Mostrando postagens com marcador Maluf. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Maluf. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Sucessão Paulistana: o Impossível não Existe

As movimentações e as reviravoltas da campanha eleitoral para a Prefeitura de São Paulo, a principal disputa municipal deste ano - tanto menos pelo tamanho e importância da Pauliceia e tanto mais pela nacionalização da corrida - tornaram o post anterior desatualizado rapidamente. Para uma campanha quase paralisada até a semana passada, é algo digno de nota - e que me atropelou em uma semana incrivelmente corrida. Pois bem, vamos aos pontos.

O primeiro, e certamente mais bombástico, é a aliança entre PP e PT, em prol da candidatura Haddad, marcado pelo encontro entre Lula e Maluf na própria residência do último. Certamente, isso entra para a História como algo equivalente à união entre Prestes - o maior líder comunista brasileiro da primeira metade do século 20º - e Vargas - o reformador positivista do Estado Brasileiro em cuja ditadura a companheira de Prestes, Olga Benário, foi deportada grávida para uma campo de concentração nazista. E digo isso seja pelo caráter tão inusitado quanto ofensivo do evento ou pelo seu tamanho.

Se Lula é o grande ícone da esquerda do pós-ditadura, líder do governo mais bem aprovado da história brasileira, Maluf foi o último grande nome da direita brasileira, até ser atropelado pela maré de eventos dos anos 90, que não só o arrasou pessoalmente, quanto fez com os setores mais conservadores passassem a optar por estratégias mais indiretas - mas não menos funcionais - de tentar conquistar o poder. Trata-se, portanto, de um outro fato incrível, e negativamente, chocante e histórico - principalmente se considerarmos que a discrepância aqui é maior do que entre Prestes e Vargas, porque Lula é maior do que o primeiro e Maluf é muito menor do que o segundo.

Seja como for, o PT e Lula erraram. Não por qualquer questão moralista - e se você partilha de uma perspectiva moralista de política, pare de ler este post agora, por favor - , mas sim porque  o PP é um partido eleitoralmente inútil, o tempo de Televisão conquistado não vale o custo da vinculação da imagem a Maluf, e politicamente trata-se de uma aliança estúpida - não porque o PP represente programaticamente qualquer perigo, mas sim porque trata-se de um partido que não acrescenta absolutamente nada de positivo. 

Pior ainda, com isso o PT perdeu Luiza Erundina (PSB), sua vice recém-escolhida que desistiu de participar da chapa por conta da aliança com o PP. A rigor, Haddad não perde nada nas periferias e talvez com isso atraía um eleitorado que hoje ratifique o nome de Celso Russomano (PRB) - o grande azarão dessas eleições, que entrou para negociar um carguinho de vice na chapa de Chalita, mas está há tempos na segunda colocação e crescendo de popularidade -, mas se a estratégia petista era disputar as camadas médias, foi cometido um engano aí. 

Ironicamente ou não, a aliança entre PP e PSDB só não saiu porque o governador paulista Geraldo Alckmin, que também tem Maluf na sua base de apoio local, não se empenhou em fechar o apoio daquele partido à candidatura Serra - que ficou furioso em tê-lo perdido (?). Mas esse sequer é maior problema de Serra, supondo que seja um problema, já que sua candidatura vive às voltas com duas belas crises: sua intenção de voto parece ter se estagnado e existe uma crise na sua base de apoio, que exige repetir a coligação que valerá para o Executivo na disputa da Câmara, o que tiraria cadeiras propriamente do PSDB graças ao sistema eleitoral que temos.

Gabriel Chalita, do PMDB,  não está em melhor situação. Ele segue estagnado nas pesquisas, muito longe de conseguir emplacar seu nome como a terceira via ao serrismo e ao petismo. Para uma candidatura que surgiu com tanto alarde, até agora pouco se fez. Nomes como Russomano ou Soninha, que sequer pensam em ganhar essa disputa, seguem à frente de Chalita, o que dá a tônica do problema.

