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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A Rede de Marina e o Brasil na Pós-Modernidade

Marina Silva lançou seu partido no último sábado, dia 16. Eis a Rede. A agremiação, a exemplo do que já fez o PFL ao mudar o nome para DEM, abre mão do termo "partido". Além de se desvencilhar do incômodo termo, ela buscará se distanciar da sua forma: ela também já nasce com a proposta de ser um "movimento" e não um partido. Seja como for, a Rede está sujeita à legislação partidária e precisará angariar 500 mil assinaturas até Setembro para poder disputar as eleições gerais de 2014.

O partido-movimento de Marina é uma resposta ao estado de coisas da nossa política -- os desgastes internos nas agremiações tradicionais causados pela burocratização crescente -- enquanto, ao mesmo tempo, compartilha do espírito da nossa época. Não é justo dizer que o Rede é um novo PSD -- a legenda recém-criada por Gilberto Kassab, o controverso ex-prefeito paulistano --, mas sim que os dois, ponderadas suas diferenças, são expressões destes tempos pós-modernos da política brasileira. 

Os dois partidos são cordiais, colaborativos, "abertos", personalistas, além de se colocarem pós direita e  esquerda; pós-rancor e pós-confronto. Ninguém duvida que Marina chefia a Rede e que Kassab comanda o PSD. E ambos, sublinhe-se, pretendem coisas diferentes para a política brasileira. Talvez Marina sonhe em acontecer como Lula, enquanto Kassab certamente prefira o papel de um Sarney. 

O evento Marina possui uma dimensão maior e mais paradoxal ainda: isso implica, por um lado, em um chamado para se fazer política comunitária e de base, enquanto, por outro, há poucas dúvidas de que uma vez regularizada sua nova organização, Marina será sua incontestável candidata presidencial. Não existe nada de muito novo nisso. E com certos desgastes de Dilma, um cenário difícil na economia e a crise tucana, ela é forte candidata.

No guarda-chuva de Marina, e seus quase 20 milhões de votos conquistados em 2010, vem uma série de ativistas -- de meio-ambiente e de mídia-livre, sobretudo -- além de políticos ligados ao PT, à esquerda do PSDB e do PV e à direita do PSOL. Heloísa Helena, que de liderança aclamada do PSOL tornou-se persona non grata naquela legenda, estava lá para aclamar Marina -- e não custa lembrar que a queda de Heloísa no seu ex-partido deveu-se, vejam só, ao fato dela tentar forçar um apoio daquela legenda para Marina ainda em 2009.

Marina fala em uma "crise civilizatória" como mote para seu novo movimento. Na insustentabilidade do "modelo" em curso para lidar com problemas políticos, ambientais e sociais. De fato, há crise, mas a crise é o próprio processo civilizatório. Sempre foi. A Rede traz tudo isso: não há lado, não há uma luta comum, mas sim uma posição universal que paira sobre tudo (e todos). Esquerda e direita seriam apenas dois pólos antagônicos, simétricos iguais enquanto opostos. Os últimos 16 anos e a história das lutas sociais neste período são a linha evolutiva da história de uma "estabilidade abstrata".

O discurso moral é uma parte particularmente ruim. O inimigo abstrato é a corrupção e os maus costumes; nada de verbas de fabricantes de bebidas, menos por qualquer anticapitalismo e mais pelo álcool...Nada de movimento ou processo constituinte, mas sim a anestesia do éter. Mais Savonarola e menos Maquiavel. Isso tudo entre, sem ser contra, o neoliberalismo tucano e o neodesenvolvimentismo de Dilma -- mas não de todo o PT e de todos os petistas. Uma negatividade que une o que há de moralista na classe média ao conservadorismo plebeu.

A Rede não é, no entanto, estritamente nociva. Ela bagunça mais ainda o jogo político brasileiro, o que é bom; força os partidos existentes a serem melhores -- diante da presença de um atrator universal --, resolvendo melhor suas disputas internas. Ela também cria um espaço para parte da esquerda constituir projetos, são frestas, aberturas, espaços novos -- e, sobretudo, a Rede força a esquerda a elaborar um movimento real e alegre, livre de tantas paixões tristes.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A Telhada de Vidro da Democracia Brasileira

Lula nas caravanas da cidadania
O Brasil está próximo de uma grave crise institucional. De um lado, o STF resolveu finalizar o julgamento do Mensalão com (mais) uma decisão controversa, o arranjo final de uma ópera bufa: obrigar a câmara dos deputados a cassar automaticamente o mandato de quem foi condenado judicialmente no processo, do outro, Marco Maia, presidente da câmara, já declarou que irá se recusar a acatar a decisão do STF, uma vez que se trata de interferência indevida de um poder no outro -- e já conta com o apoio de outros líderes partidários. Somado a isso, a insinuação de Joaquim Barbosa de que o Ministério Público Federal deveria investigar o ex-presidente Lula e a resposta do mesmo, em Paris, de um pacto político pela saída da crise com justiça social e da proposta de retomar as caravanas da cidadania, dão o tom do confronto.

Um cenário muito complexo e, ao mesmo tempo, muito simples se monta no horizonte: a recente ascensão dos tribunais na América Latina como senhores absolutos da razão, e tutores da democracia, é uma forma branca de impedir a democratização real no continente. Substitui-se a política pelo jogo judicial, quando, na verdade, é só uma forma de retirar das assembleias e da multidão a autonomia para produzir direitos -- ou mesmo tutela-la, seja pelo poder de negar reivindicações ou mesmo, do poder de chancela-las, aparecer como sumo produtor de direitos, uma ilusão recorrente em meio à esquerda: é como, de repente, que não fosse a militância gay que tivesse lutado pelo direito à união estável igualitária, entre outras coisas.

Tivemos os recentes ocorridos em Honduras e no Paraguai, onde os presidentes -- ambos coincidentemente à esquerda no jogo político local -- foram removidos do poder em decisões de exceção: a primeira, a determinação de expulsão do país que impediu o devido processo legal e resultou na destituição de Manuel Zelaya, a segunda, uma decisão de impeachment relâmpago contra Fernando Lugo, sem direito à defesa e por conta de um libelo acusatório que não tem provas. Em ambos um caso, um padrão: a suprema corte como detentora da palavra final, por ter a suprema capacidade de acessar a verdade pura, dizendo quem fica ou quem vai. O fetichismo do direito trazido às suas origens viscerais: os sábios leram nas tripas dos animais quando e se deveria se fazer a guerra.

No Brasil, não foi diferente com o dito julgamento do mensalão. O foco dado aos dirigentes petistas no processo em questão, a antecipação do julgamento das acusações contra líderes petistas -- quando aquelas que pesavam contra líderes do PSDB eram cronologicamente anteriores --, sua realização durante o pleito eleitoral e declarações de ministros de que se basearam por ilações e suposições em vez de provas fecham o quebra-cabeças. 

Existe uma retórica institucionalista de canto a canto que alimenta isso. Petistas e mesmo tucanos e demistas estão contra a última decisão do STF de se arrogar como cassador de mandatos dos parlamentares -- uma hipótese ridiculamente inconstitucional --, mas os tucanos ainda falam em "palavra final" do STF -- embora saibam que não possam concordar com ela em termos gerais -- e todos falam em "defesa da Constituição" em termos bastante liberais. Mesmo os ex-partidão, o PPS, e o PSOL que se mantêm juntos na defesa da decisão do STF carregam o mesmo ranço conservador, aliado a um punitivismo e um revanchismo em relação ao PT.

