segunda-feira, 11 de abril de 2011

O Fascismo Nosso de Cada Dia

A declaração racista do oportunista Bolsonaro, a tragédia do Realengo e a recente manifestação fascista na Avenida Paulista não são peças desconexas entre si, mas sim cenas do mesmo espetáculo macabro. Se, por um lado, os últimos anos foram marcados por uma ascensão social nunca antes vista em nossa história, por outro, vivemos às voltas com uma profunda crise de valores na política. Não resta dúvida de que jogo político brasileiro foi esquizofrenizado à última potência pela estratégia lulista; a pragmática sindical - e, agora, sua versão gerencial-estatista com Dilma - produziu transformações sociais para melhor maiores do que gerações inteiras de comunistas, nem ao menos, poderiam conceber, mas há um esvaziamento perigoso do debate na medida em que atores diversos foram articulados e rearticulados pela nova ordem - a ponto de não saberem mais quem são ou onde estão. Há tempos, tenho insistido por aqui que as transformações brasileiras dos últimos anos têm um caráter de esfinge, a fricção entre as classes aumentou e se tornou mais complexa ao mesmo tempo. Diante disso, bolhas perigosas se formam. A palavra esquizofrenia é a lei:  Nunca antes fomos tão brasileiros - e ser brasileiro nunca foi tão intenso pelo mundo - e nunca antes fomos tão pouco - o processo de assimilação da "cultura global" é profundo no plano interno, inclusive com a reprodução de certo tipo particular de recalque. O avanço dessa forma de violência, que decorre de uma lógica de política francamente contrária à vida, se dá em ritmo alucinante nas frestas - jamais a despeito - desse enormíssimo fenômeno de mudança que se alastra e se aprofunda em nosso país. No meio desse cinismo atroz reside um agudo desprezo pela vida. Ser racista é uma forma de decidir sobre quem deve viver e morrer - como diria o velho Foucault -, é preciso já estar morto em vida para chacinar uma dúzia de crianças da escola onde se estudou, é necessário muito ódio para reproduzir no país da diversidade o programa teleologicamente assassino e purismo do fascismo - em sua face mais descarada. É preciso ter um instrumento capaz de costurar as partes e o todo e garantir a vida. Isso tem de ser para o aqui e agora.  

  
PS: Vale a pena dar uma olhadinha nessa bela pensata que eu pesquei do twitter do Alexandre Nodari:


"Um par de tapas me ensinou o que era tolerância. Eles vieram de meu pai, que era o mais gentil e mais tolerante homem do mundo. Eu tinha seis anos. Eu estava na varanda de uma casa olhando o Isar, em Munique. Homens em camisas marrons marchavam cantando sob bandeiras com suásticas que eram balançadas. Estava lindo lá fora. Estava muito alegre. Hitler estava tomando o poder. As pessoas, na rua estavam saudando a procissão. De minha varanda, comecei a aplaudir. Meu pai me desferiu um golpe. Foi o único que recebi durante minha vida, foi o único que ele desferiu. Meu pai odiava a violência. Ele odiava a guerra. Ele odiava o ódio. Ele foi muito bem forçado a odiar Hitler e o nacional-socialismo. Eu aprendi aos seis anos que a intolerância é intolerável e que não há tolerância para os inimigos da tolerância" (Jean d'Ormesson)


sexta-feira, 8 de abril de 2011

A Tragédia do Rio

Intervenção artística na esquina da Rua Bartira com a M. Gonçalves Foz - Perdizes, São Paulo, próximo à PUC-SP

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A Tragédia de ontem no bairro carioca do Realengo foi anunciada. Se tem uma coisa que a filosofia contemporânea nos ensina é que as notícias demoram a chegar - mas um dia, elas chegam. Aqui, a tragédia causada por um jovem fundamentalista com problemas mentais que, como numa típica chacina americana, massacrou uma dúzia de crianças na escolas que estudou é só reflexo de algo que, há muito, acontece em nosso meio: a americanização da nossa sociedade, a reprodução - cada vez mais intensiva - de uma forma de recalque comum àquela máquina capitalista, produzindo efeitos semelhantes; o aumento dos casos de obesidade, de viciados em drogas - sobretudo antidepressivos - e, também, de chacinas desse tipo - "anômicas", dirão os partidários da analítica - não são fruto do acaso. Temos um tal nível de regulação da nossa vida, um grau tão agudo de normalização que, ora ou outra, produzirão jovens transtornados que farão algo do tipo. São todos panelas de pressão humanas com suas válvulas de escape entupidas, a explosão é certa - como é certo também que para compreender isso daqui, é preciso que nos livremos dos psicologismos e sociologismos vãos para pensarmos sobre a coextensividade entre o campo social e o individual.  Como nos lembra o grande Murilo Duarte Costa Corrêa - ao tratar da Carta a um Crítico Severo de Deleuze -, o si é a dobra interior do mundo. A vida sem saída, a vida interditada que nos sufoca não é um fenômeno físico ou lógico, não está no dentro ou no fora, mas sim na dobra que há entre ambos os campos, o que só pode ser desdobrado por uma Ética efetiva - e efetiva é a Ética concebida tendo em vista os devires e não os deveres e, voltada, por fim, a tentar desdobrar a problemática entre o Eu e o Mundo. Trocando em miúdos, não há como pensar nesse caso sem pensar o que há dentro da cabeça do atirador e, ao mesmo tempo, no que vem de fora e lhe faz agir assim: Ou melhor, a relação entre uma coisa e outra. É uma forma de economia que produz isso. Sim, senhores, estamos diante de algo mais trágico do que parece.



