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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A Cultura, a Classe sem Nome e o MinC de Marta

Carnaval -- Carybé
A questão da Cultura é essencial. Não à toa, ela tem sido alvo de intensos debates no Brasil, sobretudo no governo Lula, na  passagem de Gilberto Gil pelo Ministério da Cultura. Pela primeira vez se deflagrou uma política de democratização cultural, rompendo a barreira da visão da "cultura" como mero enfeite -- ou apenas um instrumento para alavancagem da indústria de entretenimento massificada. Um dos eixos dessa transformação foi a execução do programa Cultura Viva, idealizado por Célio Turino, que resultou nos Pontos de Cultura. O processo se seguiu durante a gestão de Juca Ferreira, mas atolou com a nomeação de Ana de Hollanda por Dilma. As políticas democratizantes deram um giro de 180 graus, passando para o lado da defesa do lobby da grande indústria do entretenimento para o horror de ativistas da área. Ana cai -- sob a pressão de movimentos da área, declarações mal dadas e o jogo das eleições municipais --, Marta Suplicy ascende e uma nova rodada de lutas se inicia.

Antes, uma breve recapitulação. Por que a Cultura importa? Foi no campo da Cultura, e não na corrida espacial ou armamentista, que os Estados Unidos tomaram a dianteira na Guerra Fria em relação à falecida União Soviética -- e a última encontrou seu desfecho triste, por sua crise interna. Em suma, o principal arsenal de Washington é, há muito, sua indústria de entretenimento e sua política cultural (espertamente invasiva): o que moldou o mundo à imagem americana é, justamente, o imaginário produzido por sua indústria que, docilmente, introjetou seus tipos de formas de vida; não é mais possível imaginar uma história de amor sem fazer referência a um filme de Hollywood, como bem observam Negri e Hardt em Commonwealth.

O centro de gravidade não está no medo, mas na esperança (e mais e mais na pretensão de segurança) de viver tal e qual -- boa parte do que foi operado em favor da hegemonia norte-americana, por sua vez, pouco teve a ver com invasões e golpes (embora não possamos exclui-los), mas sim com condutas espontâneas, no nível macro e micro, causados pela maneira como o american way of life foi naturalizado. Mas não é a forma de viver americana em um sentido nacional -- eles contra nós --, é a forma de viver americana como uma das hipóteses de modelo de vida adequável e útil para realizar o Capitalismo. A Rede Globo não repete essa estética pelo bem de Washington, mas, antes de mais nada, pelo Capitalismo.

Uma vez rompida a Guerra Fria, aquela estética extravasa as fronteiras nacionais americanas. Com a Globalização, o modelo americano torna-se global e precisa cada vez menos dos Estados Unidos em si. Um filme chinês que exalta a glória dos noventa anos do Partido Comunista local tem, também, estética hollywoodiana -- e não há nada estranho nisso. Há um Império global que nasceu do ovo americano, mas não se confunde mais com ele com tanta exatidão. Se a realidade funciona de um modo dialético é difícil dizer, mas o capitalismo certamente o faz. Ele se autossupera e se ultrapassa a todo instante.

Por outro lado, os países socialistas ao longo do século 20º, grosso modo, insistiram que a chave para a libertação estava na tomada do Estado para, assim, assumirem o controle do progresso da civilização, dando um sentido outro aos seus rumos -- processo do qual, automaticamente, resultaria uma cultura nova. Não resultou em coisa alguma como sabemos. É a cultura que dita as regras dá linha no processo civilizatório, é o discurso, a representação. Inclusive porque a civilização é só uma das múltiplas possibilidades da cultura. A civilização capitalista demanda uma cultura capitalista para que ela funcione no seu avanço sem fim.

