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quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Bolsonaro e o Discurso do Rei

Aroeira

Um homem só é rei porque os seus súditos se comportam perante ele como um rei -- Slavoj Zizek


A liderança de Bolsonaro causa choque e temor. Mas não só em seus antagonistas. Os seus próprios eleitores querem isso, sentem isso, pedem isso, mas no lado oposto, voto de protesto e fúria, sem razão e contra ela. Na segunda-feira, dia trinta de julho, ele, o líder nas pesquisas eleitorais nas quais não constam o nome de Lula, foi ao Roda Viva da TV Cultura repetindo uma série de barbaridades como de costume -- da defesa da ditadura e da tortura, passando pela negação do racismo, até chegar culpabilização da higiene das mulheres pela mortalidade infantil (!).

Desta vez, contudo, Bolsonaro falou com mais autoridade do que costume para uma bancada passiva, fria, pouco ágil -- a qual no máximo esboçava algum absurdismo. Muitos apontaram a fragilidade dos entrevistadores. No entanto, a bem da verdade, o Roda Viva que acossou Manuela D'Ávila, foi antipática com Boulos, morna com Ciro e doce com  Marina e, sobretudo, com Alckmin é aquela que, se utilizando de um discurso liberal, permitiu Bolsonaro falar à vontade. Todos os Roda Vivas com os (pré) candidatos constituem uma série coerente entre si.  

A série que buscava inquirir os presidenciáveis brasileiros era, na ideologia e nos discurso, um uníssono que vê a esquerda como ameaça, renega normalizando a extrema-direita e aponta a direita do establishment como solução -- e a introdução da extrema-direita no debate serve tanto para colocar o bode na sala para se amenizar a direita tradicional como, ainda, para capturar o sentimento de indignação e catalisa-lo para um ponto inofensivo ao sistema, bem longe da esquerda -- ou pior: de uma esquerda extra-partidária.

A esquerda liberal -- se é que se pode dizer isso --, perdida na defesa da "liberdade de expressão de Bolsonaro", e a direita liberal, disposta a tudo para neutralizar qualquer esquerda, inclusive naturalizar a fala de um candidato de extrema-direita, de certa maneira se unem numa mesma estratégia impotente, cuja ação, direta e colateralmente, nos conduz, aqui no Brasil como em boa parte do mundo, ao avanço e a volta de variadas formas de extremas-direitas.

O projeto liberal de direita que comanda o país, contudo, produziu a própria sobrevida de Bolsonaro: até a intervenção militar do Rio, a bolha de intenção de votos dele parecia ruir, indo para baixo dos 15%, mas depois dela, ele volta ao patamar dos 20%, ensaiando uma nova queda. Por sinal, a mesmíssima intervenção militar perante a qual Bolsonaro se diz contra, defendendo medidas de violência mais radicais, o que lhe faz se favorecer do clima de populismo punitivo sem se comprometer com os resultados da -- fracassada -- intervenção de Temer.

Bolsonaro que, por seu turno, é enfrentado por essa mesma esquerda liberal que lhe dá legitimidade de fala apenas no aspecto cultural e comportamental, o que em si é justamente o que o candidato quer. Ora, para além do fato se Bolsonaro deva ou não ser ouvido, não resta dúvidas de que seria absurdo alguém convidar o Maníaco do Parque para dar entrevistas na condição de patinador -- embora ele o  tenha sido de fato, mas a operação ideológica que ocorre com Bolsonaro, no entanto, impede que nós o vejamos dessa forma. 

Como então ouvir, e deixar falar, Bolsonaro defendendo crimes contra a humanidade explicitamente, em rede nacional, numa televisão pública e educativa?

Não, Bolsonaro não oferece nenhuma resposta estrutural a nenhum problema sério do Brasil, mas catalisa na forma de violência, e de violência contra os mais fracos, os pobres, oprimidos, a indignação contra o sistema -- mas a violência de Bolsonaro é inofensiva ao Poder, à oligarquia nacional. Bolsonaro é, portanto, o freio de mão do sistema, ele não é o establishment, mas é também manobrado por ele. Tudo isso causa um bojo de normalização da sua presença no debate público.