segunda-feira, 4 de abril de 2011

Palmeiras bate Santos: Notas sobre o Futebol Moleque

Felipão em ação -- Record de Portugal
Ontem, o Palmeiras de Luiz Felipe Scolari bateu, por 1x0, o Santos na Vila Belmiro. Foi, a exemplo dos demais clássicos neste Paulistão, um jogo duro e equilibrado, mas o resultado passa ao largo de ser surpreendente - ao menos para quem tem acompanhado essa edição do estadual bandeirante. Existe muita coisa que pode ser dita sobre o jogo como, por exemplo, que o certame  marcou  o reconhecimento (tardio) do alviverde como candidato sério ao título, o excelente trabalho de Felipão, talvez o crescimento de jogadores desacreditados e jovens, mas há um ponto em particular que eu gostaria destacar: Como a falácia do futebol moleque  foi exposta no jogo de ontem com derrota do Santos de Neymar e Ganso. Há quase dez anos vivemos às voltas com a panaceia do craque driblador de sorriso largo - e pouca cabeça -, dos delírios nostálgicos com um futebol que já não existe mais e do sonho de, quem sabe, jogar com cinco atacantes e nenhum goleiro - que alimentam uma imprensa esportiva quase toda inepta. Esse devaneio perverso queima jogadores verdadeiramente promissores, estraga bons elencos - que acabam reféns desses mesmos craques - e nos leva a fracassos ridículos nas copas. Uma boa sequência de vitórias ou alguns títulos aqui ou acolá, dois dribles bem feitos ou, quem sabe, uma pedalada certeira escondem uma degeneração progressiva de um futebol escravo de craques deslumbrados que não produzem outra coisa senão times que não sabem jogar coletivamente. O Palmeiras, bem armado e operário, soube absorver o choque inicial, ganhou terreno pouco a pouco até definir o placar no segundo tempo, quando era amplamente superior. Pode não ganhar o título, mas vai disputa-lo e terá uma bela vantagem caso ratifique a primeira colocação que ora ocupa - e o verde joga como os melhores times brasileiros dos últimos dez anos, o Brasil penta do próprio Felipão ou o São Paulo multicampeão de 2005,  na medida em que não confunde ofensividade com irresponsabilidade defensiva e não se deixa capitular por esse ou aquele nome, diferentemente do Santos subjugado por suas estrelas. Nunca voltaremos aos anos 50 ou 60, mas se quisermos retomar aquelas glórias, antes de mais nada, temos de retomar a seriedade dos grandes craques de antigamente, não aplaudir firulas e malabarismos dos simulacros de hoje.
  


domingo, 3 de abril de 2011

A Popularidade de Dilma

Lula e Dilma na Universidade de Coimbra na cerimônia que conferiu ao ex-Presidente o título de doutor honoris causa - Efe

Na última sexta, 1º de Abril, o golpe militar completou 47 anos. Foi o primeiro aniversário daquela desdita sob a égide do atual Governo - e, embora a senhora Rousseff seja a terceira mandatária brasileira consecutiva a ter combatido a Ditadura Militar, é bom lembrar que nem FHC e nem Lula sofreram na pele a verdade sangrenta daquele regime como ela sofreu; portanto, esse aniversário do golpe teve um significado particularmente especial. Coincidentemente, também foi divulgada nesse último 1º de Abril uma pesquisa de opinião CNI/Ibope sobre a aprovação do Governo Dilma: 73% aprovam a pessoa da Presidenta e 56% consideram seu Governo ótimo ou bom - contra apenas 12% que a desaprovam pessoalmente e mirrados 5% que entendem sua gestão como ruim ou péssima. São números melhores do que a última pesquisa Datafolha e muito bons se pensarmos que Dilma está tendo a dura tarefa de substituir o maior líder popular desde Vargas.