Em tempos nos quais não é possível mais imaginar mudanças de poder via forças armadas, um novo deus ex-machina aparece: os quarteis dão lugar aos tribunais e as fardas às togas. Se as lutas constituintes que resultaram na atual democracia, contidas sobretudo no ciclo de 13 anos entre 1975-88, foram cristalizadas na Carta Constitucional -- que desde os tempos de Napoleão é a forma de fazer cessar a revolução como nos lembra muito bem Antonio Negri em seu Poder Constituinte -- e se tornam objeto da guarda de um órgão que decide o que está de acordo ou não com ela: há poder mais supremo do que assumir o monopólio do discurso da legitimidade jurídica de tudo que existe? 

Se tudo passa a ser medido por uma máquina que funciona à base do binarismo constitucional-inconstitucional, e só um órgão controla isso, o que temos? A decisão sobre o que é constitucional nas mãos de um grupo de notáveis que é, ironicamente, do tamanho de um time de futebol. Constitucional passa a ser o que o STF dita e completa-se a boa observação de Agamben: embora falemos de Estado de Exceção, é fato que esse fenômeno não é propriedade exclusiva dos regimes jurídico-constitucionais especiais, tampouco dos regimes autoritários, mas ele opera tranquilamente por dentro das "democracias" e de seu funcionamento regular -- como na situação atual e ridícula do Estado brasileiro, na qual o STF decidiu quais recursos, e como suas próprias decisões recentes podem sofrer questionamentos (sim, vocês podem me embargar!).

Talvez Lula tenha percebido isso, ao retomar as caravanas da cidadania, viagens pelo interior do país para mobilização das massas em um momento de paralisia e desencanto, quando a democracia nascia desde já tutelada e a hiperinflação corria a vida dos pobres -- para depois ser resolvida às custas da oneração deles mesmos -- nos anos 90. Lula sabe que precisa sair politicamente das cordas e a resposta para tanto, é claro, só pode ser pela deflagração da potência da multidão de pobres e minorias, a monstruosa classe sem nome com a qual ele bailou nos últimos anos. Mas é preciso ter algo o quadro em mente, inclusive do fracasso das suas escolhas para o STF, que repetiram a mesma fórmula batida de obscuridade nos métodos de escolha de gestões anteriores: seu problema, aliás, não é ser fiel a Lula incondicionalmente, mas ter sido fiel incondicionalmente à aclamação e à glória pública do teatro da mídia.

A resposta para tanto precisa completar a própria burocratização do PT no governo, sobretudo com o gerencialismo de Dilma, e a falta de uma resposta suficiente ao "neoliberalismo" -- embora eu prefira me referir ao fenômeno que devora a terra nos últimos quarenta anos como "capitalismo cognitivo" pela, digamos, amplitude e precisão do termo. Lula e Dilma continuam, ressaltemos, bem avaliados: a opção por enfrentar a crise defendendo o emprego e os salários dos trabalhadores, a manutenção dos programas que vertem renda para a multidão -- como o bolsa família e os pontos de cultura -- e as cotas continuam aí, além de existir uma percepção geral de justiça social entre as pessoas comuns, gera isso, somado a incompetência generalizada das oposições (que defendem a manutenção dos preços das contas de energia nas alturas, por exemplo). 

Isso não quer dizer, no entanto, que o PT esteja ciente do tamanho  do desafio. Aumentar investimentos públicos para expandir, por exemplo, a rede de internet de banda larga pelo país era uma necessidade premente. Resolver a atual crise por meios que passem pela constituição do comum, por dentro do Estado, talvez seja ignorado: a questão é procedimental demais e preocupada demais com parcerias, e modos de parceria, com o privado. A exemplo do que fizeram Schroeder na Alemanha e Bush nos Estados Unidos, Dilma promove isenções de tributos e diminuição de alíquotas, quando poderia mantê-las e ampliar programas sociais -- e não precisaria de disciplina fiscal tão rigorosa que, inclusive, a colocasse na dividida de bola com servidores públicos --, evitando assim empresas com caixas gordos e pouco dispostas a investir em qualquer coisa (como nos Estados Unidos de Obama).

É preciso mobilizar as bases, mas é importante integra-las, do contrário o apoio pessoal terá sempre uma dimensão ampla e pouco profunda, pronta a capitular ao desejo de exceção soberana, e de fascismo, alimentado diariamente pela mídia em toda parte. 

P.S. (D.B.): depois de alguns dias em marte, em decorrência dos compromissos de final de curso, volto à terra e me deparo com novidades curiosas. O Coronel Telhada, ex-matador da PM e  vereador eleito em São Paulo pelo glorioso PSDB, foi nomeado para a comissão de Direitos Humanos da Câmara é piada pronta, ou melhor, seria trágico, não fosse cômico.

P.S. 2: tratei de alguns temas abordados aqui nesta entrevista dada ao meu amigo Tiago Aguiar, ao lado de muita gente boa como Pedro Serrano e Giuseppe Cocco.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Quem Venceu o 1º Turno das Municipais 2012?

O PT. Sim, o PT. Por quê? É muito simples: porque ele teve o maior número de votos -- e haverá quem coloque alguma ressalva, mas o fato é que ele ganhou mesmo. Ele não só cresceu como também passou o número de votos do PMDB, partido mais votado no último pleito municipal. É possível dizer que o PMDB foi o vitorioso pelo número de prefeituras conquistado, ainda acima de mil -- uma façanha impressionante -- no entanto, graças a enorme diferença entre a população dos municípios brasileiros -- que incluem desde metrópoles gigantescas como São Paulo e Rio a cidadezinhas do interior -- é fato que "quantidade de prefeituras" não é o melhor critério para determinar quem venceu, uma vez que não ilustra quem tem realmente mais força em nível nacional. Na real, o PT teve 16,8% dos votos, o PMDB 16,2%, enquanto o PSDB teve 13,5% e o PSB 8,6%. 

Atrás de ambos, resta o PSDB, ainda segundo em número em número de prefeituras, mas terceiro em votos: a maior legenda de oposição, entretanto, viu seu número de votos válidos e de prefeituras caírem. DEM, depois do racha do PSD, e PPS não apresentam melhor sorte. Aliás, o conservador PSD, governista de última hora estreou bem, mas não conseguiu ser a quarta força nacional como prometia, perdendo em número de votos para o PSB, embora tenha cravado o quarto maior número de prefeituras -- em geral, prefeituras interioranas. O PSB tornou-se, sem dúvida, a quarta força brasileira e foi, inclusive, uma das maiores causas de derrota do PT nas cidades importantes nas quais rachou com o aliado: Belo Horizonte e Recife são belos exemplos disso, em São Paulo, por sua vez, eles estão juntos na chapa de Fernando Haddad. Revés mesmo, ele só tomou em Curitiba, onde esteve coligado com o PSDB do governador Beto Richa.

No balanço de forças entre grandes nomes, os governadores que saíram mais fortalecidos da conversa foram Sérgio Cabral (PMDB-RJ), Aécio Neves (PSDB-MG) e, sobretudo, Eduardo Campos (PSB-PE), todos responsáveis pela eleição, em 1º turno, de seus candidatos nas capitais. O personagem político, para variar, foi o ex-presidente Lula, diretamente empenhado no atual pleito e grande responsável pela manutenção do partido na disputa em Fortaleza, Salvador e São Paulo -- sobretudo no último caso, onde seu empenho pessoal foi decisivo em uma eleição dramática na qual ele alçou o jovem Fernando Haddad para o 2º turno. Os maiores derrotados foram os governadores Beto Richa (PSDB-PR) e, talvez, Geraldo Alckmin (PSDB-SP) -- sendo que o último sequer conseguiu dar a linha da eleição na capital de seu estado e, ainda, perdeu uma eleição importante no seu reduto, o Vale do Paraíba (leste do estado), onde São José dos Campos passou para o comando petista.