É claro que é tudo questão de analisar as próximas pesquisas de opinião. A última do Datafolha, por exemplo, aponta para um crescimento expressivo da candidatura Haddad, o que o coloca na terceira colocação. Determina essa estagnação de Chalita e Serra - que segue sendo o primeiro colocado tanto em intenção de votos quanto em rejeição, o que é curioso. Em resumo, as três grandes candidaturas patinam feio, mas só Haddad teve algum motivo para comemorar os dados. Mas não se sabe o que virá.

Se antes fugíamos do paradigma da opinião  para analisar o processo eleitoral, certamente não cometeremos esse erro. É de doxa, isto é, da opinião, da glória ou da aclamação, que se trata um processo eleitoral, tanto quanto qualquer tirania. É esse jogo de imagens e de alegrias imaginárias em decorrência de certos consensos, e da própria ambição, que se trata o jogo político. A questão que está em pauta, para uma perspectiva libertária, é menos quem vence as eleições e mais como isso faz diferença nas nossas vidas e de como isso incidirá sobre o exercício do controle. Uma esquerda nômade precisa adotar uma estratégia transversal, como a direita já aprendeu a usar há tempos, para enfrentar os problemas da Metrópole.

P.S.: Vale sublinhar que se tanto se fala na conversão da política brasileira em Fla x Flu, tese que sempre refutamos, o mais correto seria falar na sua telenovelização. 


P.S.B.: E a metrópole assiste tudo, ansiosa, em crise.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

As Enchentes de São Paulo


Foto retirada daqui
São Paulo é o maior município brasileiro e, junto com a população de sua região metropolitana, soma um total de moradores semelhante a um país como a Austrália. Como qualquer metrópole brasileira, os problemas são vários, causados em grande parte pelos anos do desenvolvimento incessante e autoritário dos militares - que, entretanto, surge mesmo com feições mais simpáticas já no Governo Juscelino -, onde assistimos a um esquema que misturava a institucionalização da irresponsabilidade em política econômica, ausência de política social e liberdades políticas e uma industrialização inclemente que unia o capital estrangeiro ao estatal e privado nacional num certo tripé - com os dois últimos dando suporte ao primeiro - na qual o capitão da indústria se uniu definitivamente ao coronel extemporâneo: Enquanto o primeiro dependia de mão-de-obra em larga escala, o segundo precisa se livrar de excedentes populacionais que em poucas décadas levariam a uma pressão insuportável por Reforma Agrária. Os resultados disso tudo são vários, mas do ponto de vista da questão urbana, temos a superlotação das grandes cidades, com verdadeiros anéis de miséria e pobreza se formando em seu entorno, alterando definitivamente a dinâmica da vida urbana brasileira. São Paulo, que nesse período toma o protagonismo nacional do Rio, torna-se um laboratório particular das experiências de política urbana que irão influenciar o país inteiro: Mas é só sob a égide de Maluf, no início dos anos 70, que o projeto será definitivamente delineado; uma cidade construída para automóveis e indivíduos, dentro de uma perspectiva de atomização, cujo propósito é o de reproduzir o jogo do grande capital. Se contra isso se levanta a oposição institucional e pequeno-burguesa por parte do MDB - justo a ala que irá se tornar mais tarde o PSDB -, por outro, os movimentos sociais organizados em torno do PT tentam produzir uma saída contra-hegemônica. As desventuras são imensas, depois da primeira gestão petista - que produziu bons planos e deu frutos, mas não conseguiu construir um projeto transformador à altura da empreitada - vimos o retorno dramático do malufismo, sucedido por mais quatro anos de PT - novamente nos mesmos termos - até ver a transformação do PSDB em um partido cada vez mais tradicional, o que gerou, por vias oblíquas, a ascensão de um político "aliado" como Gilberto Kassab do DEM - herdeiro da tradição malufista e fruto das guerras internas do PSDB entre Alckmin e Serra -, uma figura dotada de um senso de oportunidade e de uma consciência de suas limitações incomuns entre os políticos nacionais. Depois de herdar três quartos do mandato de Serra e vencer uma eleição com enredo de tragédia, o barco segue à deriva, com uma política de moradia sendo traçada para o setor imobiliário, a despeito dos soberbos problemas habitacionais e ambientais do município. A tragédia das enchentes agora é parte disso, o esgotamento físico da cidade causado por uma política que não considera a variável humana ou ambiental, somado às chuvas normais que caem em São Paulo durante o mês de Janeiro. O enredo da trama é o mesmo que vimos nas enchentes da Zona Leste no ano passado. A cobertura seguirá o tom do que o consenso hegemônico imagina que seja mais apropriado para sua auto-preservação e, por conta disso, talvez ainda vejamos matérias lenientes, que  atribuam a São Pedro a desdita, embora a tendência é que os próximos anos sejam mais difíceis para Kassab do que se pensa, principalmente se ele realmente quiser levar a cabo seu sonho de ser o fiel da balança da política paulista, o que pode pôr em risco a atual correlação de forças da política bandeirante.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Eleições Paulistas