A popularidade de Dilma se explica porque não houve alteração substancial dos programas de Lula, a geração de empregos permanece em alta - embora a inflação se imponha, isso parece  apenas um risco distante e sob controle - e, ainda, é fato que ela conseguiu furar a bolha de rejeição à sua pessoa criada pela campanha de José Serra.  Existem, claro, outros fatores que explicam esse fenômeno. Dilma apanha menos do que Lula da mídia corporativa porque não tem contra si os preconceitos que pesavam contra seu antecessor - e a figura do presidente-operário não era outra coisa senão a vagina dentada dos pesadelos da pequeno-burguesia tupiniquim  - além de, preste bastante atenção nisso, ter ensaiado uma aproximação com certas corporações de mídia, seja a imprensa propriamente dita ou das empresas cujos interesses giram em torno dos direitos autorais - basta relembrar todo o imbróglio da gestão Ana de Hollanda no Ministério da Cultura. Sua política externa também demonstra certo recuo em relação à ousadia de Celso Amorim, ainda que não tenha mudado substancialmente - e como a mídia nacional é mais realista do que o rei, talvez ela fique mais satisfeita com isso do que a própria mídia estrangeira. 

Em suma, motivos bons e ruins explicam a alta popularidade de Dilma, mas o que tem prevalecido é que a elite brasileira está satisfeita por continuar a ganhar muito dinheiro - embora não da forma que gostaria -, a "classe-média" tradicional está menos incomodada - porque, afinal de contas, a Presidenta não é vista como uma espécie de déspota inculta que ameaça suas conquistas - enquanto as camadas plebeias, embora não tenham mais um líder com o qual se identifiquem imediatamente, veem na atual chefe de Estado a continuidade das políticas lulistas de recuperação da renda, geração de emprego e, sobretudo, do reconhecimento da classe trabalhadora enquanto parte legítima do jogo político. As grandes ameaças, não resta dúvida, ligam-se ao futuro da economia mundial. O tripé EUA-UE-Japão está numa grave crise, o que além de pôr em xeque o Capitalismo pode antecipar a ascensão geopolítica brasileira, estaríamos preparados para um desafio dessa natureza? As pressões inflacionárias também não de pouca importância, apesar de serem fruto também de fatores externos - a especulação que força o preço das commodities agrícolas para o alto  é consequência clara do derretimento do mercado imobiliário, sendo uma constante desde 2008 -, também tem a ver com o aquecimento da economia nacional, o que exigirá saídas duras - ao nosso ver, o uso do mecanismo tributário para a contenção da inflação é a saída mais factível, mas isso exigirá sim aumento de tributos, o que é (e sempre será) uma medida impopular.

Outro grande ponto é que a oposição permanece perdida. O PSDB, por ora, tem a figura pessoal de Aécio Neves, mas não tem projeto de país. Pior, está perdido em impasse interno  com a disputa entre o próprio Aécio, Alckmin - na verdade, certos setores empresariais de São Paulo - e Serra - ou o que restou dele -, algo que só será resolvido no final deste ano. O racha do DEM em uma nova agremiação "social-democrata" é muito mais sintoma da crise do que saída para a direita nacional. Mantido o quadro atual, resta ao PSDB o jogo rasteiro de factóides moralistas ou do puro terrorismo religioso, típicas táticas que se derem certo nas eleições, são capazes de afundar qualquer eventual gestão. De resto, o que está estabelecido é um pêndulo, onde os tucanos apelam nas eleições por falta de projeto e, pelo mesmo motivo, caminham a reboque do consenso político durante o andamento do governo petista. Ainda que vá ganhar prefeituras importantes, a oposição tende a diminuir (mais ainda) de tamanho nas próximas eleições municipais. Dilma e o PT - ou melhor, seu campo majoritário -, portanto, dependem mais de si do que de qualquer outro fator, mas se num primeiro momento isso é ótimo, um olhar mais atento nos mostra que a questão é mais complexa do que parece.

PS: Leiam essa belíssima análise sobre o Governo Lula feita pelo sempre necessário Perry Anderson: Lula's Brazil.


