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domingo, 14 de novembro de 2010

A Televisão e o Novo Brasil

A Televisão é o meio de comunicação chave para entender a política e a sociedade de um era que está por terminar. Seu poder é imenso: Um aparelho que transmite sons e imagens em movimento simultaneamente, em forma de monólogo do transmissor para o receptor e que não demanda, curiosamente, ser instalado em praças públicas, mas pode - como deve - perfeitamente estar alocado confortavelmente nos lares das pessoas. O modo de comunicação que a Televisão executa não é novo, trata-se do que o Cinema faz, apenas com a pequena - e agudamente profunda - diferença de que ela, ao contrário das telas de cinema, pode ser colocada no mais íntimo espaço privado de convivência, longe das massas e das praças públicas.


A Ideologia caminha lado a lado com o conceito de imagem e, por óbvio, habita o campo da imaginação; ideias (na verdade, figuras elevadas ao expoente) articuladas discursivamete como forma de revelar o que interessa e esconder o que não importa para a execução de um projeto de poder - a televisão, por natureza, opera como uma máquina essencial para a difusão da ideologia, cortando fluxos de imagem que desaguam no ambiente familiar. E se a ideologia nasce sob os auspícios da Revolution, a Televisão ganha proeminência nas sociedades industriais tardias e nas sociedades pós-industriais; de Washington a Pequim, de Londres a Buenos Aires, a Televisão, o sistema de televisão, é edificado em ritmo alucinante.


O custo da Televisão faz com que, em tese, grande parte do mundo não se justificasse sua instalação. Nem por isso a segunda metade do século 20º deixa de ser marcado por um esforço brutal em expandir o sistema de televisão. A participação do Estado ou das grandes corporações está clara e é pressuposta nessa expansão. Com o Brasil não é diferente, surge um modelo que ao mesmo tempo em que está nas mãos do Estado, se dirige a famílias de oligarcas da comunicação social e que aqui, por sua vez, reproduzem um novo tipo de oligopólio e se articula na promoção dos interesses - não só comerciais, mas também políticos e sociais - das grandes corporações. 


O pioneirismo de um Chateaubriand (foto) se dá num momento de incertezas, quase pré-histórico, da frágil experiência democrática que, mais tarde, saberíamos ter sido apenas um pequeno hiato entre o Estado Novo e a Ditadura Militar. O sistema brasileiro toma corpo com os cortes feitos pela Ditadura Militar que modela quem dá as cartas na mídia tradicional e determinará quem serão os encarregados pela difusão da notícia. Foi a modelagem definitiva de quem fazia parte do "time" - do aparato do oligopólio midiático - e quem teria o maior quinhão na exploração da jóia da coroa, notadamente, a TV.


Não resta a menor dúvida da importância de uma Rede Globo na construção de um Brasil que interessava à Ditadura. Aquele Brasil mostrado segundo o padrão Globo de qualidade para milhões e milhões de pessoas era, na verdade, a criação de um Brasil que interessava ao status quo ou, no máximo, ao acessos de lampedeuzianismo da elite. Pouco importa se a TV nas mãos está nas mãos do Estado, o oligopólio toma por impossível que a oposição, chegue, alguma dia ao poder; anos mais tarde, quando Hugo Chávez não renova contratos de concessão na Venezuela, a luz vermelha se acende no Brasil, durante anos alimentou-se um modelo todo concentrado na mão do Estado, mas não se supunha que um dia, os ocupantes do poder não seriam necessariamente seus aliados - e naquele momento, quem ocupa o poder no Brasil é o jovem governo petista.


A TV foi e continua sendo um meio que, do ponto de vista comercial, jamais representou grande coisa. As familias que se beneficiam das concessões estatais, na verdade, tinham nas mãos um instrumento que lhes garantia ganhar dinheiro por outros fins, o poder da informação, o da construção e da desconstrução de mitos, que lhes permitia certa proeminência e negócios promissores em outras áreas, desde que cumprissem o seu dever. O Brasil pré-Lula ainda é marcado pela proeminência de uma TV Globo, com o SBT, uma rede de entretenimento aparentemente inofensiva operando em um nicho de mercado e a Record, uma canal antigo, cuja concessão foi negada à Central Única dos Trabalhadores para ser dada a - aparentemente  - inofensiva Igreja Universal do Reino de Deus - que, acabou por construir um modelo que visava ao topo da comunicação televisiva. 