(Os dois principais candidatos paulistas na torcida pelo Santos no último Paulistão)

Ontem mesmo estava dando uma olhada em um post do André Egg chamado Aloíso Mercadante tenta começar o debate eleitoral em São Paulo. Sim, começar. Nas minhas duas décadas de São Paulo, não me recordo de campanha tão esvaziada para o governo do estado. Mais do que isso, como já relatei aqui, as duas principais candidaturas foram construídas de um modo bastante estranho: Enquanto os corações, mentes e olhares das pessoas ou estavam voltados para outra coisa que não política ou, quando o faziam, miravam para a sucessão presidencial, movimentações rápidas de cúpula dos principais partidos - PT e PSDB - deliberavam rapidamente as candidaturas estaduais.  

O PT estabeleceu uma estratégia nacional de candidaturas onde não priorizou a disputa dos governos estaduais, deixando-os para seus aliados, enquanto jogava seus melhores quadros para o Senado. O Partido dos Trabalhadores só lançou candidatura própria no Rio Grande do Sul - cuja independência do partido local causada por uma peculiar correlação de forças entre as correntes é, no mínimo, interessante -, nos poucos estados onde pleiteia a reeleição e, onde algo fora da faixa de normalidade aconteceu - sim, em São Paulo, onde não havia algum aliado eleitoralmente confiável no jogo nacional para representar o partido - e onde alguns setores pressionavam, pela base, candidatura própria, o que logo foi dirimido como bem o sabe do Senador Suplicy. Aloíso Mercadante, amigo do rei e dono de um quinhão do Partido no estado, lançou-se pela segunda vez consecutiva na disputa, enquanto Marta parte para a disputa no Senado. 

A estratégia petista é simples, a Constituição de 88 fortaleceu, acertamente, o Poder Central e os Municípios, relegando ao Federalismo centrado na figura do "estado-federado" - uma jabuticaba americana, dentre tantas, que Ruy Barbosa nos legou - uma posição meramente ritual - logo, faz mais sentido mesmo focar-se na disputa nacional e por vagas no Senado. No entanto, essa prioridade não pode ser total, pois aí se esquece que os estados ainda são gestores de partes significativas das redes de serviços essenciais como educação, saúde, segurança pública e moradia. Bom desempenho da economia nacional, programas redistributivos e outros quetais representam bons avanços, mas sem a coordenação com esses serviços, essas conquistas são esvaziadas. Se você entrega a disputa para aliados de ocasião, pode acabar dando um tiro no pé.



Por outro lado, o PSDB também é um partido que se volta para um projeto nacional, ainda que suas características bandeirantistas - não que o PT não as tenha, mas as tem em menor grau -, precisa assegurar o poder em São Paulo e usa-lo como trampolim para o resto do Brasil. A cúpula do PSDB sempre esteve em São Paulo e em tornos dos interesses econômicos sediados em São Paulo - em suma, um quinhão relevante da produção brasileira direta e da coordenação da produção capitalista nacional - e em torno dos nomes de políticos locais, o que aparentemente se cristalizou. Isso explica porque o PSDB sempre tratou disputas e a política local de São Paulo como prioridade, mas já sacrificou o partido em estados onde ele poderia crescer como, por exemplo, na Bahia.


