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domingo, 7 de janeiro de 2018

Trump: sob fogo e fúria na América tardia

Ilma Gore -- Trump Nu (retirado daqui)
O lançamento de Fire and Fury, livro sobre os bastidores da Casa Branca de Trump é um belo exemplar de fogo amigo voltado a enfurecer o presidente mais impopular da história, só para fazer jus ao nome. E também é só mais capítulo na crise que corrói a América, incapaz de se reposicionar numa ordem global no qual o velho modelo de hegemonia americana não funciona mais.

Há, é claro, uma boa dose de calculada encenação no relato insider e em primeira mão, do mesmo modo que Trump, igualmente é um grande personagem, seja nos seus negócios ou na sua incursão da política -- um personagem que se tornou a voz de um setor da sociedade americana cuidadosamente azeitado pelos republicanos para servir (apenas) como massa de manobra.

Trump sempre se vendeu como um parvo para ser subestimado por rivais e concorrentes, além de atrair para si a simpatia do público médio americano do interior -- e a mesma lógica se aplica à sua incursão na política. Agora, a chave é retratar essa "verdade de homem comum" como debilidade e demência. Talvez funcione.

O desastre Trump, o presidente americano mais impopular desde que esse tipo de medição passou a ser feito nos anos 1930 pelo instituto Gallup, está além das aparências. Trump desagrada o establishment político americano, à esquerda e à direta, e também não oferece uma saída para os impasses da América, uma vez que governa de maneira compartilhada com um Congresso hostil, inclusive no que diz respeito a seu partido.

A receita é simples: se o grandioso plano Obama fracassou, de acelerar o processo de globalização como forma de permitir aos EUA manter e afirmar sua liderança, a tentativa de voltar a um passado glorioso, industrialista e isolacionista, encontrou a dura barreira da realidade.

Após Bush Jr. tentar tirar os EUA da estagnação com largo envolvimento em guerras, Obama operou a reconstrução econômica do país salvando antes de tudo o mercado financeiro. De um jeito ou de outro, o americano comum esteve órfão nos últimos dezesseis anos, depois de décadas paternidades relapsas, na qual o american way of life era desconstruído lenta e silenciosamente. 

A vitória de Trump foi o gesto final de um processo no qual os republicanos retomaram a Casa Branca depois de, a rigor, assumirem a maioria política em todas as instâncias da política americana, desde o Congresso dos Estados Unidos, passando pelos congressos estaduais e governos estaduais. Tudo sob a era Obama, e seu fantástico fracasso em reconstruir a América -- pelo menos para além dos grandes grupos de interesse do Partido Democrata. Mas a cereja do bolo foi, também, uma vitória de pirro.

O pós-fascismo de Trump não funciona exatamente nos tempos atuais, reunir maiorias sociais sob a égide de um discurso abstrato de nação contra minorias não é o tipo de coisa que constrói coesão ou estabilidade nos dias atuais, mas sobretudo há falhas na condução da geopolítica, que representa muito em matéria de política interna nos EUA.

Os EUA assumiram a hegemonia mundial debaixo da decadência das potências europeias, pois preferiu dominar áreas estratégicas de comércio global em vez de administrar diretamente enormes populações. Depois, serviu como mecanismo do mercado global capitalista, criado no pós-guerra. Os EUA lutaram com dureza, e impuseram aos seus parceiros europeus, o encargo de servir como motor da economia capitalista, emitindo a moeda internacional e servindo como a cabeça de sua polícia global.

A enorme responsabilidade americana parecia ser uma tarefa fácil, gerando como retorno o privilégio exorbitante de emitir a moeda global. O sonho de fadas acaba no final dos anos 1990, quando a responsabilidade aumenta e, por outro lado, a ausência de uma guerra fria transforma a atividade da guerra em flagelo para o mercado capitalista global. 

Ora, o mundo capitalista não sabia, mas a grande mola mestra da economia americana desde os anos 1950 era, de fato, o complexo bélico-industrial, isto é, investir em armas, usar as forças armadas como pólo de inovação tecnológica e inserir esses ganhos no mercado de consumo.  O imperialismo de novo tipo americano guardava em si um arcaísmo, próprio dos velhos impérios e gérmen de sua decadência -- e a Guerra Fria permitia aos EUA mascarar isso.

É aí que nem Bush, nem Obama e, tampouco, Trump conseguem operar. Todos buscaram e buscam saídas de curto prazo para manter tudo como antes. Sem as velhas guerras indiretas nas bordas da Guerra Fria, o próprio sistema capitalista se assusta com essa bélico-dependência americana e ensaia migrar para novas zonas de consistência.