Atualização das 12:25: Não deixe de ver a entrevista do grande constitucionalista português  J.J. Canotilho sobre o doutoramento de Lula. Também não pode passar batido a verdadeira desancada que Mauro Santayana deu José Carlos Aleluia por conta da carta que o deputado baiana escreveu para o reitor de Coimbra protestando contra a titulação de Lula como doutor honoris causa (?!).





quarta-feira, 30 de março de 2011

Bolsonaro, ainda



O vídeo acima é do humorístico CQC. Ainda que não seja o meu humorístico favorito - ao contrário, me parece mais um exemplo da decadência do humor brasileiro -, ele vez ou outra, acidentalmente, cumpre algum papel - como nessa entrevista com o deputado de extrema-direita Jair Bolsonaro, alguém suficientemente polêmico para "dar ibope" e que acabou até soltando uma manifestação racista no final dela, gerando grande repercussão na mídia. Bolsonaro, para quem não conhece, é ex-militar e construiu sua carreira política em cima de uma retórica agressiva que apela para todos os clichês possíveis que um político de extrema-direita poderia pensar em usar: Defesa da pena de morte, da Ditadura Militar - e, por tabela, da "moral", dos "bons costumes" e da "família" -, do policialismo como forma de combater a violência e o desrespeito permanente às minorias são itens presentes em seus discursos. Em entrevista nos anos 90, ele chegou até a sugerir o fuzilamento do então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso

Na resposta à cantora Preta Gil, nessa edição do CQC, ele chegou a se referir à possibilidade de um relacionamento entre um filho seu e uma negra como "promiscuidade", o que provocou um massivo repúdio e deu início a uma mobilização intensa para cassá-lo. Não me surpreende que alguém como Bolsonaro seja deputado, afinal, ele explora muito bem um senso comum extremista muito presente na nossa sociedade. O fato é que no Brasil, diferentemente de muitas democracias mais antigas e melhores do que a nossa, não existe uma extrema-direita organizada porque o atual equilíbrio de forças partidário tem neutralizado isso com certo êxito, o que relega a defesa dessa linha a algumas poucas figurinhas carimbadas - de forma atomizada ainda por cima. 

A primeira vez, em anos, que isso pareceu ser abalado foi na última eleição presidencial, quando  o candidato presidencial José Serra - um intelectual de porte oriundo da centro-esquerda - surfou na onda de uma pauta ultraconservadora - e agressiva - quando se viu derrotado, criando uma atmosfera irrespirável que arranhou irremediavelmente sua biografia. Por isso, mais do que nunca, a manifestação de Bolsonaro ganha uma conotação perigosa. Também não é o caso de ignorarmos que suas falas têm se radicalizado mais e mais - assim como voltou a ganhar certo espaço na mídia -, principalmente, porque estamos na iminência de um duro debate sobre o desarquivamento dos arquivos da Ditadura e da instituição de uma Comissão da Verdade. 

Seja como for, essa fala de Bolsonaro no CQC, por si só, já é das coisas mais graves que ele disse. Liberdade de expressão tem limites, ainda mais quando alguém exerce mandato eletivo e se usa disso para incitar o ódio. Ainda que o deputado seja muito mais alguém dotado de um senso de oportunidade único do que um ideólogo de qualquer coisa, esse tipo de comportamento não é admissível e não pode ser tolerado. É demais pagarmos o salário de alguém que se usa da democracia para ser eleito, mas usa de seu mandato para atacá-la ou mesmo que, vejam só, lança pesados ataques às minorias, mas é (acredite se quiser) membro da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Ainda que a democracia seja dos poucos sistemas que admita a crítica a si mesmo de dentro de suas instituições, há limites para o cinismo alheio e para o grau de ameaça que seguidas e sistemática declarações irresponsáveis podem representar. Espero não estar postando por aqui algo como este "Bolsonaro, ainda" - pelo menos não sobre ele como deputado -, acho que já deu e um ato racista é um bom limite.

terça-feira, 29 de março de 2011

A Morte de José Alencar

"Zé, nós subimos a rampa juntos, vamos descer juntos" -- foto de Ricardo Stuckert de Outubro último



Faleceu hoje, por volta das 14 horas, o ex-vice-presidente da República José Alencar. Ele enfrentava o câncer há anos e o agravamento do caso o deixou hospitalizado no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, por um bom tempo, onde entrou em óbito. Zé Alencar foi um vice-presidente atuante no debate público nacional, sua presença na chapa lulista simbolizou a aliança que seria a própria espinha dorsal do Governo Lula: A união entre o operário e o industrial desenvolvimentista - em outras palavras, a articulação política entre Trabalho e Capital em um caráter não apenas policlassista, mas também popular e nacional, o que já estava delineado na Carta ao Povo Brasileiro, o marco de nascimento do Novo Petismo. Alencar era um político mineiro apaixonado, conservador nos costumes e defensor de um nacional-desenvolvimentismo com face social em oposição ao privatismo dos anos 90 e, ainda, forçou à esquerda o debate sobre a política econômica por diversas vezes, batendo de frente com o capital financeiro - cuja presença também não esteve ausente nessa grande articulação que governa o país há mais de oito anos. A aliança PT-Alencar foi parte relevante da guinada dada pelo partido da estrela - e depois de uma guinada do próprio país -, uma mudança de rumo que transformou para sempre os rumos da esquerda nacional. Lula e Dilma, que se encontram em viagem pelo turbulento Portugal, retornarão amanhã ao Brasil para a cerimônia fúnebre de Alencar, que será enterrado com honras de chefe de Estado.


