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sábado, 26 de fevereiro de 2011

O Consenso Brasileiro: Kassab e São Paulo

Na quinta-feira última, ocorreu o sétimo grande ato pela redução das tarifas de ônibus em São Paulo. Trata-se de um intenso processo de mobilização contra a política de transporte do atual governo municipal da capital paulista, o que invariavelmente resvala em um embate direto contra toda lógica do projeto que há quase oito anos dita os rumos da maior cidade do Brasil. O atual mandatário de São Paulo, Gilberto Kassab, surge como o improvável vice de José Serra nas eleições de 2004, assume como vice e, após um ano, ascende à chefia da principal Prefeitura do país, com a esperada saída de cena de Serra para disputar o Governo do estado em 2006 - dentro de uma estratégia que visava à Presidência da República em 2010, projeto que, como sabemos, fracassou há alguns meses. O Kassabismo, como já debatido exaustivamente por aqui, é a reterritorialização definitiva de São Paulo, afinal, não é possível conceber uma amálgama de projetos conservadores maior do que ele: Um pouco da direita "empresarial" ao estilo Afif, o velho Malufismo, o espectro do demismo e a frieza gerencial tucana.

Em São Paulo, ergueu-se um modelo desumano de cidade durante a segunda metade do século 20º, a mais perfeita e acabada expressão urbana do Regime Militar: Uma urbe centrada no transporte individual, no isolamento da massa trabalhadora mal-paga nas periferias e entristecida em tons cinzas e duros. As tentativas humanizadoras de dois governos de esquerda na era democrática tombaram diante da insuficiência dos projetos frente à complexidade do consenso político do núcleo duro local. A cidade, neste exato momento, está esgotada, vítima dessa camisa-de-força urbanística, na ausência de projetos à altura de suas demandas e na obstinação em manter tal projeto em curso. O aumento das passagens de ônibus para R$ 3,00 só segue uma trajetória de reajustes altos de um serviço que está esgotado há alguns anos, mas que no Kassabismo chega a um nível considerável de sucateamento, o que levou à onda de protestos em questão. Esse ato em específico narrado aqui atraiu quase cinco mil manifestantes para a frente da Prefeitura, o que marca um fortalecimento do movimento, um marco importante depois da dura repressão promovida pela Polícia Militar paulista e a Guarda Civil Metropolitana - devidamente coberta neste post lapidar do Tsavkko sobre o 17 de Fevereiro.

A grande questão que se impõe diante dos nossos olhos, para além da manutenção paranoica de um modelo de urbano insustentável - ou mesmo das agruras da repressão e do policialismo - é o consenso que se constrói no país e que tem, pelo seu lado, normalizado variadas formas de relação e convivência francamente opressivas que encontram lastro histórico seja na Ditadura ou em algum ponto mais longínquo da nossa vida enquanto coletividade: Não há indignação, Kassab é, hoje, um quadro disputado a tapas pelas principais forças políticas do país. Em vez de falarmos nesse consenso como elemento de manutenção de algum entulho histórico, equívoco elementar entre equívocos elementares dentre os decorrentes de uma compreensão linear do tempo - que posiciona, por sua vez, a História como uma espécie de marcha forçada -, é preciso trazer essa questão para o terreno da imanência, para o inescapável aqui-agora; não é de manutenção de nada que falamos, mas de um produtor atual de autoritarismo, logo, de obstrução ou mesmo captura da vida por meio do esvaziamento da politicidade - e da possibilidade de problematização e questionamento das coisas inerentes à vida comum, reduzidas cada vez mais a um gerencialismo tacanho.