A resposta de Trump contra uma ordem global é uma mistificação louca. E pior, ela se deu, objetivamente, com um erro de geopolítica inverso ao de Obama. Se o ex-presidente acertou na maneira como conduziu a política no extremo-oriente, errou feio no Oriente Médio. Trump, por sua vez desfez os erros de Obama no Oriente Médio, embora tarde demais, enquanto errou na sua relação com a China.

Vejamos, Obama procurou interferir nas Primaveras Árabes. O terror com insurreições multitudinárias que abalavam uma ordem, tirânica, que favorecia aos EUA -- e foi decisiva para derrotar os soviéticos -- foi trocado pelos novos estrategistas americanos por uma vã esperança: interferir à distância e usar as revoltas como forma de aumentar ainda mais o poder.

Obama usou da derrubada do governo sírio como forma de derrubar os preços internacionais do petróleo e, assim, valorizar o dólar sem precisar praticar uma política econômica restritiva, isto é, diminuir emissões ou aumentar os juros. Mas ao afiançar uma coisa na outra, dependia da queda do regime para as expectativas virarem realidade. Só que seus apoiadores dentro e fora da Síria não eram capazes de agir juntos, uma vez que não desejavam a mesma coisa.

Turcos, israelenses e sauditas não tinham interesses convergentes, poderiam derrubar o regime sírio, mas não tinham, nem têm, acordo sobre o que colocar no lugar. A oposição laica da Síria foi rapidamente suplantada por radicais islâmicos, primeiramente tolerados e depois causadores de mais dor e mortes. O resultado da guerra, com centenas de milhares de mortos e milhões de refugiados chegou rapidamente à Europa.

Os russos, para piorar a situação de Obama, encontraram a deixa ideal para intervir no conflito e defender seus interesses, obtendo um êxito militar que Washington supunha que Moscou não tivesse mais, ou não tivesse ainda. A Rússia, viu, veio e venceu, voltando a ser um peça importante no Oriente Médio, algo que não acontecia desde o começo dos anos 1970.

Trump estava certo em se unir a Moscou e cessar a estratégia louca de Obama para a Síria, inclusive porque um petróleo barato não interessa tanto assim à economia americana, não tanto quanto possa parecer. Mas já era tarde.

O problema de Trump foi elevar o tom contra a China, que buscou ficar silente, apoiando o grande plano global de Obama em tantos momentos. Ora, os chineses arcaram com os ganhos sem ter o ônus, da desvalorização do barril de petróleo e da valorização do dólar. E estavam lá, funcionando como recicladores do capital americano, exportando mercadorias baratas e comprando títulos americanos com os excedentes comerciais.

Trump não tinha motivo para mexer com os chineses, mas mexeu, julgando ser uma prioridade travar a China comercialmente para reindustrializar a América. O resultado das tensões, de declarações burras até pressão militar -- a Coreia do Norte pouco importa econômica e politicamente, se ela virou alvo, o alvo real só poderia ser a China, que depende da sua vizinha para a segurança nacional.

O ponto é: seja por esforço de guerra ou por ajuda dos chineses e russos, os norte-coreanos terminaram seu projeto de rearmamento  com mísseis com ogivas nucleares capazes de atingir o solo americano. A invasão da Coreia do Norte fez água diante da impossibilidade militar de sua invasão. Trump fez de Kim Jong-Un virar um player internacional.

Com isso, os chineses se reaproximaram da Rússia e mais ainda da Eurásia: o grande projeto chinês é reciclar capitais cuidando do déficit infraestrutura da Ásia, sobretudo no que diz respeito à ligação por terra com a Europa. É a Nova Rota da Seda, um projeto que custava a sair do papel enquanto os chineses estavam tranquilos com o comércio do Pacífico. Ironicamente, isso interessa aos sul-coreanos, enquanto habilmente a Coreia do Norte buscou aproximação com sua rival do sul.

Sem garantias dos americanos de um livre comércio, sem tranquilidade nem mesmo nas suas águas territoriais, os chineses se lançam para dentro da Ásia, o que favorece a Rússia -- ou duplamente a Rússia, haja vista que a valorização do barril ajuda a economia local. Moscou, acusada de fazer Trump ganhar, acabou favorecida pelos erros e os acertos da Washington de Trump.

Voltamos à política externa americana. Trump, sem criar meios de voltar ao passado, sem criar meios de fazer os EUA saberem viver em paz ou criar novos meios para guerra, sem ser capaz de lidar com tensões sociais, sejam elas econômicas, raciais ou de gênero, sem agradar o velho establishment ou a nova política, se torna o cordeiro a ser sacrificado.