domingo, 27 de março de 2011

Crise Mundial: Reino Unido e Portugal

Manifestação gigantesca em Londres contra política de socialização de prejuízos - The Guardian

Ontem, quatrocentas mil pessoas saíram às ruas de Londres para protestar contra o plano anti-crise elaborado pelo governo britânico. O plano do gabinete do premiê David Cameron não passa de mais uma repetição da manobra mais batida entre manobras batidas do nosso tempo; cortam-se verbas para o financiamento de serviços essenciais como Educação e Saúde para cobrir um rombo cuja origem está nas próprias incongruências do sistema capitalista. Sim, o Capitalismo, como pontificou Marx há séculos, também tem seu movimento de sístole e diástole: O mesmo sistema que privatiza os ganhos socialmente produzidos é também aquele que socializa os prejuízos individualmente gerados - e isso é cíclico. 

No entanto, hoje, mais do que nunca, a Vida está posta em função do Capitalismo, o que só é possível pela existência de um Estado gigantesco que nos envolve a todos com sua política de exceção. Vivemos na era do cinismo em pessoa: O mesmo Governo Britânico, que está em guerra na Líbia por razões essencialmente imperiais - como o faz no Iraque e no Afeganistão há anos - também é o mesmo que alega não ter dinheiro para custear hospitais e escolas. Nada muito diferente da República Portuguesa que assistiu a queda do Governo Sócrates, há seis anos no poder, depois do Parlamento ter rejeitado um plano de recuperação similar ao refutado pelos britânicos nas ruas - embora aquele Parlamento não tenha decidido (e tampouco o fará) sair também da zona do Euro, o que faz com que aquela decisão seja apenas um capítulo do impasse na vida daquela república ibérica.

Se do lado português, a crise suscita a existência de um arranjo delirante do sistema europeu, constituído no fato de que países periféricos compartilham da mesma moeda usada por países como França e Alemanha, podemos dizer algo parecido do lado britânico: A bomba relógio monetária também aparece aqui, mas o faz na forma da superavalorização da Libra Esterlina. Para os países periféricos da Europa, o fato de  pertencerem ao sistema do Euro os torna dependentes de um ciclo de endividamento infinito possibilitado por um sistema de crédito com limites - para não verem suas contas explodirem imediatamente pelo déficit em conta corrente via balança comercial, aqueles Estados foram se endividando massivamente nas últimas décadas, mas pelo jeito a corda estouro. 


Já o Reino Unido, a pátria do eurocetismo, mesmo que não tenha entrado na Zona do Euro, também caiu numa arapuca monetária - aliás, a peculiar arapuca monetária *e cambial* britânica é o que explica o país não ter aderido à moeda comum europeia; falo aqui da maneira como a economia britânica se tornou mais e mais financeirizada, criando uma elefantíase do mercado de seguradoras, o que fez com que seguidos gabinetes mantivessem uma moeda incrivelmente valorizada, fato que somado aos custos das guerras nas quais o país se envolveu, gerou um rombo incontrolável nas contas do país. É preciso cortar em algum lugar, mas o que fazem, diante disso, os líderes britânicos e portugueses? Cortam verbas que iriam para hospitais e escolas. 

Nada muito diferente de líderes alemães e franceses que, enquanto motores do sistema monetário europeu, se acham profundamente espertos ao jogarem todo o ônus da crise sobre os seus vizinhos mais pobres, fechando as torneiras do sistema de crédito que eles próprios apresentaram aos portugais e grécias da vida como a garantia inabalável - e inesgotável - de viabilidade do Euro  - como se isso pudesse evitar uma contaminação sistêmica, via Euro, causada pela provável quebradeira geral que se avizinha no horizonte.

Isso, claro, sem falar em como a crise social e política na periferia da Europa irá lhes afetar. Não à toa podemos dizer que essa é, seguramente, a mais limitada geração de líderes europeus desde os anos 3o, algo sintomático em um momento no qual os partidos estão engessados na mais pura falta de criatividade e desconexão com a realidade social - a crise da esquerda partidária europeia está aí para nos provar isso. Ou a Europa produz novas saídas políticas - e Ed Miliband é uma esperança no Reino Unido - ou irá ser engolida pela crise. A implosão da União Europeia que se desenha é dos mais graves eventos que se pode conceber.