No Brasil, existem dois vetores muito fortes no campo. Um é o da grande indústria do entretenimento, cujos tipos de formas de vida esboços remetem à manutenção do que está posto, outro, é uma animada e potente cultura popular. A hegemonia cultural dos grupos de mídia tradicionais no Brasil -- oligopólios familiares, a bem da verdade -- moldou os rumos da democracia brasileira. Nós nos informamos, nos imaginamos e nos sentimos de acordo com a produção de formas de vida ditada pelo grupos A ou B, com interesses bastante pontuados. É uma grande indústria, forjada na Ditadura Militar e que chega ao ápice com o Neoliberalismo -- a Ditadura não destruiu a música brasileira, mas o privatismo dos anos 90 sim. E isso tem implicações muito claras na funcionamento da nossa política.

Há, inclusive, uma confusão recorrente: como se a massificação galopante da Cultura brasileira nos últimos anos tivesse a ver com ascensão social atual. Como se a ascensão selvagem da classe sem nome fosse a ascensão do massificado, do pobre enquanto o ontologicamente deficitário. Nada mais falso. A massificação cultural corta toda a sociedade, ditando padrões, de maneira universal, para o jovem da periferia e para o advogado rico do bairro nobre. A massa não é o pobre que vê suas condições excederem os limites da Lei da Casa Grande, ela é o processo de homogeneização ao qual  todos são reduzidos, igualados apesar de suas diferenças, o que permite a manutenção de assimetrias brutais. Quem assiste ao pior talk show da televisão brasileira é a classe "a" também.

A massificação é um processo anterior e, acrescentaria até, antagônico a tal ascensão, uma vez que é um processo de sujeição que pretende, inclusive, dar um jeito nessa classe, pondo-a sob os limites de uma nova ordem. Trata-se de um vetor que busca capturar a potência dessa classe, sujeitando-a: quando uma telenovela "insere" e "descreve" a nova classe, ela é o faz submetendo-a a um regime que pretende determina-la, prescrevedo seu funcionamento. A classe sem nome passaria a ser isto, é uma "nova classe média", que se comporta, veste e ama de um modo determinado.

A massificação tem pouco a ver com exarcebação do consumo, mas sim com regulamentação do consumo: você irá consumir aquilo e aquilo outro, desta e daquela forma. Mas você não consumirá jamais os sujeitos e sujeições que o sistema usa para determinar a forma de produzir e de consumir os objetos. É uma vedação ao consumo. Por isso é preciso consumir mais e mais, devorar os objetos e também -- e sobretudo -- os sujeitos e sujeições. E [poder] consumir cada vez mais é enfrentar a máquina, não alimenta-la. O cenário atual é ainda de subconsumo.

Então é dentro de um cenário de incertezas não só internas ao MinC, mas também das mudanças ocorridas nos últimos anos, que Marta Suplicy assume a pasta. Não são poucos os problemas internos e os desafios. A vitória recém-conquistada da aprovação do Vale-Cultura -- algo que pode se tornar um equivalente cultural do bolsa família -- é importante: ele cria mecanismos que permitem aos trabalhadores (que ganham até cinco salários mínimos) acessarem bens culturais com um bônus de R$ 50,00 mensais dados, por seu turno, pela empresa onde estão empregados em troca de isenções fiscais para a mesma. 

Não à toa, a Folha já se levantou contra o projeto -- e Marta respondeu, hoje, com muita precisão.  Os argumentos do editorial da Folha não são diferentes daqueles vistos por certa parte da esquerda que vê, no incentivo ao consumo, o problema do governo Lula-Dilma. O temor dos setores conservadores é justamente não saber qual a extensão da liberação do consumo por parte desses setores (ou pela menos a parcela dele que está empregada) e isso Marta captou bem -- antes o problema fosse a aquisição de blockbusters e de livros de auto-ajuda, muitos dos quais promovidos e endossados pela mesma mídia que ora os critica: o que incomoda mesmo é a possibilidade disso permitir a massa ir além de sua condição e ter meios para, minimamente, se integrar ao mundo do qual é alijada. O sistema vive desse subconsumo.

