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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O Drama Barroco de Haddad: Por que não pôr fim à Operação Delegada?

O Enterro de Cristo -- Roldán
Um camelô morreu atrapalhando o trânsito. No meio do caminho da democracia, havia o corpo morto de um camelô. À bala. Tiro certeiro na cabeça, bem no meio da avenida. Poderia ser eu (e era, por que não?). A rebelião que se instaurou, um pequeno levante, ao mesmo tempo em que é marcado pela névoa de gás (lacrimogêneo, com se precisássemos disso para chorar) que sobe, faz descer, por paradoxo, outras cortinas de fumaça.

Uma pausa, um corte, uma narrativa.

Fernando Haddad, em seu breve governo, se viu em meio ao epicentro do Junho de 2014, ousou políticas inovadoras, esteve no meio de um debate para o bem e para mal. O fato é que sua aprovação -- alta para os padrões paulistanos nos cem primeiros dias -- caiu como ocorreu com todas as autoridades e instituições na esteira das Jornadas de Junho, mas ela não registrou nenhuma recuperação ao contrário do que aconteceu com a presidenta, governadores e demais prefeitos.

Há poucos dias, contudo, a popularidade do prefeito registrou sua primeira recuperação em mais de um ano, animada pelo sucesso da política pró-ciclofaixas: a ampla adesão às faixas de bicicletas somada às faixas de ônibus seriam a "resposta definitiva" no campo da mobilidade e do transporte urbano, o rompimento da barreira que impedira o prefeito de melhorar seus índices. São Paulo, terra do automóvel como elemento de promoção moral e dignificação, se tornou como um delírio anarquista do Provos: autônoma e alegremente pedalante.

Por outro lado, dois eventos bombásticos -- literalmente -- tomaram as ruas e os noticiários: a desocupação do prédio de um antigo Hotel no Centro e a execução de um ambulante na Lapa. Nos dois casos, a polícia militar agiu com sua habitual truculência e despreparo, aumentando um confusão que ela deveria dirimir. A cidade virou uma praça de guerra.

No primeiro caso, a prefeitura não mediou como deveria. Embora, de fato, a reforma do prédio fosse demasiadamente cara, como apurou a prefeitura, com a ordem judicial da reintegração de posse, é de se esperar que a retirada de quase mil pessoas, com presença de contingentes policiais, seria problemática. Não havia um plano de contingência, a truculência veio e um massacre policial durou quase um dia todo no Centro.

No segundo, a polícia militar, agindo sob os auspício da Operação Delegada, um convênio aberrativo entre Prefeitura e Polícia Militar criado na gestão Kassab, acabou executando um camelô de forma vil e covarde. A missão que resultou na execução consistia no exercício, pela PM, de função de repressão ao comércio ambulante.

Acerca do primeiro caso, Haddad acenou com a tese de que os sem-teto foram usados por oportunistas. Sobre o segundo, que a execução foi um caso isolado. É fato que os sem-teto não são oportunistas, ele não têm oportunidades ou opções -- e mesmo que se considere a ação de algum agente provocador, possivelmente não eram os sem-teto ou os seus dirigentes os maiores interessados. No segundo caso, mortes de pobres pelas mãos da polícia não é algo ocasional -- nem pelas mãos do próprio policial, que já respondia a processo por homicídio.

Haddad, com muito pouco, faz e ousa bastante. É um prefeito consideravelmente melhor do que a média -- e um dos melhores que São Paulo já teve. Mas não consegue lidar com crises, porque as crises são imprevisíveis, não cabem em planos ou planejamentos -- nem são solúveis por qualquer política pública, mas por um processo político, um método político. 

Se a gestão não aceitar isso, sobretudo num cenário de profundas crises -- e, pior, de alta complexidade e custos (não só financeiros) para a resolução dos problemas --, fatalmente se pegará frequentemente apostando suas fichas na repressão policial -- o que, em matéria de Brasil, é uma escalada para o desastre.

A ideia de Haddad como seu duplo, o prefeito de esquerda corajoso e competente que anima a todos e, ao mesmo tempo, um tecnocrata frio e insensível toma conta do imaginário e dos debates. O fato é que a aparente quimera -- dizer que Haddad são os dois ao mesmo tempo seria como falar em "bola quadrada" -- esconde a maneira como ele se ajusta: a exemplo da social-democracia alemã, ele põe a concretude das relações materiais abaixo do Plano.

A realidade não se verga ao ideal, salvo à força. O que põe qualquer político de esquerda numa encruzilhada ética (em um sentido). O nazismo não ascendeu na Alemanha por pura ignorância, ou necessidade, daquele povo, mas em parte porque, antes, a social-democracia normalizou determinadas práticas como a suspensão de direitos que, não raro, levaram à repressão de trabalhadores.  A esquerda se colocou numa zona cinzenta onde todos pareciam a "mesma coisa", o que naturalizou seus próprios algozes.

Muitas questões podem ser ponderadas, mas não resta dúvida que passou da hora de pensar em qualquer método cujo plano B seja a polícia. Abolir a Operação Delegada, como se aboliu sem maiores prejuízos o "Nova Luz" de Kassab, é um primeiro passo. Aceitar que as graves demandas da metrópole demandam conselhos de interlocução e negociação é outro ponto. Não é possível fazer política habitacional sem considerar as partes envolvidas. Nem que se aja corretamente na resolução de problemas, em determinados casos, os problemas não deixarão de ocorrer.

A política existe para resolver pacificamente os problemas comuns. A ideia estanque de ordem pública podem levar, aí sim, a uma real ameaça à ordem pública igualmente protagonizada pelas próprias autoridades que deveriam media-la. Haddad precisa, o quanto antes, se desvencilhar disso, senão restará indiferenciado em relação à massa conservadora com a qual concorre.

Foram as bicicletas, e não a overdose policialesca, que colocou Haddad de volta ao jogo. Será a overdose de polícia que poderá lhe criar problemas novamente. É bastante simples.




sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O Enigma Político de São Paulo: Não Existe Amor na Avenida São João

São Paulo vive um momento de emergência. A violência policial registra uma escalada terrível, mas o mais assustador é que isso é consequência, ou melhor, a resposta absurda dada pela classe política local para crises sociais bastante agudas. A água já começa a faltar numa crise hídrica que, longe de ser mero acaso da natureza, é efeito de uma certa política errada para o setor. As universidades ardem. O trânsito grassa. Não, não está fácil e muito ainda poderia se dizer nesta noite insone de quase primavera.

Mas antes, um corte narrativo: a capital dos paulistas frequentemente foi bem retratada na música. Duas em especial, Sampa de Caetano Veloso e Não Existe Amor em SP de Criolo, eternizam certos momentos da cidade. Ambas são, pois, pura arte em um sentido deleuziano. Sampa é a São Paulo do final dos anos 1970, uma época absurda, mas de uma esperança justificada como raramente se viu nos momentos históricos em que a esperança veio à tona; Não Existe Amor em SP, por seu turno, é uma das raras elaborações esteticamente exuberantes do nosso tempo, uma poesia lindíssima sobre algo feio -- é uma precisa narração da São Paulo de hoje, um verdadeiro triunfo estético, pois é algo belo sobre um conteúdo trágico e grotesco.

Existem contiguidades narrativas tanto na letra de uma quanto da outra. São Paulo continua sendo São Paulo, é uma terra de feiura bela, mas o que ocorre agora é um momento em si feio. São Paulo sempre foi cheia de emoção na sua frieza, mas hoje há um vazio que cresce. Não Existe Amor em SP não nega as premissas de Sampa, mas as atualiza na forma de um soco no estômago com violino ao fundo. Não como não perceber na profundidade das duas letras os dois momentos, os dois movimentos; alguma coisa acontecia no nosso coração em 1978, quando cruzávamos a Avenida Ipiranga com a São João, mas hoje isso também não deixa de acontecer, só que não é mais de emoção que falamos: não há mais amor na Avenida São João, há bombas. 