domingo, 20 de março de 2011

Quando Estamos Sós: Líbia

Retirado do excepcional Fractal Ontology
O filósofo lituano-francês Emmanuel Lévinas construiu sua vasta obra a partir de um diálogo permanente com a Tradição do pensamento ocidental, embora o fizesse construindo uma nova perspectiva segundo a qual a Filosofia Primeira foi reposicionada na Ética: A Filosofia - nascida enquanto discurso de dominação e fundada no Ser, uma unidade totalizante que desvaloriza as diversidades - deveria estar fundada na Ética, pois só assim a abertura em direção ao Outro seria possível e a vida poderia ser garantida. Reflexão natural de um homem que, como ele, sofreu na pele as agruras dos totalitarismos do Século 20º, seja quando vai para a França poucos anos depois da Revolução Russa - e as nuvens negras que se anunciavam para os judeus ainda não tinham precipitado, mas já se anunciavam no horizonte com o Stalinismo em gestação - ou mesmo quando é enviado como prisioneiro para um campo de concentração nazista na Alemanha depois da ocupação francesa - onde se depara com a expressão máxima da degeneração da máquina social humana, um sistema que além de opressor já tem como sua diretriz básica a eliminação prévia de determinados grupos como forma de atingir uma purificação geral.

Eu discordo de uma série de pontos da filosofia de Levinas, seja no que toca à influência da fenomenologia em sua obra ou sua concepção de infinito notadamente cartesiana, mas suas reflexões sobre a condição do homem diante da desdita, quando ele se vê abandonado diante da morte, me encantam - e o mesmo eu poderia dizer em relação à proposta central de seu pensamento. Existe uma passagem sua que me faz refletir profundamente à luz do clarão dos bombardeios que a OTAN promove, neste exato momento, sobre a Líbia"Deus que vela sua face não é, pensamos, uma abstração de teólogo nem uma imagem de poeta. É a hora em que o indivíduo justo não encontra nenhum recurso exterior, em que nenhuma instituição o protegeem que a consolação da presença divina no sentimento religioso infantil se nega também, em que o indivíduo apenas pode triunfar em sua consciência, ou seja, necessariamente no sofrimento" - sim, agora mesmo, essa é a situação na qual se encontra a multidão líbia, só a imagem de um Deus ausente lhes consola em meio ao fogo cruzado entre uma ditadura clinicamente paranoica e entre uma coalizão bélica com um senso de oportunidade único. A loucura do coronel Kadafi usada como trampolim da guerra justa que, em último caso, servirá para estacionar tropas no Magreb e frear manu militari o processo revolucionário que eclodiu na região. 

Dessa vez, não é o Stalinismo nem o Nazismo, apenas mais daquilo que assistimos reiteradas vezes desde 2001: O Estado contemporâneo, máquina de hemodiálise suprema e triunfante do Capitalismo atual - em relação ao qual a própria Vida está posta em função - e cuja face é um certo universal profundo; o sorriso largo de Obama esconde a formidável miragem na qual se constitui o Universal, posto como realidade apriorística, quando, concretamente, não passa do fruto de uma síntese passiva na qual certa força tornou um modo universalizável em um modo universalizado. O Universal que Obama ostenta enquanto hegemon é uma forma vazia na medida em que sua existência no discurso só serve para apontar o que ela mesma esconde, ou seja, sua própria causa determinante - isto é, a própria força causante. Para além desse raciocínio spinozano, basta voltarmos a Levinas e estamos diante de outro exemplo de Ser Totalizante. Nesse vazio cabe tudo exceto a diferença. Desde a reabilitação de Kadafi há poucos anos até sua nova transformação em tirano global - que ele nunca deixou de ser, ressalte-se.  Como se fará a Paz Universal das potências globais? Esse é o problema.

Em um situação onde os rebeldes se viam massacrados pela longeva ditadura Kadafi, quem se apresentou em sua defesa foram, ironicamente, aqueles que nos últimos anos financiaram e apoiaram aquela tirania - e fizeram o mesmo com todas as ditaduras vizinhas -, portanto, o alvo não poderia ser aquele regime, mas a própria mobilização contra sua existência moribunda. Não há salvação nem saídas fáceis. É provável que Kadafi - um peão nesse jogo todo - matasse todos rebeldes de forma cruel, portanto, não é possível torcer por nenhuma saída que não seja a sua derrubada - e dessa forma, eu não me ponho contra a resolução formal da ONU, cujo conteúdo material, claro, nada mais é do que a vontade e o poder da OTAN -, mas também não é possível ser favorável a ela de modo algum - nem ao que está acontecendo e, mais importante, ao que ainda vai acontecer. A luta agora é impedir mais mortes e garantir que a democracia não seja freada na Tunísia e no Egito ao menos. Quem o fará? Resta a questão. Em um mundo onde a anestesiado e em transe como o nosso, é difícil saber.