A figura chave, para 2014, será, em virtude de tudo isso, Eduardo Campos: o governador pernambucano cresceu bastante, tornou a política nordestina, antes bipartida entre as velhas  oligarquias aliadas ao projeto neoliberal (a aliança PSDB-PFL/DEM) e a frente popular (PT-PSB-PC do B), em um tripé no qual seu partido ocupa o centro e, agora, será o objeto de disputa para as próximas eleições gerais. A questão é simples: Campos cresceu muito e o PT terá dificuldades para realoca-lo em uma posição superior, até porque ele não pode preterir o PMDB; por outro lado, uma aliança de Campos com o PSDB (possível no caso de Aécio ser o candidato) faria com que a oposição passasse a ter chances de vitória por "abrir o nordeste" -- sem isso, Dilma poderá se eleger em 2014 talvez com um pé nas costas. O PSB, para Dilma, tornou-se algo parecido com o que o PFL foi para FHC nos anos 90, embora menor e cuja integração à base seja, paradoxalmente, mais complexa por sua natureza centrista.

No campo da esquerda, o PSOL cresceu em número de votos, fez um prefeito, uma campanha importante no Rio e dobrou seu número de vereadores. Aliás, é possível que seja a primeira vez, desde 2006, que o PSOL saia maior de um pleito do que quando entrou. Ironicamente, ele só é o décimo-terceiro partido do Brasil e está bem distante de pautar qualquer coisa. PSTU, PCB e PCO continuam atrofiados e sem perspectiva. O PT cresceu como faz em todas as eleições municipais desde que nasceu. O voto caminhou mais para a esquerda em 2012, embora o clima da política institucional e partidária tenha se acomodado cada vez mais ao centro e na contemporização. A oposição que cresceu é a gerencial e pragmática, não a liberal e ostensiva. São mostras do que vem em 2014, quando um discurso liberal arcaico tende a perder espaço e há uma demanda clara pela intensificação de uma agenda de esquerda -- ainda mais em um momento no qual os pilares do capitalismo estão abalados e a questão social emerge no Brasil. 

A única oposição que cresceu, em suma, é aquela que está à esquerda do governo petista, mas o fez justamente onde o PT vai mal ou esteve engessado por alianças, não raro, em nome da governabilidade nacional. O PSDB, apesar da campanha calcada no julgamento do Mensalão regrediu em número de votos, inclusive em importantes redutos eleitorais seus pelo estado de São Paulo: é fato que existe a possibilidade de reverter o jogo no 2º turno, mas fora Santos, onde os tucanos registraram uma inédita e boa vitória, ter conseguido ir, por muita sorte, para o 2º turno em um reduto como Jundiaí, é horrível -- fora a derrota em 1º turno em São José dos Campos e não ter conseguido levar a eleição em Sorocaba, mesmo  disputando contra um ex-prefeito de índole duvidosa agora no PMDB.

Em outras palavras, a política nacional, fraturada em três dezenas de partidos, muitos dos quais meramente fisiológicos, segue muito longe de estar resolvida em torno deste ou daquele programa: os principais partidos são apenas e tão somente aqueles que conseguem agenciar mais aliados e capitanear algum campo do espectro político nacional. Portanto, a vitória petista é apenas e tão somente relativa, como é relativa a importância do PMDB. O que não muda a situação de crise do PSDB, que amarga a ilusão de que uma agenda meramente moralista irá mudar suas seguidas quedas nas urnas. A cobertura midiática, por sua vez, peca novamente em assumir-se partidária, ecoar teses antipetistas quando poderia, mesmo tendo sua perspectiva, fazer uma crítica geral ao sistema, este sim, antes de qualquer coisa, a fonte dos demais problemas: em vez de agir como torquemada, poderia catalisar o sentimento favorável uma reforma política, mesmo dentro dos limites de uma visão liberal.

sábado, 6 de outubro de 2012

O Xadrez das Municipais e o Que Está em Jogo

The Chess Players --Schwartz (1958) -- daqui
Amanhã, teremos a votação do primeiro turno das Eleições municipais. Apesar de toda a ritualística partidária e tentativas de nacionalização da disputa, elas decidem-se nos próprios municípios. O fator nacional e partidário, aliás, diminui brutalmente de importância conforme diminui o município -- e, assim, vemos eleições de partidos muito pequenos, alianças exóticas mesmo pelos padrões heterodoxos do jogo político nacional. Em 2002, com poucas prefeituras, embora bem localizadas, o PT ganhou as eleições presidenciais da forma mais consistente até hoje, isto é, com uma distribuição geográfica mais homogênea do voto. Em 2004 e 2008, apesar da enorme popularidade do governo Lula, as vitórias do partido nas municipais passaram longe de ser acachapantes -- por outro lado, o domínio do PMDB nos pequenos municípios, nem por isso, o cacifa como partido capaz de lançar uma candidatura viável no plano majoritário federal ou mesmo na maioria dos estados. Agora, em 2012, Dilma é popularíssima, Lula mantém-se como grande líder político nacional, mas nem por isso o PT vencerá de forma arrasadora, tampouco o marketing negativo da campanha midiática sobre o mensalão o conduzirá a uma derrota grandiosa. É claro que certos balanços de poder nas grandes capitais influirá ao longo dos próximos dois anos no plano federal, é preciso atentar para isso.

Nem PT, nem PSDB, contudo, vão bem, embora os dois apresentem, ainda, algum destaque nos municípios com mais de 150 mil eleitores: nas grandes capitais eles estão longe de monopolizar as disputas na forma da polarização que se repetiu, vejamos só, nos últimos cinco pleitos presidenciais. No lugar dos dois partidos que deram as cartas da política brasileira nos últimos anos, uma miríade de partidos médios e nanicos (como PRB em São Paulo ou PSC em Curitiba) surge com possibilidades reais de eleger prefeitos nas capitais. Mas não é errado dizer que o PSB de Eduardo Campos, governador pernambucano e aliado do Lulismo,  rume para vitórias importantes saia do pleito fortalecido, inclusive com alianças com o PSDB (Curitiba, Belo Horizonte, Campinas etc) -- com um discurso gerencialista e pragmático, mas escapando ao elitismo que não à toa serve de rótulo ao PSDB, Campos fez seu partido nadar a braçadas, apostou alto e sua posição junto ao governo federal terá de ser renegociada para o alto, queira Dilma ou não, ainda mais depois do poder que ele passará a dispor no Nordeste, região fundamental para o PT no balanço de forças nacional.

Governadores bem avaliados -- como o próprio Campos, ou Sérgio Cabral no Rio -- caminham a passos largos para eleger correligionários seus nas capitais, mas isso não é regra geral e absoluta: governos razoavelmente estruturados como o de Tarso Genro (PT-RS) ou de Beto Richa (PSDB-PR) não parecem encontrar a mesma facilidade em disputas particularmente confusas. Existe uma fragmentação do eleitorado, uma dispersão radical num momento no qual quase todos os partidos são situação no plano federal, o que cria um impasse na disputa por vagas e espaços -- e deságua, afinal, nas disputas municipais.No estado de São Paulo, bunker tucano, os PSDB está longe da glória de outrora nas cidades acima de 400 mil habitantes. Se os tucanos conquistarão a petista Osasco, possivelmente em primeiro tuno, os petistas darão o troco, nos mesmos termos, em São José dos Campos, terra do desastre do Pinheirinho -- aliás, São José dos Campos que é a principal cidade do Vale do Paraíba, leste do estado, e reduto eleitoral do governador Geraldo Alckmin, que acabou, ainda, sendo suplantado em São Paulo capital com a entrada de Serra no jogo. 