Há dois dias, o prédio do Hotel Aquarius, há dez anos abandonado e ocupado há poucos meses pelo movimento de moradia, foi desocupado violentamente pela polícia, com uma ordem judicial absurda. O confronto se alastrou pelo centro da cidade, a polícia foi violentíssima. O confronto começou e recomeçou várias vezes. Uma catástrofe bíblica. Ontem, um camelô foi executado a sangue frio por um policial na Lapa, gerando uma revolta massiva que parou o bairro, conhecido centro de comércio popular da zona oeste da capital paulista.

A política de repressão, mantida às custas da mobilização de uma tropa mal treinada, mal remunerada e maltratada serve como substitutivo da política. Ou da impossibilidade das políticas locais, tal como são concebidas, de responderem as demandas políticas e sociais. A classe política mais mesquinha, limitada e perversa desde a república velha dá as caras, ela é mortal. O país não vai bem, São Paulo, acelerada à velocidade da luz, tampouco. Há várias São Paulos, várias possibilidades de experimentar e pertencer aqui, como qualquer outra capital. A crise de São Paulo é a crise do mundo e do país, a crise do nosso tempo, nas condições históricas e geográficas determinadas daqui: e dói, nossa crise é mais perturbadora mentalmente do que, talvez, crises mais violentas fisicamente como a do Rio.

Nesse contexto, o governador do estado, Geraldo Alckmin, está prestes a se reeleger em primeiro turno. O prefeito da capital, Fernando Haddad, no entanto, está com a popularidade bastante baixa. É de se salientar que a popularidade do governador encontra seu ponto mais baixo na capital. 

Alckmin governa com punho de ferro, a partir de currais eleitorais no interior e na falta de oposição, repetindo no paradoxo (neo)liberal: estado pequeno para fazer reformas sociais, mas incrivelmente grande na hora de reprimir os resultados óbvios da ausência dessas políticas. Mas sua capacidade pairar acima das discussões, deslizando com um réptil, é única.

Haddad, por seu turno, realizou políticas importantes, fez o novo plano diretor, colocou ciclofaixas e faixas exclusivas de ônibus para o horror dos carro-dependentes, mas erra fragorosamente ao relativizar as ações de uma polícia militar que sequer comanda. E repetiu isso agora, em relação ao caso da Avenida São João, depois de momentos ruins ano passado, quando não condenou com dureza a repressão em Junho -- ao contrário, mas pagou e paga por isso. A não articulação para dar conta das crises pontuais que vão emergir será fatal, a via policial é um desastre anunciado -- que, em seu caso, tem um peso negativo redobrado, uma vez que sua base de apoio (felizmente) é menos tolerante a isso do que a do governador. 

Alckmin é popular e Haddad não, pois um agrada as expectativas de seu eleitor e o outro não. Ou melhor, Haddad desagrada em temas sensíveis demais e em ocasiões inoportunas, apesar de políticas públicas reconhecidas -- que, no caso das ciclofaixas ou da faixas de ônibus chegaram a registrar alta adesão, ambas coincidentemente de 88%, sendo políticas de esquerda. Mas o fato é que na metrópole as contradições emergem e se fazem realidade. No caso de São Paulo capital, mais ainda. E para Alckmin, embora seja um item importante, a metrópole e suas agruras é apenas parte de seu ofício.

A situação, evidentemente, é grave. Na cidade do mais universalista dos santos, o evento ocorrido na avenida que leva o nome do mais apocalíptico deles é sintomática. A situação é uma ascendente, na qual os movimentos se veem obrigados pelas condições a se lançarem à luta. E as condições se agravam: os bares cheios de almas tão vazias de Criolo, na prática, são são as tantas habitações vazias para tantas almas deixadas ao relento. O momento exige menos do que "políticas públicas" no sentido clássico e mais um processo político, algo que envolva e dê significado. Não se espante como apesar dos pesares Alckmin se reelegerá: como dizia Benjamin, onde há fascismo é porque uma revolução fracassou -- e acrescentemos, havia revolução, ou propensão à revolução, onde a situação era emergencial.




quarta-feira, 27 de março de 2013

SP: Entre a Crise da Paz da Armada e o Evento Haddad

Portinari: Guerra e Paz
O estado de São Paulo está intranquilo. Depois de anos de diminuição dos índices de criminalidade, de repente, as coisas voltaram a se abalar. Pelo sétimo mês consecutivo, a violência continuou a subir, colocando em xeque o governo de Geraldo Alckmin (PSDB). Por outro lado, uma notícia alvissareira no meio de tantas más notícias veio à tona: Fernando Haddad interveio no que seria uma desastrosa reintegração de posse e, assim, evitou uma catástrofe comparável ao Pinheirinho. São episódios curiosos nesses tempos bicudos em terras bandeirantes: se a pós-modernidade é marcada pelo binômio desespero-segurança, o que resta para a Paz?


Houve uma relativa paz no estado nos anos 00, abalada apenas pelo episódio conhecido como "ataques do PCC" -- em maio de 2006 --, que logo pareceu ser um ponto fora da curva. Com uma política linha dura, fundada no consenso de atuação dura da polícia, judiciário inclemente e um ministério público militante policialesco, São Paulo se orgulhava dos seus ganhos na área. Isso, até agora há pouco. Os dados da própria Secretaria de Segurança Pública não são animadores. 2012 foi, de fato, um corte nessa aparente tendência.

A política de arrocho militar, aplaudida pelas classes abastadas e elogiada pela boa técnica estatística do positivismo tupiniquim, é uma falácia. Ao tentar descrever uma tendência real pela falácia do "aqui praticamos repressão policial-judicial-carcerária, a taxa de homicídios caiu, logo a repressão policial-judicial-carcerária é a responsável pela queda na taxa de homicídios (logo, pela paz)" constrói-se um raciocínio circular, feito de efeitos e não de causas. É como atribuir a um fator que atua no sintoma -- a crise de violência, uma febre -- o desaparecimento do sintoma vendido como cura da doença. O que fazer, se a violência volta a crescer mesmo a mantida a fórmula de reprimir? Como explicar? 


O que é paz? A paz armada da ocupação? Dificilmente. A paz só subsiste como realidade ética de coexistência comum e amorosa. A paz, como historicamente ela veio à tona, é uma falácia. É estar livre para  exercer a minha violência, estar seguro em relação a uma ameaça externa pela coerção fantástica que eu submeto os outros. A paz romana, a paz imperial da ocupação sempre ruiu, pois quando qualquer coisa sai do lugar, os bárbaros invadem. Na São Paulo do século 21º, os bárbaros -- esses doces seres inventados pelos civilizados em todos os tempos e lugares -- corresponde à massa de ex-escravos, imigrantes, brancos pobres, estocados em periferias infectas, sem lazer, sem paz.

Esses bárbaros estão sob a mira de uma arma policial, duplamente punidos nossa sociedade: esmagados pelas forças de repressão como suspeitos -- em um aqui-agora no qual ser suspeito é ser culpado e merecedor, não raro, de suplícios -- e naturalmente expostos à violência epidêmica das áreas densamente povoadas e sem-infraestrutura.

A partir daí, a disputa pelo significado da paz torna-se cabal. É possível conquistar a paz pela melhoria da organização da sociedade ou só, e somente só, por meio da imposição da força, de uma ordem coercitiva? Uma paz conquistada pela coerção e pelo policialismo é mesmo paz, haja vista que o outro está sob estado de violência? E tal violência é múltipla, a extra-policial, uma vez que se aloja na própria maneira como se dá a disposição urbana e a duplicação da metrópole. A violência, criminalmente expressa, é apenas uma resposta confusa ao que poderia ser uma resposta política de rebelião face à ordem imperial. No fim das contas, ela é pior, uma vez que há violência em toda parte, sem razão, sem sentido.

O que há é o estado de exceção permanente ao qual está submetida a população oprimida e desabrigada. O gesto de Haddad ontem, por exemplo, é um rompimento nesse ciclo de violência: diante da iminência de uma reintegração de posse violenta, a intervenção que a suspendeu e possibilitou uma interlocução entre as partes. Mas não foi uma intervenção miraculosa ou providencial, Haddad fez apenas e literalmente um gesto comum, desinterdidando o diálogo. O que pode ser o caminho para pensar uma nova política e sua gestão: atuar a partir daí.