Mas a aparente estupidez de Trump não tornará uma volta do establishment em uma tarefa fácil. Primeiramente, porque o vice Mike Pence não é confiável. Depois porque remover presidente e vice seria uma situação inédita na história americana, e como a experiência brasileira ensina, um país de proporções continentais não é capaz de funcionar bem com uma solução tampão. 

Novas eleições seriam uma boa saída, mas isso dependeria das grandes máquinas políticas concordarem. Inclusive porque não há garantia de que a velha política ganhe. Como a burocracia americana lidaria com a eleição de um Bernie Sanders? Os impasses corroem a América e a ausência de soluções leva a um quadro de agonia, de morte ou, com alguma sorte, de dores do parto de um novo mundo que não necessariamente será bom ou belo.


P.S.: agradeço ao Edu pelas ideias trocadas sobre a América tardia e a Vera pelo estímulo a voltar a escrever. O blog precisou de um sabático, mas escrever é importante e terapêutico. Sempre bom voltar à ativa.


terça-feira, 8 de setembro de 2015

Os Refugiados do Império: Entre Anjos Sacrificados e o Êxodo

A foto do anjo-refugiado, morto às portas do Paraíso, chocou o mundo. O menino Aylan Kurdi repousava de forma sublime sobre as areias de uma praia turca: ele morreu junto com o irmão e a mãe na tentativa de travessia. A foto da turca Nilufer Demir choca não apenas por capturar o sublime da dor, mas pela maneira quase onírica que se compõe: em dois instantes, o primeiro de uma estranheza com a posição do menino deitado na praia, o segundo da certeza que ele só poderia estar morto -- é o mesmo ritmo do pesadelo. 

O inferno da guerra devora a entranhas do Oriente Médio, inclusive a Síria de onde a família de Aylan vinha. No Iraque, vizinho, a situação não é nada diferente, como era de se supor que ocorreria após a desastrosa invasão americana de 2003. Ocidentais e seus aliados na região são igualmente culpados pela situação, sendo todos lenientes com organizações terroristas francamente insanas como O Estado Islâmico  -- coisa que só é rompida por poucas vozes, como a de um Robert Fisk  ou de um Patrick Cockburn.

A Europa, destino mais óbvio da multidão de refugiados, fica entre um misto de fechar as portas, e a impossibilidade de se assumir definitivamente fascista, e manter as aparências "democráticas": a morte do menino mostra que (ainda) não é possível, simplesmente, condenar à morte os refugiados que bravamente cortam o Mediterrâneo, o Mare Nostrum dos romanos. Enquanto as coisas se mantêm distantes, tudo bem, mas tão perto é impossível. 

Quando o deixar morrer se torna matar por omissão, o próprio discurso liberal-democrata entra em curto-circuito: para se livrar da acusação de matar, o neoliberalimo articula a imagem liberal-democrata, a qual, dentre outras coisas, vende a mentira que matar só é possível quando algo ou alguém fez morrer, que o deixar morrer não existe, é como se dissesse que o mal é apenas e tão somente o nazista de Hollywood, que pertence ao passado, ou os regimes inimigos pelo mundo (como Assad). 

Mas quando esse discurso corre o risco de aproximar seus profetas da pecha que criam para se defenderem, o cão termina por morder a própria calda: deixar morrer desse jeito, pouco sutil e abrupto, soa como fazer morrer. Se as mortes no Oriente Médio ou na África são diluídas no fatalismo ("lá é assim mesmo"), o mesmo não se pode dizer quando elas acontecem perto e por uma omissão dos poderes europeus.

A grande narrativa -- invisível, inodora e incolor -- pode apagar causas, relações e conexões. Tentar a História. Mas quando essas mortes batem à porta e é preciso admitir a natureza mortífera da ordem atual ou capitular, o sistema prefere disfarçar, recompor e ceder. Seu ativo mais preciso é monopólio da bondade.

Da esquerdista Grécia, que não tem dinheiro para receber os refugiados, mas tem para permanecer na Otan, à extremo-direitista Hungria -- laboratório de um futuro neofascismo, a exemplo do que foi o Chile de Pinochet para o neoliberalismo -- a obediência aos poderes europeus, com a impossibilidade ética do escândalo, é patente. 

A Hungria, depois de proibir a entrada dos refugiados, "cedeu" e abriu as fronteiras, sendo o show de entrada para o espetáculo dos poderes europeus, que, com a morte do menino, "puderam se dar conta". Nada mais cínico.