Na capital paulista, de onde escrevemos afinal, a entrada no jogo do desconhecido Russomanno -- que cresceu muito, se manteve durante muito tempo e só está cando agora -- embaralhou o jogo por completo, resultando em um empate técnico entre ele próprio, José Serra e Fernando Haddad às portas da votação. Pela primeira vez desde 2004, a política paulistana voltou a ser dividida em um tripé entre a direita -- não liberal, alojada em uma estrutura partidária fraca e dispensável  e populista -- o centro, ou centro-direita, gerencial dos tucanos e a esquerda petista. Serra carrega o ônus de ser, afinal, o candidato de situação vindo na esteira de uma desgoverno como o de Kassab, mas tem seu eleitorado sólido que é precisamente aquele de classe média, refratário ao petismo e ao direitismo populista. Enquanto isso, a campanha de Haddad se viu obrigada a marchar em um terreno pantanoso, pois embora com experiência na administração pública ele é um estreante em eleições e teve de entrar em cena lutando contra a campanha midiática antipetista, o cancelamento de dois debates televisivos pelas duas principais redes de televisão -- Globo e Record, ambas apoiadoras de seus adversários -- e uma campanha rasteira da Igreja Universal e de políticos evangélicos que se usaram da estrutura, e de suas redes sobretudo na periferia, para eleger Russomanno. Não é fácil saber o que ocorrerá, mas a crise da cidade, solapada pela especulação imobiliária, extremamente poluída e com a vida cultural interdita e privatizada, apontariam para um governo difícil para Haddad, mas um aprofundamento da crise com Serra e, sobretudo, Russomanno. 

No Rio, a aliança PMDB-PT encabeçada por Eduardo Paes levará fácil, em primeiro turno, com Marcelo Freixo do PSOL em segundo, o motivo, para além de questões eleitorais, é simples: o Rio é, enquanto cidade, o laboratório do Lulismo, dos investimentos e do êxito de certas políticas, ainda que o PT local seja burocratizado e pouco operante -- salvo alguns setores --, o que importa é o PT nacional e o governo federal, o que produz uma aliança fortíssima dentro de um contexto de melhora das condições de vida -- isso esvazia a contestação de Freixo, em uma cidade cujo histórico de prefeitos não é bom, é difícil pensar trocar um governo associado com um bom momento da cidade, a redução da violência, que conseguiu ser sede das próximas Olimpíadas e, ainda, com trânsito pleno junto a um governo federal popular, ainda mais cidade. O PSOL sai, contudo, fortalecido do processo, ainda que para conseguir êxito precise se aliar com a classe sem nome que ascende, saindo do mitologema da "sociedade civil organizada". Em Minas, mesmo que se veja como positivo o rompimento da aliança de Pimentel com Aécio Neves em prol de Márcio Lacerda (PSB), é preciso que a candidatura de Patrus Ananias (PT) cresça a ponto de levar o pleito para o segundo turno, do contrário, vai ser uma derrota importante. O quadro de Porto Alegre, com um desenho em forma de geleia geral destinado a reeleger Jorge Fortunati (PDT) já explode da pior maneira. 

Os rumos do pós-mensalão, a crise mundial e a determinadas nuances da composição de forças que sai dessas eleições municipais -- São Paulo e o Nordeste são chave nessa história toda --, mas fica claro que apesar da sua popularidade, do aparente sucesso da intervenção de Dilma no plano macroeconômico -- mitigando os efeitos de uma crise mundial que se abate sobre o país desde 2008, agravando-se em 2011, mas cujas resposta dada este ano fez a economia se recuperar no presente trimestre -- sem um giro político politizante não estaremos tratando nem do risco de Dilma continuar no poder pelos próximos seis anos, supondo uma reeleição, de forma burocratizada, promovendo um termidor planejado (e, por isso, talvez igualmente mitigado) do Lulismo, mas sim do próprio termidor do Lulismo com impactos de reversão claros: se o Bolsa Família ou as políticas de distribuição de renda e emprego parecem um consenso, sem politização e com crise, isso pode desmanchar no ar. Enfim, é a política, e não a economia, a resposta.

P.S.: O Descurvo reitera novamente seu apoio a candidatura de Fernando Haddad (13) em São Paulo e a Gabriel Medina (13.321) em São Paulo, o primeiro por seu histórico e por ser a única candidatura aceitável na capital, o segundo por representar uma renovação importante no PT local.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Polícia Militar, o Motim e a Bahia

Exército já está nas ruas de Salvador (Lunae Parracho - Reuters)

A dita greve da Polícia Militar baiana tem ocupado uma posição de destaque na mídia tradicional. Como não poderia ser diferente, seja pela posição político-partidária dos jornalões ou mesmo pelo peso, no imaginário coletivo, da superstição do policialismo como garantia universal da segurança pública - e não nos interessa especular porque isso acontece, talvez apontar dados e desmontar esse argumento como fizemos há pouco, mas entender o porquê das pessoas desejarem que a polícia seja esse elemento essa cura para todos os males.

Sobre o caso baiano e suas implicações, Lucas Jerzy Portela, em seu o Último Baile dos Guermantes, foi bastante feliz em suas considerações - tanto sobre o caráter da dita greve, quanto no que toca à mistificação toda em torno da polícia e da segurança pública:

"Mais aquém, isso nos revela outras questões. Primeiro que se o efeito da ausência de policiamento é imaginário (mesmo havendo polícia, se crê que não há), o efeito do policiamento também o é: só não há saques e arrastões no dia a dia porque as pessoas acreditam que não podem haver, acreditam estarem protegidas. É uma mistificação, como a existência de um Deus transcendente (os imanentes me interessam). Segundo é o absurdo de haver uma polícia com poder militar sobre população civil durante democracia – um estado de exceção como miasma dentro do estado de direito. Alguém vai levantar o complexo de vira-lata: 'polícia única com baixo armamento dá certo na Inglaterra, que é país rico e equânime' – por um acaso México, Índia, África do Sul, se tornaram também países mais ricos e mais equânimes que o nosso? Desde quando ter mais violência traz menos violência, e mais discrepância de força internamente a relação sociedade-Estado gera mais distribuição de renda e riqueza?"
Se no caso dos bombeiros cariocas - que estão juridicamente equiparados a [policiais] militares, embora não o sejam realmente - havia, na prática, uma greve - bem justa, diga-se -, no caso dos policiais militares - que são realmente militares, embora não devesse haver polícia militar com poder sobre civis numa democracia - há, de fato, um motim. Uma chantagem, com pouca adesão da categoria, mas que se volta contra o governo e contra a sociedade juntos, causando efeitos reais em decorrência do poder imaginário que possuem (de poder estar em todos os lugares ao mesmo tempo, impedindo crimes).

