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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O Wikileaks e o Brasil

O Mapa da Mina
O caso Wikileaks continuou repercutindo fortemente, seja pela prisão contestável de Assange quanto pela repercussão dos cables, cuja divulgação segue a todo vapor ou mesmo pela repercussão do assunto junto à Ordem Internacional. Se Assange continua preso na Inglaterra com futuro incerto e apesar dos boicotes ao site do Wikileaks propriamente dito, fato contornado por uma ação conjunta sem precedentes na qual hackers do mundo todo têm se desdobrado para manter canais de divulgações das informações. Ainda, líderes importantes do mundo em desenvolvimento com Putin - sarcasticamente, como lhe é peculiar - e Lula se pronunciaram contra a prisão do fundador do Wikileaks - e, claro, das duas falas a de Lula é que se sobressaiu, seja porque falamos de um líder que termina seu segundo mandato extremamente popular, depois de ter vencido eleições limpas ou pelo fato de que o seu Governo tenha respeitado firmemente as liberdades individuais, embora tenha sido alvo de uma campanha dura de certos setores da mídia corporativa em sentido contrário, numa contradição que ele soube explorar bem em sua fala (ver na quebra de página):

Em suma, Lula, em sua melhor forma política, traz à baila o calcanhar-de-aquiles da mídia corporativa que lhe fez, ao longo dos últimos oito anos uma verdadeira oposição canina, ao mesmo tempo em que também pega seus colegas líderes do mundo desenvolvido, arautos da civilização, no contrapé. Essa fala tem mais peso do que se pode supor no que concerne o que será o futuro Governo Dilma e isso tem pouco a ver com política externa, dado que Lula apenas referenda a linha adotada pelo Ministério das Relações Exteriores nos últimos anos; a questão aqui é a política de comunicação: A pauta passou a ser levada a sério depois de anos cedendo o Ministério para um homem do sistema como Hélio Costa sem ganhar nada em troca - de bom, claro.

Seja a primeira entrevista de Dilma não sendo dada para a Globo, a indicação de Paulo Bernardo para o Ministério das Comunicações ou mesmo a entrevista de Lula para os blogueiros e essa sua fala apontam para um horizonte claro: Os petistas perceberam que sua própria - e elementar - sobrevivência eleitoral demanda a expansão da Internet e das opções em meios de comunicação em massa e, mais ainda, que é quase impossível conceber um cenário de trégua por parte do grande establishment midiático, capaz até de transformar bolinha de papel em rolos de fita - na falta de chance de surgir, quem sabe, com uma bigorna.  Mais até do que isso

Por outro lado, a  jornalista Natalia Vianna continua divulgando os cables que dizem respeito ao Brasil - ao todo, eles chegam a mais de 5 mil - em blog recém-lançado em parceria com a CartaCapital. O que chega até agora é o incômodo americano com a política articuladora de Lula que põe a estratégia de Washington em xeque: Ao mesmo tempo que não rompeu os EUA, a política externa altiva e ativa de Amorim rompeu com o atlantismo , negociando com interlocutores do mundo inteiro, mesmo adversário estratégicos americanos,  o que exige do Departamento de Estado um grau de sofisticação no trato com o Brasil que ele nunca precisou ter. As notícias que chegam pelos cables sobre o Brasil se dividem em três eixos centrais: O detalhamento da articulação política americana em torno das nossas reservas minerais (sobretudo, energéticas), o lobby para a venda de caças para a Força Áerea e as análises do processo eleitoral.

Se no terceiro caso esbarramos com o já sabido desconhecimento crônico dos americanos sobre a política nacional mais alguma especulação sobre a doença de Dilma, a sutil preferência por Serra e quetais, no segundo e primeiro caso temos informações mais relevantes; se na questão da venda dos caças se manifesta o incômodo claro com a política externa e a proximidade brasileira com os franceses - assim como o nome dos ministros amigos, o que traz à luz de forma cada vez mais clara a face de Jobim e seu papel de contra-ministro, seja nas relações internas ou externas -, no primeiro caso, topamos com detalhes cada vez mais claros de um jogo no qual converge a política estratégica dos EUA para cima dos nossos recursos naturais e o jogo eleitoral brasileiro, o que revela a grande diferença entre PT e PSDB hoje: Os lados que cada um deles ocupa no grande tabuleiro internacional.

Sim, estou falando das posições de bastidores do candidato Serra que vieram à tona hoje, inclusive, repercutindo na grande mídia; como eu coloquei aqui durante a campanha eleitoral, um dos grandes itens dessa campanha presidencial era o Pré-Sal, posto que não havia mesmo concordância entre os dois candidatos e os dois projetos: Se o PT postulou um modelo de soberania energética e distribuição dos lucros da exploração, o PSDB insiste num modelo privatista, cujos lucros gerados invariavelmente tendem a ficar por cima e, mais do que isso, nem por dentro, para além do que aponta toda a parafernália retórico-tecnocrática ou, mesmo, os ensurdecedores silêncios de Serra na campanha passada, em relação a esse tema, inclusive. E volto a dizer, o Wikileaks cumpre nesse tema aquilo que é a sua grande utilidade prática, colocar definitivamente certos assuntos fora do campo da teoria da conspiração: Sim, há provas de que o interesse americano sobre a exploração Pré-Sal num regime de concessões é claro e envolveu manobras nos bastidores, inclusive, para frustrar modelo de partilha proposto pelo Governo Lula, com a anuência do nosso Serra.

Sim, isso também revela que estamos em um patamar primário de debate da política energética, onde basicamente tudo gira em torno em como explorar o modelo posto - com suas deficiências e problemas vários que, no entanto, passam batido -, mas existe um diferencial aí que são os interesses que se articulam em torno de um projeto e outro e o que isso pode efetivamente retornar para a sociedade; em um, temos um modelo nacional e socializante, no outro,  o enquadramento no jogo do Capitalismo Internacional e suas grandes empresas no comando. Isso faz muita diferença. Tudo isso, aliás, ajuda a descortinar grande parte do jogo que está em disputa neste exato momento e que teve um capítulo importante durante Setembro e Outubro. Mantenhamos os nossos olhos abertos.

Atualização das 19:29: Passei o vídeo para a quebra de página para não atrapalhar os arquivos (a mudança de formato do Youtube ficou uma droga mesmo), mas ele está linkado na citação de todo modo.

Atualização II 14/12 às 16:46: Seguem os links para os cables sobre a questão petrolífera e sua íntegra copiada e colocada abaixo da quebra de página: 28/01/08, 15/04/08,  30/06/08, 21/01/09, 27/08/09, 02/12/2009 e 21/12/09 (caso você não saiba inglês, jogue os textos no tradutor do Google e salve as informações.

domingo, 14 de novembro de 2010

A Televisão e o Novo Brasil

A Televisão é o meio de comunicação chave para entender a política e a sociedade de um era que está por terminar. Seu poder é imenso: Um aparelho que transmite sons e imagens em movimento simultaneamente, em forma de monólogo do transmissor para o receptor e que não demanda, curiosamente, ser instalado em praças públicas, mas pode - como deve - perfeitamente estar alocado confortavelmente nos lares das pessoas. O modo de comunicação que a Televisão executa não é novo, trata-se do que o Cinema faz, apenas com a pequena - e agudamente profunda - diferença de que ela, ao contrário das telas de cinema, pode ser colocada no mais íntimo espaço privado de convivência, longe das massas e das praças públicas.