Essa grande contemporização que se viu, há pouco, com o aprofundamento da aliança entre PT e PMDB e se adensou nos primeiros meses do Governo Dilma ascendem uma luz amarela relevante em relação a uma bola que temos levantado por aqui: O PT produziu mudanças incontestáveis nos últimos anos, mas um dos desfechos possíveis para essa história é ele ser engolido pela situação que criou e padecer esvaziado de seu potencial. A tentativa de aproximar Kassab da base aliada - seja no PMDB, no PSB ou no novo PDB - para desestabilizar o esquema demo-tucano faz algum sentido, mas ele não esgota o direitismo, ao contrário, apenas atinge um de seus tentáculos externos, sem deixar de trazer, paradoxalmente, para dentro do intrincado sistema governista um elemento ele mesmo direitista. Isso é parte da conversa que eu iniciei aqui no post anterior e que rendeu este belo post do Bruno Cava, em relação ao qual eu concordo com grande parte das assertivas e das preocupações, embora não seja tão pessimista quanto à situação atual (o que não quer dizer que eu esteja otimista também) e seja mais cético quanto ao peso da responsabilidade de Lula nisso: A proposta de Governo atual, sob a égide da Carta ao Povo Brasileiro, já é, em si, marcada por uma articulação complexa que caminha no limite entre a contemporização total e  a negociação com variados setores, item  que Lula, apesar de vários arranhões, conseguiu administrar sem cair em uma conciliação geral, embora não tenha conseguido afastá-la por completo também, o que não torna menores suas responsabilidades sobre o que se passa agora.

Apesar dessas nuvens negras no horizonte, o posicionamento de inúmeros parlamentares petistas nas mobilizações contra o aumento das passagens e suas declarações públicas contra o Governo Kassab são relevantes e, esperamos, conseguirão frutificar daqui a um ano na construção de uma alternativa eleitoral verdadeira ao projeto atual - em uma briga dura que passa, aliás, pela superação do coro de contentes dentro do próprio partido. O papel de ativistas das mais variadas espécies precisa, é claro, ser alheio a todo o jogo político-institucional, o qual deve ser reduzido a mero instrumento: É necessário se voltar ao que realmente interessa, a saber, mobilização, atuação, problematização. É preciso pôr o altar do consenso abaixo e isso só é possível de se fazer atuando nas ruas e nas diversas (info)vias da vida.

P.S.: As fotos que ilustram este post são do meu grande amigo Bruno Pegorari que fez essa bela cobertura fotográfica especialmente para O Descurvo. 
* um agradecimento ao Paulo Paiva pela revisão ortográfica.

domingo, 25 de julho de 2010

O Esvaziamento do Debate Eleitoral e as Pesquisas

Sim, meus caros, para além do império dos factóides, essa eleição também é marcada por um jogo duro no mundo das pesquisas. Não existe debate, sem dúvida. Quando o PT era oposição havia uma crítica à esquerda da política tradicional brasileira e, em um segundo momento, o confronto praticamente polar com o PSDB, quando o partido da estrela se posicionava fortemente contra as privatizações, a liberalização econômica e a ideia de um mercado dotado de design inteligente que em tudo põe ordem - justamente aquilo que seu rival colocava pautava - propondo uma reconstrução do Estado e de uma lógica pública, social e solidária de economia - além de uma política externa verdadeiramente independente.


Isso acabou. Primeiro, porque diante do alto nível de desemprego e do sucateamento do setor público, as propostas do PSDB se tornaram justificada e incrivelmente impopulares sem que isso provocasse uma mudança de rumos interna ou uma explicação decente sobre as causas desses problemas, criando um discurso simulado e confusa seja com Serra em 2002 - que para uns se punha como tucano diferente, anti-malanista e "desenvolvimentistia", enquanto que para sua base se afirmava como a continuidade necessária e, para todo o resto, apenas insuflava um pânico anti-lulista e anti-petista - ou com Geraldo Alckmin 2006 - que apareceu como uma espécie de candidato que, para além da fobia anti-petista (o discurso de lei dos candidatos tucanos), calava sobre a agenda impopular do seu partido, descolava-se da figura de FHC e, sobretudo, vendia a ideia de que a "política" faliu e era hora de se eleger um "gerente" - em suma, esqueçamos essa história de democracia e de "muita conversa" e vamos funcionar como uma tecnocracia. Lula no primeiro caso foi o candidato da esperança, enquanto no segundo, foi o candidato que dizer que a "política" - isto é, a democracia - ainda valia a pena e venceu ambas, adotando, entretanto, um discurso mais centrista que nas campanhas anteriores.