Tampouco é o discurso liberal, ou uma vertente de esquerda sua, que irá derrotar Bolsonaro. Nem o liberalismo de direita, que critica greves e insatisfações, nem um liberalismo de esquerda que não ofende as estruturas econômicas ou institucionais de como se exerce o poder, repetindo um politicamente correto inócuo. 

As chances do ex-capitão do exército vencer realmente ainda são distantes, mas sua presença no segundo turno vai se tornando uma possibilidade cada vez mais crível, uma vez que nem o discurso ou a prática do establishment têm a capacidade de neutralizá-lo -- sua impotência é mais um problema interno de sua organização, não mérito de seus adversários --- e do outro lado tem interesse em mantê-lo no páreo, devido suas disputas interiores.

Sobre o último ponto, Bolsonaro é o bode na sala que normaliza Alckimin e, ao mesmo tempo, capta uma indignação que organizada seria revolucionária. Do outro, Bolsonaro é alguém que fustiga e a priori tira votos de Alckmin. Nesse jogo entre a direita e à esquerda do sistema, Bolsonaro é uma bomba prestes a explodir e que os concorrentes ficam jogando um para o outro, como num desenho animado -- e pode ser que exploda ambos.

Enfim, Bolsonaro é uma peça fraca no jogo, justamente por isso está onde está, mas as forças que o alavancam não são ocasionais. Assim, os riscos dessa tremenda, e subestimada, armadilha em que estamos caindo são enormes.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Tudo que é Bolsonaro Desmacha no Ar?

Outdoor simpático a Bsolnaro pichado em Lavras-MG (retriado daqui)



Bolsonaro. O que dizer disso? Vivemos em tempos distópicos no mundo, e o Brasil não é uma ilha. A implosão da ordem normal das coisas cria uma vertigem, um efeito pelo qual o chão se desfaz, abalando nossas mais elementares crenças na realidade. Essa realidade, esse regime de símbolos que supúnhamos ser sólido como o chão sob os nossos pés, sempre foi isso: um dos muito sistemas, ou modos do sistema, possíveis, mas nem por isso a sensação deixa de ser menos nauseante, pois nem mesmo a consciência dessa abstração nos livra dos efeitos materiais e concretos desse processo. Tudo que é sólido desmancha no ar. E como desmancha. 

A distopia vem quando esse rompimento não cria nem a liberdade nem um novo simulacro, uma nova matrix, dando vazão à incerteza e a emergência de seres apocalípticos. Jair Messias Bolsonaro expressa bem isso: para uns ele é o messias retornado e necessário enquanto juiz, ou possível, para outros ele é o anticristo -- duas fantasias apocalípticas recorrentes e, também, simétricas, que ilustram o esforço trascendente do velho mundo em encarar seu limiar, seu desmanche.

O que Marx e Engels inovaram, captando a fina ironia de um outro grande dialético, Shakespeare, sobre a insustentável leveza dos planos de representação é que o capitalismo, como qualquer sistema despótico, não só constrói seu planos ideológico e simbólico de realidade pela destruição do antigo como, igualmente, destrói o que cria progressivamente e como regra, instituindo novos planos e novos modos de planos. 

A novidade capitalista é que seu funcionamento, e sua sobrevivência, gira em torno de uma norma na qual a excepcionalidade da ruptura se torna regra geral -- não à toa, o pensamento nazista girou em torno do aperfeiçoamento da destruição por meio de sua domesticação, da sua sujeição à praxe e à política de governo, de como fazer comandar racionalmente a destruição. Bolsonaro é esse ser que emerge -- no mundo que o novo não nasceu e o velho se encontra às turras com à sua morte, para recorrer à imagem clássica de Gramsci.

Mas as rupturas necessárias, são, ao mesmo tempo, brechas, mesmo na sua hipótese apocalíptica de distopia e crise profunda. Estamos em um desses momentos no Brasil. O vento é forte e a tempestade no horizonte se anuncia com nuvens escuras e densas. O sistema se esforça para uma recomposição de normalidade, um novo simulacro, que pode se utilizar da pulsão de morte, e suicídio, e precisa se esquivar das pulsões de vida. O risco sempre está presente.