A Ideologia caminha lado a lado com o conceito de imagem e, por óbvio, habita o campo da imaginação; ideias (na verdade, figuras elevadas ao expoente) articuladas discursivamete como forma de revelar o que interessa e esconder o que não importa para a execução de um projeto de poder - a televisão, por natureza, opera como uma máquina essencial para a difusão da ideologia, cortando fluxos de imagem que desaguam no ambiente familiar. E se a ideologia nasce sob os auspícios da Revolution, a Televisão ganha proeminência nas sociedades industriais tardias e nas sociedades pós-industriais; de Washington a Pequim, de Londres a Buenos Aires, a Televisão, o sistema de televisão, é edificado em ritmo alucinante.


O custo da Televisão faz com que, em tese, grande parte do mundo não se justificasse sua instalação. Nem por isso a segunda metade do século 20º deixa de ser marcado por um esforço brutal em expandir o sistema de televisão. A participação do Estado ou das grandes corporações está clara e é pressuposta nessa expansão. Com o Brasil não é diferente, surge um modelo que ao mesmo tempo em que está nas mãos do Estado, se dirige a famílias de oligarcas da comunicação social e que aqui, por sua vez, reproduzem um novo tipo de oligopólio e se articula na promoção dos interesses - não só comerciais, mas também políticos e sociais - das grandes corporações. 


O pioneirismo de um Chateaubriand (foto) se dá num momento de incertezas, quase pré-histórico, da frágil experiência democrática que, mais tarde, saberíamos ter sido apenas um pequeno hiato entre o Estado Novo e a Ditadura Militar. O sistema brasileiro toma corpo com os cortes feitos pela Ditadura Militar que modela quem dá as cartas na mídia tradicional e determinará quem serão os encarregados pela difusão da notícia. Foi a modelagem definitiva de quem fazia parte do "time" - do aparato do oligopólio midiático - e quem teria o maior quinhão na exploração da jóia da coroa, notadamente, a TV.


Não resta a menor dúvida da importância de uma Rede Globo na construção de um Brasil que interessava à Ditadura. Aquele Brasil mostrado segundo o padrão Globo de qualidade para milhões e milhões de pessoas era, na verdade, a criação de um Brasil que interessava ao status quo ou, no máximo, ao acessos de lampedeuzianismo da elite. Pouco importa se a TV nas mãos está nas mãos do Estado, o oligopólio toma por impossível que a oposição, chegue, alguma dia ao poder; anos mais tarde, quando Hugo Chávez não renova contratos de concessão na Venezuela, a luz vermelha se acende no Brasil, durante anos alimentou-se um modelo todo concentrado na mão do Estado, mas não se supunha que um dia, os ocupantes do poder não seriam necessariamente seus aliados - e naquele momento, quem ocupa o poder no Brasil é o jovem governo petista.


A TV foi e continua sendo um meio que, do ponto de vista comercial, jamais representou grande coisa. As familias que se beneficiam das concessões estatais, na verdade, tinham nas mãos um instrumento que lhes garantia ganhar dinheiro por outros fins, o poder da informação, o da construção e da desconstrução de mitos, que lhes permitia certa proeminência e negócios promissores em outras áreas, desde que cumprissem o seu dever. O Brasil pré-Lula ainda é marcado pela proeminência de uma TV Globo, com o SBT, uma rede de entretenimento aparentemente inofensiva operando em um nicho de mercado e a Record, uma canal antigo, cuja concessão foi negada à Central Única dos Trabalhadores para ser dada a - aparentemente  - inofensiva Igreja Universal do Reino de Deus - que, acabou por construir um modelo que visava ao topo da comunicação televisiva. 


Por outro lado, canais de TV de famílias alinhadas como a Bandeirantes - que sobrevive até hoje numa posição minoritária - e a Manchete - da família Bloch - já falida, jamais conseguiram se afirmar nesse cenário. As TV's estatais nunca conseguiram fazer a tão sonhada passagem para um esquema público - mais ou menos como a BBC -, a TV Cultura de São Paulo, sucateada por quase duas décadas de governos tucanos e a TV Brasil - tratada em segundo plano pelo Governo Federal - são exemplos disso.


A derrota do candidato global, José Serra, em 2002, marca a ascenção, pela primeira vez na história, de um não-aliado da Globo ao Poder, muito pelo contrário, falamos do detestado Lula, que foi por ela prejudicado nas eleições de 1989. Ainda assim, o Ministério das Comunicações permanece sob controle de aliados da Globo, como demanda a realpolitk lulista e sua renovação de concessão é operada de modo mais suave do que pode ser supor; um evento, no entanto, se opera nas sombras e representa um golpe para uma Globo já em declínio de audiência: A Record ganha mais uma concessão de TV, nos moldes daquele que a Globo mantém a Globonews, o que é a gota d'água após ter perdido a disputa pelo direito de transmissão das Olimpíadas de 2012 para a própria Record. 


Em um jogo no qual a benevolência do Estado é fundamental, uma Globo que já perdia sua parcela de audiência vai à guerra; A Globo não está, como não esteve, disposta a renegociar o seu estatuto, a despeito de seu progressivo encolhimento e, nas eleições de 2010, sua atuação é como de um Luís XVI da pós-modernidade, dada a maneira que entrou no front pró-Serrista, disposta a construir a trama mais pífia que fosse para atacar Dilma Rousseff, na campanha - e à Record coube tão somente a tarefa simples de desmontar sofismas, apontar contradições evidentes e assim herdar o espólio político das eleições; não a Record não precisou inventar que o balão de água que quase atingiu Dilma era, na verdade, coca-cola, do mesmo modo que a Globo transformou uma bolinha de papel num perigoso rolo de fita crepe, num acesso de ridículo e irracionalidade.


Ao passo em que o Plano Nacional de Banda Larga se desenha e a importância das redes colaborativas cresce, uma Globo que sabe o quanto seu poder se dilui na Internet - do mesmo modo que a Record - perde assim uma considerável força para negociar saídas que lhe deem a primazia dos bons negócios das últimas décadas de proeminência da TV. A célebre primeira entrevista da presidenta eleita Dilma Rousseff é para a Record, não para a Globo. Recado dado, os próximos anos serão turvos para a televisão dos irmãos Marinho. Do outro lado, o SBT de Silvio Santos, se esvai tardiamente com escândalos que permeiam todo o grupo, o que abre espaço para novas mudanças no mundo da televisão.


A democratização dos meios de comunicação, porém, permanece em aberto e os brasileiros continuam à mercê de alguns poucos canais de TV abertos, em torno dos quais se estrutura um jogo de poder político-partidário pesado que pode ter uma severa influência daqui a quatro anos. 

domingo, 7 de novembro de 2010

As Eleições, a Questão Nordestina e São Paulo

Deus e o Diabo na Terra do Sol 

Domingo passado, encerrou-se o mais longo, tenso e violento presidencial desde 1989 com a vitória da petista Dilma Rousseff sobre José Serra. Esperava-se, enfim, que o término do pleito fosse sacralizado e que de algum modo o candidato derrotado - que levou o debate aos limites da perplexidade - reconhecesse a vitória da adversária e, pelo menos em algum momento da campanha finda, agisse como um político de evergadura presidencial e fizesse uma fala sensata. Não foi o que aconteceu. Ao invés de dizer adeus, Serra estava completamente inconformado com uma derrota incontestável e fazia um inacreditável discurso revanchista - algo impossível de imaginar que viesse da parte de um Lula, derrotado por três vezes em pleitos presidenciais, que nem o próprio Serra fez em 2002 e que Alckmin também não fez em 2006.