A Europa, a Grande Prússia sob o comando de Fräu Merkel, e o Reino Unido de Cameron buscam reprocessar o discurso: da negação "forte" a entrada dos imigrantes -- em nome do mito da prudência e da sensatez, um mitolegema que tem funcionado bem para quase tudo -- passou para o discurso da abertura -- acompanhado da narrativa melodramática de assimilação caridosa dos pobres coitados, com o compadrio da mídia.

O Papa Francisco, em outro gesto de inteligência política, voltou a reforçar a necessidade de recepção dos refugiados, determinou a abertura do Vaticano e exigiu que as paróquias de toda a Europa recepcionem pelo menos uma família refugiada. 

A teologia popular do Papa Bergoglio consegue ser na prática, mais uma vez, mais ético e "moderno" -- no sentido que se emprega usualmente o termo -- do que a moderníssima Europa: não que Francisco não seja ele também político e arguto, mas a Igreja, depois de décadas bancando o mais franco neoliberalismo, pulou do barco. Por uma razão bastante simples: o plano proselitista de João Paulo 2º, continuado por Bento 16 e seu carisma de poste, fracassou.

Semente da noção de tecnocracia que cria o Estado (moderno), a Igreja, um agente estatal e, ao mesmo tempo, multinacional -- político e religioso -- é paradoxalmente um elemento hoje contraditório não apenas na sua estrutura como, também, na sua direção à fantástica aliança entre estrutura estatal alemã, sistema financeiro internacional e tecnocracia "europeia", aquilo que damos o nome de "União Europeia" -- e é, afinal, um dos pilares do sistema global. Essa peculiar forma que o catolicismo se reinsere nas disputas globais, por sinal, merece ser alvo de futuras análises.

Mas o fenômeno atual dos refugiados não se limita à rota do Mundo Islâmico em chamas para a Europa. Evidentemente, refugiados e imigrantes  de toda sorte aportam em todas as partes do mundo, inclusive no Brasil-- que além de receber mais refugiados dessa guerra, tem recebido um enorme trânsito de africanos, sul-americanos, chineses etc.

A radicalização do movimento dos fluxos de refugiados e imigrantes pelo mundo marca o acirramento das contradições no Império Global concebido por Negri e Hardt. Eis aí um dos dogmas globais: a relação entre a hipermobilidade do capital e o controle de trânsito -- pela proibição ou regulação ostensiva -- do livre trânsito de pessoas pelo mundo; a hipermobilidade (e hipervolatilidade) do capital, do jeito mais moderno possível, exige na outra ponta a fixação da forma mais arcaica dos contingentes humanos, os quais servem de reservas fixas e previsíveis de mão de obra.

O êxodo global, ao marcar o rompimento dos cercados nacionais -- e esta talvez seja das poucas serventias que os Estados-nação ainda tenham --, põe em curto-circuito essa política de regulação dos corpos e dos corpos coletivos, criando imprevisibilidade onde não deveria haver -- mesmo ponderando que a fuga dos desesperados pela guerra não signifique um nomadismo, mas um ato praticado na necessidade extrema, isto ainda assim escapa às coordenadas sistema.

Ainda, como boa parte dos conflitos que causam esse fluxo são diretamente causados, apoiados ou permitidos pelos potentados globais, como é o caso da Síria, o sistema-mundo se vê diante de uma situação emergencial: os conflitos deflagrados passam a ter consequências que saem do script e estas vêm bater à porta, literalmente, de forma inesperada. 

Quase como o Isso freudiano, o recalcado em escala coletiva -- política e socioeconômica -- emerge de outras maneiras imprevisíveis. A incapacidade do sistema-mundo operar sínteses perfeitas, que eliminassem esses resíduos o põe num pânico momentâneo, mas já enseja seu passo posterior que é a readequação da estratégia de intervenção e exploração no Oriente Médio e Norte da África e, também, uma nova forma de processamento dos fluxos de migração para que estes sejam domesticados no destino que eles venham a se estabelecer. 

A impossibilidade de praticar a eliminação direta como no início do século 20º obriga a recuos e a tentativa de assimilação desses contingentes, o que não é uma tarefa fácil e dificilmente seria perfeitamente efetiva. Talvez se tenha em vista uma migração controlada, a exemplo das políticas dos Estado nação europeus, sobretudo os nascentes, no século 19º com os países do continente americano: exportar excedentes humanos para onde faltaria gente (ou gente branca, conforme o projeto eugenista inclusive do Brasil).

Mesmo assim, a quantidade de problemas que uma migração planejada traz, por si só, já é assombrosa -- o movimento operário anarcossindical nasce no Brasil por conta disso --, imagine o acolhimento de refugiados de guerra que vêm em massa para, não raro, países que deflagram ou foram lenientes com os conflitos que causaram a confusão.

