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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Democracia (real) e política distribuída já!

Segue uma articulação política na forma de manifesto assinada por uma série de ativistas sobre o estado de coisas em que vivemos. Segue uma versão fechada, na forma de petição pública online, e outra em aberto, num PAD, pronta para receber colaborações. É pouco do que vivemos, um tanto sobre o que precisamos.

Democracia (real) e política distribuída já! 
Isso não é um texto, é uma ferramenta de articulação política. 
Os eventos ainda em curso de junho-julho-agosto surpreenderam a todos. Pensamos este momento como uma grande oportunidade, para amplo espectro da esquerda, discutir não só pautas e alinhamentos, mas também processos e formas de atuação. Este breve documento pretende ser um convite ao debate, apresentando alguns princípios e temas sobre os quais podemos nos debruçar para na democracia em nosso país. 

Democracia e transparência 

Os eventos dos últimos meses propõe a força do exercício de pensarmos formas mais diretas de democracia, da ocupação dos espaços públicos - legislativos, plenárias, reuniões e assembleias já em curso. Não um esgotamento da política, tal qual tem sido praticada no país, ou uma recusa dela, mas uma expressão coletiva pela ampliação real dos espaços de exercício político, para além de espaços institucionais ou institucionalizados: da imaginação à ação, exigindo imediata desconcentração dos espaços de poder e distribuição equitativa dos meios de produção e fruição da mesma. 

Transparência dos processos. As novas formas de fazer política em rede e na rede passam pela articulação da informação livre e pública, tecnologias livres e dados abertos. O momento coloca o desafio de articular estes temas e princípios coletivos - de forma coletiva - respeitando a pluralidade de grupos e interesses, refletindo como estes podem participar de ações de rua e na rede por meio de metodologias horizontais/transversais. 

Redes e ruas se complementam e devem ser expressão da democracia. Uma política distribuída pressupõe uma política de multiplicidades de redes e repele qualquer tentativa de centralização, manipulação ou hegemonização destas. As potentes mobilizações manifestam desejos de autonomia, democracia, diálogo direto e horizontal, dentro e fora dos próprios movimentos, colocando-se contra verticalismos, abusos de poder e opressões (de gênero, classe, orientação sexual/afetiva, etc). 

Arte, Cultura e Comunicação 

As manifestações expressam uma recusa radical dos monopólios e suas intermediações (da mídia, da política e também da cultura) e pautam a urgência de intensificar os debates sobre arte, cultura e comunicação. As experimentações do Governo Lula, potentes ainda que iniciais, como o financiamento contínuo da pesquisa e produção artística dos Pontos de Cultura, dos Pontos de Mídia Livre, da distribuição mais democrática e equitativa dos recursos do Fundo Nacional da Cultura, assim como das verbas publicitárias públicas e o projeto de Lei de Mídia, precisam ser resgatados. 

Nas lutas por igualdade e justiça, a arte, a cultura e a comunicação são essenciais. Avanços somente serão possíveis por meio da retomada processos amplos de discussões sobre o que seriam políticas públicas democráticas de acesso aos meios de produção e fruição das mesmas no país. É preciso escutar os debates já em curso e incentivar as diferentes formas existentes de auto-constituição das mais diversas manifestações artísticas, culturais e de comunicação, em todos os cantos do país. 

Cidade livre (e aberta) e a rua como espaço de encontro 
Junho-julho-agosto coloca com urgência a pauta do direito à cidade como espaço de desenvolvimento humano, pessoal e coletivo. Isso começa pelo direito à vida, ao deslocamento e à livre manifestação - fim da militarização policial, da regulação dos pobres e novas políticas de educação, de transporte, de drogas e de saúde - , desembocando no direito à cidade como espaço de invenções e diálogos entre diferentes formas de conviver. Repudiamos as ações violentas do Estado e de governos que criminalizam os jovens mascarados ou ações diretas radicalizadas, classificadas pelo poder como vandalismo. 

A cidade deve ser o espaço de circulação e de experimentação, de aprendizado mútuo, de encontros e de livre expressão para a ampliação da autonomia e liberdade de cada indivíduo. Para essas cidades livres e abertas, as lutas e diálogos são imprescindíveis: deles nascem o amor e a possibilidade de um "novo" democrático. 

As mobilizações repelem representantes não legítimos e explicitam uma crise da representação dos governos e das formas organizadas tradicionalmente. Nisso revelam sua multiplicidade e sua recusa da unificação e manipulação do que é público para uso, lucro e fins privados, sejam de corporações, cartéis, indivíduos ou organizações. Nenhuma forma de concentração de renda sobre bens ou serviços públicos, conservadorismo, autoritarismo, machismo, homofobia, preconceito de classe e racismo passará. 