Isso só foi a cereja do bolo de um político que, até mesmo nos dizeres de Paulo Nogueira - um sujeito que considera FHC o maior presidente da nossa história -, sofre de uma ambição desumana de ser presidente mesmo contra a vontade dos brasileiros. Durante a campanha, ao invés de debater o que realmente estava em jogo - e do que discordava verdadeiramente da política petista -, em suma, a política externa não-atlantista, os rumos do Pré-Sal, a Política de Emprego (a qual se negou a fazer qualquer comentário mesmo em debates) e o seu projeto para o Plano Nacional de Banda Larga, Serra simplesmente suspendeu o debate para estimular- ou também permitir que estimulassem, se escorando num discurso violento que estimulava - preconceitos latentes na nossa sociedade - que, no entanto, vinham arrefecendo -, notadamente, questões morais como o aborto e o casamento gay.

Essa cereja do bolo não trouxe poucas consequências, o fato de Serra não ter tido a grandeza política de fazer um discurso de união nacional, de tocar a bola para frente e de dirimir eventuais rusgas - não, ele atacou com um discurso desastrado, atrasado e de mal-vontade - fez com que o clima tenebroso desse interminável campanha persistisse ao longo da semana passada. A mídia corporativa, aliada de Serra de primeira hora por  interesses óbvios, seguiu fazendo seu papel de arcar com a parte dura dos ataques e desqualificações ao PT - amparada na muleta da liberdade de imprensa, que usa, há tempos, para fazer política partidária - apresentando um Brasil "dividido" entre norte e sul após a derrota - Dilma teria vencido por conta daqueles estados cheios de pobres, atrasados e desidiosos. É como se, de repente, Serra não tivesse tido um voto no grande norte e Dilma nada no sul ou se Serra não tivesse vencido por pouco onde venceu e Dilma não tivesse goleado onde ganhou.

Pior do que isso, fora o Estadão que se dignou a mostrar um mapa eleitoral dividido em municípios - que ainda assim traz lá suas distorções - a figura do mapa brasileiro dividido em estados como se a nossa eleição fosse como as indiretas eleições americanas, onde quem ganha em um estado - nem que seja por um voto - leva todos os seus delegados pairou como a prova dessa "divisão" - como bem nos lembra o sempre atento Idelber Avelar alertado em cima do lance pelo perspicaz Alexandre Nodari via twitter. O resultado disso, claro, é provocar uma onda de insatisfação, inconformismo e agressividade em quem votou em Serra, o que, conjugado com preconceitos já existentes contra o Nordeste, provocou um clima bizarro e artificial de guerra, cujo ponto mais alto foi o caso da estudante de Direito da FMU, Mayara Petruso, que fez ofensas racistas e defendeu o assassinato dos nordestinos em sua página no Facebook. Isso sem falar que tópicos ofendendo os nordestinos que chegaram aos trending topics do Twitter. 

Vamos aos fatos, nada desse movimento é racional. Retorno ao nosso ponto de partida: Para a Presidência da República, são considerados os votos de todos os brasileiros que estejam em idade eleitoral e tenham a devida documentação. Não existem pernambucanos ou gaúchos na eleição presidencial, apenas brasileiros que votam em domicílios eleitorais gaúchos ou pernambucanos. Simples assim. Se um candidato venceu porque teve uma votação maior aqui do que acolá, paciência. No entanto, nem foi isso que aconteceu, haja vista que mesmo que o Nordeste fosse riscado do mapa - como sugeriram algumas figurinhas ao longo da semana passada - ainda assim, Dilma teria vencido. É evidente que isso não se trata de um caso isolado, candidatos a cargos políticos importantes tem uma enorme responsabilidade a respeito do que dizem e, sobretudo, do que deixam de dizer, a única pessoa que poderia ter cessado com esse clima pós-eleitoral seria o próprio Serra, mas ele não fez, ele deixou esse fluxo de intolerância seguir.

Para mim, isso não é uma questão simples, afinal, ela me afeta diretamente: Sou pernambucano e vim morar em São Paulo aos três anos de idade, de lá para cá já vão seus vinte anos, mas a sensação de forasteirismo é permanente numa paisagem que ao mesmo tempo acolhe (porque precisa), submete - porque precisa, mas precisa de uma determinada forma -; Nordestinos vieram para ser o contingente de trabalhadores da industrialização pesada de São Paulo no pós-Guerra, num movimento que não é fruto da aliança entre o estudante e o operário, mas sim entre o coronel pouco afeito a ideias extravagantes de Reforma Agrária e de Capitães da Indústrias ciosos por buchas de canhão; de todo modo, é patente que a discriminação contra nordestinos apesar de existir, é muito menor hoje do que era há dez anos atrás por exemplo. Isso é uma questão que está se tornando latente e, ao contrário do que algumas pensam, quando um certo preconceito está se tornando velado, é porque ele está arrefecendo: Se um pessoa discrimina negros e não diz publicamente é porque foi construída alguma moralidade naquela sociedade que admite que alguém externe. Na medida em que esse ódio recua para a esfera privada, ele tende a desaparecer. Eis aí a enorme importância da Escola e, acima de tudo, de quem tem fala pública como políticos que se supõem com evergadura de estadista ou meios de comunicação em massa.

Também não adianta vir com caminhos fáceis para explicar o que é São Paulo e como ela se relaciona com o resto do país. Estou há tempo de mais por aqui para saber que São Paulo é um paradoxo, ou melhor, o paradoxo de uma cidade - que a despeito dos agrupamentos urbanos anteriores do litoral foi aquilo que, de fato, deu no estado de São Paulo atual - formada ao mesmo tempo pelo projeto do universalismo cristão dos jesuítas e do imperialismo sem concessões dos bandeirantes. Essas duas linhas acabaram, pelas circunstâncias históricas, unidas numa dupla hélice que, no entanto, tem como fundamento comum a ideia de que São Paulo é o território necessário para ocupar o resto do país, ainda que elas se contradigam na maneira como isso vai se dar e para onde isso vai se direcionar: Se os jesuítas tinham um projeto acolhedor, no qual cabiam todos desde que aceitassem abrir mão de sua identidade anterior para se tornarem sujeitos-cristãos, os bandeirantes se viam diante de um projeto, uma meta implacável para a qual não havia sujeitos ou potenciais sujeitos, mas sim objetos que bifurcariam na figura dos instrumentos - os objetos úteis - e dos obstáculos - os objetos inúteis a se destruir.

Isso prevalece até hoje, apesar de todo o tempero intelectual do racionalismo, das ciências e tudo mais. Essa lógica bipartida, claro, poderia ser posta abaixo por um projeto, mais do que civilizador, cultural, desde que haja vontades políticas organizadas para tanto, assim não se faria mais perguntas como "teriam os nordestinos se tornado obstáculos?" Ou "seriam ainda assim instrumentos úteis?" Ou isso não está em questão, afinal, "eles são cristianizáveis, digo, civilizáveis, não são?" O pensamento provinciano de São Paulo que não consegue sair dessas variáveis me parece terrivelmente inscrito no modo de funcionamento do PSDB. O que será que pensariam "os tucanos paulistas" sobre o mineiro Aécio Neves? O projeto petista, mesmo que tão marcado pelo universalismo cristão - diretamente, aliás -, consegue escapar - às vezes sonhar em - escapar às linhas estanques disso, ainda que seja um projeto nascido em São Paulo, o que aponta para a chave para o desligamento desse mecanismo, seja pelo que faz no plano nacional ou no próprio plano paulista - ou já esqueceram da ousadia de eleger não só uma mulher como uma nordestina como prefeita de São Paulo? O ponto é que esse pensamento paulista tradicional continua - como continuará por algum tempo ainda - a variar entre sua faceta mais humanista e a mais hardcore, precisando, no entanto, de uma atuação direta dos grandes agentes para reprimir seus instintos mais desumanos, mas é evidente que só a superação definitiva disso, abraçando definitivamente a brasilidade - o reconhecimento da importância desse mutualismo transregional, que envolve as trocas econômicas, sociais e culturais - é que é a saída para esse impasse.