Por outro lado, canais de TV de famílias alinhadas como a Bandeirantes - que sobrevive até hoje numa posição minoritária - e a Manchete - da família Bloch - já falida, jamais conseguiram se afirmar nesse cenário. As TV's estatais nunca conseguiram fazer a tão sonhada passagem para um esquema público - mais ou menos como a BBC -, a TV Cultura de São Paulo, sucateada por quase duas décadas de governos tucanos e a TV Brasil - tratada em segundo plano pelo Governo Federal - são exemplos disso.


A derrota do candidato global, José Serra, em 2002, marca a ascenção, pela primeira vez na história, de um não-aliado da Globo ao Poder, muito pelo contrário, falamos do detestado Lula, que foi por ela prejudicado nas eleições de 1989. Ainda assim, o Ministério das Comunicações permanece sob controle de aliados da Globo, como demanda a realpolitk lulista e sua renovação de concessão é operada de modo mais suave do que pode ser supor; um evento, no entanto, se opera nas sombras e representa um golpe para uma Globo já em declínio de audiência: A Record ganha mais uma concessão de TV, nos moldes daquele que a Globo mantém a Globonews, o que é a gota d'água após ter perdido a disputa pelo direito de transmissão das Olimpíadas de 2012 para a própria Record. 


Em um jogo no qual a benevolência do Estado é fundamental, uma Globo que já perdia sua parcela de audiência vai à guerra; A Globo não está, como não esteve, disposta a renegociar o seu estatuto, a despeito de seu progressivo encolhimento e, nas eleições de 2010, sua atuação é como de um Luís XVI da pós-modernidade, dada a maneira que entrou no front pró-Serrista, disposta a construir a trama mais pífia que fosse para atacar Dilma Rousseff, na campanha - e à Record coube tão somente a tarefa simples de desmontar sofismas, apontar contradições evidentes e assim herdar o espólio político das eleições; não a Record não precisou inventar que o balão de água que quase atingiu Dilma era, na verdade, coca-cola, do mesmo modo que a Globo transformou uma bolinha de papel num perigoso rolo de fita crepe, num acesso de ridículo e irracionalidade.


Ao passo em que o Plano Nacional de Banda Larga se desenha e a importância das redes colaborativas cresce, uma Globo que sabe o quanto seu poder se dilui na Internet - do mesmo modo que a Record - perde assim uma considerável força para negociar saídas que lhe deem a primazia dos bons negócios das últimas décadas de proeminência da TV. A célebre primeira entrevista da presidenta eleita Dilma Rousseff é para a Record, não para a Globo. Recado dado, os próximos anos serão turvos para a televisão dos irmãos Marinho. Do outro lado, o SBT de Silvio Santos, se esvai tardiamente com escândalos que permeiam todo o grupo, o que abre espaço para novas mudanças no mundo da televisão.


A democratização dos meios de comunicação, porém, permanece em aberto e os brasileiros continuam à mercê de alguns poucos canais de TV abertos, em torno dos quais se estrutura um jogo de poder político-partidário pesado que pode ter uma severa influência daqui a quatro anos. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Greve na TV e na Rádio Cultura

(Imagem retirada daqui)
Os trabalhadores da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV e da Rádio Cultura - além do canal por assinatura Rá Tim Bum - estão em greve desde a madrugada de segunda-feira. O motivo da greve é basicamente o não cumprimento do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) - ACT's são ajustes entre uma ou mais entidades empregadoras com o sindicato representativo da categoria, eles têm valor normativo reconhecido em Lei (CLT, art. 611, §1º) e normatizam as relações empregatícias apenas dentro das entidades acordantes.