A capacidade romper consigo mesmo, trair às suas criações sempre foi o mistério e a feitiçaria que permitiu ao capitalismo sobreviver, mas sempre foi a maldição que não o faz viver jamais em paz. Nenhum operador seu está seguro na sua tarefa: o perigo que ameaçava o senhor feudal ou os aristocratas do mundo antigo eram exteriores ao sistema que operavam.

Bolsonaro, como a maioria dos deputados brasileiros, atende ao modelo de cidadão do sistema moribundo, mas é quem mais violentamento o defende: é branco, homem, cisgênero, heterossexual, bem-sucedido. Essa constituição do discurso, e de imaginário, evidentemente é uma expressão tardia e sólida do velho fascismo, que apenas sistematizou chavões, superstições e distúrbios psicossociais da Europa do século 19º. 

Em um primeiro lugar, Bolsonaro é visto paradoxalmente como alguém de fora da política tradicional e, por outro lado, como alguém próximo da nossa realidade social e de um desejo de restauração e conservação como forma de resistir ao estado de coisas atual -- seu discurso é bastante impressionante, em termos de agressividade, para um político, mas não para as pessoas, as pessoas sempre têm um tio, um pai ou um avô como ele. 

No mais,  a onda de renascimento de um extrema-direita, por conseguinte, não é estranha a essas terras. Do mesmo modo que o fato da extrema-direita ter ficado hibernando, mas não morta, desde o final da Segunda Guerra Mundial também não nos é alheio. Bolsonaro é o símbolo desse ressurgimento no Brasil, para quem o ama, para quem o odeia.

Bolsonaro, no entanto, vem de um tipo de direita radical que, por seu turno, não vingou exatamente pelo mundo. O atual revival da direita fundamentalista passa, também, por um pós-fascismo pelo qual lideranças incorporam uma estética pós-moderna conjugada com uma agenda semelhante a do velho fascismo; Bolsonaro, contudo, é um fio desencapado do neoliberalismo: se Pinochet foi o precursor disso, como "mal necessário" desse projeto, Bolsonaro é uma reprodução tardia, que aconteceu quando já estava velho.

A nova direita constitui seu imaginário sendo estaticamente (pós)moderna e politicamente retrô: voltamos aos anos 1920, na qual a resposta para o presente está num passado ideal e seguro, o que exige  uma aliança contra minorias sociais, mas com um sistema de proteção social para as maiorias agrupadas na forma de nação -- é assim com Marine Le Pen e, também, com Trump, o Alternativa para a Alemanha ou o Partido Independentista Britânico.

Bolsonaro, torno a dizer, no fundo não têm isso a oferecer aos seus eleitores, talvez os mais crentes e engajados. Bolsonaro é o fundamentalismo de mercado associado ao Estado grande enquanto máquina de repressão, aprisionamento e morte. As dúvidas quanto isso giram em torno muito mais do que Bolsonaro poderia ser obrigado a se tornar em um governo do que, vejamos só, o que ele seja hoje.

As três gerações de extrema-direita expressam, contudo, um mesmo desespero das oligarquias dominantes em sistema capitalistas. No frigir dos ovos, o que as une é a percepção das elites econômicas proprietárias capitalistas perderem o controle -- ou até mesmo terem um fim trágico, que elas supõem que as pessoas lhes dariam caso soubessem como o sistema funciona.  O efeito geral da extrema-direita sobre a sociedade é de um suicídio coletivo como bem observam Deleuze e Guattari, começado pela prática de morte -- é como se o interesse em matar, e não só deixar morrer, para sobreviver escondesse um desejo suicida.

Bolsonaro, entretanto, passou a sofrer ataques pesados da grande mídia. Por sinal, ele está sofrendo ataques como nunca. Denúncias de corrupção passaram a explodir depois que o deputado, finalmente, conseguiu partido para poder se candidatar. Até então, Bolsonaro era uma figura execrada porém tolerada. 

A questão central é que a realização do fenômeno global do renascimento da extrema-direita no Brasil, ironicamente, vem acompanhada de um cruel paradoxo. Enquanto na Europa, o fenômeno se conecta à massa de trabalhadores da etnia majoritária, mas gradualmente excluídos do status que passaram a ter no século 20º pela decadência dos mecanismos do bem-estar social -- seja o salário ou os serviços públicos --, no Brasil, o fenômeno da extrema-direita é um fenômeno da elite ou, ao menos, da clientela da elite, dos estratos médios.

