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| Bons tempos de Jânio, pelo menos a farsa tinha graça |
Enquanto as negociações seguem a todo vapor para a montagem dos palanques municipais pelo estado bandeirante - sobretudo em sua mui cobiçada capital -, eis que desponta na opinião pública um projeto de lei do luminar legislativo Campos Machado (PTB) que visa, dentre outras coisas, proibir a venda de bebidas alcoólicas (bem como seu porte) em locais públicos.
Para além do caráter farsesco e diversionista - como é próprio desses templos das banalidades chamados assembleias legislativas -, o referido projeto ainda traz a carga proibicionista, recalcada e mal-humorada que tem dado a tônica na política paulista nos últimos tempos. É como um retorno a Jânio, só que sem auto-ironia e carregado de politicamente correto - em suma, é possível rir do projeto, mas não por conta dele.
O ethos disso não é propriamente um direitismo claudicante, mas um desgosto pela liberdade que não é incomum também à esquerda do espectro - e se de um lado ele tira o gosto pelo punitivismo, do outro ele tira uma recém-adquirida obsessão pelas denotações, pelos termos, pelos gestos e não por seus significados (enfim, isso que aconteceu com parte significativa da esquerda brasileira quando ela começou a papagaiar o liberalismo americano).
E esse politicamente correto vai bem além de implicações moralistas, ele se aprofunda e curva a política ao judicialismo e à overdose jurídica, nos legando um cenário no qual os tribunais passam, gradativamente, a ocupar a centralidade que cabe à praça pública na medida em que todas as demandas passam a ser traduzidas no binarismo da linguagem jurídica - e aí as coisas saem do campo da potência e da vontade e caem no vazio da lei, onde tudo se torna relações de servidões mútuas e totais, mediadas pelos juízos da razão.
Machado, candidato a vice-prefeito da capital na chapa de Alckmin em 2008 e deputado estadual longevo com seu curral eleitoral seguro, certamente nada tem a ver com os desvarios da esquerda, mas ele se serve disso. Um estado mais recalcado e triste certamente interessa ao seu projeto, seja no que toca aos seus efeitos práticos ou na distração pública que coisas como isso produz.
No fim, resta uma massa disforme que passa batida nessa geleia geral da nossa política de hoje, onde para o nosso bem, daqui a pouco, estaremos comendo sopa de alface sem sal, tudo em nome de um jogo de espelhos que certamente visa ao mascaramento de coisas bem mais sérias - ou parafraseando Zizek numa anedota, se em alguns lugares as coisas são sérias, mas ainda não catastróficas, por aqui, elas são catastróficas, mas certamente não são sérias.