Um dos maiores legados do processo em curso se situa no uso das ruas, no compartilhamento dos espaços da cidade e produção dos encontros. Não se pode sair das ruas do mesmo modo que se entra nelas: é na rua que somos penetrados pelo outro, por outras idéias e que produzimos aos poucos um projeto de emancipação coletiva e libertária. 

Democracia nas ruas, nas redes - urgência de banda larga para todos, Marco Civil da Internet, autonomia tecnológica da América do Sul - e nas instituições, reinventando as instâncias de democracia representativa e direta na Constituição. Hora de criar e fortalecer conexões e articulações sem centralizadores. Malgrado a incompreensão de certa opinião pública, uma multidão de jovens aceitou com seus corpos o desafio de renovar a fonte constituinte, de radicalizar para valer a democracia, de acelerar não o crescimento do capitalismo, mas a produção de outros valores. 
Seguimos nessa construção. 

Vamos alterar-remixar-mudar-reproduzir esse pad: http://pad.w3c.br/p/DemocraciaRealePoliticaDistribuidaJa 

Para seguir nessa articulação coloque seu nome abaixo e compartilhe nas redes 

Setembro de 2013 

Alana Moraes, antropóloga e militante da Marcha Mundial das Mulheres 
Alexandre do Nascimento, FAETEC e Universidade Nômade 
Barbara Szaniecki, Universidade Nômade, UERJ 
Beatriz Seigner, cineasta 
Beatriz Tibiriça, Coletivo Digital 
Binho Perinotto 
Bruno Cava, filósofo do direito 
Camele Queiroz, agente cultural audiovisual 
Celio Turino, historiador, escritor e gestor de políticas públicas 
Clayton Mariano, ator e diretor, Tablado de Arruar 
Cledisson Junior, militante do movimento negro 
Daniele Ricieri, atriz e coletivo atuadoras 
Daniel Pires, mestrando em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor/UNICAMP 
Douglas Belchior, professor da Rede Pública do Estado de SP e militante do movimento negro 
Edson Secco, artista sonoro 
Everton Rodrigues, militante do software livre e internet livre 
Fábio Balestro Floriano, advogado 
Fabricio Ramos, agente cultural audiovisual 
Fabricio Toledo de Souza, advogado, doutorando em direito PUC-RJ, Universidade Nômade 
Gabriel Medina, psicólogo 
Giuseppe Cocco, Universidade Nômade, UFRJ 
Gustavo Anitelli, produtor cultural 
Henrique Parra, Pimentalab/Unifesp 
Homero Santiago, filósofo, USP 
Hugo Albuquerque, Uninômade Garoa 
Iana Cossoy Paro, roteirista 
Jean Tible, professor, CUFSA 
Josué Medeiros, professor, UFRJ 
Leonora Corsini, psicóloga, pesquisadora, Universidade Nômade 
Ligiana Costa, cantora e apresentadora de rádio 
Lula Rocha - Coordenador do Fórum Estadual de Juventude Negra do Espírito Santo - FEJUNES 
Marcelo Branco, Ativista do movimento software livre e internet livre 
Martha Kiss Perrone, atriz e diretora 
Meghie Rodrigues, mestranda em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor/UNICAMP 
Nilton Luz, Rede afro lgbt 
Pablo Ortellado, professor 
Paulo Rogério Nunes, Bacharel em Comunicação Social, especialista em Política e Estratégia e em Novas Mídias. Co-fundador do Instituto Mídia Étnica e do Portal Correio Nagô 
Rafael Evangelista 
Renata Gomes, Uninômade Garoa 
Salloma Salomão Jovino da Silva, professor, pesquisador e músico 
Sara Antunes, atriz 
Sergio Godoy, professor, CUFSA 
Silvana Olivieri, arquiteta e documentarista 
Silvio Munari, Uninômade Garoa, pedagogo e doutorando em educação pela UFSCAR 
Silvio Pedrosa, Universidade Nômade 
Táli Pires de Almeida, militante da Marcha Mundial das Mulheres 
Tatiana Oliveira, cientista política e militante da Marcha Mundial das Mulheres 
Tica Moreno, militante da Marcha Mundial das Mulheres 
Vladimir Santafé, Universidade Nômade, UNEMAT 
Wagner de Melo Romão, sociólogo e professor da Unesp 
William Nozaki, professor