Sim, Lucas tem razão ao colocar que aqui a polícia se põe contra a sociedade do mesmo modo que se põe contra ela, com o apoio do governo, em outras situações recentes - o que suscita algo terrível, que é a autonomia ideológica e prática da polícia (ou de parte dela) no plano político e sua disposição a agir dessa e daquela maneira, independentemente do plano de governo (podendo estar contra ou a favor daquele, independentemente do lado que ele se ponha em relação à sociedade). 

Porque no caso baiano nos deparamos com um fato: os policiais receberam reajustes nos últimos anos que os fazem ganhar relativamente bem, o que talvez explique a baixa adesão a essa greve em relação, por exemplo, ao levante massivo contra ACM - na figura de seu protegido, o ex-governador, César Borges -, apesar da relação histórica e ideologicamente próxima do ex-líder baiano com aquela corporação.

O que se esconde atrás dessa cortina de fumaça mistificadora, o desejo de que a polícia seja realmente uma entidade transcendente, presente em todos os lugares, sabedora de tudo e capaz de tudo, é o medo, a paixão triste à qual somos todos submetidos - em virtude disso, sentimos como em todos os lugares e momentos, a pior possibilidade necessariamente (ou tendencialmente) fosse acontecer em termos de violência direta contra nós mesmo. O quanto a polícia realmente evita crimes de forma direta? Tanto ou menos quanto ela mesma, abusando do seu poder, os comete.

Não que a abolição imediata e direta da polícia, sem criar nada no lugar das relações que sustentam sua existência, seja um caminho - no máximo, algo novo (e pior) faria sua função. É claro que os determinantes reais da violência não guardam relação com a simples existência da polícia, entretanto, no curto e médio prazo, o impacto psicológico de uma crise na polícia (ou de abolição) produziria uma crise social (e econômica) talvez insustentável. 

Mas é possível sim desconstruir as relações que estruturam essa indústria, desconectando parte dos seus dispositivos, quem sabe fazendo uma ampla reforma das polícias e tornando-as únicas, civis e cidadãs, enquanto implementam-se, no campo da produção biopolítica, medidas que desconstruam a política do medo (a tirania, ela mesma). Uma boa polícia, assim como um bom exército, é aquele que tem em vista trabalhar para ser desnecessário tão logo - ou quem sabe essa seja a diferença entre o guerreiro e o mercenário.

Em outras palavras, a polícia é um instrumento do Estado, em seu significado, embora não de um governo - sobretudo daqueles que de alguma forma busquem autonomizar a sociedade, em algum grau, em sua relação (haja vista o Golpe de 64).  Nesse sentido, a atuação do PSOL - e em especial do deputado Jean Wyllys, cuja atuação em defesa dos direitos civis é excelente, diga-se - toma um caráter temerário, pois ela alimenta uma ebulição contra a Ordem que não visa afronta-la, mas, no fim das contas, reforma-la no sentido de endurecê-la - tudo isso dentro de um caráter mistificador de qualquer movimento rebelde.

O policialismo - seja na USP, na Cracolândia, no Pinheirinho, no último show de Rita Lee ou nesse motim baiano - constitui-se em um verdadeiro perigo, pois é instrumento poderoso para o "reenquadramento" que os conservadores têm em mente quando se deparam com um Brasil ebulição, onde o desejo dos pobres foi autorizado - por políticas social-desenvolvimentistas -, mas, ao mesmo tempo, não se sabe o que fazer com ele - como é próprio do desenvolvimentismo e suas variadas formas. No caso baiano, Jaques Wagner tem razão e o apoio do governo federal é tão fundamental lá - por meio do envio de tropas federais - quanto é grave sua ausência no uso inadvertido da polícia em São Paulo. 



quinta-feira, 30 de junho de 2011

Bolsonaro e a Insustentável Leveza do Conselho de Ética

Ontem, por 10 votos a 7, o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados arquivou a representação do PSOL contra o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), na qual ele era acusado de quebra de decoro parlamentar por ofensas aos negros e homossexuais, além de ter ofendido a senadora psolista Marinor Brito. O PSOL optou por não recorrer, o que resulta em decisão terminativa. Os deputados que votaram pró-arquivamento alegaram que punir o deputado seria ferir seu direito  constitucional à livre expressão. Ruminemos e reflitamos: a Constituição estabelece uma ampla liberdade de expressão (e é bom que assim seja), mas ressalva limites claros, pois palavras também são atos e podem afetar negativamente a vida em sociedade. A própria imunidade parlamentar, garantia específica aos nossos legisladores, serve para que eles possam forçar o debate público ao seu limite quando decidem as linhas gerais do funcionamento do ordenamento jurídico, mas isso, caro leitor, não equivale a dizer que deputados são irresponsáveis pelo que dizem, do contrário, viveríamos em uma aristocracia eletiva (ou, pelo menos, em uma declarada), não em uma democracia. Aliás, a existência de imunidade parlamentar quanto às declarações dos deputados tem a contrapartida do decoro parlamentar, o que contrabalanceia a liberdade de opinião mais ampla de um parlamentar com a exigência de uma postura moral que não é demandada de um cidadão comum. 

A ficção jurídico-constitucional da liberdade de expressão, por sua vez, equivale a direito-meio, constitucionalmente estabelecido pelo poder constituinte e garantido pelo Estado, que serve como modo para o sujeito exprimir sua potência dos mais diversos modos e, assim, ser feliz. É claro que isso sempre enfrentará problemas práticos; o que fazer quando alguém, usando da liberdade que tem previamente garantida, atentar contra o outro? O fato é que a garantia da liberdade de expressão se caracteriza pela inexistência de censura prévia no debate público e, também que, no campo filosófico, ela reside no campo do exercício das faculdades construtivas, não das destrutivas; liberdade de expressão serve para amar o outro, não para destruí-lo - e é uma via de mão dupla, que precisa conceber a existência da multidão, não o um totalizante da unidade popular ou o um atomizante do indivíduo. Desse modo, estaríamos diante da selva e, lá, existe tão somente a lei do mais forte. 

No caso Bolsonaro, até as pedrinhas da rua sabem que ele se utiliza de uma leitura infantilóide e umbilical da liberdade de expressão para fazer seu jogo demagógico contra as minorias da vez. Assim, sentado no auto-falante midiático, que sua condição de deputado lhe concede, às custas da integridade de grupos inteiros, ele acerta os corações e mentes dos nichos eleitorais que garantem, de quatro em quatro anos, seu ganha-pão - e a tirania, como sabemos há muito, sobrevive à base do discurso supersticioso, no qual o tirano opõe os viventes contra eles mesmos pelo medo. Liberdade de expressão é, no plano do debate público, liberdade de crítica, não de incitação ao ódio ou liberdade de repressão a outrem. A postura desdenhosa de Bolsonaro, já não é de hoje, emporcalha uma Casa Legislativa cuja credibilidade é, infortunadamente, baixíssima junto à nossa sociedade. Aliás, como nos lembra o filósofo Vladimir Safatle, debater a cassação do referido deputado hoje por racismo e homofobia já é, por si só, uma extravagância, haja vista que há muito ele defende publicamente a tortura e nada foi feito.