A contiguidade do desespero de uma parcela da elite e o elemento racial, mas também de gênero são comuns, mas no aspecto do substrato de classe, as pesquisas brasileiras surpreendem: é entre jovens e mais altamente escolarizados que Bolsonaro encontra seus eleitores. São as classes médias urbanas do sul que apoiam o radicalismo de direita, não trabalhadores pobres -- nem que fossem os trabalhadores pobres e brancos.

Em termos eleitorais, enquanto na Europa são setores que antes poderiam votar nos partidos à esquerda do centro que rumam para a extrema-direita, no Brasil, são eleitores que tenderiam a votar na centro-direita ou mesmo na direita clássica que cogitam em votar em Bolsonaro. 

Nos EUA, digamos que o sistema praticamente bipartidário tenha ajudado a Trump crescer tomando espaço de políticos tradicionais de direita, mas os países europeus, multipartidários por natureza, tivessem um sistema como o americano, possivelmente, o mesmo teria acontecido por lá.

Seja na Alemanha, na França ou nos EUA, o eleitor da extrema-direita é da etnia majoritária, mas pertence aos setores excluídos da educação superior e acertado em cheio pela dinâmica de precarização econômica. Aqui não. É o branco que quase chegou lá se aliando com setores radicais da oligarquia e com o estamento militar, pronto a conservar seus privilégios.

A aliança, aqui, é entre a parte mais desesperada da oligarquia e setores médios, seja pelas peculiaridades do Brasil -- como a existência prologanda e massiva de uma escravidão colonial afetou a composição de classe -- ou, talvez, porque a possibilidade de adesão a esse discurso de extremista encontre repouso entre setores que sintam, por alguma razão, que estão a perder seu status social -- e se isso, no Brasil, vem de setores que não são os mais afetados pela crise ou pela pobreza do país, logo, voltamos à primeira questão: somos uma nação fragmentada pela herança colonial e escravagista não resolvida.

A isso se soma à radicalização discursiva que a direita moderada adotou nos últimos anos: desde as eleições e o confronto ao petismo, muitas vezes recorrendo a expedientes morais, seja no processo de destituição bárbaro de Dilma Rousseff, na qual setores radicais foram arregimentados, financiados e apoiados para tanto.

Se a queda de Dilma gerou uma volta da centro-direita ao poder, para executar um programa de austeridade radical ao sabor do mercado financeiro, ele não colocou esses grupos necessariamente no comando, embora lhes tenha cedido cargos e algum espaço. Todavia, as inúmeras redes com discurso de ódio acabaram por ganhar autonomia e relevância eleitoral ao apoiarem Bolsonaro. 

A decepção com o governo Temer, em vez de gerar qualquer autocrítica, resultou em uma radicalização desses grupos a procura de uma solução autêntica e orgânica aos seus anseios. De repente, isso tornou um deputado de inúmeros mandatos em alguém de fora do jogo político -- a estratégia do establishment político brasileiro, de isolar e tolerar Bolsonaro, lhe deu, no nosso atual contexto, a visibilidade necessária para ser presidente, blindando-lhe da percepção negativa que se abate contra a classe dirigente.

Por outro lado, Bolsonaro não é líder de nada, não tem um entourage preparado, mas é apenas a face pública que se permitiu ser o pára-raio dessa onda grande -- apoiada, ainda, por estamentos como as forças armadas, em sua base e mesmo entre hierarcas. Em outras palavras, o número que Bolsonaro soma é relevante, embora não suficiente para vencer uma eleição.

Do ponto de vista dos grandes números, ele está simplesmente impedindo que um candidato da direita tradicional, encabeçada até segunda ordem pelo PSDB, vá ao segundo turno. A questão é: os grandes polos de apoio dessa direita estão nos grandes meios de comunicação e eles, por meio de denúncias de corrupção, esperam minar uma candidatura que eles julgavam ser, até outro dia, uma bolha bastante frágil.