Mas um ponto tão crucial quanto. É a própria regulamentação do Cultura Viva, que gira em torno da aprovação do projeto de lei 757/2011 de autoria da deputada federal carioca Jandira Feghali (PC do B). Idealizado por ativistas da área e pelo criador do Cultura Viva, Célio Turino, o projeto aprimoraria o mecanismo de prestação de contas por parte dos Pontos de Cultura e facilitaria repasses e gastos por parte dos Pontos de Cultura, dentre tantas outras coisas -- hoje, engessados pela mesma legislação que dispõe sobre grandes obras e grandes compras públicas, totalmente carentes de uma legislação específica. Assim, a produção cultural em nível molecular, por gente comum do povo, poderia ser expandida em toda a sua diversidade.

Na última segunda-feira (14/01), em audiência pública com militantes da cultura e ponteiros, Marta se deparou com o quadro do Cultura Viva. O ponto positivo, desde já, foi a realização de uma audiência pública depois de anos de interdição do diálogo. Mas ficam patentes as dificuldades e a situação do MinC depois do vendaval Ana de Hollanda.  O aprimoramento do Cultura Viva é, ou pode ser, o ponto diferencial na história. Seria a possibilidade de dar conta da "fome pelo acesso à cultura" ao qual Marta faz referência ao avaliar o quadro brasileiro. E daria conta por meio da produção de um bom alimento. E a fome, aliás, tem a ver, sempre, com a relação entre consumo e produção.

Marta quer e precisa fazer acontecer no MinC. E isso é legítimo. Mas ela só vai conseguir êxito caso se der conta da importância da dimensão da pasta que tem em mãos -- e monte uma equipe que dê conta disso (e pelo jeito falta isso). O Cultura Viva é o principal projeto do MinC e seria o tecido conjuntivo para mais e mais políticas do setor -- como o próprio Vale-Cultura e o CEU das artes, que ela idealizou --, sua efetivação definitiva é, portanto, pauta prioritária. Se empreender esforços para a sua regulamentação, terá obtido uma grande vitória. Sem diálogo e sem a participação da multidão -- que não é este ou aquele militante ou este ou aquele movimento -- não há como avançar e não haveria razão de ser para o Cultura Viva. A abertura ao diálogo, a disposição em entender o quadro e a vontade de fazer coisas são um caminho, mas há muito ainda a trilhar. Marta tem, no entanto, a faca e o queijo na mão.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Rainha Morta, Rainha Posta: Marta no Lugar de Ana no MinC

Meme contra Ana de Hollanda, ainda no início de sua gestão (Barbara Szaniecki)
Ontem, Ana de Hollanda foi demitida do Ministério da Cultura (MinC) após uma reunião de meia-hora com a presidenta Dilma Rousseff, sendo substituída pela senadora Marta Suplicy (PT-SP). A escolha de Ana de Hollanda para o Ministério da Cultura, lembremos, foi a primeira grande polêmica de Dilma na Presidência. Não só pelo fato disso ter marcado um recuo e, de certa forma, o desmonte nas políticas inovadoras e libertárias de Gilberto Gil e Juca Ferreira no MinC como, também, pela própria torpeza da ocupante do cargo, uma irmã obscura, e com pouquíssimo traquejo político, do antológico cantor e compositor Chico Buarque. 

Muito do que diz respeito à continuação descontinuada de Dilma em relação a Lula, sobretudo tudo no que toca ao giro Ordem & Progresso, é, não raro, ignorado ou relativizado pela competência dos ocupantes dos ministérios, o que não acontecia no caso de Ana: politicamente indefensável e odiada pelos militantes e especialistas da área de sua pasta, ela foi uma bola fora sob qualquer ponto de vista. Foi sob a gestão de Ana que o MinC deixou de usar a licença creative commons no seu site -- um belo simbolismo no que toca à capitulação ao lobby dos direitos autorais --, que voltou a rufar os tambores para o mito da "classe artística" -- em detrimento de pensar a produção cultural como multitudinária e plebeia -- além de manter sem ânimo e (quase) por inércia os programas da gestão anterior.