Enfim, foram duas campanhas péssimas, porque seja enquanto situação ou oposição, os tucanos não sabiam o que fazer para explicar as falhas do Governo FHC: Por convicção politica, Serra e Alckmin não viam muitos problemas nas políticas dos anos 90, seja porque não sabiam porque elas deram errado, porque viam outras tantas coisas como "mal-necessário" ou porque, como via de regra era uma opção de continuidade ao Fernandismo dentro do partido, não julgavam prudente fazer críticas frontais a um ou outro ponto que poderiam discordar - Serra talvez tenha feito isso, quando disputava a indicação para a Presidência em 2002, talvez por uma questão de afirmação interna, nada mais. Nesse sentido, ambos elogiaram algo que ainda restava como popular e calavam sobre todo o resto, mesmo o que consideravam certo, porque isso depunha contra sua ambições políticas. Isso produziu momentos engraçados como, por exemplo, em 2006 quando Alckmin foi jogado na parede por Lula sobre a questão das privatizações, entrou em pane porque não tinha coragem de defendê-las nem de crítica-las.


Nessa campanha eleitoral, no entanto, as coisas pioraram. Como debatia quando discutia a questão de Serra e das FARC, a quantidade de factóides por minutos que são produzidas é absurdo e eles surgem, fundamentalmente da campanha serrista, Em 2010, depois do bem-sucedido mandato de Lula, onde o país cresceu muito bem, resistiu à crise sem punir a população, desenvolveu mais ainda os programas sociais e reduziu o desemprego gradativamente - Junho deste ano  foi o mês de Junho com a menor taxa de desemprego em anos -, o candidato da oposição tomou uma rota confusa e muitas vezes desequilibrada: Em um primeiro momento, tentou se lançar com a tese de que não é o candidato oposicionista, mas sim aquele candidato "mais preparado" para governar o país no pós-Lula, mas sempre alternou isso com críticas vulgares ao que foi feito nos últimos sete anos - principalmente em matéria de política externa - e depois destrambelhou-se com a escolha, a despeito de sua vontade, de Índio da Costa como vice.


Serra acusa paranoicamente a todos, A Bolívia, o PT, o Mercosul e até as camisinhas chinesas, mas, por pura diletância, pergunto: Onde estariam as provas? A resposta recorrente é o velho "todos sabem". Vergonhosamente, a blindagem que ele sofre da mídia corporativa é enorme. Ali, ninguém o cobra de nada que diz. Aliás, enquanto balões de ensaio são, tragicomicamente, produzidos acerca da forma como o atual governo ameaça a liberdade de imprensa, a própria liberdade de imprensa, ela mesma, é atacada em São Paulo, como se vê no caso da TV Cultura, o canal público paulista, que é simplesmente bombardeada pela intervenção política do Palácio dos Bandeirantes.


Marina Silva, candidata do PV, pondo-se ao centro dessa questão, pauta uma mistura de ambientalismo, uma agenda de direitos civis candidato democrata-cristão dos anos 70, com uma pegada liberal no programa econômico.Frente a isso, a candidata da situação, Dilma Rousseff, segue a orientação de campanha de não entrar em divididas, mesmo quando acusada infantilmente, a ideia, claro, é não entrar na briga e tratar de colar sua imagem na figura de Lula, que persiste altamente popular, propondo-se como candidata da continuidade. Plínio de Arruda Sampaio, candidato do PSOL, foi seguidas vezes boicotado pela mídia, sob a alegação de que não pontua nas pesquisas. Aliás, encontramos o gancho para um dos principais fenômenos  que compõem o conjunto desse processo de esvaziamento do debate: As pesquisas eleitorais e o modo como os candidatos se relacionam com elas.