A imagem do Livro Bíblico do Êxodo, afinal, emerge: quando um Império se vê diante de uma rebelião dos fluxos humanos que lhe dão força e vitalidade, e não consegue gerar uma nova síntese em resposta, a migração se torna inevitável; tal partida gera um novo campo de possibilidades: a itinerância, a errância,  o nomadismo, ou a busca por ser aceito em um outro Estado ou, por fim, a construção de um novo Estado (ou proto-Estado). 

O destino do povo hebreu, como é sabido, foi a derradeira hipótese. Como foi a dos perseguidos na península itálica do século 8º a.C. ou dos religiosos nos domínios ingleses do século 17º. Com hebreus, tanto se consolidou assim, que temos o Livro do Êxodo, o qual se chama em hebraico, não à toa, Livro dos Nomes (Shemot), pois inicia pelo clássico "estes são os filhos de Israel": trata-se da narrativa de uma história que terminou com uma refundação, o que exige, desde sempre uma nova hierarquia, uma nova ordem, novas leis, as quais sempre demandam previamente nomes.
 
O problema do refúgio e da imigração é desde sempre como uma sístole-diástole, segundo à qual o enrijecimento de uma ordem enseja a fuga, mas esta termina novamente enquadrada em um novo Estado (O Reino de Israel, Roma ou mesmo os Estados Unidos). 

Isso consiste, afinal  de contas, no objeto sobre o qual Spinoza se debruça na Teologia-Política: o problema da fuga da fundação fundada acaba sendo, no espaço, o mesmo da revolução no tempo: será que toda ela não estaria destinada a forjar um novo Estado? A conclusão disso, em Spinoza, como se sabe, é de uma tragicidade sublime com a conformação irônica -- mas em aberto -- diante da nova ordem e da nova Lei.

Contudo, o problema do refúgio no Império Global, sem sombra de dúvida, é maior: com a impossibilidade de criar um espaço propriamente novo em um mundo absolutamente desbravado e colonizado, a questão é saber se é possível reordenar esses fluxos de uma nova forma -- e como --, uma vez que as pessoas fogem do mundo para o mundo; tal questão, na verdade, pode ser vista ao inverso, por sua outra ponta: como o sistema fará, em último caso, para manter a guerra se não há contra quem lutar exceto contra si mesmo e a consequência disso seja insustentável? 

[e uma guerra civil, digamos, "global", não é propriamente uma guerra, como o suicídio ou a automutilação não são homicídio ou lesão contra outrem, tanto que para os gregos antigos elas eram expressadas por palavras muito distintas, stasis e polemós, respectivamente]

Trata-se do dilema derradeiro da projeção marxista: como em uma economia globalizada e unida pelo e sob o capitalismo, será possível manter as relações capitalistas, uma vez que estas dependem do desbravamento, da colonização e da guerra? Em sendo o mundo um só, não só eticamente, mas agora socioeconomicamente, o que acontecerá quando o capitalismo se tornar impossível? 

O gasto de energia com a guerra civil global é suicida. Seja a guerra em si ou algumas de suas consequências. A única possibilidade de lidar  Mas o sistema não tem mais a opção do outro para combater, no máximo, destruir ou domesticar minorias e dissidências aqui ou acolá, mas a guerra devém impossível, ou melhor, quase impossível: é preciso notar que a guerra, hoje, ainda existe parcialmente enquanto disputa entre tecnocracias nacionais por hegemonia no sistema-mundo, que é uma estrutura fundada por uma costura entre elas.

Essa é a condição que permite dizer que não há mais a guerra própria, mas sim uma guerra civil global que, no entanto, é temperada também por guerras usuais num sentido impróprio: não mais entre Estados-nação que constituem uma ordem global, mas por uma ordem global que os utiliza parcialmente como arcaísmo necessário. E um dos efeitos dessa guerra civil é, precisamente, a possibilidade do contemporâneo refugiado: alguém cujas condições fáticas demandam que tivesse uma cidadania global, mas cuja cidadania nacional é insuficiente.

O Império Global, composto por uma rede tecnocrática e o tecido conjuntivo do mercado, se amarra por laços comerciais e, quando muito, por tratados e acordos internacionais, nunca por lei constitucional -- o que conferiria a globalização inclusive como universalização da cidadania, para além da tentativa, bem-intencionada mas voluntarista, da "pessoa humana". Eis o desafio: mesmo neste período intermediário, abolir a guerra, por sua inutilidade mesmo "utilitária", e efetivar uma noção (jurídica) de cidadania global -- sem perder de vista uma ciência do poder que não nos afaste do terrível e do horrendo: no limite, sim, a decisão do sistema-mundo diante da sua morte pode, e deverá, ser pela autodestruição, o que nos inclui diretamente.