P.S.: Muito bacana o movimento organizado pelo Eduardo Guimarães do "São Paulo é de Todos".


Imagens: 1) Carta de Deus e o Diabo na Terra do Sol de Gláuber com montagem feita aqui 2) Carrancas do São Francisco 3) Mudança do Sertanejo -- J. Borges; 


 

sábado, 6 de novembro de 2010

O Novo Congresso Nacional

Para além da fragmentariedade e do esvaziamento habituais do nosso sistema eleitoral, as eleições legislativas deste ano produziram pelo menos três fenômenos interessantes: O aumento da bancada governista, o aumento da bancada evangélica e a mais profunda mudança de perfil da história do nosso Senado. Trocando em miúdos, a Presidenta eleita terá a maioria confortável que Lula não teve, questões de direitos civis devem ser tratadas com mais mal-vontade ainda - sim, o terrorismo da campanha serrista teve ainda o mérito de produzir um aumento sem muita qualidade da base governista, favorecendo os pequenos partidos evangélicos pró-Lula -, mas teremos um Senado bem melhor do que o anterior - talvez o melhor da nossa história...

Sobre o primeiro ponto, ainda que não haja uma correspondência exata entre os partidos e os parlamentares, 310 dos 513 deputados federais eleitos são de partidos que participaram da coligação que elegeu Dilma Rousseff - enquanto apenas 136 são de partidos que estiveram na coligação de Serra, ainda que se ressalve o fato de que nessa conta entra o PTB de Roberto Jefferson, que teve uma participação controversa do início ao fim dessa campanha, sem ele, estaríamos falando de apenas 115 deputados.  Tirando os 15 deputados verdes - que não têm posição clara nessa história toda - e os 3 do PSOL - que farão oposição ao Governo pela esquerda -, vemos algo entre 70 e 49 deputados de partidos (a variável aqui diz respeito ao PTB) que não integraram nenhuma coligação presidencial (ou nenhuma relevante) e representam o que há de mais fisiológico na política nacional, tendendo a votar com o governo em troca de emendas parlamentares. No Senado, o PMDB fez 16 cadeiras e se manteve com 20 na dianteira da casa; o PT fez 11 senadores e terá 13 no total, são as duas maiores bancadas daquela Casa. No total, são 2 senadores do PSOL, 49 senadores governistas, 20 da oposição e 10 de outros partidos (na verdade, as bancadas do PP e do PTB) que deve se dividir.

Em outras palavras, o governo conseguirá passar tudo aquilo que ele entende por correto no âmbito da gestão formal do Estado, mas certamente esbarrará em limitações no que toca reforma agrária - que só sai de acordo a demanda atual caso a Presidência chame para si a responsabilidade do jogo - ou questões de direitos civis. Grosso modo, as igrejas evangélicas têm se organizado cada vez mais partidariamente e foi também com a aliança desses então micropartidos que Lula em 2002; uma figura como Crivella, debaixo do guarda-chuva do Governo Lula, apoiou medidas de desenvolvimento econômico e de incorporação de direitos sociais ao passo que se manteve - naturalmente - numa posição conservadora aos direitos individuais, em suma, tudo leva a crer que o combate a fome e a miséria deve continuar avançando ao passo que temas como casamento gay e descriminalização do aborto devem ficar mais distantes.

O crescimento de PR, PRB e PSC nessas eleições são, em grande parte, fruto da propaganda desastrada de Serra, que ao tentar desconstruir a figura pessoal de Dilma e do PT por meio de uma retórica fundamentalista, pode ter tirado votos também do PT no legislativo, mas não tirou da base lulista, em outras palavras, Serra provavelmente colaborou para o aumento da base situacionista - às custas até mesmo de seu partido, cuja base parlamentar diminuiu, apesar de ter chegado ao segundo turno da eleição presidencial - fortalecendo os partidos evangélicos; Dilma assim terá uma base parlamentar grande, mas heterogênea, que acompanhará a pauta do Governo - que dita, na prática, o ritmo do Legislativo  -no âmbito social, mas tenderá a vetar pautas no âmbito individual. O desempenho petista, muito embora tenha lhe valido o primeiro lugar na Câmara, foi bem abaixo do que se esperava, em parte pelo clima das eleições, em parte por falhas na campanha mesmo e em outra parte pela falta de palanques fortes nas disputas para governador. Eu me surpreendi também com a perda de deputados por parte do PSDB, esperava a estabilidade da bancada em torno dos 65 cadeiras anteriores, mas a perda de quase 20% delas foi espantoso - o mesmo não se pode dizer do DEM, cuja decadência já é favas contadas eleição a eleição.

Sobre o Senado, em um primeiro lugar, temos muito a comemorar e isso diz respeito a quem saiu de lá. Mais do que uma casa de oligarcas que pouco ou nada colaborou para o desenvolvimento do país, a nossa Câmara Alta tornou-se nos últimos anos um reduto de figuras folclóricas, grotescas e ciosas por aparecer na mídia a qualquer custo, geralmente batendo no Governo Lula. Enquanto figuras como Heráclito Fortes, Mão Santa, Arthur Virgílio, Sérgio Guerra e quetais (todos derrotados, menos o último que estrategicamente se candidatou a deputado) se utilizavam dos holofotes de maneira bisonha, outros como Eduardo Azeredo articulavam nas sombras coisas como o AI-5 digital (Azeredo acabou não sendo indicado ao Senado, em seu lugar entre Aécio Neves...). Outros, como um Romeu Tuma (falecido recentemente não sem antes ser derrotado nas urnas) apoiava taticamente um Governo que não representava sua forma de ver o mundo. Bons nomes continuam por lá, como Paulo Paim do PT-RS - que conseguiu a reeleição -, enquanto Gleisi Hoffmann foi a primeira senadora eleita do Paraná, Marta Suplicy, ex-prefeita de São Paulo e ícone na luta pelos direitos civis venceu em São Paulo, enquanto no Nordeste, praticamente todos os estados elegeram senadores de esquerda ou progressistas - exceto pela reeleição do inefável Agripino Maia. No Norte do país, a eleição de Vanessa Grazziotin sobre Artur Virgílio foi, sem dúvida, o fato mais relevante.


