que foi recebido com frieza pelos próprios jornalistas da Folha, para ser logo desmentido pela pesquisa Vox Populi e, finalmente, ser soterrada como um mero ponto fora da curva pela mais recente pesquisa CNT/Sensus - contra a qual, os tucanos entraram na justiça. 

No primeiro caso, eu levantei suspeitas sobre a efetividade da primeira pesquisa porque ela não se encaixava com sua própria pesquisa espontânea, com a de avaliação do Governo Lula e com a opinião dos colunistas da Folha. No caso atual, a tendência que vem desde Dezembro do ano passado apenas se consolidou mais, só que o fato dela ter demonstrado empate entre os dois principais candidatos gerou um impacto moral sobre o PSDB. Resultado: Nova ação tucana na Justiça. 

Isso nos traz ao outro problema, a problemática sobre a justiça eleitoral, algo frucral numa Democracia. Temos um Código Eleitoral antigo, uma legislação confusa e uma estruturação mais confusa ainda na Justiça Eleitoral - tanto é que as regras mudam a todo momento. O caso assustador que aconteceu com Jackson Lago no Maranhão não sai da minha cabeça, por exemplo.

Em suma, o que deveria ser um debate eleitoral, se tranforma num show de horrores onde as pesquisas e o tapetão substituem mesmo o debate raso da democracia representativa clássica. Nesse sentido, o PSDB se supera e colabora para esvaziar mais ainda - e até sabotar - o andamento das coisas, perto disso, o exaurimento do debate interno no PT - e consequentemente do externo - parece fichinha.

Atualização de 18/04: Saiu o resultado da pesquisa Datafolha indicando Serra com 10 p.p. a frente de Dilma. As pesquisas posteriores, do Vox Populi e da CNT/Sensus, mostraram uma movimentação de crescimento da candidata petista no que resultou no empate dela com Serra, transformando em ponto fora da curva a tendência de crescimento sustentada pela penúltima pesquisa Datafolha - e vimos nas páginas da Folha uma desqualificação prévia e posterior de ambas as pesquisas, o que é muito estranho e inédito na história de pesquisas eleitorais no país. Agora, essa nova pesquisa Datafolha indica a tendência de sua última. Se o resultado da anterior já era muito estranho, essa é mais ainda, afinal, dúvidas interessantes sobre sua metodologia já estão sendo levantandas. A chance de um erro ou manipulação na última Datafolha é real, agora, ao repetir a tendência com uma metodologia questionável, sabemos que ou alguém está errando feio ou usando o potencial inerente às pesquisas eleitorais: Provocar comportamentos de manada e esvaziar o debate político.