 




domingo, 11 de novembro de 2012

Transições nos EUA e na China: o Império Global

A aliança entre Mao e Nixon: Pequim, 1972
Enquanto o mundo arde em crise, os americanos reelegeram, em seu peculiar sistema eleitoral, o democrata Barack Obama, e os chineses preparam a substituição de suas lideranças no partido hegemônico. A coincidência das datas e a importância dada pela mídia internacional aludem para o seguinte quadro: o mundo não é mais bipolar como na guerra fria, mas a multipolaridade se resolve cada vez mais entre Estados Unidos e China, menos pelo porte econômico e mais pela disposição estratégica de ambos que justifica essa pujança. E é uma polaridade menos de antagonismo e mais de uma relação peculiar de complementação, cujo aniversário de quatro décadas ocorreu em Fevereiro deste ano.

Obama venceu nos Estados Unidos por uma pequena vantagem (embora majorada pelas peculiaridades do sistema local). As causas da vitória democrata se devem menos pela força de Obama e mais pela incapacidade de seus adversário, Mitt Romney: não existe modo ou motivo para uma minoria votar no Partido Republicano atual, o mapa eleitoral americano de hoje, aliás, é o próprio mapa da divisão histórica do país entre estados liberais e aqueles onde a praga da escravidão e, depois, do segregacionismo persistiram por mais tempo (e foram derrotados unicamente por causas externas), portanto, sem negros, hispânicos, mulheres e homossexuais -- que são os setores mais potentes da sociedade americana -- não há como vencer. No entanto, isso não quer dizer automaticamente que Obama catalise o clamor que o elegeu: ele está muito longe de tomar medidas internas corajosas ou, no plano internacional, parece pouco capaz de renegociar a posição americana no sistema global por não poder assumir o declínio do país.

Na China, o sistema local -- no qual o Estado é um simulacro formal comandado pelo Partido Comunista, com sua estrutura complexa e aristocrática -- toma forma e ganha um rigor procedimental: o processo de sucessões passa a ser ordenado, previsível, enquanto os mandatos ganham prazo certo e o casuísmo cede lugar à racionalidade de comando e poder. O regime, por óbvio, não é democrático, mas ele também não pretende ser, portanto, uma vez aperfeiçoada sua arquitetura, ela toma a forma de um sistema vertical e hierarquizado bem regrado. Hu Jintao, o sóbrio burocrata que sucedeu Jiang Zeming há dez anos, não deve permanecer como comandante das forças armadas, ao contrário de todos os seus antecessores (que abandonavam a liderança política, mas não o controle militar do país), fato que marca a passagem definitiva da forma pessoal de exercício do poder para a forma sistemática. Em seu lugar, Xi Jinping, um nome de consenso do politburo, filho de um célebre herói revolucionário expurgado na Revolução Cultural. 

Depois de ter insistido em compor com os republicanos, que radicalizaram o jogo nos últimos quatros anos, deixando seu governo em xeque, Obama tenta novamente, pela via de negocial, resolver o problema das contas americanas. Depois do segundo fracasso presidencial consecutivo, a questão é saber o que será dos republicanos. Dos democratas, o ponto é saber até que ponto Obama continuará à deriva, sujeito aos ditâmes dos Clinton e os democratas dos anos 90 na defesa e na estratégia geopolítica, enquanto no plano econômico, continua cedendo aos privatistas (sem ter bons resultados, é claro). Os chineses, por outro lado, repetem jargões sobre casos de corrupção nos quais seus líderes estão envolvidos, mas esquecem o que há de essencial no problema todo: a desigualdade social crescente, um capitalismo controlado por burocratas que vivem entre o estatal e o privado.

