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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Brasil: Apesar dos Frangos, a Vitória

Um dos frangos de Julio Cesar
Enfrentando um Equador bem longe do brilho de alguns anos atrás, quando conseguiu se classificar por duas vezes consecutivas para a Copa do Mundo (2002 e 2006), a Seleção Brasileira venceu por 4x2 e se classificou para a 2ª fase da Copa América. A única coisa que chamou a atenção em um jogo estranho como esse foi, sem dúvida, os dois frangos sofridos por Julio Cesar - sempre incensado, mas apenas um bom goleiro (e um ótimo político, convenhamos). Dessa vez, pelo menos, o time de Mano Menezes conseguiu executar jogadas de ataque de forma mais ou menos coerente, embora a marcação adversária tenha ajudado bastante. Maicon, que não sei por quais cargas d'água estava no banco, voltou à titularidade e mostrou o quanto Daniel Alves está longe de ser tudo isso. Que a torcida não se engane: o Brasil se classificou vencendo apenas e tão somente o pior time do grupo e só empatando - na bacia das almas - contra Venezuela e Paraguai. Agora, terá pela frente novamente a seleção paraguaia num confronto no qual só é ligeiramente favorito. A Copa América está completamente em aberto, Brasil, Argentina e Uruguai, as três forças do continente, tiveram uma primeira fase igualmente ruim, vencendo apenas as piores equipes dos seus grupos. Mesmo com uma avenida de oportunidades pela frente, seleções como Chile e Colômbia não aproveitaram tão bem assim a falta de concorrência. A Venezuela, cujo futebol se profissionalizou há pouquíssimos anos, conseguiu a classificação e é a sensação do torneio - agora pega o Chile, elas por elas dono do melhor futebol da primeira fase, e o vencedor desse jogo enfrentará quem levar de Brasil e Paraguai. Argentina e Uruguai, pelas contingências do destino, se enfrentam já nas quartas de final próximo sábado com tênue favoritismo para os donos da casa - e o vencedor enfrenta quem levar Colômbia x Peru, com favoritismo dos colombianos. Nada de animador para o futebol brasileiro. Bem longe de quem terá (a pressão) de sediar um Mundial em Casa.

P.S.: Das poucas atrações da Copa América, a cobertura feita pelo convalescente Hugo Chávez, via twitter, da seleção de seu país é das coisas mais engraçadas de um torneio tão mal resolvido como esse.

terça-feira, 7 de junho de 2011

O Peru de Humala

Humala vitorioso
Em uma das eleições presidenciais mais disputadas dos últimos anos, o Peru assistiu à  vitória do centro-esquerdista Ollanta Humala à presidência da República contra a direitista Keiko Fujimori pelo placar (apertadíssimo) de 51,5% a 48,4%. Humala, que venceu o primeiro turno, representa a mudança em um país profundamente conservador e cheio de traumas: seja pela derrota para o Chile na Guerra do Pacífico - o que se não lhe tirou a saída ao mar, como aconteceu com a Bolívia, mas feriu a honra nacional de maneira igualmente dolorosa, sobretudo no que toca o saque à Lima -, a violência estrutural de um confronto bastante duro entre as oligarquias e a plebe, a permanente questão do índio - o dilema existencial peruano, um país que tem dificuldades em encarar de frente sua ancestralidade nativa -,  um racha fratricida no campo da esquerda e episódios duríssimos de violência - que não destoam em espécie do que aconteceu pelo continente, mas certamente foram dos mais intensos; a ditadura de Alberto Fujimori nasceu da degeneração da democracia local, uma vez que ele foi eleito no começo dos anos 9o, e combinou características da velha direita latino-americana (oligárquica, inclemente) com as da nova direita (a mercantilização esvaziadora da cidadania), não apenas matando como deixando morrer. Antes, a esquerda peruana caiu na armadilha de preterir a organização dos sindicatos e movimentos sociais para se dedicar massivamente à luta armada, o que, não por acaso, pode ser apontado como uma das grandes causas da sua fragilidade - a exemplo da esquerda colombiana -, sobretudo se lembrarmos do horror protogonizado pelo Sendero Luminoso,  a mais insana organização armada do continente, comparável talvez somente ao Khmer Vermelho no Camboja. 