O PSDB que chegou ao poder em São Paulo em 94 com Covas, no entanto, era de um grupo um tanto diferente do partido que chegou ao poder no país no mesmo ano com FHC. Talvez, por uma questão da forma de se fazer política, de certos freios éticos que Covas tinha e FHC - com seu maquiavelismo mais vulgar do que se supõe - jamais teve. Mas a chegada de Covas ao poder, com chapa puro-sangue, produziu um dos maiores acidente políticos do Brasil nos últimos vinte e cinco anos: Geraldo Alckmin. Precursor do movimento de conservadores do interior de São Paulo que entraram na jovem legenda do PSDB - num momento em que o conservadorismo paulista parecia perdido com os novos tempos -, ele sempre foi a figura do "médio", do "normal" do comportamento política e da postura pessoal que a cultura hegemônica em São Paulo traça como padrão junto ao "senso comum". Essa sua medianidade sempre foi sua força, o que é no mínimo estranho, pois não falamos nem de um grande teórico, nem de um grande orador.


Alckmin era vice de Covas e herdou o governo estadual quando do falecimento do titular no meio do segundo mandato em 2000. A partir dali, ele fez o jogo que a cúpula nacional do PSDB e certas bases conservadoras - desesperadas com a implosão do malufismo - estão ciosas: Puxar o partido para a direita, mantendo um discurso que mantivesse seu eleitor histórico - o moderado pequeno-burguês que acha a ditadura ruim, mas tem medo do petismo - e mantivesse uma porta aberta para a direita - e a extrema-direita também. Desse acidente, produziu-se o candidato presidencial do Partido em 2006. 


As Eleições de 2006 - que já fazem quatro anos, Deus, como estou velho - foi uma das páginas mais interessantes da política brasileira. Tínhamos, de um lado, um Lula, que depois de seu primeiro mandato, contava apenas com o trunfo das políticas sociais e medidas sérias de estabilização monetária e fiscal do país, mas amargava os insucessos do fracasso na política institucional - pelas limitações do seu partido - e o preço de não ter tido uma politica de desenvolvimento e alavancagem da economia nos seus primeiros anos, o que resultou em baixo crescimento econômico. Do outro, Alckmin tensionava à direita, pautando de forma velada - embora suficientemente clara - que aquele fracasso era o fracasso da "política" - na verdade, da Democracia - e que era hora de um "gerente" - isto é, era hora de deixar essa história de "muita conversa" de lado e reduzir a Democracia a um mero adorno, partindo para uma "administração empresarial". 


Na hora H, Lula ganhou outro trunfo que era o de se posicionar como o guardião, mesmo imperfeito, da Democracia: O anti-herói nacional, velho e barbudo, que velava por aquele adorno - e Lula sabe fazer isso como poucos: Venceu Alckmin contra as circunstâncias. Há quem diga que Alckmin tenha cometido um erro estratégico, mas eu suspeito que as convicções dele não lhe permitiriam agir e pautar a campanha de outra forma. Depois dessa derrota, a ala serrista do PSDB se fortaleceu e, usando Kassab - o vice-prefeito demista da capital que herdou um mandato conquistado por Serra em 2004 como mero trampolim - pôs à pique a candidatura de Alckmin à Prefeitura em 2008.


Ressentido e humilhado, mas contando com o bom número de apoiadores fiés no interior, Alckmin ganhou a indicação para disputar o governo do estado. Não, a situação interna do partido não é boa - tampouco de sua candidatura. Como falava com o André na caixa de comentários, não há plena confiança na força da candidatura dele. A tática, portanto, é o esvaziamento do debate. Cozinha-se o galo e evita-se o confronto direto com Mercadante para se livrar de temas espinhosos e, assim, garantir que qualquer perda de pontos seja inofensiva caso ocorra - e, posso garantir, essa é uma possibilidade claramente considerada pelos estrategistas de sua campanha, levando em consideração a gordura razoável que ele tem a seu favor, mas que pode sim derreter dependendo do que aconteça.