Por fim, elas por elas, o resultado das eleições foi positivo, ainda que estejamos bem longe de resolver a problemática do funcionamento do Legislativo e do vício de sua relação com o Executivo. A Reforma Política que se avizinha pode melhorar o sistema eleitoral, mas pouco importa se não houver, antes de mais nada, uma reforma do sistema político-partidário, obrigando que o princípio democrático seja cumprido internamente, exigindo prévias e processos de escolha de candidatos de forma transparente. O Senado segue sendo, em si, um problema, embora materialmente ele tenha dado um considerável salto de qualidade - em um país onde os municípios são considerados entes federados, é equívoco supor que precise existir uma Câmara Alta com representantes dos estados e do Distrito Federal, o que além de ser um má justificativa, também só produz mais burocracia no Processo Legislativo. Dilma terá uma relativa tranquilidade para governar, mas olhemos para os limites disso.










segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Dilma Rousseff


foi eleita ontem, com mais de 55 milhões de votos, a primeira presidenta do Brasil, derrotando o candidato oposicionista José Serra. Foi eleita, aliás, na mais dura, covarde e tensa eleição vista desde 1989, quando artimanhas de toda sorte foram utilizadas contra o então candidato petista Lula, custando a vitória do PT e gerando ainda algumas boas décadas de atraso no processo de democratização material e da luta social. Foram, ainda, mais duas derrotas de Lula para que ele pudesse vencer em 2002, reeleger-se em 2006 e depois de um segundo mandato mais bem sucedido até mesmo do que o primeiro, bancar a eleição da grande gerente do seu projeto.


Frente a iminência da responsabilidade de substituir Lula, Dilma não foi submetida a um debate duro de ideias, muito pelo contrário: A resposta da direita aos últimos quatro anos em especial, quando o Brasil finalmente retomou os rumos do crescimento econômico conjugado com o advento do desenvolvimento social foi esquizofrênico, variava entre a simplificação grosseira e perigosa do "bolsa-esmola" - o fantasma no qual foi transformado o carro-chefe dos programas de assistência criados pelo atual governo - à demagogia que prometia sua manutenção - com o candidato oposicionista chegando às raias da insanidade total na reta final da campanha ao propor um aumento insustentável do salário-mínimo e dos mesmos programas sociais que eram hostilizados por sua base.


O histórico da participação da direita nos últimos anos tem menos a ver com a participação irracional de seus partidos na oposição do que a intervenção da mídia corporativa - setor historicamente dominado por um oligopólio de famílias tradicionais no Brasil -, que assumiu as rédeas do comando de campanha anti-lulista, pautando o discurso anti-governo, adequando redações inteiras a pautas que tinham muito pouco a ver com jornalismo e partiam de premissas essencialmente político-partidárias. A rearticulação da direita em 2009 tem por marco o editorial da Ditabranda, na qual o editorialista da Folha de São Paulo reescrevia a História com o único fim que esse tipo de movimento pode ter: Escrever o futuro, já mirando na possibilidade do governo lançar como candidata uma ex-combatente armada contra a Ditadura Militar.


A tag "Eleições 2010", portanto, não começou a ser usado neste blog apenas nos últimos dois meses, mas sim há quase um ano e nove meses atrás, rendendo 70 posts, cujo artigo inicial foi, justamente, uma análise da mola propulsora dessa rearticulação direitista, início fático do processo eleitoral - cujo fim, se operava como reação ao tripé central do atual governo, em suma, na oposição à política externa independente e de integração sul-americana (retratando o ânimo colonizado e interesses diretos de parte da nossa elite), uma guerra da velha "classe-média" e da burguesia frente ao novo estatuto social da classe trabalhadora - e o desaparecimento progressivo da miséria - e uma resposta dos partidos tradicionais (e do próprio PSDB) frente ao avanço do PT.


O resultado disso foi uma construção discursivo-ideológica, por parte da miscelânea dos setores oposicionistas, que foi para além do fantasma do "presidente analfabeto" e do mito do partido de aloprados para a construção incessante de fantasmas, construindo um verdadeiro mundo imaginário no qual os mais elementares dados sobre a a verdadeira situação do país eram obliterados e, de repente, qualquer ataque pessoal, qualquer espécie de desconstrução do ethos do adversário se justificava. O PSDB, que apesar de não ter nascido com o espírito de um partido firmemente transformador, também não abria mão de se opor ao direitismo autoritário da política nacional, cruzou todas as linhas possíveis que se admitiria um partido "social-democrata" cruzar, variando do ridículo ao abjeto o tempo inteiro. 


Se a campanha de José Serra em 2002 era a de que tudo que foi feito nos oito anos anteriores era bom e só precisava de ajustes, se a de Geraldo Alckmin é de que a "política" - na verdade, a democracia - não funcionava e que o Brasil deveria ser administrado como um empresa - o que concorde-se ou não, estava ainda dentro do campo da racionalidade, diferentemente da campanha de José Serra em 2010, na qual inexistia sequer uma coerência discursiva. Por que precisaria se candidatar o ex-governador bandeirante a essa sucessão, se ele mesmo dizia que iria continuar o que está posto? Como iria continuar isso, se esse era para muda-lo que seus apoiadores e financiadores lhe bancavam? A candidatura Serra foi o ocaso de uma candidatura sequestrada pela direita brasileira tradicional que não tinha como se assumir  nem como renunciar publicamente a tal estatuto, sendo que a expressão de tal ocaso foi uma radicalização que brincava com as superstições e preconceitos ainda existentes na nossa sociedade, afigurando-se como a mais dramática e desesperada anti-candidatura já vista por essas terras.


Dilma, por sua vez, nasce de um estado de emergência levantado pela direção nacional do PT, Lula no comando, que já traçava a estratégia eleitoral bem antes. Não só: Traçava um plano de hegemonia dentro do próprio PT - para quem não conhece o PT por dentro, qualquer movimento dele parece um mero lance eleitoral ou contra a direita, mas o fato é que cada mexida de peça petista é também um movimento tático relativo à efervescência de sua luta interna. Todo movimento petista, portanto, é um movimento duplo que diz respeito a fins internos do partido - a manutenção de uma posição de liderança ou que vise à liderança dentro de sua estrutura particularmente instável, sem abalar suas estruturas - e fora dele - o avanço do desenvolvimento social. É necessário que haja correspondência efetiva entre os dois movimentos, senão o desastre está feito  -aliás, as grandes derrotas petistas (em especial, as paulistanas) se explicam por um descompasso nesse ponto, cujo resultado, a autofagia e fratricídio, foram a porta aberta para o malufismo voltar ao poder nos anos 90 e para Serra ressuscitar politicamente em 2004 (com um ânimo voraz parado apenas na noite de ontem).


Essa estratégia consistia em manter o atual modelo de desenvolvimento - negociado e fundado no realismo político, muito embora seja, em vários momentos, mais realista do que o rei - e atual correlação de forças internas, o que se daria bancando a candidatura de alguém com suficiente prestígio no comando do atual Governo e junto à atual cúpula do partido, com capacidades administrativas ímpares e credenciais junto à esquerda que combateu a ditadura - o que Dilma tem: Muito embora ela não seja uma petista fundadora, sua atuação nos anos de chumbo faz com que ela seja respeitada para algo que transcende o próprio PT e, na verdade, o antecede; a solidariedade entre todos aqueles velhos que lutaram contra a Ditadura, para quem a figura de uma companheira que foi torturada por três anos sem "abrir" o nome de ninguém não é pouca coisa, acreditem.


Evidentemente, sua capacidade política reside na administração - na qual tem um histórico respeitável desde o governo municipal porto-alegrense de Alceu Collares nos fins dos anos 80 -, não no campo eleitoral, o que lhe causou dificuldades imensas, especialmente no momento efetivo da disputa, quando a ritualística da democracia de representação exige o domínio da retórica, da oratória e das artes dramáticas. Ainda por cima, seu comando de campanha, especialmente o seu tentáculo poético-militar - seus marqueteiros - que falhou em não saber usar suas habilidades, moldando-as de um jeito mais palatável - como Duda Mendonça fez com Lula em 2002 ao ter tornado sua imagem pública aquilo que ele era, mas não parecia ser -, colocando-a frequentemente numa posição desconfortável e artificial. 