Poderíamos começar especulando o motivo que levou Ana a cair, mas seria melhor questionar, antes de mais nada, por que diabos ela não caiu antes. Não caiu porque Dilma teve problemas em ministérios demais em tempo de menos -- pois, paradoxalmente, se quase não há mais oposição neste país, também não parece haver mais do que alguns elétrons livres na chamada base governista -- e porque, no limite, o projeto de Ana não destoava do giro promovido pela própria Dilma em outras áreas. Depois, ela caiu porque roeu a corda, rompeu com aliados pesados seus como Antônio Grassi -- seu fiador junto ao lobby da "classe artística" no Rio de Janeiro -- e teve uma carta sua para a ministra do planejamento, Miriam Belchior, na qual fazia duras críticas ao "estado da cultura" no país -- isto é, o valor insatisfatório da verba da pasta --  repercutida pelo jornal O Globo.

Se Dilma sabia que, no fundo, só era ela mesma a segurar a ministra no cargo, por outro, imaginava que ela viesse a ter qualquer tipo de gratidão profunda por isso. A carta n'O Globo foi o fim da linha, como fica claro na declaração oficial de apaziguamento em meio à polêmica, tornando Ana uma ministra sacrificável no jogo político. Sua queda, contudo, talvez tenha sido adiantada pelas tensões relativas à disputa pela prefeitura paulistana, onde a tentativa de costurar apoio de Marta Suplicy à candidatura de Fernando Haddad, dentro do próprio PT, parecia impossível, tornando o oferecimento do MinC para a senadora -- a exemplo do que já tinha sido feito com Aloísio Mercadante e o Ministério da Educação -- uma possibilidade selar a união do partido da estrela. Foi o que aconteceu. A entrada "para valer" de Marta numa campanha na qual ela relutou até o último momento se deu junto de sua entrada no MinC.

Certamente, a entrada de Marta no cargo marca, por si só, a possibilidade de uma melhora na pasta, o que não quer dizer muito, mas não é de um todo ruim. Mas Marta não é da área e resta saber que direcionamento ela vai dar. Sua gestão na prefeitura de São Paulo (2001-04) foi marcada por iniciativas ousadas na forma de projetos que ela bancou -- embora nem sempre tenham sido de sua lavra pessoal, como os CEU's, criação do ora candidato Fernando Haddad -- e, por outro lado, aproximações com o mercado e a iniciativa privada, sobretudo no que diz respeito à área de moradia e urbanismo, cujos resultados práticos foram ruins. No entanto, Marta certamente foi melhor prefeita do que líder partidária. Fica o detalhe para a completa incógnita de Marta no MinC, uma vez que alheia à área da pasta, ela será o que os assessores que ela escolher -- possivelmente segundo o que partido orientar -- forem. Fora do eterno confronto Bahia x Rio na Cultura, Marta pode ser tudo e nada. 

Essa articulação sela a paz no PT -- pelo menos até o ponto que demanda a presente eleição municipal paulistana -- em momento no qual Haddad cresce, possivelmente ultrapassa José Serra, mas precisa adquirir mais massa crítica para tirar de Celso Russomano um eleitorado que é petista, votaria em Marta, mas não está com ele agora -- embora a classe média e os mais jovens venham se aproximando de Haddad de um modo que não se aproximariam de uma nova candidatura Marta (como foi, aliás, nos pleitos de 2004 e 2008). Interessante notar pelo menos dois coisas: como a candidatura Haddad forçou o PT paulistano à esquerda,  obrigando Dilma a compensar forças conservadoras, e em certa medida personalistas, com espaços no plano nacional -- Marta no MinC, Mercadante no MEC, Tatto na liderança do PT na Câmara -- e, é claro, o descompasso e a falta de diálogo de Dilma com os ativistas da área de Cultura, muitos dos quais seus fiés apoiadores em 2010; Ana de Hollanda terminou caindo por motivos diversos e até estranhos ao debate travado ao longo dos últimos vinte meses...




quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Sucessão Paulistana: O Processo Interno do PT

Lula e Haddad (foto: Alan Marques/Folhapress)


O Partido dos Trabalhadores chegou ao seu auge na capital paulista no início deste século: Detinha a Prefeitura da cidade com Marta Suplicy, o que resultou em dividendos eleitorais no plano das eleições gerais, como se pode ver pelos resultados de 2002. Mas já ali, alguma coisa não estava certa, o que veio a ficar exposto na reeleição fracassada de Marta.