sábado, 29 de setembro de 2012

O Triplo-X da Questão, por Lucas Portela



Pollock, novamente
A Trigésima (por extenso, e se verá que isso é um retorno do recalcado) Bienal Internacional de Artes Visuais de São Paulo vem mais uma vez mostrar a situação de bolha especulativa da assim chamada arte contemporânea, ou pós-modernidade. Não por acaso escolheu o tema vago "Iminência das Poéticas" para comemorar seus sessenta anos - algo assim como "ao redor do buraco, tudo é beira". Nem Eminência das Poéticas, sacralizadas, nem Imanência das mesmas, na sujidade cotidiana da vida - Iminência: aquilo que, prestes a acontecer, não acontece jamais. Não se poderia ser mais eleático...


Para-além do problema da preguiça, ausência de real trabalho estético, e caráter especulativo da dita conceptual-art (cheguei mesmo a ver uma parede com um saco plástico de supermercado pendurado, e um chiclete mastigado dentro), a questão talvez seja mais de gigantismo: grandes bienais, como grandes museus (exceção talvez ao Afro-Brasil, ao lado do Pavilhão do Ibirapuera, e graças ao bahiano de Santo Amaro da Purificação, Emanoel Araújo - aliás negro, apesar de carlista), se tornam um não-lugar, vago e disforme. Penso na excelente Bienal de Artes Visuais do Recôncavo, em São Félix: não se trata apenas de sua curadoria ser melhor realizada e previlegiar as formas tradicionais de objetos de arte (cerâmica, mural, pintura, gravura, escultura), uma vez que há também nela instalações. Nem é um evento medíocre de cidade do interior (o Recôncavo é o útero do umbigo do extremo-ocidente, diria Milton Santos). Mas a antiga fábrica de charutos Dannemann se integra perfeitamente não apenas ao cais de São Félix do Paraguaçú e à Ponte Dom Pedro II, mas também à fronteiriça Mui Heróica & Leal Cidade de Cachoeira assim como a cidades mais longínquas da região, Maragogipe, Cruz das Almas, e não se exclua a capital Salvador, que é também, ao menos em parte (e na metade que nos interessa e é cosmopolita) Recôncavo (e quem não o é jamais seria Reconvexa).

Claro que é possível no mar de nulidades especulativas da Bienal de São Paulo encontrar algo digno de nota - por exemplo a sala com obras de Arthur Bispo do Rosário (embora comumente se caia no erro de tomá-lo como um James Joyce das artes plásticas, o que ele não é). E claro também que uma Bienal precisa ter espaço para o erro - estimular obras cretinas ao ponto de serem descartadas, porque é do jogar-fora uma profusão de má idéias que as boas idéias podem surgir - mas não ao limite da autofagia, aliás sintomaticamente paulistana. Tanto mais se comparamos com a parte do acervo do MAC-USP recentemente exposta no Ibirapuera e no antigo prédio do Detran: sob o modernismo, as Bienais foram mais capazes de gerar obras, se não inteligentes, ao menos corretas, paradigmáticas. Hoje, como está, não é mais. Idem para a (imperdível!) exposição de Lygia Clark no Itaú Cultural: se ali nasce a instalação e a arte conceitual, está longe da banalidade, inclusive porque a exposição permite e incentiva a livre manipulação das obras - e sim, é uma exposição de grande porte, só que muito mais discreta que a propaganda enganosa que é, por exemplo, Caravaggio no MASP.

E sobre a Trigésima (por extenso), vai aqui a explicação de trás pra frente: das melhores salas expositivas desta Bienal é com as fotos proto-paparazzi e voyeur de Alair Gomes, com seus garotos de Ipanema displicentemente homoeróticos sem saber que estão sendo fotografados enquanto trabalham seus corpos, acrescido de outras fotografias do mesmo autor, explicitamente pornográficas, e realizadas em estúdio. A melhor sala da XXX Bienal é X-rated - da Bienal que, sendo 30º, evita grafar-se em X X X, esse código dos tempos da internet discada e paga para sites de putaria.