As demais candidaturas tem pouca penetração. O PP se reconstrói após o fim do malufismo e tenta se reerguer com a figura do deputado Celso Russomano que, apesar de ser consideravelmente popular, não tem tônus nem leque de apoios para disputar realmente o cargo, trata-se de uma campanha de fortalecimento de chapa mesmo. A candidatura de Paulo Skaf, o principal líder empresarial do país, pelo PSB, é uma das maiores excentricidades já vistas. O PSOL larga com o surpreendente Paulo Búfalo. O ponto é que mesmo que a candidatura Alckmin não seja nenhuma sumidade, só Mercadante tem chances reais de vencê-lo - e pode, por mais difícil que pareça. A questão é lançar o debate o quanto antes, por mais que o silêncio tático da mídia corporativa sobre o assunto seja um obstáculo.



sexta-feira, 9 de julho de 2010

Breve História Econômica de São Paulo e a Intolerância

(Monumento às Bandeiras - Não estariam frouxas as cordas?)

Fiquei estarrecido com uma notícia que recebi via Azenha: Um blog está promovendo um manifesto contra a "opressão cultural" que os paulistas sofrem dos nordestinos e em favor de uma "São Paulo para os paulistas". Trata-se de um caso mais extremado e absurdo de um fenômeno que, infelizmente, se repete na São Paulo contemporânea:  Enquanto a classe dominante e seu partido dirigente são incapazes, por um evidente questão projetiva, de resolver a estagnação econômica, social e política do estado - que decorre de um esgotamento do seu próprio modelo -, ergue-se uma cortina de fumaça ideológica mediante a qual as causas e razões da crise são direcionadas para bodes expiatórios cômodos. O resto do Brasil e os imigrantes pobres são bons alvos.

Essa estratégia, convanhamos, não é nova no mundo, mas nem por isso ele deixa de ser dotado de certa singularidade. A São Paulo contemporânea é fruto de um processo gradual  que tem muito a ver tanto com o fluxo imigratório europeu - dos fins do século 19º até o pós-Guerra - e com a chegada em massa de camponeses de todas as partes do Brasil, praticamente expulsos de sua terra natal por um processo de "desenvolvimento" autoritário que coordenava o interesse dos coronéis - de impedir qualquer Reforma que alterasse o status quo no campo - com o dos capitães da indústria - de ter mão-de-obra barata para a nascente indústria. A chegada dos europeus, por sua vez, como em qualquer parte do Brasil, atendia ao desejo de nossas elites pelo embranquecimento do povo.

São Paulo foi o foco desse processo de industrialização porque aqui foi realizado o mais profundo e relevante processo de acumulação material pré-capitalista do Brasil somado ao advento industrialista da Era Vargas: decorrência clara da produção de algodão para exportação e, sobretudo, da produção de café - antes disso, essa região do país vivia um cenário de pobreza e insignificância econômica. Movendo os ponteiros da história paulista para trás, chegamos no paradoxo central da história paulista: A cidade de São Paulo foi construída  sob o marco de uma Escola, o projeto civilizador - e de certa maneira includente - do ocidente cristão na figura dos jesuítas, convivendo com a lógica de colonização particularmente genocída e inescrupulosa dos bandeirantes. Esse paradoxo que torna-se cidade, engloba os assentamentos urbanos já existentes do litoral e converte-se, mais tarde, no maior e mais rico estado da Federação nos tempos atuais.


O plantio do algodão foi bem-sucedido por conta da independência de umas Treze Colônias da América do Norte. Acabou-se o abastecimento de algodão para a Inglaterra, feito pelas colônias do Sul, e restaram aos ingleses procurarem novos mercados fornecedores. Depois, o café, torna-se uma via, graças ao clima propício e um salto qualitativo da agronomia nacional, nos anos que se seguem à chegada massiva de italianos, espanhóis, portugueses e japoneses - nem sempre com muito dinheiro, mas com um acúmulo de saberes técnicos. É aí que os grandes fazendeiros paulistas assumem o controle da jovem República, tocando uma política contrária aos seus próprios nascentes industriais. É do colapso de produção de café com a Crise de 1929 que São Paulo entre em choque, a República Velha cai e Getúlio Vargas, burocrata probo e capaz do velho regime, chega ao poder, confrontando-se diretamente desde o primeiro momento com a antiga oligarquia paulista, ciosa para retornar ao poder.