Há inúmeras linhas de forças se tensionando nesse momento em São Paulo. Nada é simples como parece, mas há um inequívoco exaurimento político e social do atual modelo. Só há saídas movendo-se para fora dele, reconhecendo a potência criativa dos pobres e suas demandas pelas geração de direitos. A cômoda e sádica paz armada que manteve a violência latente pela última década foi-se -- e não há, para o bem e para mal, mais volta.


segunda-feira, 4 de março de 2013

Os Primeiros Dias de Haddad, a Metrópole.

Fernando Haddad assumiu a prefeitura de São Paulo no início deste ano. Sua eleição, ela mesma, foi decorrência de vários fatores, dentro e fora do PT, mas podemos citar dois fundamentais: Haddad ganhou a eleição por demonstrar o que quão vergonhoso e intolerável é a separação de São Paulo em duas -- uma central, rica e integrada ao mundo, a outra, periférica, pobre e isolada -- e, até mais importante do que isso, que a metrópole bandeirante só se tornará próspera novamente se resolver assumir sua brasilidade. Mais do que a conquista de uma capital, a vitória de Haddad também representa uma luz no fim do túnel da esquerda nacional, uma vez que o jovem prefeito paulistano é das raras cabeças a conseguir articular solidez intelectual com fluidez política.

Depois do agito fundante do governo do PT, tudo pareceu cair, das razões da escolha de Dilma às razões que Dilma escolhe, no culto ao gerencialismo, à técnica e à neutralidade administrativa. Agora seria a hora e a vez de quem faz as coisas acontecerem, objetiva e silenciosamente, sem muita discussão. Tudo com uma pegada popular e trabalhista. Mas Haddad é uma figura diferente. Capaz de raciocinar para além do cotidiano da administração pública, Haddad não deixa de ser pragmático, mas nem por isso deixa de se assumir de esquerda ou fazer uso do léxico marxista -- e não ter medo de falar em "recorte de classe" quando analisa a situação do Centro. O prefeito paulistano, enfim, ascende como a possibilidade de um futuro petista não resumido a ser mero mediador estatal-trabalhista da questão social. 

Não são poucos os desafios que cercaram Haddad hoje: manter o equilíbrio dentro do PT municipal e dentro do PT nacional -- e entre ambos --, compor de uma forma aceitável com a base aliada, dialogar com os movimentos sociais e se relacionar com a iniciativa privada sem se deixar engolir por ela -- ou mesmo tocar os projetos que São Paulo precisa sem se dobrar aos ditames dos credores da enorme dívida (infinita?) pública paulistana. Agora, passados dois meses de sua eleição, o que, efetivamente, aconteceu em São Paulo? É uma pergunta que importa muito, não só pela gravidade da crise em que se encontra a maior metrópole do país, mas também pelos rumos de um projeto de esquerda no país.

Basicamente, o centro de gravidade da conversa é o próprio Centro da cidade, o distrito da Santa Ifigênia, único lugar do centro expandido no qual o atual prefeito paulistano ficou à frente de José Serra. Haddad pôs de lado o projeto Nova Luz de Kassab, que sequer saiu do papel, mas enfrentou forte resistência dos movimentos de moradia por prever uma reconstrução privatizante do Centro -- tanto que acabou interrompido pela própria justiça estadual. Agora, o novo prefeito empreenderá seu próprio (e ambicioso) plano de revitalização da região.

Haddad tem clareza sobre o quer para o Centro e isso é fundamental, conforme expôs em uma entrevista recente: o problema (crônico, gigantesco, aviltante) de congestionamento do trânsito em São Paulo não é meramente viário ou de transporte público, mas sobretudo de habitação, uma vez que os trabalhadores moram a dezenas de quilômetros de distância de onde trabalham (relação centro expandido-periferia), o que resulta em uma sobrecarga das vias. Tudo isso, dentro de um contexto no qual o centro da cidade se encontra desabitado e, em muitos casos, inabitável.

A sobrecarga em questão é tanto mais pelo excesso de deslocamento e não exatamente pela falta de vias ou de transporte. E isso não é questão de moradia, mas de habitação: é preciso que o Centro tenha vida. E nada disso está desvinculado de um "recorte de classe" como o próprio Haddad lembrou. O início de um ciclo virtuoso paulistano demanda a resolução da questão do Centro, isto é, transformando de ponto zero da implosão urbana local em centro irradiador de vida.

Há, no entanto, nuances importantes quanto à execução disso. E resta pouca dúvida de que Haddad prescindirá do apoio do governo Federal e mesmo do governo estadual -- o próprio Alckmin, em busca da reeleiçãom está pouco preocupado em comprar brigas com o Planalto e irá colaborar com a reforma --, uma vez que ele assume uma Prefeitura praticamente falida. A proposta de iniciar a reforma do Centro via Parcerias Público-Privadas (PPP's) não parece, à luz do tesouro municipal tão onerado, a saída mais barata. Porque PPP's exigem um aporte de dinheiro estatal antes de mais nada -- o que foi colocado, recentemente,  pela urbanista Raquel Rolnik em seu blog, pondo dúvidas sobre a reforma do Centro na realidade pós-Nova Luz via PPP's, embora ela mesma tenha se mostrado favorável às linhas gerais do plano de reforma urbana do Centro.

Do outro lado, ainda na habitação, Haddad deu um golpe de mestre em Maluf e no PP, uma aliança que só lhe deu dor de cabeça até agora (em troca de alguns minutos a mais no horário eleitoral gratuito): ele nomeou para a pasta de Habitação um membro do PP, mas, ao mesmo tempo, desidratou a secretaria, ao congelar 98% de sua receita, além de ter passado suas principais atribuições para a Secretaria de Controle Urbano -- que está nas mãos de Paula Motta, arquiteta aliada do deputado federal Paulo Teixeira, um dos maiores articuladores de sua candidatura e das figuras mais ativas da esquerda petista.

Além disso, Haddad promoveu uma reforma importante e pouco observada. As subprefeituras perderam a função política -- ou mesmo militaresca -- que tinham há pouco, com Kassab, para ganhar um aspecto "técnico": arquitetos, urbanistas e engenheiros de carreira foram nomeados subprefeitos, com exceção do centro (Sé), o que marca uma tentativa de dar alguma função prática para a instituição da subprefeitura, um desafio à parte desde sempre. É claro, restam dúvidas importantes quanto à decisão de Haddad.

A ideia é colocar conhecedores da física urbanística nas subprefeituras, deixando a estratégica política centralizada na própria Prefeitura. Pode ser que, assim, elas finalmente cumpram sua função -- e aproximem a administração pública dos cidadãos -- ou isso resulte em uma nova forma de burocratização, não fisiológica por parte de um establishment partidário, mas de arrogados entendedores urbanísticos sobre cidadãos comuns em um caráter local. Tudo vai depender muito das determinações da Prefeitura e do espaço coletivo que ela, nessas determinações, esteja disposta a abrir para formulação de políticas públicas nas subprefeituras -- ou o quanto esteja disposta a vincular essas técnicos a ouvir as demandas cotidianas, sobretudo na periferia.

Some-se isso tudo à revisão de alguns contratos de serviços firmados pela gestão anterior e a relação com Kassab, e o esquema do PSD no município, azedou de vez. Kassab viu o Nova Luz ser jogado na lata do lixo, não conseguiu bancar o nome de ninguém para as subprefeituras e agora tem muitos contratos -- como o de iluminação pública e também de manutenção das bocas de lobo -- na mira da nova gestão. Isso tudo, depois de ter ensaiado um apoio a Haddad -- a contragosto do mesmo --, ter se aliado novamente ao PSDB em virtude da candidatura Serra e ter promovido uma "transição amigável".