Esses ataques podem minar Bolsonaro, mas não passarão uma borracha nas forças sociais que ele representa, uma onda poderosa que pode ser organizada dentro de alguns anos por figuras e organizações políticas mais sofisticadas e perigosas, caso a política tradicional ou transformadora não apresentem soluções.

É um dilema que resta uma questão em aberto que é o fato das pessoas mais instruídas estarem dando vazão a essa "solução". Se as instituições que deveriam, minimamente, formar os cidadãos mais aptos a pensar estão falhando em sua missão, a profundidade e complexidade do problema brasileira é consideravelmente maior.

Se Bolsonaro também desmanchará no ar, tal e qual a ordem que lhe impedia de ser um político relevante, é algo ainda não definido embora provável. O movimento que lhe origina, no entanto, é mais complexo e difícil de combater. Retirar a antena que fez convergir esses setores não necessariamente evitará sua convergência em outra ocasião próxima, de forma mais agressiva e inteligente. A única certeza é que nossas certezas são vãos e se desfazem com muita facilidade.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Bolsonaro e a Insustentável Leveza do Conselho de Ética

Ontem, por 10 votos a 7, o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados arquivou a representação do PSOL contra o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), na qual ele era acusado de quebra de decoro parlamentar por ofensas aos negros e homossexuais, além de ter ofendido a senadora psolista Marinor Brito. O PSOL optou por não recorrer, o que resulta em decisão terminativa. Os deputados que votaram pró-arquivamento alegaram que punir o deputado seria ferir seu direito  constitucional à livre expressão. Ruminemos e reflitamos: a Constituição estabelece uma ampla liberdade de expressão (e é bom que assim seja), mas ressalva limites claros, pois palavras também são atos e podem afetar negativamente a vida em sociedade. A própria imunidade parlamentar, garantia específica aos nossos legisladores, serve para que eles possam forçar o debate público ao seu limite quando decidem as linhas gerais do funcionamento do ordenamento jurídico, mas isso, caro leitor, não equivale a dizer que deputados são irresponsáveis pelo que dizem, do contrário, viveríamos em uma aristocracia eletiva (ou, pelo menos, em uma declarada), não em uma democracia. Aliás, a existência de imunidade parlamentar quanto às declarações dos deputados tem a contrapartida do decoro parlamentar, o que contrabalanceia a liberdade de opinião mais ampla de um parlamentar com a exigência de uma postura moral que não é demandada de um cidadão comum. 

A ficção jurídico-constitucional da liberdade de expressão, por sua vez, equivale a direito-meio, constitucionalmente estabelecido pelo poder constituinte e garantido pelo Estado, que serve como modo para o sujeito exprimir sua potência dos mais diversos modos e, assim, ser feliz. É claro que isso sempre enfrentará problemas práticos; o que fazer quando alguém, usando da liberdade que tem previamente garantida, atentar contra o outro? O fato é que a garantia da liberdade de expressão se caracteriza pela inexistência de censura prévia no debate público e, também que, no campo filosófico, ela reside no campo do exercício das faculdades construtivas, não das destrutivas; liberdade de expressão serve para amar o outro, não para destruí-lo - e é uma via de mão dupla, que precisa conceber a existência da multidão, não o um totalizante da unidade popular ou o um atomizante do indivíduo. Desse modo, estaríamos diante da selva e, lá, existe tão somente a lei do mais forte. 

No caso Bolsonaro, até as pedrinhas da rua sabem que ele se utiliza de uma leitura infantilóide e umbilical da liberdade de expressão para fazer seu jogo demagógico contra as minorias da vez. Assim, sentado no auto-falante midiático, que sua condição de deputado lhe concede, às custas da integridade de grupos inteiros, ele acerta os corações e mentes dos nichos eleitorais que garantem, de quatro em quatro anos, seu ganha-pão - e a tirania, como sabemos há muito, sobrevive à base do discurso supersticioso, no qual o tirano opõe os viventes contra eles mesmos pelo medo. Liberdade de expressão é, no plano do debate público, liberdade de crítica, não de incitação ao ódio ou liberdade de repressão a outrem. A postura desdenhosa de Bolsonaro, já não é de hoje, emporcalha uma Casa Legislativa cuja credibilidade é, infortunadamente, baixíssima junto à nossa sociedade. Aliás, como nos lembra o filósofo Vladimir Safatle, debater a cassação do referido deputado hoje por racismo e homofobia já é, por si só, uma extravagância, haja vista que há muito ele defende publicamente a tortura e nada foi feito.