Depois de Fujimori e de um breve governo transitório, os dois últimos governos peruanos foram o de Alejandro Toledo - que seguiu uma agenda moderada e institucionalista - e o do ressuscitado Alán Garcia - que se tornou o único meio para evitar uma vitória de Humala há cinco anos e fez um governo marcado por um brutal crescimento econômico, desrespeito aos direitos humanos e pouco empenho no combate às desigualdades sociais. O desafio de Humala é manter o crescimento econômico no atual ritmo e começar a edificar uma estrutura de bem-estar social - tarefa para à qual ele contará com forte apoio no continente, mas terá de administrar bem eventuais atritos na política interna, quem sabe se aproximando das forças leais a Toledo no parlamento e mantendo uma interlocução efetiva com os movimentos sociais. Aliás, no que toca ao último aspecto, é questão de ver como ele, um militar reformado e nacionalista, vai estruturar essa relação, afinal de contas, o nacionalismo peruano sempre foi dotado de inquestionáveis ambiguidades; o autonomismo anti-imperialista sempre andou muito mais ao lado da crença em um Estado forte do que de uma construção orgânica junta à sociedade civil. Já do ponto de vista do grande jogo da geopolítica, isso certamente foi uma grande derrota para os EUA - que tentavam articular um bloco com Peru ao lado de Colômbia, Chile e México para fazer contraponto à influência do Brasil e seus aliados pró-autonomismo latino-americano no continente. Se hoje mesmo os governos de Chile e Colômbia precisam reconhecer a legitimidade dos governos de esquerda da região na interlocução estratégica, agora o espaço deles tende a se reduzir mais ainda, sobretudo se levarmos em consideração que o governo Calderón no México, o último grande estandarte do conservadorismo latino-americano, agoniza. O Mercosul sai fortalecido e isso, meus caros, é fundamental.


P.S.: Vale muito a pena ler este artigo do Idelber, em seu novo blog na Fórum, sobre José Carlos Mariátegui, um intelectual que nos conta muito sobre a história peruana.

domingo, 5 de junho de 2011

Eleições Peruanas

Humala em comício
Hoje, uma das mais disputadas eleições dos últimos anos será disputada: trata-se do segundo turno das eleições peruanas, que colocará frente a frente o líder nacionalista de esquerda Ollanta Humala contra Keiko Fujimori, a filha e herdeira política do ex-tiranete direitista Alberto Fujimori. Os dois estão em empate técnico, com pequena vantagem para Ollanta segundo as últimas pesquisas, depois de um primeiro turno extremamente disputado (no qual cinco candidatos tinham chances de vencer), passaram adiante justamente eles, que são os candidatos mais distantes do centro, o que ilustra a polarização política que vive a sociedade peruana - que passou batida em relação aos bons ventos da mudança que atravessaram a América Latina nos últimos anos e, hoje, se encontra entre um misto do temor da elite e da velha classe média em entrar na onda e a profunda ansiedade da plebe em finalmente poder experimenta-la. É evidente que boa parte da sociedade peruana não compartilha mais de uma visão semelhante a de Keiko, mas ela se avizinha como a tábua de salvação do velho modo de vida local - o que justificaria o voto nela como mal menor. Interessa muito pouco aos EUA a vitória de um novo governo esquerdista na região, sobretudo porque a vitória de Keiko seria a oportunidade de ter um governo fraco e suscetível à integralidade de sua política na região. Humala, por sua vez, é tratado erroneamente como "chavista", enquanto tanto ele quanto Chávez são, em grande medida, velasquistas repaginados: ambos representam uma visão nacionalista popular, que apesar de certos rompantes autoritários, pensa em combinar uma forte doutrina autonomista com uma doutrina social robusta, algo como um peronismo militarizado. E quando falo em Velasquismo, me refiro imediatamente ao ex-líder peruano Juan Velasco, que governou depois de um golpe de Estado, mantendo-se alinhado lateralmente à antiga União Soviética em plena Guerra Fria (1968-75) e tendo o apoio de Cuba - essa peculiar aliança e a incapacidade construir instituições levou à radicalização de parte da esquerda para o maoísmo (bastante presente no país desde os anos 50) com o Sendero Luminoso que, inclusive, era anti-cubano, e que acabou servindo como álibi para a direita do país legitimar suas políticas autoritárias, incluso aí o velho Fujimori. Depois de décadas de guerra civil, terrorismo de Estado e radicalismo de grupos como Sendero - que Humala combateu no campo de batalha quando era militar -, a sociedade peruana saiu com feridas comparáveis apenas as da Colômbia. A aproximação de Humala ao Lulismo é bastante positiva porque incorpora definitivamente o compromisso democrático e o integracionismo latino-americano à sua agenda política - o que de certa maneira nunca esteve fora dela, apesar dos seus detratores dizerem (estrategicamente) o contrário. Hoje, o pleito que será disputado é uma versão moderna e mais tensa do que foi Lula x Collor no Brasil do fim dos anos 80. Lá, como cá, a vitória da velha direita seria um desastre tremendo. 

P.S.: E o nobel de literatura Vargas Llosa, ex-esquerdista, que nos últimos anos assumiu uma postura liberal que, no fim das contas, não passa de mero anti-esquerdismo pueril com tons elitistas, resolver fazer finalmente algo que preste em décadas: depois dos resmungos todos no primeiro turno, decidiu apoiar Humala e rompeu com o jornal para o qual escrevia, dada sua cobertura vergonhosamente panfletária pró-Keiko. Se até Vargas Llosa tomou uma atitude dessas, imagine só o tamanho do problema que estamos diante.

P.S. 2:  Ganhe quem ganhar, não terá maioria no Congresso e ainda terá o desafio de unir um país rachado. É claro que para o clã Fujimori isso não importa - como nunca importou - e uma vitória hoje seria vista como uma aprovação em referendo pró-fujimorismo, o que levaria ao perigo real de uma crise institucional.