Para a Cultura, Haddad trouxe um peso-pesado como o ex-ministro da Cultura de Lula, Juca Ferreira -- que, de cara, já se mostrou aberto ao diálogo, o que é positivo. A área cultural da cidade, sucateada e resumida quase só ao esquema empresarial da Virada, agradece, mas restam dúvidas também: é preciso pensar além da dicotomia entre uma cultura escrava da indústria cultural e uma reforma cultural; qualquer reforma está aberta a formas 2.0 de exploração da produção cultural. As críticas (aqui e aqui) do Passa Palavra ao coletivo da área cultural Fora do Eixo -- e sua presença gradual e constante na nova Secretaria de Cultura -- merecem atenção, por exemplo.

A crise que a metrópole paulistana é gravíssima. Mas foi a força da resistência viva em curso, da luta pela constituição de direitos que elegeu Haddad. E ele terá de honrar essa tradição. Não há luta mais nacional hoje, do que a constituição de São Paulo novamente em um lugar agradável para se viver -- o que exige o deslocamento local para longe dos (recorrentes) arroubos isolacionistas. É preciso mesmo domar mesmo a formidável máquina administrativa que governa o município, sem se deixar escravizar por ela no processo; a incursão de Haddad no comando da metrópole começa mesmo no gabinete, mas não faz ouvidos moucos para as ruas. Seu andamento é (e será), por certo, motivo de atenção ao longo dos próximos anos.





sexta-feira, 9 de novembro de 2012

PCC vs PM: a Revolta nas Entranhas do Inferno

O estado de São Paulo arde nas chamas de uma guerra cruenta travada entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e a Polícia Militar local. Todas as manhãs, o noticiário relata o tétrico saldo noturno: uma quantidade absurda de mortes bárbaras, seja de policiais ou de cidadãos supostamente vinculados ao PCC. Notícias de toques de recolher, muitas vezes surtos de paranoia coletiva, percorrem o estado, as pessoas comuns temem sair na noite, alguns ônibus queimam aqui ou acolá, tudo isso depois de seis anos de uma relativa calmaria. Sim, seis anos. Desde o famosos ataques do PCC de 2006.

Há várias possibilidades de se enxergar a situação, e várias formas de reagir. A mais recorrente é, apenas e tão somente, um agravamento da fobia urbana difusa e confusa dos contemporâneo, na qual pouco importa o que aconteceu: mas as ruas e os espaços públicos que já eram vistos como zonas de permanente de violência e impureza, convertem-se em algo pior, o delírio põe em questão o direito à noite: o monstro ronda a noite, não devemos sair. A outra, uma crítica mais direcionada e conservadora às táticas de combate ao crime, umas mais alinhadas aos direitos humanos, enquanto outras partem para o delírio paranoico clássico, beirando o desejo de fascismo.

No entanto, pouco se fala, seja mídia ou na crítica, sobre como a atual rodada de confrontações se iniciou, muito menos vê-se algum esforço para discutir o histórico do que estamos falando. Primeiro de tudo, o PCC surge do massacre do Carandiru, que mal acabou de completar 20 anos -- como discutido aqui -- um ato de exceção do desastroso governo estadual de Fleury que resultou no massacre de 111 detentos em rebelião: eles estavam há tempos em condições sub-humanas, submetidos ao risco permanente de contaminação pela AIDS, pela tortura e toda sorte de coisas.

Das pilhas de chacinados naquela ocasião, surge uma organização que de lá para cá se organizou mais e mais, controlando presídios, criando uma rede entre presos, suas famílias, suas sub-redes no exterior da prisão. O PCC, é evidente, não se trata de uma organização revolucionária, tampouco é o contrário, enquadrável em qualquer métrica maniqueísta: ele é a prova que a ordem está em frangalhos, seja no que toca à sustentação do seu modelo teológico tomístico -- hierárquico, numa escala que vai do paraíso (as coberturas de prédios luxuosos dos bairros de elite) ao inferno (as prisões), passando por círculos intermediários.

Mas o PCC, enquanto organização que nasce da resistência ao descalabro --das prisões, apenas um dos muitos reflexos possíveis do nosso estado de coisas social -- e que se impõe sobre a incapacidade das forças políticas postas, não é um contraponto à ordem, mas sim nutre uma relação perversa e ambígua com ela: ele é a organização de um ódio difuso e sem programa, voltado para um governo paralelo, e moderníssimo na forma de um sistema de redes, e para uma economia paralela, que inclui todos os negócios gerados em torno do seu financiamento por detentos e suas famílias (a rede de advogados a seu serviço, a rede de tráfico de armas etc).

Aliás, pelo fato do PCC ter forma Estado é que o estopim específico da crise atual foi deflagrado: enquanto um de seus famosos tribunais julgava, ele foi surpreendido por um comando da Rota -- outra personagem notória, enquanto força da polícia bandeirante nascida para o combate à incipiente guerrilha urbana e destinada ao enfrentamento cruento da "violência" pós-regime -- que perpetrou mais um massacre. Daí em diante, tivemos uma concatenação de assassinatos e retaliações que até a noite de ontem não teve fim.

O PCC, o mesmo PCC que parou o estado de São Paulo em 2006 depois de uma série de revoltas no sistema penitenciário, está vivíssimo, ao contrário da retórica oficial dos governos tucanos de São Paulo. E qualquer um que conheça o sistema, sabe muito bem o quanto o PCC conservou sua influência durante os últimos seis anos, quando alguma espécie de acordo tácito, ou algo mais do que isso, manteve presídios calmos, patrocinou a considerável queda dos índices de violência no estado e assistiu às seguidas reeleições dos mesmos figurões políticos de sempre no estado.

Se o PCC é um sistema em rede semelhante a modelos como a Al Qaeda -- mas cuja sofisticação é justamente ser hierárquico e extremamente centralizado sem deixar de ser capaz de (i) funcionar na sociedade em rede; (ii) se integrar ao Estado de maneiras pouco usuais e até surpreendentes; a polícia, por outro lado, funciona como um destacamento oficialmente estatal, mas cuja atuação transcende a linha e nem sempre funciona de acordo com o programa governamental, mas sim de acordo com intuição, ela mesma, do que seria a providência na terra.

A polícia, não apenas em São Paulo, como se viu recentemente na Bahia, pode agir contra o Estado em certas circunstâncias, sobretudo quando ele está com a sociedade de modo a desafiar a ordem posta. Maquiavel já via isso quanto aos exércitos e a história dos golpes latino-americanos comprova essa direção; e as polícias podem agir nem sempre a favor, ou contra, mas também a despeito do comando governamental -- e quando agem a favor, como no caso do Pinheirinho, jamais estão apenas "cumprindo ordens", mas aceitando aquilo em relação ao qual poderiam se amotinar.

Será que foi o caso aqui? Aparentemente, sair da política do banho-maria dos últimos seis anos, não interessava ao governo do estado, ainda mais em um ano eleitoral. A menos que ele pudesse capitalizar muito com isso, o que não parece muito crível. Mas foi sua polícia que deflagrou o processo em questão e, numa luta particular serve de combustível para a atual guerra que ela trava com o PCC, embora isso possa ter desobramento sobre os civis. Não é só o PCC que ameaça São Paulo como diria Antonio Martins.

Há muito de conspiratório nisso, mas as coisas sempre podem ser mais simples. Um PCC quieto e colaborando para a manutenção da ordem das prisões (por dentro do sistema) interessa sim ao poder, uma polícia que combata apenas e tão somente os estilhaços de criminalidade que incomodem a boa sociedade, idem. Mas tanto PCC quanto a PM, no limite, agem por si com uma liberdade prática enormíssima (talvez a polícia mais ainda que o PCC...).

A crise aberta não é de segurança pública, ou a fratura exposta da crise social sem fim. Ela é uma crise do nosso e de qualquer modelo de organização coletiva. Não é por abstrações ideais que poderemos fazer uma coletividade humana viver bem, tampouco por um modelo fantasioso de organização que, na prática, alude a todos os mitologemas e superstições teológica possíveis, com uma economia movida à base de culpa, suas mansões e paraísos particulares e a vida comum feita um inferno, com a prisão como seu grau derradeiro.