Enquanto a Europa assiste a tais transições quase paralisada pela insuficiência dos mecanismos europeus em mitigar a crise, vivendo em uma zona de indeterminação na qual nem existe mais autonomia nacional, nem uma estrutura continental efetiva -- mas uma grande zona de transição anódina e disfuncional -- resta cada vez menos dúvidas que é entre os Estados que vacilam e a China que ascende -- nem sempre sobre bases sustentáveis -- que o jogo dos Estados se equilibra e se decide. Muito do que os Estados Unidos são hoje se devem à organização do socialismo chinês produzindo seus bens de consumo, enquanto muito do que a China se deve ao capitalismo americano. Ambos representam as formas últimas das artes de governo liberal e socialista e sua relação, para além da confrontação retórica, é de estreita colaboração para manter a ordem estatal global -- e não ainda o Estado global, mas talvez um dia -- contra a multidão globalizada: são as duas cabeças da mesma estrutura imperial bifronte, seu mecanismo de dívida infinita e seu modo de consumir e produzir. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A Guerra Civil no Império e a Ameaça ao Irã

Primeiro como tragédia, depois como farsa: As guerras médicas.
Neste exato momento, o Irã está cercado. Uma boa quantidade de navios de guerra está estacionada ou se dirigindo ao Golfo Pérsico, enquanto muitos países da União Europeia já não estão comprando petróleo do Irã, seja por retaliações de Teerã ou por decisão própria. Nem preciso dizer que as potências ocidentais estão se movimentando para forçar uma guerra que, aliás, pode arrebentar a qualquer momento com consequências terríveis. Essa situação cabe uma rápida digressão. 

Quando o século 21º estava nascendo, o amanhã à la Jetsons - isto é, uma mistura de comercial de margarina com futurismo - que os americanos desenhavam como o porvir do Globo, dentro da sua hegemonia total, ruía silenciosamente: o estouro da bolha da Internet foi um desastre que pôs em xeque a new economy - mostrando o descompasso entre capitalismo cognitivo e economia do conhecimento - e as apostas de Clinton. Isso produziu uma movimentação de bastidores que trouxe de volta ao jogo os republicanos e seu belicismo, qualquer coisa potencializado com os ataques de 11 de Setembro. 

Dizer que o 11 de Setembro causou a guinada da política externa americana é ingênuo. É esquecer, por exemplo, que um dos primeiros atos do governo Bush foi bombardear o Iraque. O atentado ao World Trade Center, se muito, apenas retardou a segunda guerra contra o Iraque e criou um combate que não existiria, dessa vez, no Afeganistão. Talvez tivéssemos o tão sonhado confronto com o Irã no lugar de algumas dessas guerras, talvez alguma loucura na Coreia do Norte.

A integração dos mercados globais via capitalismo, a afirmação do inglês como língua franca e quetais não trouxeram, comos os americanos esperavam, uma espécie de ordem global onde Washington lideraria acima das próprias regras do jogo, imune às crises. Essa percepção vem muito antes das agências de risco rebaixarem os títulos americanos em Obama, é algo que já aterrorizava os tecnocratas de Bush e o fez ir à guerra. Mas se os EUA, pela força de suas tropas, era livre para fazer o que fez, nem por isso, ele deixaria de arcar com as consequências.

O fato é que, hoje, não há mais guerras, logo não existem mais os ganhos que podem ser extraídos delas. Trata-se de uma impossibilidade. O final das fronteiras transforma toda guerra em uma guerra civil. A semelhança entre os dois termos nas línguas ocidentais de hoje esconde, por sua vez, uma profunda diferença: se a guerra é o confronto armado entre corpos coletivos - seja a cidade antiga, o reino medieval ou Estado moderno -, a guerra civil é um processo destrutivo de confrontação interna, de autofagia - talvez por isso os gregos designavam a primeira como polemós e a segunda como stasis.

As guerras que os americanos promoveram, no Afeganistão e no Iraque, com Irã e Coreia do Norte na mira - quem sabe, a própria Venezuela - não só não trouxeram ganhos para os EUA como desequilibraram o sistema mundo e, por tabela, seu próprio país. O estouro das contas públicas americanas, pelas duas guerras em que se meteu simultaneamente, ainda é subestimado como esse fator de desequilíbrio, mas se esquecem os incautos que o aumento do endividamento da nação emissora de moeda hegemônica não é lá um bom sinal - e que emissão de dinheiro não é exatamente uma saída, ainda mais em larga escala.

Pois bem, não temos nem dois meses que os EUA se retiraram do Iraque, depois de uma vitória militar seguida de uma derrota política: seja pelo desgaste econômico e político interno ou mesmo, vejam só, por ter legado em Bagdá um governo xiita pró-Irã. Enquanto isso, Washington prossegue seu empreendimento no Afeganistão, após a vitória simbólica do assassinato de Osama Bin Laden, mas sem muitos ganhos efetivos - ainda mais pelo fato de que o país passa a depender mais e mais de cessões para a Rússia, aliada estratégica para o trânsito de tropas americanas e aliadas pela Ásia Central.