A candidata petista teve de, por si só, quase como que por tática de guerrilha, salvar sua candidatura, o que aconteceu quando ela fugiu ao script no debate da Bandeirantes do Segundo Turno e jogou Serra contra a parede, em um momento em que o candidato adversário conseguia esvaziar as monumentais conquistas sociais do governo por meio do terrorismo fundado superstição - incorporando de vez o rótulo de candidato do Medo, em um sentido spinozano da coisa mesmo. Aquilo foi o ponto de inflexão de uma candidatura em crise, que depois de meses de crescimento nas pesquisas via sua vantagem perigosamente virar vapor num movimento que vinha desde Setembro, seja pelo marasmo de sua campanha ou da atuação eficiente da mídia em desconstruir sua figura pessoal, usando a candidatura Marina como escada para tanto, em um momento em que Serra sequer conseguia captar os dividendos dos temores que ele próprio produzia - com isso não digo que Marina fez o jogo de Serra, isso não existe, candidatos fazem sempre o seu próprio jogo, mas ela serviu de instrumento para tanto sim. 


A importância histórica da vitória de ontem se assenta em um tripé: [i] eleição de alguém com esse histórico de combate à ditadura - muito embora FHC e Lula também tenham resistido à Ditadura, o simbolismo e a intensidade da forma como Dilma realizou isso é diferente porque importou objetivamente em martírio; [ii] ter chegado poder de uma pessoa que cujo histórico é uma ponte entre o a luta socialista e a trabalhista no Brasil como nos lembra Idelber Avelar - ainda que isso tenha, institucionalmente, se realizado na Carta ao Povo Brasileiro, resultando em realizações práticas que expressam essa intersecção, o simbolismo da chegada ao poder de uma figura pessoal que representa isso, é fundamental; [iii] Por fim - e principalmente - na importância da chegada de uma mulher ao cargo mais importante da República. Machismo não é uma problema unicamente brasileiro, ele é mais do que isso, a nossa própria forma de organização, cujo embrião está na antiguidade clássica ocidental se assenta sobre a vedação da participação feminina nos assuntos da coletividade, portanto, o significado da eleição de uma mulher na maior unidade política latina de todos os tempos vai para muito além de qualquer raciocínio mais ingênuo sobre igualdade entre os gêneros: Ele se situa no ponto nevrálgico de um dos maiores cortes sobre o qual foi construído o próprio conceito de política.


Esse ponto último, explica a dificuldade das mulheres ascenderem a cargos eletivos ou, uma vez conquistados, se manterem neles. Dilma é uma guerreira do povo brasileiro e terá pela frente uma batalha tão dura quanto a luta contra a Ditadura ou contra o câncer, que é se afirmar sua figura pessoal na condução de um projeto de desenvolvimento social que é obrigado a fazer uso de um aparato instrumental essencialmente patriarcal e machista, que tenderá a mitigar seus acertos e maximizar seus erros, embora conte com uma boa linha de frente no Congresso e tenha quadros suficientemente bons para montar uma grande equipe ministerial. O desafio que terá pela frente será duro. Seu governo estará sob o fogo cerrado da rearticulação da direita tradicional que, como qualquer fera acuada, é particularmente perigosa; a questão é saber organizar as ferramentas que terá em mãos, não se curvando a conciliação - mas sim mantendo e fortalecendo uma postura de negociação -, para lidar com um fenômeno inédito em nossa história: Hoje, nosso grande problema é quebrar a cabeça para saber como lidar de forma sustentável com os recursos que estão entrando em abundância no nosso país e não mais lidar com a escassez, o que é sintomático em relação aos oito anos de Governo Lula - Governo que a nossa presidenta foi das maiores protagonistas, sem dúvida.


P.S.: A foto que ilustra o post é da queima de fogos na Avenida Paulista, onde aconteceu a principal comemoração da vitória de Dilma aqui em São Paulo. Fui correndo para lá depois que vi que o resultado das urnas estava consolidado. Foi uma festa belíssima, especialmente, o show de Alceu Valença, de uma poesia encantadora, o ponto alto foi Anunciação.


P.S. 2: Se vocês acharem pela Internet algum vídeo da TV Estatal Chinesa com um carinha muito parecido comigo ligeiramente alcoolizado e falando algo sobre eleição de Dilma e a  importância de conjugar desenvolvimento econômico com liberdade, não era eu, só alguém muito parecido comigo mesmo que estava com quase todos os meus amigos - mas sim, ele tinha razão :-)








Atualização das 19:38: Lindíssimo o post do Murilo no indispensável A Navalha de Dalí, Dilma: fazer rescender o perfume do tempo.

domingo, 31 de outubro de 2010

Eleições 2010: É Hoje

Votei cedinho, às 8:45, ainda troquei uma ideia com alguns conhecidos e agora estou aqui. Sim, é claro que eu dilmei. Aquela chuvinha providencial de ontem serviu para limpar o ar e deixar um clima gostoso.  Existe pouco o que dizer agora, votei tranquilo, estou numa boa e agora é só aguardar. Foi uma campanha dura e longa, onde o PSDB conseguiu implodir o debate a ponto de nos sentirmos em 89 de novo - ainda que com essa maravilhosa ferramenta chamada Internet. Hoje,  a história acaba - espero que com um desfecho feliz, inclusive.  Agora, só resta esperar e torcer. Hoje, para variar, o Idelber, para variar, escreveu um baita post sobre o momento que vivemos. O pessoal da Revista Fórum está transmitindo ao vivo uma série de debates sobre a conjuntura no 48 Horas Democracia. E aí, do lado de vocês, meu caros leitores, como anda a votação?


Atualização: Idelber está na tweetcam, bacana a análise dele. 
Atualização das 19:11: Saiu o boca de urna, 58 x 42 para Dilma.

sábado, 30 de outubro de 2010

Eleições 2010: É Amanhã

Amanhã é o desfecho da mais longa eleição presidencial da nossa história. De uma das mais sujas desde 1989. Trata-se de uma questão que transcende ao âmbito eleitoral, elas são a expressão eleitoral das profundas mudanças ocorridas nos últimos vinte e dois anos - as mais velozes já vistas, aliás -, que começam na emergência da necessidade de se construir uma democracia sobre os escombros do Estado Varguista - que o Golpe Militar de 64 transformou em simulacro até corrompê-lo em definitivo -, passam pela tentativa fracassada de liberalização em Collor, a experiência de FHC - privatizações, abertura econômica, estabilização econômica via monetarismo - e a polarização entre PSDB - e o projeto de modernização conservadora - e o PT - o projeto de modernização focada no desenvolvimento social. A violência desse embate - bem como a própria maneira como os efeitos dessas ações políticas afetavam e afetaram seus próprios autores - alteraram consideravelmente as duas agremiações. O embate que teremos amanhã, entre Dilma Rousseff e José Serra, diz respeito a continuação do projeto de desenvolvimento social fundado nos compromissos da Carta ao Povo Brasileiro e a oposição a isso, expresso no antipetismo serrista, que ao longo da campanha não pautou outra plataforma a não ser uma contrariedade confusa ao PT. Não deixaram de ocorrer golpes baixos e o debate eleitoral, a exemplo de 1989, saiu da esfera da racionalidade em vários momentos. Dilma entra na semana final com uma diferença considerável em relação ao seu oponente (tanto no Datafolha quanto no Ibope), diferença fixada pela maneira como ela pautou a campanha a partir do histórico debate do segundo turno da Bandeirantes. Serra não conseguiu reverter o quadro que lhe era desfavorável no Nordeste e no Norte e não virou no estado chave para qualquer disputa, Minas Gerais. É difícil confiar em pesquisas, existe o fator abstenção (que, por natureza, nunca é bem captado), mas as chances de Serra são realmente pequenas. O Segundo Turno, como vive dizendo o nosso NPTO, aconteceu por conta da candidata que não foi para ele, logo, seu clima não poderia ser diferente, mas ao contrário do que se diz, sempre pode ficar pior, e a campanha feita por Serra manchou sua biografia e inviabilizaria um eventual (porém improvável) governo seu. Do lado de cá, a tranquilidade e a convicção do voto em Dilma prosseguem inabaláveis assim como um profundo estresse por esse prolongado - e preocupante - pleito.