É certo também que qualquer debate sobre o caso será sempre marcado por simetrias falsas, portanto, não se espante quando certos setores usarem o argumento de que se  a liberdade de expressão serviu para garantir a marcha da maconha, também serve para dar guarita aos pronunciamentos de Bolsonaro. É uma estratégia retórica bastante óbvia, na qual os discursos são reduzidos a qualquer coisa dita sobre qualquer um de qualquer forma, meras formas vazias equiparáveis entre si, como se o problema não fosse sempre a conotação. É como se a defesa da liberdade à manifestação de um grupo vinculasse o seu defensor a defender qualquer liberdade, seja usada ela para o que for - aí, a liberdade dos cidadãos se manifestarem publicamente para dispor de seus próprios corpos acaba nivelada a manifestações públicas de um deputado que se usa de preconceitos correntes para chamar a atenção para si. Evidentemente, neste caso como em tantos outros de cunho jurídico, o problema reside na questão da decisão final, fissura elementar do Estado de Direito: o que interessa mesmo é quem, como e por que decide, aí está o nó górdio. Seja como for, a decisão de ontem do Conselho de Ética só colabora para a manutenção do debate desqualificado na Câmara, cujas sessões pouco a pouco se convertem definitivamente em um verdadeiro show de horrores.


quarta-feira, 9 de março de 2011

Uma Esquerda para o Aqui-Agora

Retrato de um Sans-Culotte - Boilly
Pois, afinal de contas, não existe Amanhã. Sim, este post é uma pequena provocação ao nosso querido Murilo Corrêa, mais precisamente em relação ao seu Uma Esquerda para Depois de Amanhã- cujo tema, por certo, será recorrente nos anos Dilma. Sim, os anos Lula embaralharam a tradicional disposição dos espectros políticos no Brasil: Se por um lado, ele pôs em prática a maior política de inclusão da história deste país, por outro, ele o fez debaixo de uma retórica que, desde 2002, puxava o debate para o centro - e, cedo ou tarde, puxaria a prática também. A candidatura Dilma foi a expressão clara desse processo, bastava olhar para a própria espinha dorsal de sua própria campanha: Apresentar-se como a administradora do projeto de transformações iniciado em 2003, não como uma proposta assumidamente política da continuidade - embora deixasse no ar certa essência de politicidade, algo completamente ausente nas campanhas tucanas há muito tempo.

Nesse sentido, a reflexão de Murilo sobre a importância dos movimentos de Gilberto Kassab é perfeitamente válida: Como diabos pode ser sequer cogitado que o direitista prefeito paulistano irá criar "um novo partido de esquerda"? Ou mesmo, acrescentamos, como poderia estar se discutindo a ida de Kassab para o PSB, um partido histórico de esquerda brasileira? Cá da nossa parte, entendemos isso como um processo complexo, que envolve desde as peculiaridades brasileiras - a caminhada para o centro provocada pelo Lulismo, algo deflagrado agora, mas que nunca deixou de ser horizonte próximo de um país onde o cordialismo sempre imperou -, mas também da marcha de um fenômeno global, no qual a democracia representativa produz um descolamento das forças políticas organizadas do próprio solo social do qual são originárias - e no grande mundo da política, longe dos olhares e gritos plebeus, o Consenso se torna uma saída cômoda. Existe também, claro, a própria problemática da esquerda mundial.

Sem fazer um resgate histórico do que se passa, a redução da política nacional a esse caldo consensual pode ser até mesmo tomada como algo bom. O grande ponto é: Por que esquerda? Ou melhor, por que, algum dia, falou-se em esquerda? Como retomam Deleuze e Guattari no Anti-Édipo ao falarem sobre Plekhanov - o patriarca do marxismo russo -, a própria luta de classes é criação da Escola Histórica Francesa como forma de exaltar o papel da classe burguesa na Revolução. Isso que se chama de direitismo, portanto,  nasce do intento hegemônico burguês, uma forma de fazer uma particularidade da Revolução (a participação burguesa no processo de derrubada da aristrocracia) tornar-se seu universal (a participação burguesa, da maioria, do homem branco proprietário de terras e fábricas, ser a causa do processo, a despeito da atuação dos sans-culottes, mulheres e outras minorias). A esquerda não nasceu como o outro lado da moeda da direita, mas sim como a busca pelo reconhecimento de uma pluralidade alijada em prol de uma particularidade, cujo fim é a garantia da vida para todos.

Todas as vezes nas quais a esquerda colocou-se - seja pela afirmação ou pela negação - como o mero outro lado da moeda em relação à direita, algo de ruim aconteceu. A afirmação do binarismo produz o antagonismo paranoico, capaz unicamente de fazer a esquerda produzir uma saída semelhante ao que confrontamos, só que às avessas - e a União Soviética, o leviatã caiado de vermelho, foi um belo exemplo disso. Quando esse binarismo é reconhecido porém negado, reduz-se à política ao Consenso, uma anestesia geral no debate que veda indeterminadamente o questionamento da vida social - capitula-se, portanto, ao império do Normal. Não seria errado dizer que no momento atual, o PT aproxima-se perigosamente de se converter total e completamente à religião do Consenso, ao passo que a única força relevante assumidamente de esquerda, o PSOL, apenas afirma tal antagonismo binarista pela negação. Em outras palavras, sim, existe um esgotamento da esquerda no nosso país, pois a própria intelligentsia canhestra não consegue se livrar de categorias essencialmente binaristas.

A saída é descobrir o Novo - e o Novo só se descobre no Aqui-Agora, posto que o Ontem já não é mais e o Amanhã jamais é; vou mais longe, é necessário o reconhecimento do caráter multitudinário da Vida e o confronto aos objetos parciais e aos reducionismos. Hoje, mais do que nunca, a atuação livre no solo social abandonado pelas forças políticas - quase que isoladas na torre de cristal do Planalto - é central. Esse debate, reitero, só está começando.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A Esquerda e o Tempo



Recapitulemos
. Quem tem seus sessenta anos, hoje, recorda sua juventude dura sob o anos de chumbo. Quem tem seus cinquenta, lembra da distensão e da abertura lentas - quase inalcançáveis -, talvez uma fagulha de liberdade no horizonte expresso na beleza das Diretas que logo se desmanchou no ar. Quem tem seus quarenta anos assistiu a dureza que foram os anos Collor, quando todo o esforço por democratizar este país - que milagrosamente deu em algo como a Constituição de 88 - viu-se estatelar-se na parede após uma eleição direta que elegeu um fantasma do meio-dia, títere entre títeres, destinado a ser o instrumento - com a face simpática que os tempos novos exigiam - do grupo abjeto que governava esse país pelo menos desde 64. Quem tem seus trinta, lembra-se do que foi entrar na fase adulta em uma época na qual a exploração dava lugar à pura e simples exclusão em um país que se desmanchava. Quem tem seus vinte, como eu, está a viver em um momentos duros do início do Governo Lula, nos quais, a realidade se impunha de maneira dura frente ao recém-eleito governo democrático e popular, forçando-o a tomar atitudes duras, que ora eram é o remédio amargo que a situação demandava e ora eram o mero exercício de surrealismo político de estrategistas que passaram tempo demais em seus ideais.

A minha geração é a primeira na história deste país que assiste ao choque do que seria a tentativa de implementar um governo de esquerda. O impacto desse choque, já sentido na Europa e mesmo em alguns lugares da América Latina há tempos atrás, é o de experimentar o real e sua violência avassaladora no campo da Política. Não falamos mais do que poderia ser, mas do imediato do que pode ser. É ver as forças do poder instituído, que não são neutras - como pouca coisa é, aliás -, interferindo com todas as suas forças sobre o projeto que precisa ser consolidado, ora roubando-lhe as forças, ora o conduzindo para direções intoleráveis. A juventude do PT enquanto partido e, sobretudo, a ética idealista, de fundo católico progressista, que o envolvia tornou o processo particularmente mais duro - assim como a ansiedade por séculos de demandas não realizadas em decorrência de um sem número de movimentos transformadores derrotados. A história da reivindicação social no Brasil, é uma história de derrotas, gloriosas, mas ainda assim derrotas.