Somemos isso à atual situação do mundo árabe, onde há um ano revolta multitudinárias puseram em xeque toda sorte de tiranias e temos um cenário interessante. Washington, apesar de todos os recentes fracassos, mantém uma doutrina nacional no mundo global e ignora, inclusive, o quanto a economia da guerra só traz ganhos, hoje, para as próprias corporações bélicas. Washington quer recuperar o terreno perdido à força e acha, ainda, que pode ter retornos econômicos com isso - fora os lobbistas locais, que sabem bem o que estão fazendo dentro de sua atividade parasitária.

Quando falamos em Primavera Árabe, por sinal, falamos de um levante da multidão local contra uma forma de governança, independentemente de sua posição frente aos EUA ou ao globo. Isso explica porque houve levantes contra as ditaduras de Mubarak no Egito e Ben Ali na Tunísia - aliados do Ocidente - e, ao mesmo tempo, derrubou-se Kadafi na Líbia e ameaça-se com violência o clã Al-Assad na Síria.  

O que muda é a atitude americana frente a revoltas com motivações parecidas: enquanto na Tunísia e no Egito o processo revolucionário foi procrastinado - ou mesmo, no caso egipício, chegamos ao ponto de ver o apoio descarado a uma ditadura militar que serve, por sua vez, para tutelar o andamento das coisas -, na Líbia e na Síria, financiou-se mercenários contra os ditadores locais. 
   
Um fator importantíssimo que atravessa essa confusão toda é Israel. Quando falo em Israel aqui, não me refiro a judaísmo, sionismo ou nada do tipo, mas antes de mais nada ao complexo bélico-industrial local que capturou a política daquele país desde a primeira guerra do Líbano. O país é parasitado por aquele setor e essa percepção, finalmente, chegou à população israelense que se manifestou, massivamente, nas ruas há poucos meses, à moda de seus vizinhos árabes e dos europeus. 

Esse mesmo complexo-militar israelense encontra-se em xeque desde que foi contido, na última guerra do Líbano, por um estranho consórcio no qual as tropas do Hezbollah, apoiadas pela ditadura laica dos alauítas sírios e da teocracia xiita do Irã, conteve o exército de Israel impondo um limite para seu expansionismo. 

É o mesmo complexo bélico-industrial que, como nos prova Wikileaks, move mais os EUA do que lhe serve de tentáculo avançado no Oriente Médio. Ele precisa de uma guerra para dissolver tensões internas, a exemplo das potências mundiais pré-Primeira Guerra, e precisa parar o Irã que ameaça tirar seu monopólio nuclear na região - o que criaria uma paz armada que afetaria seus negócios. 

O clero de Teerã, quanto mais pressionado, mais avançará. Primeiro porque mesmo quando foi eleito um governo moderado, há poucos anos, liderado pelo reformista Mohhamad Khatami o Ocidente não demonstrou qualquer boa vontade em negociar. Depois, porque se ele parar agora com seu programa nuclear, não existe garantia alguma que o Ocidente cesse as hostilidades - onde estão as armas de destruição em massa de Saddam Hussein?

Aos russos a guerra assusta bastante. Não obstante seus problemas internos, a maior ameaça à estabilidade russa nos últimos vinte anos tem sido o Cáucaso e proximidades, seja a dura guerra na Tchechênia ou mesmo a perigosa aliança que a Geórgia fez com Ocidente - o que causou um confronto pesado, porém rápido, durantes os Jogos Olímpicos de 2008, com êxito para Moscou. Sem a presença de um governo confiável no Irã, a região fica mais exposta. Por mais que Teerã tenha uma posição ambígua, os persas não são aliados para se jogar fora, coisa que não poderia se dizer de um governo fantoche, naturalmente.

Tanto pela limitação de recursos humanos do lado de Israel, quanto pelos limitados recursos bélicos do Irã, é possível que uma guerra muito cruel seja deflagrada rápida e abruptamente na região. Ambos os lados precisam lançar mão de ataques duros que causem danos consideráveis no adversário. Com  a situação ainda nada estável do Iraque e, sobretudo, da Síria, não é exagero dizer que o conflito possa se espalhar pela região inteira.

Se em 2010, o Brasil de Lula e Amorim foi responsável, junto à Turquia, por adiar o conflito no Irã. Agora, o recuo da política externa de Dilma em relação a Teerã abre espaço para que o processo bélico avanço. Sem um esforço conjunto e transversal dos movimentos de indignados que lotam as praças do Globo - passando até mesmo pelos cadavéricos Estados-nação -, assistiremos a uma carnificina que sequer trará o lucro esperado para os seus idealizadores. 

O mundo globalizado não admite mais vitoriosos em guerras, pois nas guerras civis só há derrotados. O custo dessa farsa nos será muito caro.