Era evidente o racha do partido assim como o afastamento dele da intelectualidade e, ainda, um relacionamento problemático com os movimentos sociais - sobre o último ponto, saía a atuação direta e orgânica na periferia, sobretudo com os movimentos de moradia, e surgiu um estranho fisiologismo. 

A difícil relação de Marta com os outros setores do partido não apenas lhe custou a reeleição como ressuscitou Serra em 2004. Sua candidatura equivocada em 2008 custou bem mais do que isso, ajudando a dar sobrevida ao DEM e ainda protelando a (necessária) renovação do partido em São Paulo.

O quadro que se desenhava até bem pouco não era nada animador. As velhas lideranças petistas construíram uma estrutura poderosa e começavam a monopolizar as candidaturas para o governo do estado e para a Prefeitura da Capital. De repente, as coisas começaram a tomar um tom curioso, que se resumia no "Marta ou Mercadante".

O velho Lula, que sempre apostou no campo majoritário na politica paulista e paulistana, viu o tamanho do seu erro quando ele foi exposto violentamente este ano: a indicação de Palocci para a Casa Civil de Dilma foi, de longe, sua pior aposta em anos.

Nesse sentido, a aposta em Haddad foi uma (grata) surpresa. Por um lado, seu ministro da educação é um verdadeiro encantador de serpentes: consegue se manter à esquerda no partido sem se isolar, coisa que José Eduardo Cardozo não conseguiu. Por outro lado, Lula ousou e apostou alto e certo.

Lula se deu conta do enorme potencial desperdiçado do PT paulistano. Por mais que o país venha se descentralizando, São Paulo não só é - como continuará a ser - a maior cidade brasileira por muitas décadas ainda. O preço de adular velhos aliados não competitivos eleitoralmente  é ser complacente com uma decadência que pode, é claro, atingir o partido em escala nacional.

A insistência de Marta em pautar sua candidatura é um erro. A bem da verdade não é bom para sua própria carreira nem para o partido. Ela é uma figura importante no Senado, mas que tem uma grande rejeição junto ao eleitorado paulistano - pelos motivos certos e errados - e não é capaz de aglutinar o partido e o eleitorado dele, nem mesmo sua própria corrente, em torno de si.

É bom recapitular uma coisa, as duas gestões petistas na pauliceia se encaminharam de formas diferentes: é verdade que ambas colocaram em prática bons projetos e não conseguiram ter um fecho administrativo que desse coesão à gestão, só que Erundina deixou sementes, Marta não.

Explico-me: a periferia, por conta de Erundina, ficou menos distante socialmente da urbe; a resultante daquela tensão de forças foi que aquelas regiões pobres passaram a ser vistas enquanto parte da Capital, embora como um parte menor - coisa que não eram até ali.

E grande parte da resistência contra o Malufismo nasceu das sementes plantadas por Erundina. Com Marta não, o partido saiu menor e mais desunido, passivo diante da escalada de Serra.  

As demais candidaturas, as de Zarattini e Tatto - ambos ex-aliados de Marta - não são viáveis seja em qual aspecto for. Por isso, meu ânimo com a candidatura Haddad. Não apenas porque as outras opções não são boas neste momento, mas porque, ainda por cima, ele agrega muita coisa.

Haddad é, hoje, o nome petistas mais competitivo para as próximas eleições e, mais importante do que isso, de fazer uma campanha programática da qual será possível plantar novas sementes. E caso vingue, de conseguir fazer a gestão que São Paulo precisa, dando o fecho que faltou às gestões de Erundina e Marta.

O atual ministro da educação tem Lula e Dilma juntos a seu favor. Terá, por conta disso, uma votação expressiva na periferia - que não à toa deu um voto de confiança para o petismo -, mas tem condições de ganhar votos nos bairros mais ricos porque é capaz de animar a intelectualidade de esquerda - e reaproximar muita gente importante.