Se os infernos entraram em colapso quando a máquina-(pseudo)divina do Estado atualiza o medo -- desfazendo-o, pois -- suas entranhas emergem na forma de uma erupção. Como manter uma hierarquia social teológica, ao modo de São Tomás de Aquino, se os infernos perderam sua eficácia e a danação é combustível de revolta, não mais anestesia? Há uma rachadura definitiva.







 

domingo, 4 de novembro de 2012

O Prefeito Haddad, as "Duas" São Paulos e o Comum

Há uma semana, Fernando Haddad foi eleito prefeito de São Paulo. O que é realmente curioso nesse processo -- além dele ter sido a disputa municipal que mais aludiu à grande disputa nacional, PT x PSDB -- foi a exposição de um abismo (eleitoral, político, social, econômico, cultural...) na maior metrópole do país: de um lado, a periferia pobre, com muitos habitantes, poucos empregos e poucas políticas públicas, do outro, a São Paulo do centro expandido, seus centros empresariais,  culturais e bairros de primeiro mundo. 

Os fluxos da cidade movem-se sob uma lei clara: a multidão confinada nas periferias é obrigada a se deslocar -- para chegar aos seus empregos, aos hospitais, universidades e opções de entretenimento e cultura -- em um transporte público superlotado, por vias superlotadas. A poluição crônica e o congestionamento das vias -- nasais e públicas -- é a resultante óbvia desse processo. São Paulo poderia funcionar, a exemplo de outras metrópoles ao redor do globo, na sua disfuncionalidade, mas o fato é que sua elite dirigente, embora se orgulhe de ter conseguido confinar os pobres para longe, não logrou muito êxito nisso.

Sim, a noção de crise social é sempre relativa. Ela diz respeito para quem e como: na periferia, a crise é permanente -- está no interior de seu ser, não no predicado --, enquanto nos bairros de elite, ela pode ser uma ocasião determinada. Mas a crise da periferia, que é periferia do centro -- isto é, sua existência é relativa, de modo mútuo e simultaneamente implicante, a do centro. Não há duas São Paulos. Há --como efeito e não por natureza -- uma mesma São Paulo: e a Lei do Mesmo, aplicada sobre diferentes (étnicos, sociais, políticos etc) produz uma grande fenda na forma de desigualdade, exposta na divisão, de caráter segregacionista, da metrópole paulistana em duas metades.

Todos sabem que as coisas vão mal por aqui. Mas é um ir mal que, como já dissemos, varia do ponto de vista, e do modo, que se olhe. Kassab não foi um mau prefeito do mesmo modo para um habitante médio de um bairro de elite e para um morador da extrema periferia. Tanto que mesmo entre quem avaliava mal sua gestão nos bairros ricos, votou, via de regra, em Serra (seu antecessor e sucessor natural). O fato de Kassab ter sido considerado um mal prefeito em toda parte, no entanto, alude para a possibilidade de que há um mal comum -- e, portanto, abre a brecha para a produção de um bem comum. 

Mesmo dentro da estrutura conflitual da sociedade capitalista -- e como esse fenômeno se manifesta disposto no corpo de uma metrópole como São Paulo -- na qual o mal é diferente e varia conforme o sujeito e o modo, é possível que as contradições se expressem de modo que a vida seja comumente ruim ou, em sentido inverso, que possa ser comumente boa: e bem e mal, aqui, como situação que permite o aumento ou diminuição da potências das pessoas no contexto da vida urbana.

Isso está longe de ser uma formulação de que é possível um governo municipal, ou a atuação política urbana, poder ser universalmente boa, mas sim de que há um bem, um aumento de potência, que possa ser comum e estar no comum das vidas. Um argumento [retórico] possível para a vitória petista é que quem "precisa de governo" -- ou de bem estar -- votou em Haddad, enquanto a parte que não dependeria disso pôde optar por uma saída moral que se desdobraria em uma bifurcação: (i) já que eu não preciso e o outro precisa, eu voto conforme o interesse dos "necessitados"; (ii) eu voto conforme meu interesse enquanto abastado. 

Se fosse assim, tudo estaria perdido. Seria como se, uma vez terminadas as necessidades, ninguém votaria em uma proposta social, o que é falso.  A verdade é que todos podem optar, como optam, para além das suas necessidades. E podem optar por fora da moral, por fora até do seu próprio interesse, mas não para além do seu próprio desejo -- e foi assim que optaram; tampouco existe a possibilidade de que as metades nas quais São Paulo está dividida sejam causais: elas são efeitos, que se interrelacionam, e compartilham do mesmo evento causante que é o próprio sistema de produção, e sua disposição pela metrópole. Se dizemos que algo produz riqueza é porque está, ao mesmo tempo, produzindo pobreza, uma vez que riqueza e pobreza são condições relativas e mutuamente implicantes (se há rico, é preciso haver um pobre e vice-versa). 

Nas diferenças de posições da cadeia produtiva, e da organização social, haverá sempre lados e a relatividade aparente da crise -- os altos aluguéis são a crise dos sem casa para morar e o tempo de vacas gordas dos proprietários de imóveis -- mas esses lados só existem porque, antes de mais nada (num sentido ontológico e não cronológico) há um comum metropolitano e urbano: O rico pede pobres para poder ser o que é, enquanto o pobre pode ser o que já é sem os ricos. 

Embora a situação de exploração possa durar indefinidamente, o fato é que ela dura mal, para ambas as partes: se os pobres votam em quem apresenta um programa mais favorável, é pela afirmação de sua potência e de sua condição -- o que consiste numa opção --, mas quando os ricos fazem algo semelhante, vê-se que a simetria é falsa, uma vez que não há voto mais servil do que aquele que serve para atestar o próprio vazio de sua condição. 

Os ricos vivem aparentemente bem, do contrário não o seriam, mas vivem bem às custas do vício na exploração do outra, na paranoia constante que isso implica (é preciso manter o controle! manter o controle!), o que em outra palavras é viver mal, é viver em um estado de constante vazio -- entre doses de rivotril, cercas eletrificadas e a impossibilidade deles, mais do que ninguém, em disporem da própria cidade (por motivos objetivos e subjetivos). 

A questão não está em investir na "base da pirâmide social" em vez da "ponta" para universalizar o bem-estar. Está em investir no desejo que perpassa todo o sistema de modo comum. É da compreensão disso que a ocupação da função de governo, enquanto antigoverno (e não desgoverno, como Kassab), pode produzir alguma diferença: o desgoverno demonstra por vias tortas que há uma potência comum compartilhada, para o bem e para mal, na urbe, enquanto o antigoverno a catalisa. 

É nesse cenário que Haddad assume. E assume porque, antes de mais nada, o Lulismo que ele ajudou a construir, ao deixar de lado a retórica própria da esquerda e assumir práticas radicais, permitiu. Não é mais como a São Paulo de 2000, onde Marta apesar da votação apenas um pouco maior do que a dele, venceu em toda parte: agora, claramente, a cidade tem lados, uma vez que a luta de classes saiu do plano figurativo. Os pobres, agora, desejam, foram autorizados a desejar e tudo mais é uma consequência disso.

Haddad venceu pela fortuna -- pelos fatores e variáveis não capturáveis pela esfera de cognição de um movimento político --  além da virtù. Ele terá de articular as tensões de força dentro  do PT paulistano e suas inúmeras correntes, sabendo que os movimentos e redes de apoiadores externos, além de essenciais para sua vitória, são a única fonte suficiente para evitar que o partido, e o seu governo, devore a si mesmo. Vai precisar desses mesmos setores, inclusive, para não ser devorado por uma Câmara fisiológica onde não tem maioria e Kassab conserva sua influência.