Muito embora não haja nenhuma "avenida Getúlio Vargas" em São Paulo e até se comemore um feriado em homenagem a um levante contra ele - que por coincidência é hoje -, seria muito difícil imaginar uma São Paulo industrializada sem Vargas para catalizar o processo. Ninguém colaborou tanto para retardar a industrialização do Brasil quanto os velhos pioneiros da República brasileira, em grande parte fazendeiros bandeirantes, que sempre defenderam a sua área específica na economia e souberam como ninguém, transformar essa luta no discurso de união dos paulistas, ainda que tal regime incluísse tão poucos dessas terras. Do processo de industrialização nacional-trabalhista, ao qual, posteriormente adere parte da elite paulista até os anos do Regime Militar, São Paulo se desenvolve brutalmente, tornando-se a cidade mais importante do país.


É como o Primeiro de Abril de 64 que temos uma nova inflexão: A chegada ao poder dos militares marca a aliança da burguesia industrial do Sudeste com as elites retrógradas do Nordeste, as conquistas da era Vargas são revertidas -  uma industrialização anômala, com a chegada de multinacionais, inicia-se; o fechamento dos sindicatos somado à lógica pau na máquina de crescimento leva um quadro insustentável.  O design da cidade que cresce em ritmo alucinante obedece às concepções não só individualistas como anti-coletivas de um Maluf e seus aliados. A desindustrialização é apenas questão de tempo, uma consequência óbvia do processo ensandecido dos anos 60 e 70. Os focos de reação ao bandeirantismo estão, veja só como é a História, nas Comunidades Eclesiais de Base e nas Pastorais - retomando o projeto jesuíta -  junto com o pensamento de uma Nova Esquerda que vem da Academia - que toma o lugar do velho vanguardismo. É daí que saí os novos sindicatos e o PT, infelizmente, apanhando em seu nascedouro por um momento de crise da cadeia industrial, cujo trabalho ele visava defender.


A alteração na paisagem econômica de São Paulo nas duas últimas décadas do Século 20º é brutal. As indústrias fecham vítima da política dos anos 90 ou migram para fora do estado - algumas, vão para o Interior mesmo -, a passagem do vetor da economia da Indústria para o Terceiro Setor é turbulento e excludente, marcado por índices de desemprego altos. A soma da hegemonia do malufismo na capital, do social-liberalismo tucano - nas esferas federal e estadual - que entrega o saneamento dessa crise nas mãos de Deus - um deus que não é o da bíblia e atende pelo nome Mercado - criam um pandemônio nesse período. Trata-se de um período de estagnação, no qual o sucateamento dos serviços públicos, o déficit habitacional e a hegemonia de uma classe economicamente parasitária - cuja máscara política é o PSDB - se enraizam profundamente na coletividade, corrompendo as mínimas relações humanas.


A economia de São Paulo se estrutura por meio das matérias-primas vindas de todo país - e, inclusive, da mão-de-obra que vem de toda parte -, dependendo não apenas do seu mercado consumidor, mas de tudo que ela exporta para o Mundo e, acima de tudo, daquilo que ela vende para todo o Brasil, seja em produtos agrícolas, industriais ou - hoje em dia, principalmente - serviços. A ideia da autosuficiência paulista é tão crível quanto a possibilidade de uma parte do fígado sobreviver fora do corpo. A ideia de uma pureza paulista, com toda ideia de pureza, é hedionda, mas aqui ganha contornos particularmente perturbadores. 


Apesar do multiculturalismo ser marca da cultura paulista desde o primeiro momento, é construído em um certo setor uma identidade político-cultural em cima de um certo estilo de vida de "classe-média", no qual o inimigo é o Outro que vive nas distantes periferias, que tem a cor da pele mais escura e estudou na Escola Pública - isso, somado aos bárbaros do resto do Brasil que exploram o estado. É esse Outro, oprimido em cada fibra do seu ser, que torna-se o alvo, sobretudo por sua fraqueza, mas o único modo do opressor lidar com o seu sentimento de culpa  é buscar justificativas para racionalizar tal processo, invertendo a situação de opressão. É o que vemos nesse referido manifesto.