Dos outros partidos, infelizmente, nada de animador aparece, confirmando a triste sina da política paulistana dos últimos anos. Um PSDB sem projeto nem prumo, um Chalita neo-governista, um PSOL distante demais do debate público e preso a disputas intestinas dignas de Movimento Estudantil.

Nesse sentido, resta torcer pelo bom senso no processo interno de escolha do PT mais do que nunca. Que se reconheça a necessidade de renovação - que atende pelo nome de Fernando Haddad agora - e que se coloque o bem do partido -e, afinal de contas, da cidade - à frente de vaidades pessoais. 



quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Por um Projeto de Urbanidade: As Enchentes e o Belas Artes

O Belas Artes em 1971
No post anterior, discutíamos o problema das enchentes em São Paulo. Ele é gravíssimo, em poucos dias de chuva - para falar a verdade, depois das primeiras chuvas realmente fortes de todo o Verão -, o resultado são bairros inteiros da Capital alagados, represas abrindo suas comportas, cidades da Grande São Paulo na mesma situação - e outras tantas isoladas por conta da inundação das cidades vizinhas -, inúmeros desabrigados e mortos.  A cobertura jornalística vista desde a publicação do post anterior até agora é pífia, voltada à isenção dos aliados políticos das empresas de mídia e à espetacularização da tragédia para ganhar audiência - o que, por consequência lógica, esconde as causas. Onde é que estão os bons debates sobre a política urbanística das grandes cidades brasileiras? Ou isso seria arriscado demais porque obrigaria a contar a perigosa história que trata, no fim das contas, da materialização geométrica, concreta e mais visível da política econômica, que é a política urbanística? Certamente. 

O outro episódio tão paulistano que reflete a mesma problemática é o fechamento do Cine Belas Artes. Falamos de um cinema de arte com quase sete décadas de vida que está às portas do fechamento por conta de um entrave burocrático quanto à renovação do aluguel, causada pelas dificuldades do dono do cinema em arrumar patrocínio - o que foi resolvido, mas cuja demora provocou a negativa da renovação por parte do dono do prédio. Existem possíveis saídas jurídicas para o caso, mas o cerne da questão é como a atual gestão municipal reproduz essa política urbanísitica tradicional, mostrando um desdém total pela proteção do patrimônio cultural do município - público por excelência e, para além dos locais físicos em que se manifesta, diz respeito a uma construção imaterial e coletiva de afetos (de tão boas lembranças para mim, que assisti ao Segredo de Seus Olhos lá não tem nem um ano...). De repente, o fato desse espaço desaparecer não é encarado, simplesmente, como um problema. Muito embora durante a gestão petista de Marta Suplicy leis de incentivo a esse tipo de atividade tenham sido aprovadas, infelizmente, elas não contemplaram a proteção legal permanente para esses espaços - talvez por não terem antevisto corretamente os riscos de uma velha concepção de cidade retomar o controle da administração pública e simplesmente ignorar a importância da própria cultura, como se vê agora com o inefável Kassab. 

Sim, no Brasil leis precisam ser redigidas sempre baseadas na pior expectativa possível de entendimento judicial e execução de políticas públicas futuras. 

Há quem tenha uma fé cega no mercado e ache que ele resolverá tudo no fim das contas, o que é completamente falso, o máximo que teremos de retorno são as gigantescas salas de cinema de shoppings e seus blockbusters americanos. Há quem pense, pela esquerda, que os recursos públicos não devam ser mobilizados em prol de uma empresa privada, o que é um equívoco muito grande: Confunde-se, assim, a ficção jurídica da propriedade com a função do empreendido junto à coletividade, compactuando com o fechamento de um espaço localizado em um local de fácil acesso, que cobra preços baratos e cuja existência histórica é parte do patrimônio imaterial do município - falo daquilo que diferencia um monte construções de concreto e aço ordenados de uma cidade. 