sábado, 19 de março de 2011

Três Debates Estratégicos: Líbia, Comissão da Verdade e a Visita de Obama

Dilma e Obama em Brasília -- foto: Agência Brasil

Assim mesmo, tudo junto e misturado. Na última quinta-feirao Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução nº 1.973 que, por sua vez, aprova o uso da força contra a Líbia, em virtude da violenta repressão da Ditadura Kadafi contra as forças rebeldes - o Brasil, enquanto membro eleito desse Conselho, se absteve junto com Rússia, China, Alemanha e Índia, sendo que os dois primeiros não utilizaram do poder de veto (que dispõem na medida em que são membros permanentes). Na última sexta-feira, o TUCA (Teatro da PUC-SP) recebeu a 48ª Caravana da Anistia, a primeira do atual Governo, contando, inclusive, com a presença do Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo - também professor da Casa - que, após o evento, declarou à imprensa que o Governo está unido em relação à implementação da Comissão da Verdade - como este humilde redator testemunhou a alguns metros de distância. Hoje, o Presidente Americano Barack Obama, em visita ao Brasil desde ontem, discursou em Brasília ao lado da Presidenta Dilma Rousseff.

São três itens centrais que se relacionam entre si e dizem respeito ao novo momento do Brasil no mundo. Sim, o Brasil depois de Lula é um país importante, diferentemente do que era no fim dos anos 80 - quando México e Argentina ainda eram os países mais relevantes da América Latina - ou do que ele poderia já ter se tornado nos anos 90. Isso não quer dizer que nosso país não tenha problemas graves ainda: O fato de estarmos já na 48ª Caravana da Anistia e o legado da Ditadura não ter sido superado - diferentemente do que houve no Chile e na Argentina - é gravíssimo. Ainda assim, é preciso considerar que a fala de Cardozo durante sua exposição e, depois, na entrevista para os órgãos da mídia corporativa foi contundente e alentadora - além de suscitar certo respaldo do Palácio da Alvorada. Não, o Brasil não poderá ser o país importante que ele quer ser - e que o próprio mundo, neste momento crítico, demanda com urgência - se não superar de vez o legado presente de sua Ditadura, isto é, o que resta neste exato momento do refluxo reacionário que produziu o 1º de Abril de 1964 - tudo de ruim que a Ditadura poderia ter feito já passou, o que interesse são os efeitos presentes, a negação de abrir arquivos históricos, de punir torturadores etc. Isso não é revanchismo, dado que se refere a problemas que existem em ato. O mundo precisa de um Brasil forte, mas não de um Brasil covarde que se autoanistia de crimes contra a humanidade, é condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos por conta disso e permanece inerte.

Por que o mundo precisaria tanto de um Brasil forte? Vejamos, a atual Crise Econômica Mundial expôs que o sistema econômico global é, na verdade, um gigantesco parque de diversões construído sob um pântano tenebroso, enquanto o fenômeno Wikileaks trouxe à luz, por sua vez, o fato de que o sistema político global, como não poderia ser diferente, é o Estado de Exceção de Agamben dito e feito. A União Europeia é um fracasso  - e a Rússia pós-soviética não é muito diferente, só que piorada -, o Japão se vê diante da iminência de uma hecatombe nuclear. O que resta ao mundo? Os EUA em crise, mas ainda imponentes com seu arsenal nuclear e sua presença imperial pelos quatro cantos - com algum eco libertário soterrado sobre os escombros do Iraque e preso entre as grandes de Guantánamo -, uma ascendente - e ditatorial - China, quem sabe a Índia e...o Brasil.

A humanidade, depois do Governo Bush Filho e da inércia de Obama vive a situação mais assustadora desde os anos 30. Ainda que se possa questionar bastante a atuação americana ao longo da segunda metade do século 20º, as atitudes tomadas nos últimos dez anos foram particularmente temerárias. A China, se muito, oferece apenas soluções para si mesma. O Brasil, portanto, é chave nesse processo em virtude de sua proposta de atuação não-belicista, favorável ao fortalecimento do sistema multilateral e cética em relação à gestão da economia mundial nos últimos trinta anos - o que produziu essa terrível crise econômica. Claro, a visita de Obama tem mais a ver com a necessidade dos EUA se apoiarem em um novo parceiro de peso - para sobreviverem - e, digo mais, com as próprias ambições político-eleitorais do Presidente americano - em suma, transformar essa aproximação com o Brasil em um fato político positivo para 2012, coisa que ele não foi capaz de fazer até agora por pura incompetência, sobretudo pela atuação ambígua de Washington no que se refere ao golpe hondurenho.