*Lucas Portela é editor do excepcional blog o Último Baile dos Guermantes e colaborou conosco em virtude de suas recente viagem para a São Paulo.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

O Sétimo Selo: Entre a Catástrofe e o Apocalipse

A Morte (Bengt Ekerot) joga xadrez com o cavaleiro Antonius Block (Max von Sydow)
"A arte é a única coisa que resiste à morte" -- Malraux

O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet, Suécia, 1957), do mestre Ingmar Bergman é, sem sombra de dúvida, um dos maiores filmes da história do cinema. A narrativa do cavaleiro que retorna das Cruzadas para sua Suécia devorada pela peste onde topa com a Morte em pessoa - com a qual disputa um jogo de xadrez no qual sua própria está em xeque - é amplamente conhecida, mas para além de todas as questões cinematográficas - a belíssima fotografia, que dá uma dimensão ímpar à solidão, o grande elenco etc - há um ponto central, de cunho filosófico, que merece ser examinado com cuidado: a temática da catástrofe definitiva, entificada e consubstancializada, como uma das questões permanentes da existência da cultura ocidental.

Trata-se, nesse aspecto, de uma película potente: ela se agencia com a temática existencialista, tão presente na Europa daqueles anos 50, tanto quanto a critica para, no fim das contas, a subverter. O Cavaleiro Antonius Block, cujo ceticismo foi construído tijolo a tijolo pela sua experiência de dez anos na Terra Santa, é um incrédulo: ele quer chegar a Deus pelo conhecimento e está pouco interessado pela fé vendida pelos padres - em relação à qual a plebe, não por acaso, só se aproxima nos seus momentos de mais agudo desespero como agora, com a peste negra devorando a costa sueca. Esse Deus não está em parte alguma. Block não o vê, não o encontra, é como se Ele existisse somente para aqueles que querem que eexista. Não bastasse isso, Block trava um mau encontro com a Morte feita pessoa, logo ao chegar: para protelar o fim de sua vida, ele parte para uma disputa desesperada, no tabuleiro de xadrez, contra Ela.

A peste está em toda parte e é sua onipresença praticamente invisível que alimenta o medo da morte, matéria-prima da economia da fé. Block é um angustiado por saber que está apenas protelando o improtelável para conseguir realizar seu encontro - enquanto seu escudeiro, como um Sancho Pança, está pouco preocupado com a melancolia, transitando com ironia por todos os planos alegremente. Enquanto isso, uma pequena companhia de teatro, formada por uma família e um chefe oportunista chega à vila, se metendo em confusões e tendo sua exibição comprometida por uma auto-de-fé. Enquanto tenta adiar seu momento final, Block se dedica, no fim das contas, a protegê-la da Morte que ronda a todos: mais do que uma grande estrategista, a Morte nos parece uma grande estratégia.

É essa família de atores, no fim das contas, a única a vencer a Morte: a arte é aquilo que escapa, nomadicamente, à entificação da morte - alegoricamente representada por uma morte pessoal - justamente por ter a fuga como condição de existência. É assim que ela fura a catástrofe, ao conseguir cruzar a floresta escura em direção a um festival - não fugindo à Morte [ou à morte na forma da peste] ou a abraçando, dois movimentos pendulares que afinal, coincidem; nem as especulações metafísicas, nem o empirismo, nem a fé, mas sim a Arte como afirmação definitiva da vida. É uma provocação potente de Bergman: fazer a inevitabilidade da morte - posta como centro de gravidade e, por isso, como suposta fonte de uma angústia inerente à condição humana, materializada no advento da Catástrofe - ser, de repente, ultrapassada por um movimento que lhe é alheio: a produção artística fecunda e despreocupada.

A Catástrofe - aqui na figura da peste negra, que é outro lado invisível da moeda que tem  por Cara a Morte - está posta na nossa civilização desde que ela tomou forma definitiva na Idade Média, com a amálgama entre o helenismo, a tradição romana e judaica na Europa tomada pelos germânicos. Não que a extinção humana - ou pelo menos da nossa humanidade - tenha saído realmente algum dia do horizonte - isso só o fez em relação àquelas espécies que foram extintas -, mas é fato que aquele modo de pensar que se dá a partir da perspectiva da extinção - do imaginário futurista que gira em torno do ressentimento pelo futuro ser apenas uma imagem - não é "natural", mas sim ele próprio produção e ordenação de conceitos e afetos voltado, por suposto, a um propósito - via de regra, econômico. 

"Não temos futuro" - como se pudéssemos tê-lo em qualquer outro lugar que não a nossa imaginação. A peste, a fome, a guerra, o cataclisma seja qual for é uma teia de relações cuja intervenção artística - a política aí inclusa - precisa se voltar, a todo instante, para evitar a obliteração, mas não é possível produzir com base na própria obliteração sem cair num vazio de angústias que apenas justifica e dá forma ao dispositivo - condicionando o hoje pela suposta concretude de um amanhã -, mas sim a partir da Vida que se busca afirmar num esforço permanente: nem contra, nem pelo Cataclisma, mas a despeito dele.