São Paulo, pela primeira vez em dez anos, respira. Desobrigada de ser trincheira dos projetos pessoais de quem fracassou nos anos 90 e insistiu em reagir ao projeto que mudou esse país ao longo da última década, a altos custos humanos, agora a metrópole paulistana pode ser tornar quem ela é.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

São Paulo, Haddad, Serra: a Batalha e a Metropóle

Recomeçou esta semana a campanha municipal, agora é a ora e a vez do 2º turno. Em São Paulo, alinham-se na disputa Fernando Haddad (PT) e José Serra (PSDB), representantes das duas forças que disputam, há cinco eleições, a cadeira presidencial -- cada qual capitaneando um lado do espectro político. São Paulo é a maior metrópole do país. E é grande sobretudo onde é pequena, onde é minoritária. Por que São Paulo? Certamente não porque é o umbigo do mundo ou muito menos do Brasil, mas sim porque protagonizou a reação ao projeto que governa o país há anos, nem sempre por seus defeitos.

Uma aliança perfeita: a direção das grandes corporações de mídia e seu jogo panfletário, a burguesia local e seus pruridos -- e setores médios que se prestaram -- o financismo -- na forma da especulação imobiliária, a dívida sem fim para poder habitar -- o jogo oportunista de setores centristas, "social-democráticos", dispostos a tudo para chegar ao poder no governo federal. Oito anos depois e o resultado é que São Paulo, sem risco de ser parcial, desumanizou-se. 

As conquistas dos anos Lula, que bem ou mal chegaram no aspecto macro, não adentraram à vida das pessoas -- ao lado de fora de casa, como diria Haddad -- não somente por falta de um governo que se abrisse para articular políticas públicas em parceria com o governo federal, mas também, e sobretudo, pelo fato dele se fechar transformando São Paulo numa trincheira de uma guerra contra um inimigo que nunca existiu: mas Kassab, enquanto vê sua gestão liquefazer, muda de lado, racha a direita nacional, se fisiologiza -- só não poderia dizer um não ao seu padrinho político, José Serra, quando ele precisou se candidatar.

As UPP's e as remoções no Rio, metrópole-laboratório do governo federal -- embora nas mãos de aliados e não de correligionários propriamente ditos -- são dignas de críticas, mas precisam ser vistas nas suas ambivalências. Favelas pegando fogo durante a calada da noite, não, é um ato puramente inequívoco. Criticar Serra não é paranoia, tampouco exime o PT, municipal ou nacional, de nenhuma crítica, mas isso não quer dizer que ele não tenha a enorme responsabilidade por Kassab e tudo mais que veio junto -- que mais do que empurrar com a barriga os problemas da cidade, instituiu um vazio de ideias uma geleia geral. O que houve com São Paulo durante esses oito anos?

No 1º turno, enquanto o julgamento do mensalão transcorria como espetáculo do moralismo nacional, uma fogueira da inquisição da sociedade do espetáculo -- coincidentemente ocorrida durante as eleições -- Russomanno ascendia com um misto de demagogia religiosa, discurso da segurança pública e quetais. Se Maluf foi assunto das eleições por conta da famosa foto com Lula e Haddad, o malufismo mesmo estava lá. E parecia não arrefecer mesmo com o baixo tempo de TV e recursos dele. Serra caia e depois disputava voto a voto com Haddad para passar ao 2º turno.

Pesquisas a postos, a ascensão de Haddad foi subestimada, assim como sua chegada na hora H, Serra idem e a queda de Russomanno -- cuja figura contestabilíssima começou a ser desconstruída pela própria mídia conservadora, por tirar votos também de Serra -- fim de jogo: Russomanno foi, ainda, bem votado na periferia, quase não teve votos no centro expandido, Chalita apareceu em um quarto lugar constante por todo o município e Haddad venceu na periferia enquanto Serra venceu nos bairros ricos. 

A geografia de São Paulo é a perfeita ilustração da luta de classes e do êxito da burguesia em varrer seus pobres pra longe, embora dependa deles diariamente --  pobres que moram nas bordas e precisam vir de todos os lados para trabalhar no centro expandido todo dia (concentração de gente na periferia, concentração de empregos no centro); daí que a crítica ao modelo urbano-econômico de São Paulo não ser de natureza moral, mas sim pragmática-funcional: não, desse jeito, São Paulo não funciona mesmo, poluída, engarrafada e insuportável.

Se Serra teve menos votos que Kassab na periferia é porque o terceiro candidato, Russomanno, mantinha o apelo popular lá, embora tivesse poucos votos no centro expandido -- onde Serra foi mais bem votado do que Kassab --, caso exatamente oposto ao de Alckmin, terceiro mais votado em 2008. Haddad, por sua vez, foi mais bem votado do que Marta no centro expandido, mas teve menos votos na periferia justamente pelo fator Russomanno.

Haddad é a construção do Novo Brasil em São Paulo, um tornar-se novo Brasil da pauliceia por meio do Lulismo, nas suas ambivalências e, sim, sua potência. Serra é o tornar São Paulo o Brasil -- trazer São Paulo, não a intensidade da São Paulo viva, mas fazer, forçosamente, do Brasil aquilo aquilo que São Paulo é, ou está. 

Nas pesquisas de 2º turno, Haddad iniciou na frente, entre dez a onze pontos percentuais válidos, de Serra. Nada de novo sob o Sol: candidato mais rejeitado entre todos, e com o eleitorado de Russomanno, pelo menos aquele que restou com o candidato do PRB até o dia da votação do 1º turno, mais propenso a votar no candidato petista, Serra não poderia registrar nada diferente que não isso. 

Nada que não motivasse um ataque duro. E novamente Serra apela para o discurso moral e para a violência oportunista com as minorias ao se usar do kit homofobia contra Haddad -- projeto educacional do MEC contra o ódio aos homossexuais, mas barrado pela bancada da direita evangélica (e não bancada evangélica, não vamos colocar todos os evangélicos na mesma canoa, por favor). Irresponsabilidade que não foi poupada nem mesmo por um editorial da Folha, serrista de tempos e de carteirinha. 

Uma minoria inteira exposta por oportunismo eleitoral, por uma pesquisa desagradável -- embora o governo Serra tem distribuído um material parecido ao kit anti-homofobia nas escolas públicas de seu estado, o que torna tudo mais cruel do que seria preconceito puro. Nada muito diferente de 2010, quando valeu literalmente tudo para impedir a ascensão de Dilma.

E de lá para cá, o debate político tem sido pautado por superstições morais: o preconceito do o tom da chantagem parlamentar no Congresso, e fora dele, e o governo petista não sabe o que fazer, se responde, se contemporiza. São absolutamente injustas as críticas de homofobia por parte de Dilma, mas é certo que o governo atual tem medo -- quando precisávamos do contrário. E o PSDB surfa na onda contra o PT, o que, pelo visto, não tem lhe ajudado a vencer eleições, mas prejudica o rival e torna o jogo político um tanto pior.

Nada está decidido em São Paulo. É possível que Serra eleve o tom e atire para todos os lados. Precisa sobreviver na política. Não sabemos quem mais, depois dos homossexuais, irá se tornar refém eleitoral. Haddad precisará ser preciso e duro sem perder a ternura -- tem a seu favor uma rejeição menor e a capacidade disputar votos na periferia próxima, nos bairros que são limítrofes, por fora, com o centro expandido, onde venceu em alguns e perdeu, só por conta de Russomanno, em outros.

Há muito o que discutir, há muito o que fazer. Não adianta supor que isso é uma batalha do bem contra o mal, onde Haddad seria o mocinho e Serra o bandido, mas também não é qualquer jogo onde ambos são o mesmo, ou niveláveis pela mesma régua: o longo governo Serra/Kassab não está em crise, ele é a crise, mas não a crise para os especuladores do setor imobiliário e outros parasitas tantos, mas sim a de nós outros, os cidadãos comuns que tentam, e até precisam, habitar e viver a cidade, incorporando e sendo incorporados. 

Portanto, não é hora, nem o caso, de não tomar partido, é preciso fazê-lo e tudo mais: tomar partido, tomar o partido, lutar pela desinterdição afetiva à qual estamos sujeitos há muito. Pode ser ingênuo, mas é, e precisa ser, corajoso.