O Brasil precisa ser colocar como o fiel da balança da nova ordem, manter o diálogo produtivo e em posição de igualdade com os EUA - que não vai deixar de ser uma nação importante -, mas ao mesmo tempo manter a aliança com a China. O que nos interessa, enquanto brasileiros e seres humanos, é ver o Brasil contrabalanceando a China com o manutenção do diálogo com Washington e neutralizando os EUA com a manutenção da aliança com Pequim. Nesse sentido, a posição brasileira diante da invasão da Líbia - favas contadas desde que a insurgência contra Kadafi tomou corpo e ele preferiu destruir o próprio país a renunciar - foi correta; sim, Kadafi é um ditador insano e precisa cair; não, infelizmente, a intenção das potências que aprovaram o "uso da força" contra a Líbia são as mesmas que passaram os últimos anos alimentando toda sorte de ditaduras naquela região e, por sua vez, procuram neutralizar a todo custo as vitórias das mobilizações populares, grandiosas e intensas, que derrubaram as ditaduras de Ben Ali na Tunísia e a de Mubarak no Egito. Menos do que uma apologia à democracia, o Ocidente pretende estacionar tropas no Magreb para, digamos, negociar melhor a democratização da região. Nesse aspecto, refaço apenas as minhas críticas à posição tímida do Brasil frente à revolução tunisiana e egípcia. Agora, o álibi para a invasão ocidental na Tunísia é inevitável, o que resta é procurar a evitar que a futura presença militar da OTAN na Líbia não frustre a democratização de Tunísia e Egito.

É essa sensibilidade histórica que o Governo Dilma precisará ter: A luta pelo Brasil dar certo já não é mais apenas problema nosso, a humanidade toda depende disso.

quarta-feira, 16 de março de 2011

O Fim de um Ciclo na Blogosfera Brasileira

Idelber e eu - São Paulo, 2010
Na segunda-feira, Idelber Avelar encerrou as atividades do seu excepcional o Biscoito Fino e a Massa. Uma pena, afinal, falamos do melhor blog daquele que eu considero o segundo ciclo da blogosfera tupiniquim (justamente quando ela toma corpo mesmo): Se no primeiro momento - em uma época na qual a nossa Internet estava longe de ser acessível à população - a blogosfera era o lar de profissionais da área de TI e gente que, de alguma forma, era íntima da informática, este meio podia até ser mais divertida para os habitantes da Rede, mas não tinha densidade relevante junto ao debate público; isso acaba com o advento do Governo Lula, quando a blogosfera sofreu um boom por uma conjunção de fatores como (1) A massificação da rede, seja pelas novas tecnologias - que facilitaram a criação de blogs - ou pelo aumento da renda salarial durante o Governo Lula; (2) A crise na imprensa em papel, seja formal - a lentidão em difundir notícias e análises - ou material - a sua queda na qualidade por meio da sua panfletarização; (3) O aumento da complexidade do debate político brasileiro - a exemplo do que se passa no mundo -, o que exigia uma nova espécie de forma de se comunicar - interativa, de preferência. Foi nesse cenário que surgiu, há mais de seis anos, o Biscoito Fino e a Massa, um baita blog, seja pela sua densidade intelectual de seu editor ou por sua linguagem acessível - além de sua posição privilegiada do Idelber de morar nos EUA e voltar ao Brasil com frequência, o que lhe permitia ver o Brasil por fora numa parte do ano e, depois, vê-lo por dentro. Em seus arquivos, sobram excelentes postagens, sempre em um clima apaixonado - seja pela política, pelo futebol, pela música e pela literatura. O Idelber foi o primeiro blogueiro importante a ressaltar a importância do link na blogagem e, como nos lembra o Alexandre Nodari, a construir de forma orgânica uma comunidade de comentaristas.  Se as férias que ele tirou do blog entre 2009 e 2010 pareciam anunciar um iminente volta, agora, parece certo que o mestre tenha resolvido pendurar as chuteiras mesmo. Como na ocasião em que ele suspendeu as atividades do Biscoito, eu só tenho a agradecer o Idelber pela inspiração intelectual e o apoio como blogueiro, posto que sem ele, certamente, esta humilde Casa não existiria. Na minha perspectiva, parece certo que se trata de um corte na vida da blogosfera brasileira, cujos sinais do fim dessa segunda fase parecem ter se concretizado - e não falo, claro, sobre  questões pessoais que tenham levado esta ou aquela pessoa a parar de blogar, mas de uma realidade de debate que se estabelece com o fim da era da Lula: As coisas mudaram e não teremos mais o Biscoito neste momento, isso é um marco. Da minha parte, entendo perfeitamente a decisão do Idelber - que eu tive a honra de conhecer ano passado, em São Paulo - e torço, de coração, que seus novos projetos deem certo.