É verdade que o Brasil não está tão bom quanto poderia, mas também é verdade que ele nunca esteve tão bem quanto neste momento. O crescimento econômico, a distribuição de renda, os empregos, uma política externa que não se perde na vergonha da submissão nem nos desvarios do nacionalismo e, sobretudo, a quebra de certos dogmas sobre os quais se assentavam o modo de vida insustentável e excludente que alguns impunham como a miserável mão única são conquistas inegáveis - não diria, infelizmente, indeléveis, posto que as cortinas de fumaça da ideologia são capazes de tudo. Os ajustes finos, isto é, a consolidação dos direitos civis, a regulamentação da mídia - que está na Constituição de 88 por regulamentar -, a construção de uma doutrina firme que assegure a laicidade do Estado e até mesmo ajustes grossos como a questão da política agrária - em relação a qual a questão ecológica é imperativa neste momento - não foram mesmo feitos. O Governo do PT, seu aparente fracasso de início e seu renascimento como Fênix na forma de um nunca antes visto social-desenvolvimentismo, ainda que os ajustes dos quais pode se esquivar, não sejam mais possíveis - se é que em algum momento, foram. É uma história curiosa e bonita.


No ínterim entre esse movimento no interior do PT - e por causa dele - surge o PSOL, Partido Socialismo e Liberdade, que teve uma importância muito grande na minha vida, embora nunca tenha militado nele. Ele nasce no período da minha entrada na vida adulta e teve para mim - assim como provavelmente para toda uma geração de jovens esquerdistas que amadureciam sob o impacto do início do Governo Lula - um significado muito forte. Unir Socialismo e Liberdade, esses dois gêmeos siameses que a História - e o Poder - insistiu em separar impedindo que nem um, nem o outro se concretizassem, ser um modelo que superasse o sectarismo dos pequenos partidos da esquerda - "revolucionária" - que não dialogavam com os setores reais da sociedade e, ao mesmo tempo, não cair nos descaminhos do projeto petista frente ao poder hegemônico e, sobretudo, gritar - isso mesmo, fazer catarse - contra o estado de coisas da política nacional que parecia inamovível - o eterno entulho autoritário. 


A roda da História, entretanto, não pára e tampouco não deixa de nos pregar peças; Heloísa Helena, de uma Olympia de Gouges extemporânea - fiel a uma Revolução que não foi fiel a si mesma - torna-se apenas mais um dos ecos desconexos da cacofonia reinante naquele partido. De repente, a crítica à esquerda do caminho seguido pelo PT tornou-se uma obsessão em relação à figura pessoal de Lula, ao passo em que se mantinha inerte a direita que se reorganizava, seja na sua versão liberal-burguesa ou na sua versão popular, orgânica e obscurantista - esta sim, muito mais do que primeira, debaixo do nariz de Lula, o que passou desapercebido -, o que estranhamente conflui na candidatura do senhor Serra. Toda essa confusão, por óbvio, acabou por afastar-me dele. O PSOL repete os erros que surgiu para combater e nem mesmo a candidatura de Plínio de Arruda Sampaio, respeitável ancião e guerreiro da esquerda, muda essa trajetória. O PT prossegue como o partido de massas, o único partido a se pôr à esquerda do centro em nossa história a ter apelo popular, com ampla votação nas periferias. O projeto petista, cujo implementação produziu uma transformação real - e longe de ser pequena - nos últimos anos ainda segue como o mais efetivo nesse campo.


A despeito de toda confrontação, dissonâncias e a violência fratricida comum à esquerda - não apenas entre seus vários grupos, mas acima de tudo dentro deles mesmos. - não pode dar lugar, mais ainda, ao desprezo pelas nuvens negras que trovejam no horizonte. Os erros que conduziram a uma eleição discutida nesses termos - entre o continuísmo e o retrocesso - não podem ser repetidos e a esquerda não pode repetir o erro de se unir apenas na desdita, seja por ignorar os aspectos positivos desse momento ou por subestimar o que se avizinha. Um convite ao real não equivale a aceitar sucumbir à pasmaceira conservadora, mas um chamado a compreender os obstáculos - bem como as possibilidades - concretas do que está posto para não terminarmos numa bifurcação cujas saídas possíveis são apenas o Sonho ou, aí sim, a conversão definitiva ao estabelecido. E do surrealismo, só aceitemos a paranoia crítica.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O Pós-Debate

Sim, chamar o debate de ontem de morno, é elogio - não que eu teça loas à oratória ou à retórica, embora também não as despreze de um todo nem deixe de considerar que o buraco é mais embaixo: Não se debatem ideias e quando alguém se arrisca, faz isso errado. Dilma fez o seu papel, jogou com prudência numa eleição na qual só perderia caso se comprometesse, embora pudesse avançar mais, mesmo discursivamente à luz do atual projeto. Serra foi inexpressivo e terá dificuldades para ter mais do que 25% dos votos válidos - quando eu pensava que seu piso era de pelo menos uns 30%. Marina, que foi mal na Band, bem no UOL-TUCA e na Canção Nova, ontem foi novamente mal - e sua campanha prossegue modorrenta. Plínio poderia pautar o debate à esquerda, mas insiste em debater por um prisma idealista - quem não quer uma educação pública de qualidade? Mas daí a esvaziar isso propondo um acordo público que iria destinar 10% do PIB para educação é ilusório; não administramos bem nem o que gastamos, por que propor uma realocação gigantesca que ele mesmo sabe que não é possível dadas as atuais condições objetivas? Há quem veja isso como pautar de forma radical uma eleição morna e conservadora, eu vejo como desperdício de uma oportunidade de ouro de provar que não é só possível - como também é necessário - pautar uma agenda realista que aprofunde mais - e mais rápido - as mudanças neste país - claro que para tanto é necessário sair do casulo e aceitar que os avanços do Brasil nos últimos oito anos não são fruto de um bem executado discurso petista. Sem querer fazer analogias com o nobre esporte bretão - mas já fazendo, porque aqui isso cabe -, é o mesmo que jogar pra torcida, dando bons dribles para o lado e fazendo embaixadinhas no meio de campo. O Partido dos Trabalhadores segue, quase incólume, sua trajetória de solidão na esquerda democrática (a de verdade) - e a julgar pelos dados, ele chegará a um controle gigantesco das instituições no que se seguirá ao 03 de Outubro. 


Grandes avaliações surgem. A de Mino Carta, de quem não raro discordo, é precisa: Querem transformar Serra no bode-expiatório da derrota. É uma bela - porém terrivelmente disfuncional - forma de racionalizar a porrada eleitoral que o PSDB está por tomar, tamanha que o partido corre sérios riscos de ter de repensar - bem, já era hora - sua própria função nessa maravilha chamada sistema político-partidário nacional - e não há como pensar no real tamanho do estrago que se anuncia no horizonte dos caminhos que o PSDB escolheu trilhar sem ler essa baita análise da Maria Inês Nassif - texto maravilhoso, lucidez impressionante - no Valor. Aliás, falando na Valor, agora lendo o blog do nosso João Villaverde, topei com um belo texto sobre a questão da segurança pública em São Paulo, o que na verdade caminha numa zona cinzenta que o texto da Maria Inês deixa, não por equívoco, mas porque ela deixa essa questão em aberto: O PSDB ainda continua cotado nas eleições estaduais de São Paulo (o que, claro, não muda seu processo enfraquecimento, até porque Dilma está para ganhar aqui), mas o que se esconderia por detrás desse fenômeno? É mais ou menos aquilo que nós temos debatido por aqui já há algum tempo, São Paulo é o estado mais rico e populoso da Federação, embora tenha sido a sede da fundação do PT, é daqui que a direita nacional - ou com força nacional - se organiza,  portanto, discutir suas contradições, como a própria questão da criminalidade  - e de como as pessoas se relacionam com ela - é um fio interessante para desmantelar um novelo que diz respeito a todo Brasil.