Atualização de 18/10 às 03:05: Leiam Algo de Novo na Geografia do Voto Paulistano? de Raquel Rolnik, um post excepcional sobre distribuição do voto nos espaços físicos da capital. E também, Haddad amplia mais ainda a diferença de Serra no Ibope: de 11 para 16 pontos.









domingo, 29 de julho de 2012

Micropólis: Por uma São Paulo Menor

Há uma São Paulo - nem aquém, tampouco além do horizonte - que existe resistindo à dureza do concreto armado, ao inefável tom cinza do asfalto, aos automóveis que insistem em monopolizar o movimento desmovimentando tudo, ao higienismo, ao autoritarismo, ao elitismo e à falta de gratidão ou de generosidade. Ela não é grande, nem se quer grande: é o que há de minoritário na metrpólis, o fascínio que desperta é o do esplendor de si e do paradoxo no qual consiste. É uma micropólis.

E essa micropólis passa pelo samba de Adoniran, pela multidão festiva que desce e sobe as ladeiras da Rua Augusta, pelas festas proibidas da FFLCH, pelos CA's anarquistas da PUC, pelos sebos empoeirados do centro, pelos bêbados em meio ao tumulto das Viradas, os estudantes que lotam os botecos da Vila Madalena, pelos índios que habitam resistindo de Norte à Sul da cidade (do Pico do Jaraguá até Paralheiros), dos novos italianos que são os nigerianos, os chineses, os bolivianos - como foram os nordestinos há pouco...


São Paulo não é isso, nem vai se tornar, ela devém micropolitana. E pouco importa se a especulação imobiliária (muito provavelmente) nunca nos deixará habitar lá - só para construir empreendimentos de luxo que tendem a virar elefantes brancos -, se vão um dia fechar este blog louco, se o trem vai quebrar no meio do caminho ou se eu vou ser atropelado em calçadas-adorno feitas (apenas) para se cumprir a Lei - e para enriquecer as empreiteiras - do que para os pedestres...os pedestres... 

Ela se faz nos encontros carregados de cupidez dos jovens amantes trôpegos - pela vida, pelo álcool, pelas exasperações e dúvidas - que cruzam como nômades uma urbe tão exposta quanta intocada: e se não será o povo puro ao qual pertencerá o porvir e a filosofia, também é certo que é no que há de mais ofensivo, assustador e estranho que brota o belo e o sublime na pólis.


Se é possível que em toda metropóle haja uma micropóle pelo desdobramento de suas engrenagens infernais, em São Paulo, pela força eterna das mesmas, é onde isso se faz mais distante e mais próximo. Ignorar essa potência apenas pelo paradoxo em que isso consiste, é esquecer a própria filosofia - e também apagar a memória das lutas de tantas favelas do moinho a resistir ao fogo ou tribos guaranis à inanição, de tantos amores e esvanecimentos. É esquecer o que há de minoritário aqui e o que há de majoritário em qualquer lugar. Se Paulo concebeu um estado de exceção verdadeiro, e ele era o amor, eis a nossa morada.

                                                                              X
 
Para Isabella, que sabe como poucos alguéns tirar da própria fragilidade sua força, no encanto do seu canto, pela doçura da companhia, a generorisidade e o ânimo desbravador nestas férias.




quarta-feira, 13 de junho de 2012

Sucessão Paulistana: Erundina vice de Haddad

As negociações entre PT e PSB para as eleições paulistanas parecem ter confluído para algo bom: Luiza Erundina possivelmente será a candidata a vice na chapa de Fernando Haddad para a Prefeitura. Erundina é uma figura importantíssima na história política paulistana, pois foi a gestão, para além de todos os problemas que enfrentou, a deixar o legado político mais relevante - antes de mais nada, porque no governo, Erundina não foi governista, ela se desfez do pedestal estatista e procurou, junto à associações de moradores e movimentos sociais, fazer a boa política, focando na questão da moradia (sem dúvida, a questão central da política local) e no diálogo franco com a sociedade.

São Paulo é uma cidade politicamente complexa e profundamente problemática. Todas as gestões, exceto a de Paulo Maluf (1993-96), terminaram com um desgaste altíssimo - e Maluf, mesmo tendo feito sucessor, o falecido Celso Pitta (1997-2000), sofreu um pesado desgaste posterior, seja pela revelação de escândalos seus quando na Prefeitura ou pelos efeitos do desastre da gestão Pitta. Tanto é verdade, que Maluf, depois de ter refeito sua carreira política com certo êxito no pós-ditadura, não só jamais conseguiu vencer uma eleição majoritária novamente, como também viu seu tamanho político severamente diminuído: mesmo eleito com boas votações para a Câmara dos Deputados, sua influência é pequena e sua figura é condenada a uma representação quase tragicômica, mesmo entre os meios conservadores que lhe sustentavam.

Erundina, por motivos outros e na outra ponta do espectro político, não deixaria também de sofrer um processo de fritura, mas ao contrário de Jânio, do já referido Maluf, de Marta ou Kassab, ela deixou linhas gerais de como fazer política na capital, que persistem até hoje. Não só, Erundina saiu pessoalmente incólume dos escândalos e absurdos mil comuns à política local. Hoje, ela persiste sendo reeleita como deputada federal - não mais pelo PT, onde sempre teve problemas com a direção, mas sim pelo PSB - e exerce um mandato bem avaliado, sustentada por um eleitorado cativo, focando sobretudo em questões como a comunicação social e apresentando bom trânsito na política nacional.

Trata-se, sem dúvida, de um bom norte para a candidatura do jovem Fernando Haddad. A reaproximação de Erundina com o PT não deixa de ser um bom sinal, uma vez que o partido da estrela, sem dúvida a mais relevante legenda de esquerda do país e da capital, anda em círculos desde o fim da gestão Marta, que embora tenha implementado boas políticas públicas, fragmentou o partido e o deixou em um permanente tensão interna nos últimos anos. Também faz bem para o PSB de Erundina, pois fortalece a ala não-fisiológica e com a alguma disposição social do partido, minoritária em relação a uma direção estadual alinhada com o governo Alckmin.

Haddad precisa disso em uma campanha na qual, ainda que venha garimpando um espaço razoável na mídia, é desconhecido pelo eleitorado e precisa não só de um impulso eleitoral como, também, de uma ancoragem política que lhe dê mais densidade no nível municipal. Ainda que José Serra seja um líder de pesquisas anômalo, por ser também o candidato com a mais alta rejeição - tanto por questões pessoais como por ser o sucessor de uma gestão fracassada como a de Kassab -, é fato que ele é o candidato a ser batido pelo franco apoio do establishment local. Em termos propriamente políticos, a presença de Erundina na chapa, a norteia na posição em que ela precisa estar para ter razão de ser. Seja como for, trata-se de uma boa notícia.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Greve no Metrô: o Choque de Trens (e de Gestão)

Equipes de Socorro cuidam dos feridos depois da colisão de trens/AE
São Paulo esteve paralisada ontem: foi o enésimo colapso nos transportes públicos dos últimos dois anos, também conhecido como terceiro governo Alckmin. Os metroviários interromperam suas atividades em consequência de dois choques, o primeiro, "de gestão" - que se opera há anos -, e resultou tanto na estagnação salarial  da categoria quanto em cortes de investimento perigosos e o outro,, o físico entre dois trens do metrô na estação Vila Carrão (zona leste de São Paulo, linha Barra Funda-Itaquera) - que serviu de estopim para o movimento grevista dos metroviários e suas reivindicações de melhoria salarial e de condições de trabalho.

Pois bem, no ano passado, assistimos à paralisação dos ferroviários da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), pelos mesmíssimos motivos, quais sejam, falta de reajustes salariais - mesmo reposição da inflação - e investimentos, o que foi debelado com uma proposta de aumento - mas que não resultou em nada concreto em termos de melhoria das condições de operação e serviço, como provam tanto o choque entre trens na estação da Barra Funda, poucos meses depois, quanto o colapso da Linha Rubi este ano. 