P.S. 1: Os posts sobre meu voto em Dilma e aquele sobre o meu não voto em Serra prosseguem como os mais visitados s comentados dos últimos trinta dias.


P.S. 2: Amanhã deve pintar algum texto por aqui, mas na segunda lançarei na análise do desfecho das eleições. Em seguida, lançarei análises conjunturais específicas sobre o Congresso e as regiões do país.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Ato na USP pró-Dilma -- Atualizado

A União Faz a Força
Suplicy
Marilena Chauí

Lotado até em cima
Parecia uma Pintura Mural
A Mesa



O Ato pró-Dilma, realizado no fim da tarde de ontem na FFLCH-USP foi espetacular. Uma mesa com Alfredo Bosi, Celso Antônio Bandeira de Mello, Eduardo Suplicy, Marilena Chauí, Vladimir Safatle entre outros não é pouca coisa. Cheguei bem cedo lá, numa caravana de puquianos, para evitar o trânsito e mais transtornos - para quem não conhece São Paulo, a USP fica perto só de si mesma -, acompanhamos a chegada do pessoal, lotando pouco a pouco pátio da praça de alimentação do pré da Geografia e da História. Era engraçado. A militância que chegava ia formando uma multidão na qual apesar do predominio do vermelho, via-se outras cores, formando um colorido colorado, o que parecia mesmo uma pintura mural mesmo. As falas de Safatle, clamando pelo discernimento e lembrando que a capacidade de distinguir é das principais da inteligência, de Bandeira de Mello nos lembrando do valor de uma mulher que testemunhou com o próprio corpo a sua convicção na luta contra a ditadura foram belíssimas. A fala emocionada de Suplicy, nos lembrando de sua fala contra Agripino Maia no Senado, foi lindíssima.  Marilena Chauí, chamando a atenção para a possibilidade de um atentado de bandeira trocada, no qual militantes anti-Dilma, vestidos com a camisa do PT, poderiam causar algum incidente para culpar Dilma fez uma fala dura porém necessária, sobre os riscos reais de algum factóide catastrófico nessa semana - além de ter feito um belo discurso sobre a inflexão do país sob Lula. Enquanto todos falavam, lá estava eu, na frente tirando minhas fotos enquanto a multidão crescia. A certeza que eu tinha naquele momento é que este projeto não pode ser interrompido, ainda mais levando em consideração que aquele que se opõe a ele, nada mais é que um retorno as desventuras dos anos 90. O ato termina, depois do calor intenso daquela tarde/início de noite, começou a garoar e da garoa veio o vento que anunciou uma chuva torrencial enquanto eu partia.

domingo, 24 de outubro de 2010

Eleições 2010: A Última Semana, depois de Dossiês e Bolinhas de Papel

(Cruzadas -- a religião como pretexto para a violência e a dominação)

Esta é a última semana da campanha eleitoral mais longa da história do Brasil - e, ao mesmo tempo, da mais suja, obscurantista e preocupante campanha desde o fim da ditadura militar, ouso em dizer, pior do que a de 1989. Também, da eleição mais importante para os rumos do país nas próximas décadas. Sinceramente, me assustei com muitas coisas, dentre elas com o grau de irracionalidade do discurso da direita, algo que rompeu definitiva e irremediavelmente com o consenso de modernização conservadora - com o PSDB a frente, mas com o DEM junto - dos anos 90 para dar lugar a um discurso perigoso, violento e cínico - assentado sobre o discurso de uma mídia corporativa, que há muito deixou de informar para fazer política partidária, e alinhado a um extremismo religioso belicoso, para o horror de liberais como Cláudio Lembo.


Depois dos reiterados erros de campanha do PT em Setembro, deixando a peteca cair ao insistir  pela política do mínimo esforço - sem mover sua militância, convocar intelectuais e artistas ou pautar as diferenças entre os dois projetos (e seus respectivos efeitos) - enquanto o a campanha serrista radicalizava no discurso de desconstrução da figura pessoal de Dilma - o que, apesar de não resultar em transferência de votos para Serra, tirava votos de Dilma para Marina -, o que resultou no segundo turno.Tivemos, depois, uma primeira semana de natural crescimento de Serra, Dilma acertou na mosca no debate da Bandeirantes, onde ela reverteu o quadro, acabou com a falácia do aborto e passou a pautar a campanha. Estava claro que a semana passada era decisiva para a campanha. E Dilma se saiu enormemente melhor do que Serra, pautando a campanha, comparando governos e expondo as falhas do seu adversário em São Paulo. Mais do que isso, os atos do PT no Teatro Casa Grande no Rio ou no Tuca em São Paulo (que eu não pude ir e estou chutando minha canela até agora por conta disso) deram uma energia enorme para a campanha.


O cenário atual, no entanto, é pautado pelo episódio mais jocoso da história política nacional: Em passeata no Rio de Janeiro, realizada nas imediações do sindicato dos mata-mosquitos - aqueles mesmos que Serra demitiu quando era Ministro da Saúde porque, por óbvio, eles eram culpados pela epidemia de dengue que assolava o estado -, Serra se viu diante de uma intensa manifestação popular contra sua figura, enquanto caminhava protegido por um gigantesco aparato de segurança - que, no entanto, foi furado por uma bolinha de papel que acertou Serra. Eis que o candidato tucano seguiu a caminhada e depois de uma ligação "começou a se sentir mal" e foi para um hospital. Serra, como bem observou Paulo Nogueira - dos típicos intelectuais historicamente próximos ao PSDB que pularam do barco -, deve ser a primeira pessoa do mundo a fazer tomografia por conta de uma "fita crepe" - o que é até uma bondade do Nogueira, afinal, tratou-se de uma bolinha de papel mesmo.


Como se não bastasse, a mídia - Folha a frente - voltou a requentar a história do dossiê contra Serra e a liga-lo a  equipe de campanha de Dilma. A Record, no entanto, contou a verdadeira história, coisa que o pessoal que frequenta este canto da blogosfera conhece bem: O dossiê foi montado pelo jornalista Amaury Jr. há um ano, sua ligação, portanto, nada tem a ver com Dilma ou o PT, mas sim com o fogo amigo dentro do PSDB, em um momento em que Serra e Aécio se degladiavam pela indicação à vaga de candidato à Presidência pelo referido partido. O tiro da midia saiu rapidamente pela culatra enquanto o fantasma da bolinha de papel colocava a campanha de Serra definitivamente no rol da total irracionalidade .


