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O Mapa da Mina |
O caso Wikileaks continuou repercutindo fortemente, seja pela prisão contestável de Assange quanto pela repercussão dos cables, cuja divulgação segue a todo vapor ou mesmo pela repercussão do assunto junto à Ordem Internacional. Se Assange continua preso na Inglaterra com futuro incerto e apesar dos boicotes ao site do Wikileaks propriamente dito, fato contornado por uma ação conjunta sem precedentes na qual hackers do mundo todo têm se desdobrado para manter canais de divulgações das informações. Ainda, líderes importantes do mundo em desenvolvimento com Putin - sarcasticamente, como lhe é peculiar - e Lula se pronunciaram contra a prisão do fundador do Wikileaks - e, claro, das duas falas a de Lula é que se sobressaiu, seja porque falamos de um líder que termina seu segundo mandato extremamente popular, depois de ter vencido eleições limpas ou pelo fato de que o seu Governo tenha respeitado firmemente as liberdades individuais, embora tenha sido alvo de uma campanha dura de certos setores da mídia corporativa em sentido contrário, numa contradição que ele soube explorar bem em sua fala (ver na quebra de página):
Em suma, Lula, em sua melhor forma política, traz à baila o calcanhar-de-aquiles da mídia corporativa que lhe fez, ao longo dos últimos oito anos uma verdadeira oposição canina, ao mesmo tempo em que também pega seus colegas líderes do mundo desenvolvido, arautos da civilização, no contrapé. Essa fala tem mais peso do que se pode supor no que concerne o que será o futuro Governo Dilma e isso tem pouco a ver com política externa, dado que Lula apenas referenda a linha adotada pelo Ministério das Relações Exteriores nos últimos anos; a questão aqui é a política de comunicação: A pauta passou a ser levada a sério depois de anos cedendo o Ministério para um homem do sistema como Hélio Costa sem ganhar nada em troca - de bom, claro.
Seja a primeira entrevista de Dilma não sendo dada para a Globo, a indicação de Paulo Bernardo para o Ministério das Comunicações ou mesmo a entrevista de Lula para os blogueiros e essa sua fala apontam para um horizonte claro: Os petistas perceberam que sua própria - e elementar - sobrevivência eleitoral demanda a expansão da Internet e das opções em meios de comunicação em massa e, mais ainda, que é quase impossível conceber um cenário de trégua por parte do grande establishment midiático, capaz até de transformar bolinha de papel em rolos de fita - na falta de chance de surgir, quem sabe, com uma bigorna. Mais até do que isso
Por outro lado, a jornalista Natalia Vianna continua divulgando os cables que dizem respeito ao Brasil - ao todo, eles chegam a mais de 5 mil - em blog recém-lançado em parceria com a CartaCapital. O que chega até agora é o incômodo americano com a política articuladora de Lula que põe a estratégia de Washington em xeque: Ao mesmo tempo que não rompeu os EUA, a política externa altiva e ativa de Amorim rompeu com o atlantismo , negociando com interlocutores do mundo inteiro, mesmo adversário estratégicos americanos, o que exige do Departamento de Estado um grau de sofisticação no trato com o Brasil que ele nunca precisou ter. As notícias que chegam pelos cables sobre o Brasil se dividem em três eixos centrais: O detalhamento da articulação política americana em torno das nossas reservas minerais (sobretudo, energéticas), o lobby para a venda de caças para a Força Áerea e as análises do processo eleitoral.
Se no terceiro caso esbarramos com o já sabido desconhecimento crônico dos americanos sobre a política nacional mais alguma especulação sobre a doença de Dilma, a sutil preferência por Serra e quetais, no segundo e primeiro caso temos informações mais relevantes; se na questão da venda dos caças se manifesta o incômodo claro com a política externa e a proximidade brasileira com os franceses - assim como o nome dos ministros amigos, o que traz à luz de forma cada vez mais clara a face de Jobim e seu papel de contra-ministro, seja nas relações internas ou externas -, no primeiro caso, topamos com detalhes cada vez mais claros de um jogo no qual converge a política estratégica dos EUA para cima dos nossos recursos naturais e o jogo eleitoral brasileiro, o que revela a grande diferença entre PT e PSDB hoje: Os lados que cada um deles ocupa no grande tabuleiro internacional.
Sim, estou falando das posições de bastidores do candidato Serra que vieram à tona hoje, inclusive, repercutindo na grande mídia; como eu coloquei aqui durante a campanha eleitoral, um dos grandes itens dessa campanha presidencial era o Pré-Sal, posto que não havia mesmo concordância entre os dois candidatos e os dois projetos: Se o PT postulou um modelo de soberania energética e distribuição dos lucros da exploração, o PSDB insiste num modelo privatista, cujos lucros gerados invariavelmente tendem a ficar por cima e, mais do que isso, nem por dentro, para além do que aponta toda a parafernália retórico-tecnocrática ou, mesmo, os ensurdecedores silêncios de Serra na campanha passada, em relação a esse tema, inclusive. E volto a dizer, o Wikileaks cumpre nesse tema aquilo que é a sua grande utilidade prática, colocar definitivamente certos assuntos fora do campo da teoria da conspiração: Sim, há provas de que o interesse americano sobre a exploração Pré-Sal num regime de concessões é claro e envolveu manobras nos bastidores, inclusive, para frustrar modelo de partilha proposto pelo Governo Lula, com a anuência do nosso Serra.
Sim, isso também revela que estamos em um patamar primário de debate da política energética, onde basicamente tudo gira em torno em como explorar o modelo posto - com suas deficiências e problemas vários que, no entanto, passam batido -, mas existe um diferencial aí que são os interesses que se articulam em torno de um projeto e outro e o que isso pode efetivamente retornar para a sociedade; em um, temos um modelo nacional e socializante, no outro, o enquadramento no jogo do Capitalismo Internacional e suas grandes empresas no comando. Isso faz muita diferença. Tudo isso, aliás, ajuda a descortinar grande parte do jogo que está em disputa neste exato momento e que teve um capítulo importante durante Setembro e Outubro. Mantenhamos os nossos olhos abertos.
Atualização das 19:29: Passei o vídeo para a quebra de página para não atrapalhar os arquivos (a mudança de formato do Youtube ficou uma droga mesmo), mas ele está linkado na citação de todo modo.
Atualização II 14/12 às 16:46: Seguem os links para os cables sobre a questão petrolífera e sua íntegra copiada e colocada abaixo da quebra de página: 28/01/08, 15/04/08, 30/06/08, 21/01/09, 27/08/09, 02/12/2009 e 21/12/09 (caso você não saiba inglês, jogue os textos no tradutor do Google e salve as informações.