Agora, com o acidente da semana passada, os protestos dos metroviários e a paralisação de ontem, chegamos à paralisia: greves de metroviários tendem a ser mais potentes do que as dos ferroviários, uma vez que a dos primeiros incide sobre uma malha altamente concentrada dentro do centro expandido de São Paulo, o que torna a substituição por outros transportes (carro ou ônibus) inviável, literalmente paralisando a cidade. 


A intenção original do movimento grevista - liberar, à francesa , as catracas no dia de ontem - acabou frustrada por uma decisão do Tribunal Regional do Trabalho, estranhamente cumprida pelos grevistas, que terminaram por paralisar suas atividades do modo convencional - a abertura das catracas, na prática, só oneraria o Estado explorador e não os usuários, mas é certo que a retaliação em cima disso seria muitíssimo mais dura do que a da atual greve, já que o peso seria maior.


Mesmo considerando que a volta de Alckmin ao Palácio dos Bandeirantes seria marcada, inevitavelmente, por uma paralisia crônica, a indicação de Saulo de Castro Abreu Filho, ex-secretário de segurança pública nos tempos dos ataques do PCC, para a Secretaria dos Transportes não deixou de ser surpreendente: mal-sucedido em sua própria área, certamente não seria em uma outra que desconhece que ele teria melhor sorte. O misto de trapalhadas, incapacidade negocial e quetais de Saulo somam-se à política de cortes de investimentos em tempos de crise de Alckmin, o que faz a situação beirar o desastre. Conjugado com o desgoverno Kassab, também conhecido como longo desgoverno Serra, em São Paulo e temos o retrato do caos.


Em suma, o que São Paulo vive é um exaurimento causado, ele mesmo, por um programa suicida de gestão executado por gestores pouquíssimo capazes. É quase uma somatória soviética, só que do outro lado do espectro político (se é que isso interessa). 


A interrupção da greve e a retomada do trabalho pelos metroviários, há poucas horas, não são, nem de longe, a saída efetiva para a crise. Tampouco, podemos ver essa questão desconectada do eixo que passa pela questão habitacional e de segurança, isto é, todo o nexo de relações concernentes à gestão dos espaços urbanos em São Paulo, cujo aparelhamento pela tecnocracia empresarial resulta em um quadro de efervescência permanente: houve uma hipertrofia tão violenta dos mecanismos de governamentalidade, em um sentido contemporâneo e liberalíssimo, que ela própria se esgotou em um vazio de desgoverno caracterizado por apagões e travas de toda sorte. 


O desafio posto, sem dúvida, é enormíssimo, pois ainda que toda a parasitagem se articule graças aos atuais ocupantes do governo estadual e municipal da capital, não resta dúvida que todos esses esquemas podem sobreviver, perfeitamente, a derrotas eleitorais e se realinharem, compondo com as novas forças. É preciso criar meios efetivos para neutralizar o processo ele mesmo.



quinta-feira, 1 de março de 2012

Sucessão Paulistana: Serra está lá, e Daí?

Há poucos dias, José Serra foi anunciado candidato a prefeito de São Paulo. Isso, a despeito do estardalhaço todo da mídia, não é novidade alguma, muito pelo contrário, novo é agir como se isso fosse algo surpreendente: os candidatos do PSDB à prefeitura de São Paulo se resumem a Serra e Alckmin - assim mesmo, alternadamente - desde 1996. 

Aliás, pulando 1998 - quando o falecido governador Mário Covas disputou e conseguiu sua reeleição - são Serra e Alckmin os únicos dois nomes que se revezam na disputa da prefeitura de São Paulo, do governo paulista e da Presidência da República. Tirando o governo do estado, onde os tucanos sempre têm vencido, os fracassos se somam em nível federal e, na capital bandeirante, só houve sucesso em 2004, com o próprio Serra.

O PSDB perdeu a oportunidade de se renovar, que fosse, pelo menos em seus nomes. Tudo seguiu o mesmo enredo, Aécio segue sem fazer oposição, a conversa em São Paulo continua a passar pelas duras negociações de bastidores entre Serra e Alckmin - e, no fim das contas, FHC precisa sair do descanso para resolver a confusão de alguma (ou qualquer) forma.

E Serra sai para disputa com sentimentos conflitantes. Já declarou, à boca pequena, que sua candidatura é um problema - uma bifurcação que aponta para uma derrota vergonhosa ou uma vitória de pirro que o afastaria de Brasília -, às vezes se anima com a possibilidade de que, com uma eventual vitória, possa tomar impulso para disputar com Aécio a indicação presidencial para 2014 e, não raro, solta que pode terminar no PSD de Kassab, caso vença e não lhe apoiem dentro do PSDB na disputa pela Presidência.

Talvez esse seja um dos casos mais emblemáticos do exaurimento do arranjo política do pós ditadura - ou melhor, daquele nascido de sua oposição e afirmado com sua queda. Sobre esse processo, basta ver todo o protagonismo, nas negociações pré-candidatura, de uma figura torpe como Kassab - um prefeito que não conseguiu cumprir metas elementares de governo - para se ter ideia do estado de coisas em que vivemos.

Existe, no caso paulistano, um jogo de fundo muito mais interessante do que as curiosas composições, recomposições e decomposições partidárias: é a questão da gestão dos espaços públicos e a relação da especulação imobiliária com isso. Uma candidatura, em um cenário hipercompetitivo como esse, custa caro. E qual o preço que cobrarão esses prestativos financiadores?

Nesse jogo, a figura de Serra, um sujeito marcado pelo gosto de destruir correligionários e a ambição sem limites, só torna mais desagradável o que já não era bom. Criticar Serra não pode ser um subterfúgio para uma crítica a esse processo em geral, mas não pode deixar de ser feito. 

P.S.: Serra tecnicamente ainda não é o candidato do partido. Ele passará por uma prévia para legitimar seu nome, mas já sabemos o resultado disso.



terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Como o Carnaval Paulista (Não) Acabou


     
Pau quebrou no Sambódromo? À noite o SBT faz uma edição ishperta e diz q foi só uma bolinha de papel.




Com esse tweet inacreditável de Soninha Francine, ex-um monte de coisas e recém-serrista para todo o sempre, foi o único desfecho possível para o interminável carnaval paulista - que não terminou mesmo, uma vez que o quebra-pau entre as escolas de samba, causado pela tensão gerada por mudanças de última hora (e mal-contadas) dos jurados, obstruiu o processo de apuração das notas.

É um exercício de surrealismo em uma intensidade única, derivado de um surto paranoico coletivo e extremo. De repente, o carnaval roubado das ruas, transformado em competição e enchido de regras e proibições, chega a um nível de violência psicológica tamanha que só poderia resultar, na forma de catarse, em uma pancadaria generalizada. 

Como desgraça pouca é bobagem, enquanto eu tuitava que São Paulo tinha virado algo como um filme de Buñuel - ou do último Almodóvar, para ficar em um exemplo mais recente - surge esse tweet acusando o SBT de ter editado (oi ?!) o vídeo em que José Serra, no episódio mais tragicômico da política nacional, é flagrado fingindo ter se ferido gravemente quando, na verdade, algum lhe tacou uma perigosa e inconfundível bolinha de papel.

Sem mais: se você não superou a história da bolinha de papel, faça um favor a si mesma e passe a sua vez, porque mesmo os adversários de Serra já trataram de apagar isso de sua própria memória por vergonha alheia. 

Isso, infelizmente, é um bocado o retrato do São Paulo contemporânea, que te angustia até o momento em que não te faz gargalhar como um louco - como se você assistisse a Salò de Pasolini refilmado tal e qual uma pornochanchada.

O irônico, e o que seria a História sem suas ironias, é que mesmo a tentativa radical de enquadrar o carnaval e torna-lo um fantasma de si próprio, ainda que por vias tortas, termina em um carnaval involuntário. Sei lá, mas acho que ainda bem.

atualização das 19:17: e depois foi declarado que a Mocidade venceu o desfile, dizer mais o quê de tudo isso.