Por outro lado, os principais institutos de pesquisas finalmente começaram a concordar apontando 50% x 40% para Dilma no Datafolha, 51% x 40% no Ibope e 51% a 39% no Vox - o que daria uma média de 50,66% x 39,66% para a candidata petista, ou 56% a 44% no voto válido. Nenhuma dessas pesquisas, no entanto, captou o impacto da bolinha de papel sobre Serra, entretanto, o tracking interno do PT acusa crescimento de Dilma - o que deve ser visto com suas ressalvas como o próprio Rovai alerta, afinal trackings enxergam bem tendências, mas não são tão precisos assim (como o primeiro turno ensinou a todos). Isso passa ao largo de ser um já ganhou, mas sim que a campanha de Dilma entra bem melhor na volta final do que a de Serra, o que é fruto da mobilização dos eleitores e do partido, o que não deve ser interrompido agora. É fato também que a julgar por tudo que aconteceu, a campanha de Serra irá apelar como nunca nessa última semana e tudo - menos propostas ou críticas válidas - é possível.


P.S.: Achei um vídeo da saída de Dilma do TUCA depois daquele memorável debate do primeiro turno. Eu apareço por volta do 1:58 indo cumprimenta-la (A filmagem comprova a saída em fuga de Serra). 


Atualização: Vale a pena ler a reportagem da Istoé sobre a Guerra Religiosa de Serra (em duas partes, aqui e aqui).

domingo, 17 de outubro de 2010

Porque Eu Não Voto em José Serra



Como é sabido, eu declarei meu voto aqui no Primeiro Turno, portanto, não é o caso de fazê-lo novamente. No entanto, eu creio que é necessário pontuar algumas coisas aqui em relação ao candidato oposicionista, José Serra, especialmente o porque votar nele não passou na minha cabeça em momento algum dessa campanha. Em um primeiro momento, não, continuo não achando José Serra, o José Serra indivíduo político, como o pior quadro do PSDB, meu ponto é outro: A questão aqui, ao contrário do que é posto pelos marqueteiros, é que candidato não se mede por si, mas pelo que motiva grupos econômicos e políticos a o apoiarem - e construírem sua candidatura - bem como as relações que o envolvem. 


Por exemplo, antes de pensar em votar em alguém, pensemos no seguinte: Qual o motivo de sua candidatura existir? Acaso seria um nanico folclórico propondo trens voadores? Um aventureiro? Relações humanas medem-se pelos seus fins como bem diz Bandeira de Mello. Sendo mais específico: Por que lançar uma candidatura contra a continuidade de um Governo que fortaleceu o Trabalho, aumentando a renda e o número de empregos - ainda construindo o embrião de uma rede de proteção social para o pessoal que está em situação de miséria? Dizer que é para continua-lo mantendo o que é bom e melhorando o que não é tão bom é falso. Se reconhecesse isso e José Serra teria se filiado ao PT no ínterim do Governo Lula, mas não, enquanto foi Prefeito e depois Governador de São Paulo, o candidato, aliás, estreitou seus laços com grupos - em especial com a mídia corporativa - que não se cansam de demonizar medidas como o bolsa-família - uma pequena remuneração de cunho humanitário voltada para impedir que pessoas morram de fome. Se duvida disso, me responda por que Maria Rita Kehl, ao escrever um artigo no Estadão contra os preconceitos sobre o Bolsa Família acabou demitida de lá?


A cândida candidatura Serra diz respeito ao grande debate político dos anos 90. De um lado, os petistas defendendo um democratização fundada no paradigma público e no combate firme às mazelas históricas da nossa sociedade, enquanto do outro o PSDB propõe - como continua propondo - privatizações não só das estatais, mas do espaço público, sob os auspícios de uma razão administrativa maior que só os iniciados entendem, cujo fim é uma eficiência abstrata e vazia - o que no fim se expressou da maneira mais brutal possível nos anos FHC com a mais brutal geração de desemprego da nossa história, queda da massa salarial e algo que eu julgo particularmente perturbador: Um saldo que implicava na manutenção de algo acima de 10% da nossa população economicamente ativa fora do mercado de trabalho, como um exército de reserva pronto a servir como elemento de dissuasão de reivindicações trabalhistas das mais elementares (o velho "do que você está reclamando, já viu o tamanho da fila lá fora?"), com projetos sociais insuficientes para protegê-los. Se você acha minhas preocupações sobre queda do poder aquisitivo e desemprego infundadas, me explique por que Abílio Diniz, um dos maiores empresários da área varejista, está apoiando Dilma?


Muitos amigos meus tucanos argumentam que com Serra seria diferente do que foi com FHC. O ponto é que isso é uma afirmação que não encontra vínculo com a realidade. Ora, em que momento o PSDB, ou uma ala sua, fez autocrítica pública dos erros cometidos nos anos 90 durante o Governo FHC? Ao contrário, vemos argumentos esquizofrênicos  que começam com "o Governo Lula foi um horror", depois afirma-se que ele só deu certo porque continuou o Governo FHC e, por fim, que agora é começo do zero e Serra é "o mais preparado" para arcar com o legado do pós-Lula. Vamos por partes: 


1. Os aliados do PSDB - e por vezes os próprios tucanos - mentem ao dizerem que o Governo Lula foi um horror, ora, não é isso que os números provam - seja dos seus resultados ou da opinião popular -;


2. Se o Governo Lula continuou o Governo FHC, o que não é verdade, por que ser contra ele então? Isso é estranho, principalmente se levarmos em conta que as medidas tomadas em prol de renda, emprego e proteção social foram diferentes e com Lula os resultados foram bem melhores? ; 


3. Serra não é mais preparado para dar continuidade ao legado de Lula do que uma ministra do próprio Governo Lula, especialmente, se pensarmos no que foi sua atuação como Governador, onde ele não apenas não negociou com os variados setores, protagonizando cenas de confronto como na invasão da USP, guerra de polícias e agressão aos professores, como realizou projetos fracassados como a Via 4, substitutivo falso do metrô que não apenas só resultou até agora num buraco imenso como também deu numa linha que liga nada a lugar nenhum.


Existe um ponto, entretanto, que me preocupa particularmente, é um ponto que Serra pode ser pior do que FHC foi e ele remete automaticamente à política externa: Se FHC não avançou numa política Sul-Sul nem trabalhou firmemente por uma política de integração da América do Sul, por outro lado, sua política externa foi favorável à democracia e à paz no continente como se viu nos casos da Colômbia, onde o Brasil não encampou uma aventura bélica como propunha Clinton, ou no caso venezuelano, no qual o Brasil não deu sustentação ao golpe contra Chávez. Serra, ao contrário, faz declarações absurdas a todo momento nesse plano. E se retórica demagógica é algo indesejado em matéria de política interna, em termos de política externa é algo que não deve ser admitido, consistindo num verdadeiro atestado de irresponsabilidade.


E assim segue a campanha do senhor Serra, baseada em baixarias inacreditáveis como eu pensava já não ser mais possível depois dos anos 90, se escorando em fundamentalistas religiosos que não respeitam a laicidade do Estado - e que ele julga ter controle, mas não terá -, com uma base parlamentar enfraquecida - que lhe obrigará a depender muito mais do fisiologismo do Congresso do que Dilma - e com promessas demagógicas que escondem o essencial dos próximos anos: Com quem e como será distribuída a riqueza do petróleo do Pré-Sal e como será estruturado o Plano Nacional de Banda Larga. Eu voto convicto e Dilma por conta do projeto que ela representa, mas mesmo que você discorde dele, reflita antes de mais nada sobre os riscos claros e iminentes de votar em Serra agora: É jogar pela janela a prosperidade que a duras penas conseguimos nos últimos anos e, pior, o que nos levará a passar bons anos tentando recupera-la, se conseguirmos, claro.