Sim, de repente, o debate político nacional se viu engessado pela figura das pesquisas eleitorais. De repente, as considerações do eleitorado sob temas polêmicos são avaliadas - sob uma metodologia nem sempre bem avaliada - por pesquisas de opinião, logo, os principais candidatos se orientam por aí, elas se tornam uma baliza de uma espécie de doutrina de ação eleitoral. O dado que vem dali parece que se torna uma verdade universal imutável e, logo, ninguém se arrisca numa das funções mais elementares da política que é o convencimento público em relação a temas polêmicos - mesmo que acredite no que está defendendo. E fazem isso sob bases pantanosas. Outro problema, e aí sim a porca torce o rabo, é da efetividade das pesquisas eleitorais. Não faltam estatísticos que, justificadamente, as critiquem. Por outro lado, temos uma verdadeira guerra entre os institutos de pesquisa, que conflitam, como nunca, nos resultados das pesquisas. Poderíamos falar em erro por parte de ninguém há meses atrás, mas a persistência do fenômeno nos leva a crer que alguém está mentindo.


Fosse o caso de divulgar pesquisas eleitorais, eles deveriam ter uma metodologia oficial uniforme - e, de preferência, elas deveriam ser produzidas por um instituto oficial e não por um emaranhado de empresas privadas, dotadas de interesses próprios. Isso, ao meu pensar, funciona como as famosas "agências de risco", as famigeradas empresas privadas que avaliam o "risco" de investir nos países pelo globo, sendo decisivos, em especial para os países pobres, dotados de gigantescas dívidas. As pessoas tomavam aquele dado como um verdade, mas se esqueciam que, na verdade, aquelas agências eram empresas privadas como qualquer uma outra, com interesse privados e, sobretudo, com a possibilidade de ter interesse direto e efetivo na negociação de dívidas com alguns países - não à toa, boa parte das agências quebrou na Crise Mundial que segue, tão envolvidas estavam no jogo da especulação. O mesmo ocorre com nossos institutos de pesquisa de opinião, em especial, no que toca às pesquisas eleitorais: Antes de avalia-las é necessário saber que aquelas empresas podem ter sim interesse direto na eleição de um candidato - e isso, ainda que condenável eticamente, não é uma anormalidade econômica, convenhamos.


Até março deste ano, os institutos coincidiam em suas análises: A candidata governista, Dilma Rousseff, crescia inercialmente e o candidato da oposição, José Serra, via sua liderança diminuir. Depois, enquanto Vox Populi e Sensus anotavam a manutenção da tendência, o Datafolha - instituto do Grupo Folha, dono do jornal Folha de São Paulo, conhecido por suas posições pró-PSDB - dizia o contrário: Quando os dois primeiros diziam que Dilma se aproximava, ele apontava que ela ainda estava longe, quando os dois primeiros diziam que houve empate, ele apontava para uma liderança menor de Serra, quando os dois primeiros diziam que Dilma ultrapassou Serra, ele insiste na tese do empate. Curioso. Enquanto isso, o Ibope, fica no meio-termo entre os dois movimentos - com seu proprietário sob particular suspeição, depois de declaração públicas ano passado.


As últimas pesquisas do Vox Populi e do Datafolha são emblemáticas. Enquanto o primeiro afirma a tendência inercial de crescimento de Dilma - o que não teria motivos para ter cessado, afinal, não houve fato novo e relevante sobre o Governo Lula ou ela no período -, o segundo insiste que houve empate. A distância é gigantesca, o primeiro diz que Dilma está oito pontos na frente e o segundo diz que ela está um ponto atrás. Marina Silva, curiosamente, está com a mesma margem de pontos em ambas. Dilma lidera ambas as pesquisas espontâneas - isto é, aquela onde o entrevistado é perguntado diretamente em quem vai votar, enquanto na segunda, ele é informado sobre quem concorre. Evidentemente, a maneira como ocorre a exposição dos candidatos está fazendo toda a diferença. Não só isso, a metodologia de seleção dos entrevistados e distribuição do eleitorado pelo país é diferente. Quem aponta isso é Brizola Neto, deputado federal pedetista que disputa a reeleição, e é crítico do Datafolha.