A ligação entre os dois episódios está, justamente, em um problema que transcende, até mesmo, às críticas aos mandatários tradicionais que ocupam o poder reproduzindo políticas segregativas e desumanas - e forças analogamente reacionárias fora dele -, mas que pode ser definida no seguinte questionamento: Nossas cidades funcionam como e para quem? Essa indagação não é menor nem menos importante do que pensar sobre as abstrações da economia política manifestadas na elaboração da política econômica, mas sim uma forma de enxergar o mesmo processo por outro ângulo. É sair da aritmética para a geometria para falar  do mesmo. Pensemos nisso agora.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Minha colaboração para o Amálgama: Eleições Paulistas 2010

A pedido do glorioso Daniel Lopes  enviei minha humilde colaboração para o Amálgama sobre as eleições Paulistas. Publicarei, como combinado com o Daniel, os dois primeiros parágrafos aqui com link para o artigo na íntegra lá. 

O Estado da arte da política paulista

A apuração da votação das eleições 2010 transcorreu numa noite atipicamente fria de 03 de Outubro. Um dia com um ar cinza e sorumbático. Dilma Rousseff venceu o Primeiro Turno das eleições presidenciais, mas não venceu em Primeiro Turno como se supunha e se esperava – e, pelo menos do lado de cá, se desejava. Por outro lado, viu-se a maior transformação da história do nosso Senado, com uma série de figurões não se elegendo – muitos dos quais, perdendo as vagas que ocupavam há tempos -, formando um rol de ilustres derrotados no qual podemos citar César Maia (RJ), Arthur Virgílio (AM), Heráclito Fortes (PI), Marco Maciel (PE), Raul Jungmann (PE) e Germano Rigotto (RS). Na Câmara, os petistas fizeram a maioria seguidos do PMDB e demais integrantes da base aliada.

Enquanto isso, as eleições paulistas correram dentro do previsto da normalidade normalizada que há tempos caracteriza o estado cada vez mais bandeirante e cada vez menos jesuíta – não em termos de religiosidade, como logo mais se verá, mas em termos de crueza do projeto de dominação. Terminou em primeiro, aparentemente eleito, Geraldo Alckmin do PSDB – e o “aparentemente” logo será explicado – seguido do petista Aloísio Mercadante, pela segunda vez seguida candidato do partido da estrela e pela segunda vez – pelo menos no montante do Primeiro Turno, não saberia dizer se em Primeiro Turno – derrotado. Para o Senado, o PSDB, que já teve FHC e o próprio José Serra representando o estado naquela Casa, recuperou uma vaga, com Aloysio Nunes e o PT elegeu a primeira mulher para Senado por São Paulo, ninguém mais ninguém menos que a ex-Prefeita da capital Marta Suplicy.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Giro Rápido pelas Eleições.

O Tracking Vox/Band/IG de hoje confirmou subida de Dilma de 51 para 52 e queda de Serra de 25 para 24 - oscilações desse nível são perfeitamente normais em apurações diárias como um tracking, mas isso serve para ilustrar que o factóide que Serra levantou não surtiu efeito algum na campanha. Aliás, como já é sabido, o pedido de impugnação da candidatura Dilma foi, como se esperava, arquivado pelo TSE, por falta de qualquer substrato lógico. O Ibope confirmou números parecidos com os do tracking e a vitória de Dilma em 1º turno vai se aproximando. O quadro atual é de que Dilma está tirando diretamente votos de Serra, enquanto Marina não engata  As pesquisas em São Paulo, por sua vez, indicam os efeitos do impacto nacional do crescimento da candidatura Dilma, com Mercadante subindo e Alckmin descendo, o que, apesar da diferença ainda grande, assusta demais os tucanos, que sabem que num segundo turno, tudo muda - para o Senado, Marta Suplicy segue numa dianteira tranquila enquanto o também governista Netinho de Paula (PC do B) conseguiu a segunda vaga, com as quedas de Quércia e Tuma, quem sobe é o tucano Aloísio Nunes, que apesar das campanha opaca, é o único candidato, pela força de sua legenda, que pode ameaçar a dobradinha governista. Deixando um pouco o Brasil de lado, Idelber Avelar postou algo sobre um país muito distante daqui.