Esse discurso que corre a boca pequena e é radicalizado por uma minoria, o que é tanto menos fruto de alguma liderança demagógica do que da omissão de civilizados políticos liberais, incapazes - seja por falta de criatividade, interesse ou pelos círculos de interesse que o sustentam politicamente - de bater de frente com um modelo de organização burocrático e econômico falido. Pior ainda, voltam suas baterias para a disputa da hegemonia do poder central - o que implica, fatalmente, na necessidade de se aliar com os setores mais anacrônicos da elite do Norte-Nordeste do país, deixando-os executar seu projeto como se fossem ainda os senhores temporais de sua região, fato que atrasou todas aquelas regiões nos tempos do Império e que, nos anos 90, viu-se curioso exemplar do mesmo, sob a batuta do bestial FHC - o maior falante de javanês da República - e sua aliança com o não menos glorioso Antônio Carlos Magalhães. É isso que está em jogo neste exato momento.



sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A Democracia Segundo Serra















(tudo gente boa)

Honestamente, sempre quando eu me deparo com sistemas eleitorais nos quais os primeiros colocados são organizados em listas tríplices ou quíntuplas e a decisão sobre a eleição cabe a um soberano, me vem à mente o sistema eleitoral do Império: Não obstante o fato de pouquíssimas pessoas serem aptas para votar, no que concernia aos senadores, o Imperador de dava ao luxo de escolhê-los mediante uma lista quíntupla (como descobriu um certo José de Alencar).

Ironicamente, é assim que funciona os sistemas eleitorais das universidades brasileiras; a USP, principal universidade do país, possui um sistema bizarro, no qual o peso dos estudantes é minimizado e, ainda por cima, os três candidatos mais votados formam uma lista tríplice que vai para as mãos do Governador do Estado de São Paulo para sua aprovação.

Alguns quilômetros a leste do Butantã, em Perdizes, no campus sede da PUC, vemos eleições onde o peso dos votos dos estudantes, funcionários e professores é equiparado - o que é bem mais justo -, mas os três primeiros colocados também são submetidos à apreciação de uma autoridade superior: O Cardeal Arcebispo de São Paulo.

Naturalmente, a existência de listas como essas é um perigo iminente à Democracia; nos anos 80, o movimento pelas eleições diretas na USP fracassou. Na PUC dos anos 70 e 80, as conquistas do movimento estudantil, dos docentes e dos funcionários produziu uma ilusão de segurança e a lista tríplice não foi abolida - quando, objetivamente, ela poderia ter sido extirpada. Tanto um lado quando o outro, no entanto, se viram às voltas com governadores e arcebispos razoáveis que respeitaram a vontade das urnas - no primeiro caso, pelo menos durante a normalidade institucional.

Ano passado, na PUC, ventilou-se que Dom Odilo Scherer, o novo Cardeal Arcebispo de São Paulo, iria escolher um candidato que poderia não ser o mais votado - afinal de contas, estamos falando de uma pessoa consideravelmente mais conservadora e truculenta do que um Dom Paulo Evaristo Arns. Boatos para lá, boatos para cá e o Dirceu de Mello, o primeiro colocado na lista, acabou escolhido como Reitor - o que não é exatamente bom, o sistema é mesmo falho, a questão é que pelo menos o descalabro não aconteceu.

Qual a minha surpresa ao saber, hoje cedinho, que José Serra conseguiu superar as alas conservadoras da Igreja Católica e indicar como Reitor o segundo colocado na lista, pior, escolheu o glorioso João Grandino Rodas, ex-diretor da Faculdade de Direito, uma figura conhecida por sua atuação em prol da repressão dos estudantes e dos movimentos sociais. Não custa lembrar que com isso, Serra se igualou a Maluf, que no ano da graça de 1981 também passou por cima do protocolo e não indicou o primeiro colocado - mas estamos falando de Maluf e ainda da Ditadura Militar.

Tudo bem, eu já tinha chegado à conclusão de que Serra não merece ser Presidente da República - primeiro grande enfrentamento contra a USP. Também já conclui que ele não deveria ser governador - guerra entre polícias. Que ele sofre de graves problemas mentais - invasão do campus da USP pela Tropa de Choque. Agora, ele não precisava me convencer de que é pior do que a ala conservadora da Igreja e igual a Maluf - mas conseguiu.