É certo também que qualquer debate sobre o caso será sempre marcado por simetrias falsas, portanto, não se espante quando certos setores usarem o argumento de que se  a liberdade de expressão serviu para garantir a marcha da maconha, também serve para dar guarita aos pronunciamentos de Bolsonaro. É uma estratégia retórica bastante óbvia, na qual os discursos são reduzidos a qualquer coisa dita sobre qualquer um de qualquer forma, meras formas vazias equiparáveis entre si, como se o problema não fosse sempre a conotação. É como se a defesa da liberdade à manifestação de um grupo vinculasse o seu defensor a defender qualquer liberdade, seja usada ela para o que for - aí, a liberdade dos cidadãos se manifestarem publicamente para dispor de seus próprios corpos acaba nivelada a manifestações públicas de um deputado que se usa de preconceitos correntes para chamar a atenção para si. Evidentemente, neste caso como em tantos outros de cunho jurídico, o problema reside na questão da decisão final, fissura elementar do Estado de Direito: o que interessa mesmo é quem, como e por que decide, aí está o nó górdio. Seja como for, a decisão de ontem do Conselho de Ética só colabora para a manutenção do debate desqualificado na Câmara, cujas sessões pouco a pouco se convertem definitivamente em um verdadeiro show de horrores.


segunda-feira, 11 de abril de 2011

O Fascismo Nosso de Cada Dia

A declaração racista do oportunista Bolsonaro, a tragédia do Realengo e a recente manifestação fascista na Avenida Paulista não são peças desconexas entre si, mas sim cenas do mesmo espetáculo macabro. Se, por um lado, os últimos anos foram marcados por uma ascensão social nunca antes vista em nossa história, por outro, vivemos às voltas com uma profunda crise de valores na política. Não resta dúvida de que jogo político brasileiro foi esquizofrenizado à última potência pela estratégia lulista; a pragmática sindical - e, agora, sua versão gerencial-estatista com Dilma - produziu transformações sociais para melhor maiores do que gerações inteiras de comunistas, nem ao menos, poderiam conceber, mas há um esvaziamento perigoso do debate na medida em que atores diversos foram articulados e rearticulados pela nova ordem - a ponto de não saberem mais quem são ou onde estão. Há tempos, tenho insistido por aqui que as transformações brasileiras dos últimos anos têm um caráter de esfinge, a fricção entre as classes aumentou e se tornou mais complexa ao mesmo tempo. Diante disso, bolhas perigosas se formam. A palavra esquizofrenia é a lei:  Nunca antes fomos tão brasileiros - e ser brasileiro nunca foi tão intenso pelo mundo - e nunca antes fomos tão pouco - o processo de assimilação da "cultura global" é profundo no plano interno, inclusive com a reprodução de certo tipo particular de recalque. O avanço dessa forma de violência, que decorre de uma lógica de política francamente contrária à vida, se dá em ritmo alucinante nas frestas - jamais a despeito - desse enormíssimo fenômeno de mudança que se alastra e se aprofunda em nosso país. No meio desse cinismo atroz reside um agudo desprezo pela vida. Ser racista é uma forma de decidir sobre quem deve viver e morrer - como diria o velho Foucault -, é preciso já estar morto em vida para chacinar uma dúzia de crianças da escola onde se estudou, é necessário muito ódio para reproduzir no país da diversidade o programa teleologicamente assassino e purismo do fascismo - em sua face mais descarada. É preciso ter um instrumento capaz de costurar as partes e o todo e garantir a vida. Isso tem de ser para o aqui e agora.  