Pode se discutir aqui que ambas as metodologias são corretas, mas um ponto que me intriga particularmente é como o Vox e o Sensus - que ainda não saiu - estão antevendo os movimentos enquanto o Datafolha mostra os mesmos movimentos com efeito retardado. Também é curioso como ambos coincidem nas intenções de voto de Marina. Por isso, entendo que o Datafolha precisa se explicar do mesmo modo que o Grupo Folha, jogando na ofensiva já fez com os outros institutos, por muito menos, o fizessem. Seja como for, a lúgubre democracia brasileira, para não esmorecer de vez, precisa de uma reforma urgente no regime jurídico-eleitoral e a abolição das pesquisas eleitorais ou, no mínimo, sua racionalização mediante a instituição de metodologia uniforme, deveriam ser itens postos em debate. Para além disso, em termos factuais, não deixa de ser perturbadora a forma como o processo de esvaziamento do debate eleitoral tem sido catalisado, particularmente, pela oposição tucana.



quarta-feira, 21 de julho de 2010

Serra e as FARC

(Pára-militares Colombianos, provas-vivas de que o jogo é bem mais complexo do que Serra faz parecer)


Se existe uma coisa patente nesta campanha eleitoral é a quantidade de factóides produzidos por minuto. Impossível acompanhar todos, a menos que você esteja debruçado vinte e quatro horas sobre as eleições. Também não seria o caso de ficar jogando informação paranoicamente, essa não é proposta daqui d'O Descurvo - muito pelo contrário, o objetivo deste blog é matar a bola da overdose de informações no peito e cadenciar o jogo de forma racional. Em suma, a questão aqui é avaliar criticamente e sem sucumbir às exigências do "tempo". 

Para quem desconhece o termo, "factóide" é um suposto fato político, lançado no ar por algum candidato ou por um governante, que pode ser verdadeiro ou não - mas pela matéria que se trata ou pela pessoa a quem se refere, é possível, ainda que isso pouco importe, quem fala, não tem essa intenção. É difícil que algum adversário produza um factóide dizendo que Plínio de Arruda Sampaio recebe dinheiro de associações neonazistas do Grande ABC, mas o mesmo não se pode dizer de um factóide onde ele seja financiado integralmente por Cuba - embora claramente absurdo.

Pois bem, a questão é que a candidatura do candidato da oposição, o tucano José Serra, até agora, é uma sequência de factóides. Muitos das quais terceirizadas pela "grande" mídia que, via de regra, está alinhada com sua candidatura, além de outras tantas que começam a vir de sua boca e, em especial, do seu vice, Índio da Costa, numa campanha que é a dissimulação em estado puro - onde não se sabe se bolsa família é "bolsa-esmola" ou se foi invenção de FHC, sendo essa última, a falácia recorrente quando o discurso serrista toma um viés mais, por assim dizer, "social", o que pode ser facilmente desmentido.

No entanto, Índio, um vice obscuro escolhido à revelia do cabeça de chapa, é aquilo que pode se chamar de militante de direita padrão. Ele puxa a campanha de Serra para a direita. Vejamos, embora as dissimulações, a campanha serrista oscilava mais para dizer que a questão não era discutir o Governo Lula, mas sim em apresentar alternativas para depois, dizendo que o Brasil pode mais - fazendo até críticas por um viés desenvolvimentista. Mudava a plateia, claro, mudava o discurso, mas o a linha geral, para o "grande público" era a primeira, o que não era condenado pela segunda plateia, que via como uma "astúcia" em um jogo que vale tudo. Com Índio, a tese do bolsa-esmola torna-se mote.