O Acordo Coletivo em questão vale para a Fundação Padre Anchieta. Ele determina um aumento de 5,83% e um abono de 35%, o que não foi cumprido. O Conselho da Fundação se reuniu com o comando de greve e propôs um aumento maior - de 5,85% para 6,05% -, mas não pagaria o bônus (!). Diante do exposto, a greve não somente estourou como também teve ampla adesão. O Sindicato dos Jornalistas, no entanto, continua mantendo uma posição ambígua e distante da questão - mesmo que a categoria dê amplo apoio ao movimento grevista.

Isso daí é um reflexo de um processo que já tínhamos tratado aqui em Maio, e implica desde o sucateamento da programação da Rádio e Tv Cultura até a descaracterização dos programas ainda funcionais em favor de interesses partidários - o Roda Viva, por exemplo -, passando também pela wal-martização das relações trabalhistas e do simples desrespeito ao Direito do Trabalho.

No caso em tela, temos a decorrência natural da mão forte do Governo Serra acirrando um desmonte que já remonta aos anos 90 nas primeiras administrações tucanas no estado. Nesse sentido, a atuação de um Paulo Markun na presidência da Fundação tem sido decisiva como podemos constatar, por exemplo, na demissão de Luís Nassif ano passado - o próprio Nassif, aliás, postou hoje sobre a atual greve, focando na questão do sucateamento da Rádio Cultura.

É uma questão grave e nos diz muito sobre como seria uma presidência Serra - seja no tocante à sua relação com o Estado Direito ou mesmo no que concerne à política de telecomunicações, passando também pela visão de política trabalhista.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Futebol: Noite de Libertadores?

O Cruzeiro perdeu a final da Libertadores. Mas quem se importa, nem passou na TV aberta, não é mesmo? Absurdo dos absurdos. O que se viu foi a pancada que o Fluminense tomou do Inter em Porto Alegre e a vitória de um Palmeiras unido para efetivar Jorginho contra um disfuncional Flamengo no Maracanã. O Inter quase deixa a sua vitória escapar, mas fez valer o favoritismo e a superioridade. O Palmeiras fez um belo primeiro tempo e matou merecidamente o jogo ali. O Cruzeiro, bem o, Cruzeiro jogava a final de qual torneio mesmo mesmo? Enfim, não há mais futebol brasileiro, mas sim futebol de Rio-São Paulo.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

A Final Não Será Televisionada

Ontem, o Cruzeiro foi valente e arrancou um ótimo empate no jogo contra o Estudiantes na Argentina (oxo). Essa final juntou tanto a mística de um Brasil x Argentina quanto premiou as duas melhores equipes do torneio - que, coincidentemente, se encontravam no mesmo grupo na primeira fase. No entanto, a final não foi transmitida pela TV aberta. É injustificável que se esnobe uma final de Libertadores com finalista brasileiro. Preterir esse jogo em favor de uma partida adiada da nona rodada do Brasileiro, aí, já é um esculacho e demonstra a que ponto chegou a ditadura do eixo Rio-São Paulo no futebol. Lamentável.

P.S.: Vale a pena dar uma lida
no excelente post do Mauro Beting sobre o assunto.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Slavoj Zizek no Roda Viva

Ontem o Roda Viva entrevistou o filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek. Na verdade, assisti apenas a parte final do programa por conta de uns imprevistos que eu tive - e só o fiz pelo entrevistado, porque o programa, na minha modesta opinião, degringolou feio de uns tempos para cá.

A entrevista, claro, foi gravada na ocasião da visita de Zizek ao Brasil no ano passado. Isso por si só já faz um programa com o formato do Roda Viva ficar um tanto sem sal. Ademais, Alexandre Machado como apresentador do programa realmente não é lá muito animador - ainda que ele seja centenas de vezes melhor do que Lilian Witte Fibe.

Algumas das perguntas feitas, como, por exemplo, "o que você pensa sobre o stalinismo" e depois o mesmo sobre o Brasil são clichês - ou eu estou muito enganado ou sempre que o Roda Viva entrevista algum intelectual de esquerda, eles sempre fazem a primeira pergunta e quando entrevistam um estrangeiro, eles sempre fazem a segunda .

Não achei a bancada à altura do entrevistado, ainda que ele, com sua perspicácia fenomenal e boas tiradas tenha segurado o programa.