  
PS: Vale a pena dar uma olhadinha nessa bela pensata que eu pesquei do twitter do Alexandre Nodari:


"Um par de tapas me ensinou o que era tolerância. Eles vieram de meu pai, que era o mais gentil e mais tolerante homem do mundo. Eu tinha seis anos. Eu estava na varanda de uma casa olhando o Isar, em Munique. Homens em camisas marrons marchavam cantando sob bandeiras com suásticas que eram balançadas. Estava lindo lá fora. Estava muito alegre. Hitler estava tomando o poder. As pessoas, na rua estavam saudando a procissão. De minha varanda, comecei a aplaudir. Meu pai me desferiu um golpe. Foi o único que recebi durante minha vida, foi o único que ele desferiu. Meu pai odiava a violência. Ele odiava a guerra. Ele odiava o ódio. Ele foi muito bem forçado a odiar Hitler e o nacional-socialismo. Eu aprendi aos seis anos que a intolerância é intolerável e que não há tolerância para os inimigos da tolerância" (Jean d'Ormesson)


quarta-feira, 30 de março de 2011

Bolsonaro, ainda



O vídeo acima é do humorístico CQC. Ainda que não seja o meu humorístico favorito - ao contrário, me parece mais um exemplo da decadência do humor brasileiro -, ele vez ou outra, acidentalmente, cumpre algum papel - como nessa entrevista com o deputado de extrema-direita Jair Bolsonaro, alguém suficientemente polêmico para "dar ibope" e que acabou até soltando uma manifestação racista no final dela, gerando grande repercussão na mídia. Bolsonaro, para quem não conhece, é ex-militar e construiu sua carreira política em cima de uma retórica agressiva que apela para todos os clichês possíveis que um político de extrema-direita poderia pensar em usar: Defesa da pena de morte, da Ditadura Militar - e, por tabela, da "moral", dos "bons costumes" e da "família" -, do policialismo como forma de combater a violência e o desrespeito permanente às minorias são itens presentes em seus discursos. Em entrevista nos anos 90, ele chegou até a sugerir o fuzilamento do então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso. 

Na resposta à cantora Preta Gil, nessa edição do CQC, ele chegou a se referir à possibilidade de um relacionamento entre um filho seu e uma negra como "promiscuidade", o que provocou um massivo repúdio e deu início a uma mobilização intensa para cassá-lo. Não me surpreende que alguém como Bolsonaro seja deputado, afinal, ele explora muito bem um senso comum extremista muito presente na nossa sociedade. O fato é que no Brasil, diferentemente de muitas democracias mais antigas e melhores do que a nossa, não existe uma extrema-direita organizada porque o atual equilíbrio de forças partidário tem neutralizado isso com certo êxito, o que relega a defesa dessa linha a algumas poucas figurinhas carimbadas - de forma atomizada ainda por cima. 

A primeira vez, em anos, que isso pareceu ser abalado foi na última eleição presidencial, quando  o candidato presidencial José Serra - um intelectual de porte oriundo da centro-esquerda - surfou na onda de uma pauta ultraconservadora - e agressiva - quando se viu derrotado, criando uma atmosfera irrespirável que arranhou irremediavelmente sua biografia. Por isso, mais do que nunca, a manifestação de Bolsonaro ganha uma conotação perigosa. Também não é o caso de ignorarmos que suas falas têm se radicalizado mais e mais - assim como voltou a ganhar certo espaço na mídia -, principalmente, porque estamos na iminência de um duro debate sobre o desarquivamento dos arquivos da Ditadura e da instituição de uma Comissão da Verdade. 

Seja como for, essa fala de Bolsonaro no CQC, por si só, já é das coisas mais graves que ele disse. Liberdade de expressão tem limites, ainda mais quando alguém exerce mandato eletivo e se usa disso para incitar o ódio. Ainda que o deputado seja muito mais alguém dotado de um senso de oportunidade único do que um ideólogo de qualquer coisa, esse tipo de comportamento não é admissível e não pode ser tolerado. É demais pagarmos o salário de alguém que se usa da democracia para ser eleito, mas usa de seu mandato para atacá-la ou mesmo que, vejam só, lança pesados ataques às minorias, mas é (acredite se quiser) membro da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Ainda que a democracia seja dos poucos sistemas que admita a crítica a si mesmo de dentro de suas instituições, há limites para o cinismo alheio e para o grau de ameaça que seguidas e sistemática declarações irresponsáveis podem representar. Espero não estar postando por aqui algo como este "Bolsonaro, ainda" - pelo menos não sobre ele como deputado -, acho que já deu e um ato racista é um bom limite.