Mostrando postagens com marcador Negros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Negros. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Django Livre: o Anti-Obama, Anti-Spike Lee

Django Livre possivelmente é o melhor filme de Quentin Tarantino. A exemplo das demais obras do cineasta, trata-se de um projeto tecnicamente irretocável: da trilha sonora às atuações, passando pela fotografia e pelas incomparáveis cenas de ação. No entanto, há algo de superior em Django em relação aos demais filmes de Tarantino -- que é justamente o modo praticamente perfeito como a narrativa habita seu locus histórico. Poucas películas pontuaram tão bem a questão racial americana quanto ela. O cowboy é negro, o anti-racista é alemão, o grande vilão é a servidão voluntária -- que é prontamente desnaturalizada; não é uma questão de mocinhos e bandidos, é uma questão de vontade de potência contra paixões tristes.

Há dois pontos em Django que incomodaram mesmo o movimento negro americano (o que é revelador): o primeiro é que se trata de um filme bem humorado, o segundo é que a servidão voluntária é retratada como o centro de gravidade do esquema racista da Casa Grande. Talvez incomode ver a KKK sendo ridicularizada antes de ser destroçada por Django na cena mais engraçada do filme -- mas quem não se agrada do riso é, certamente, digno de alguma desconfiança (como, aliás, já lembrava um tal Foucault). Talvez incomode admitir o colaboracionismo negro no esquema da escravidão ou mesmo que não conciliação possível. Mas ter cutucado essas feridas é o torna Django sensacional.

Leonardo de Caprio interpreta não o antagonista da trama, mas uma marionete deprimente de um esquema no qual Samuel L. Jackson, manipulador e inteligentíssimo, move as pobres mentes brancas para a manutenção de uma ordem na qual ele prepondera como chefe e morador distinto da Casa Grande (sem ele mesmo deixar de ser escravo ou, também, uma peça do jogo). O racismo americano é demonstrado em toda a sua dimensão sistêmica, sem se rebaixar ao discurso de conciliação -- como o de Obama na política ou mesmo aquele visto em películas como Invictus -- ou ao maniqueísmo -- como insiste um Spike Lee que não viu e não e não gostou do filme.

A personagem sensacional de Cristoph Waltz, um dentista alemão que se tornou caçador de recompensas e nutre um ódio sem limites à escravatura, não media nem conduz nada: ele é tanto mais um xamã, abrindo portais para novos mundos, do que qualquer outra coisa. E o problema não está no alemão, no outro -- o evidente inimigo e vilão -- mas sim na elite branca e ignorante dos Estados Unidos. Kerry Washington, como a amada de Django, sequestrada e torturada, expressa essa dor sem fim (e duplicada) da mulher negra.


E Jamie Foxx está soberbo. O seu Django é a expressão máxima e definitiva da potência da gente negra. Se ele realmente não era a primeira opção de Tarantino, seguramente, entrará para o rol dos grandes planos B da história do cinema. Deus abençoe o fato de ter sido ele, e não (o cada vez mais irrelevante) Will Smith, o Django. Só o negro é capaz de romper os grilhões que lhe prendem -- e o olhar cortante (de amor, de paixão) de Foxx traduz isso perfeitamente. O inimigo está aqui dentro. Django para lá da farsa histórica e do discurso auto-indulgente: é tudo questão de força, pura força e puro estilo, é questão de confrontar e saber confrontar. Sem isso, não existe liberdade -- e o que interessa: os negros podem. 

Django acerta um tiro certeiro no coração do racismo americano. E também nas duas faces nas quais se desdobra o lado asceta do movimento negro. Aquele discurso que gira em torno da culpa, seja tirando a culpa dos brancos (como no caso de Obama) ou colocando-a paranoicamente sobre eles (no caso de um Spike Lee). Não é questão de culpa, mas sim das coisas como elas realmente estão -- e de que é preciso fazer a diferença optando pela libertação. Não há motivo para se temer o riso. 

P.S.: Esta postagem é a primeira do ano V de O Descurvo, ontem foi aniversário de quatro anos do Blog.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Há Genocídio da População Negra no Brasil?

Eu afirmaria, antecipando aqui a conclusão, que sim e isso se dá na forma de reação social difusa, desorganizada e velada contra a ascensão dos negros, elemento constituinte da ascensão selvagem da classe sem nome: sim, os negros são um elemento fundamental dos pobres; se nem todo brasileiro pobre é negro, é certo que poucos negros brasileiros não sejam pobres. Se os pobres devêm-excedente no Brasil de hoje, isso significa que os estão englobados nesse processo. 

A dimensão da exploração socioeconômica no Brasil não se resume ao racismo contra os negros, mas tem nele um de seus fatores mais relevantes. Pesquisas recentes apontam que os ganhos dos negros aumentaram em 123% durante o governo Lula, o que resulta em uma marca impressionante de crescimento de mais 15% ao ano. Por outro lado, a taxa de homicídio entre os negros aumentou em 29,8% entre 2002 e 2010, enquanto caiu em 25,5% entre os brancos no mesmo período.   

Em resumo, os negros são, hoje, mais importantes economicamente, ganham espaço na publicidade  e na mídia mas, ao mesmo tempo, são alvos mais acentuados da violência homicida. Esse aparente paradoxo é explicável. Não há política oficial, de Estado ou de grupos não estatais, de eliminação dos negros, e há, a bem da verdade, muito pouco de política marginal de eliminação dos negros. Mas há uma reação social. Não tem o mesmo peso, sobretudo para as polícias, matar um negro e matar um branco, seja na eventual ação homicida ou na constatação da morte.

O fato de ter aumentado o abismo da proporção de negros assassinados frente aos brancos que tiveram o mesmo fim, aliás, aponta que um fenômeno perturbador está em jogo. Sobretudo porque o sentimento geral é de que não estamos diante de nada incomum, ou pelo menos nada incomum em relação situação histórica de violência contra os negros, mas estamos porque agora mesmo os negros são mais matáveis do que já eram em relação aos brancos.

É também prova de que qualquer economicismo no trato da questão do racismo, inclusive aquele que fundamenta a defesa das cotas "sociais" em detrimento de cotas "raciais", é falso. Existe sim uma autonomia entre o racismo e as condições financeiras da população negra e, é claro, não serão medidas que garantam o incremento de renda dos negros que, apenas por elas, diminuirão a situação como o negro é percebido socialmente.

A situação que já era grave em 2002, quando havia 1,64 negro assassinado para cada branco em 2002, tornou-se agora gravíssima com a cifra passando para 2,32 negros mortos para cada branco morto em 2010. Como Foucault dizia, o racismo importa num dispositivo fortíssimo que em último caso diz respeito à decisão sobre quem vive e quem morre -- numa sociedade pós-fordista e pós-pós, um fenômeno social difuso, não raro, importa mais do que uma política deliberada de Estado em uma direção genocida.

É verdade que não há como pensar na questão do negro deslocada da sua posição no sistema de produção, mas é preciso considerar que "produção" implica em muito mais do que produção de bens e serviços, mas também de subjetividades: o racismo, portanto, entra nessa história de forma autônoma à ascensão financeira do negro, embora se relacionem em algum grau. 

O acirramento do terror de uma maneira velada, indolor e silenciosa em relação à condição da negritude é uma interdição horrível que se abate sobre o inconsciente comum; seus efeitos nefastos servem para a não resolução da nossa relação mal resolvida, para dizer o mínimo, com nossa africanidade constitutiva. Mais do que nunca é preciso organização e mobilização para vencer esse genocídio branco.