É hora de nos mantermos atentos, um novo Brasil está surgindo e mais do que nunca é necessário analisa-lo. Não é mais questão de pensar se Dilma continuará o que Lula fez - o que é, na verdade, o grande debate dessa eleição, aliás -, mas de saber que nem mesmo se Lula pudesse continuar no cargo, ele poderia continuar fazendo o que fez; as demandas que se anunciam são outras, é hora do ajuste fino e para isso é necessário entender mais do que nunca o país; por ora, muito embora o PT tenha uma esfera de cognição econômica e social pequena - como a maioria dos partidos pelo mundo -, ela é enormemente maior do que a de seus adversários. 


P.S.: Aliás, para quem quiser ler um belo texto sobre a intersecção mídia-política, vá até ao blog da Flávia Cera, não deixe de ler "Sobre o 'Espião de Dilma'", seguramente, é um dos melhores textos escrito nos últimos dias na blogosfera.





sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O Debate entre os Candidatos a Governador de São Paulo

(William Volcov - AE)

Ontem, a TV Bandeirantes promoveu uma rodada de debates eleitorais em 14 estados - e no Distrito Federal. Eu acompanhei o debate paulista, mediado pelo glorioso Boris Casoy. O NPTO, numa iniciativa muito legal, usou o Cover It Live para fazer um chat, colhendo as impressões dos seus comentaristas Brasil adentro - e eu comentei um pouco lá além de ter deixado algumas ideias no Tweeter também. Pois bem, cá, em terras bandeirantes - e de jesuítas bem-intencionados também - participaram do debate o candidato tucano Geraldo Alckmin, o senador petista Aloíso Mercadante, o agora socialista brasileiro - além de líder empresarial nas horas vagas - Paulo Skaf, o deputado Celso Russomano - cândido herdeiro do malufismo ou do que restou dele -, o verde Fábio Feldman e o psolista Paulo Búfalo.


O debate, em termos de conteúdo foi, se muito, médio, mas creio que não deve ter destoado muito do nível dos outros debates realizados simultaneamente - principalmente pelo que ouvi a respeito dos demais. Formalmente, isto é, em termos de confronto de ideias mesmo, eu não gostei do início, mas do meio para o final ele foi bom - no fim das contas, ele foi bem melhor do que o debate entre os presidenciáveis. De um lado, tínhamos Alckmin defendendo o projeto do PSDB/DEM que já dura 15 anos no poder em São Paulo - seu argumento central foi o de que não devemos mudar porque está tudo bem -, Mercadante, por outro lado, foi bastante incisivo nas críticas se colocando como alternativa de oposição, Celso Russomano se colocou ao centro atacando preferencialmente Alckmin, Fábio Feldmann gastou seu tempo fazendo divagações confusas, Paulo Búfalo tentou se colocar como alternativa à política tradicional e Paulo Skaf se colocou como o candidato da direita que cortava para o centro - parecia até um democrata-cristão europeu dos anos 80 tardios.


De todos os participantes, Mercadante e Skaf - que não dividiram bolas entre si - foram os candidatos que se saíram realmente bem do confronto; ambos pontuaram de forma firme e clara suas agendas e fizeram boas críticas ao projeto do PSDB, cada um do seu lado do espectro político, apelando, no entanto, para um eleitor insatisfeito; Alckmin foi surpreendentemente bem ao expôr a defesa do projeto - ele esteve consideravelmente melhor este ano do que há quatro anos, nos debates para a Presidência -, mas não foi propositivo e teve dificuldades quando foi questionado pelos rivais - sobretudo, porque não resta a menor dúvida que o projeto que defende tem inegáveis falhas; Paulo Búfalo foi bem, esteve firme e surpreendeu para quem é um novato na disputa de majoritárias, colocando-se como alternativa mais à esquerda, ainda que, em termos de conteúdo, se perca bastante ao propôr uma agenda ambiciosa sem apresentar meios claros e concretos para a sua execução; Celso Russomano, odeie ele ou não, tem experiência em televisão e saiu-se bem como já era esperado, pondo-se como um perfeito centrista anti-tucano até o momento em que soltou a franga e elogiou Maluf; de todos os candidatos, aquele que se saiu pior foi o verde Fábio Feldmann que falava besteiras como propor ciclovias para resolver problemas de transporte - não, isso não é uma forma séria de pautar uma questão tão central quanto o ambientalismo.


O debate, como sempre, acaba tendo uma influência apenas razoável sobre o andamento da campanha. O famigerado horário eleitoral gratuito tem um peso enorme assim como a questão do corpo-a-corpo dos cabos eleitorais e/ou da militância - nesse segundo quesito, os petistas estão se saindo particularmente bem. Ainda que Alckmin leve alguma vantagem, o debate de ontem prova que não tem nada tão decidido quanto parece; as falhas do longo governo tucano são várias e o telhado é de vidro mesmo. Mercadante está pautando de forma equilibrada sua agenda e pode crescer; Skaf está vivendo uma grande aventura político-partidária assim como Antônio Ermírio de Moraes o fez nos anos 80 - com mais qualidade programática, é verdade -, se ele fala bem, por outro lado, falta programa, mesmo um projeto que às vezes é sim bem idealista como o do PSOL de Paulo Búfalo é juridicamente mais executável do que o seu - dizer que pode pensar na cobrança de mensalidades na USP é uma falácia, pois isso é flagrantemente inconstitucional - ou criticar o preço dos pedágios sem propor, ao menos, a renegociação de contratos - tratando o pacta sunt servanda como princípio absoluto e esquecendo-se que não se tratam de contratos entre particulares, nos quais um pequeno elemento chamado interesse público pesa mais ainda - são erros crassos, sobretudo, de conhecimento de causa. Búfalo saiu-se bem na medida das limitações de seu projeto e de sua inexperiência, pode marcar pontos sim na eleição, ainda que não consiga se mostrar como alternativa à esquerda do PT - e sim muito mais uma oposição dentro da esquerda de todo um grande espectros de consensos. Russomano ganhará votos com sua habilidade televisiva, mas nada espetacular. Fábio Feldmann é café com leite.


Seja como for, o debate de ontem só reforça mais ainda duas ideias que eu alimento há um tempo: A primeira diz respeito à maneira como o grande capital bandeirante atua de forma descoordenada - a ideia de locomotiva do país ainda perpassa o imaginário dele e de seus candidatos, como nos lembrou Alckmin - do grande capital brasileiro, o que enfraquece sim um projeto legitimamente de direita para o país, a segunda é que as coisas estão mais voláteis do que parecem nessa eleição em específico - ela está me lembrando muito mais 2002 do que 2006, o que é bom para Mercadante - aliás, o mimimi dos jornalões de hoje foi um belo exemplo disso, com a Folha destacando a liderança de Alckmin e como ele foi "alvo único" no debate, colocando-o de vítima para aliviar a sova que tomou em tópicos centrais como educação, saúde, transporte e segurança. Por aqui, seguimos de olho no processo.