Entre os factóides que o nobre deputado carioca soltou, o maior foi envolvimento do PT com as FARC. Pior, se antes algumas das besteiras que Índio soltou pelos cotovelos lhe valerem  repreensões da coordenação de campanha serrista, esta, Serra encampou publicamente. Uma resposta contundente, simples e precisa para a questão foi a de Brizola Neto:

"O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defende publicamente a legalização da maconha como forma de superar o problema da criminalidade ligada ao narcotráfico. Concorde-se ou discorde-se dele, isso não dá a ninguém, exceto a quem seja um crápula, o direito de dizer que o ex-presidente é ligado ao uso de drogas. Seria uma infâmia, uma calúnia, um ato odioso. Se o PT e outras forças políticas defenderam ou defendem a negociação com o movimento guerrilheiro das FARC como forma de superar os impasses políticos que, há décadas, consomem vastas áreas da Colômbia, isso igualmente não dá a ninguém o direito de dizer que, por isso, são ligados ao terrorismo. É uma mentira infamante, um ato de oportunismo tão grande quanto o que se apontou no parágrafo anterior."
Ora essa, sabe-se que o PT sempre defendeu uma saída negociada para a Guerra Civil que vitima a Colômbia há quase meio século. Sabe-se que o PSDB, pelo menos no Governo, defendeu o mesmo - e que FHC declarou, publica e orgulhosamente, ter negado a proposta de Clinton segundo a qual o Brasil deveria ajudar - militarmente - a "normalizar" a situação do país vizinho. Mais do que isso, apesar de que tenha sido com algum atraso - coincidentemente depois do seu Governo -, hoje, o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso se empenha na luta pela resolução do problema das drogas defendendo sua liberalização. Enfim, dizer como isso é essa afirmação de Serra não é apenas um factóide - e um factóide ruim por ser completamente ilógico -, Brizola Neto já o fez: Se o PT é ligado ao tráfico por isso, o PSDB também o é, mas evidentemente não é o caso. 


O aspecto que me interessa - além de reiterar aos incansáveis frequentadores deste blog a minha decepção com o baixo nível do debate nesta campanha - é o quão Serra é temerário. Já não é a primeira vez que ele dá passos errados e comete erros gravíssimos para alguém que quer ser Presidente. Acusar mentirosamente o PT é o menor dos problemas que ele está causando quando faz afirmações como essas: A questão aqui é como a ambição pessoal do candidato é tão grande que ele é incapaz de considerar o quão delicado é o quadro humanitário da Colômbia, um dos países com um dos maiores números de refugiados de guerra do mundo. Nada disso, o que importa é a campanha e diz-se o que bem entende, pouco importando a gravidade da matéria da qual trata. 


Já não é a primeira vez que isso acontece, aliás, os acusações até agora sem provas contra a Bolívia, contra a viabilidade do Mercosul - à revelia dos números - atentam para essa nuance particular do candidato Serra. Sobra verborragia e falta conhecimento de política externa, sempre que na falta de ideias, repete-se o "exemplo chileno", como se um país do tamanho do Brasil pudesse seguir o exemplo do nosso vizinho, cujas características econômicas, ainda por cima, são totalmente diversas das nossas. 


Autismo político é sinal de falta de senso republicano, o que foi patente nos seus governos na Capital e no Estado de São Paulo. Isso, como discutimos aqui é um enorme perigo em termos de política legislativa, mas na questão da administração pública, principalmente em termos de Política externa, é fatal. Honestamente, esperava que Serra mudasse um pouco para a campanha presidencial, pelo menos sendo o Serra dos anos 90, mas a cada minuto que passa, as coisas ficam piores e os riscos são tremendos. Quando tudo, até mesmo guerras civis, passam a ser enquadradas na lógica de classificação reducionista, binarista e, sobretudo, desumana que divide os fatos - e as pessoas - em instrumentos e obstáculos, aí, sim, temos realmente nuvens negras no horizonte.