segunda-feira, 21 de junho de 2010

Notas da Copa: Fim da Segunda Rodada, Portugal, Chile e Espanha

(foto retirada daqui)

Hoje, terminou a segunda rodada da primeira fase da Copa do Mundo. O destaque fica por conta da goleada portuguesa sobre a Coreia do Norte em jogo disputado pelo Grupo H: 7x0. Goleadas como essa só acontecem no futebol, entre equipes profissionais, porque o time goleado (I) queria derrubar o técnico; (II) não estava recebendo o salário; (III) não estava bem física e/ou mentalmente. Apesar que seja consenso a fragilidade do time norte-coreano, minha aposta vai na terceira hipótese: Por pior que fosse, tomar de sete é um supremo exagero e se explica pela instabilidade psicológica de uma time que segurou, em dois tempos contra o Brasil e um contra Portugal, uma das mais duras retrancas dessa Copa e, ao sentir a desclassificação bater à porta e, depois de ter tomado um golzinho de Portugal no Primeiro Tempo, abriu a porteira e levou seis na segunda etapa. Em outras palavras, o time lusitano treinado por Carlos Queiroz, praticamente carimbou sua vaga para as oitavas, afinal, precisaria ser goleado pelo Brasil e ver Costa Marfim golear a Coreia do Norte para ser eliminado pelo saldo de gols. Não sei o que será da próxima rodada ou melhor, como se comportará o Brasil já classificado e sem Kaká contra Portugal, mas suspeito que o time tem seus brios para não perder nem a invencibilidade nem a primeira colocação. Sobre Portugal, o time só jogou bem nesta Copa contra o time norte-coreano em pane no segundo tempo, fora isso, há muito o que provar.

O Chile, do técnico Marcelo Bielsa, é uma das poucas equipes que destoam da mesmice tática nessa Copa, além de jogar um futebol alegre e ofensivo. Em seu 3-4-3 - que lembrava o time argentino do próprio Bielsa que fez sucesso no quadriênio 1999/2002 até fracassar na Copa da Ásia -, o time chileno envolveu o 4/4/2 com duas linhas do time suiço, dominou o jogo, forçou cartões e uma expulsão, mas não conseguiu transformar volume de jogo em gols. Isso só mudou quando Bielsa alterou a forma do time jogar, botando Valdivia na ponta-direita no lugar do centro-avante Suazo, com Sánchez passando para o meio e Beausejour continuando na esquerda. Num enfiada de bola marota de ex-camisa 10 palmeirense para Paredes, ele cruzou para González fazer o gol - Paredes estava ligeiramente impedido, mas quando se põe uma defesa para jogar fazendo, sistematicamente, linha de impedimento, você deve contar com duas coisas: (I) Seus zagueiros não errarão jamais o posicionamento e sempre - disse sempre - terão o devido feeling e (II) Os bandeirinhas nunca - eu disse nunca - vão errar uma marcação. Chile 1x0 Suiça. Poderia - e deveria - ter sido mais, com esse resultado os chilenos jogam por um empate contra a Espanha, mas é um desafio imenso, haja vista o poder de fogo do time ibérico e o fato da Suiça jogar contra Honduras no outro jogo. Se os suiços passarem, ótimo, é do jogo, mas para quem gosta do futebol bem jogado e de criatividade tática, será triste.

O outro jogo ficou por conta da Espanha, praticamente no 4/3/3 como Villa, Torres e Navas no ataque, contra uma Honduras retrancada como no primeiro jogo - ou seja, no mesmo 4/4/2 com duas linhas com 4 fechando-se como a Suiça horas antes. Os espanhóis começaram num ritmo sensacional, massacraram e marcaram: Villa, um golaço - para recompensar os que ele perdeu contra a Suiça. Depois de muito apertar, ter um pênalti a ser favor não convertido, a Espanha diminuiu o ritmo e não conseguia fazer o segundo. No Segundo Tempo, ou Honduras iria partir para o tudo ou nada - o que conduziria muito provavelmente a uma goleada da Fúria - ou iria prosseguir se segurando - em outras palavras, iria tomar outro gol só na hipótese de um outro golaço como o de Villa. Nem tanto ao mar nem tanto à terra: Honduras se abriu, Villa fez outro, em um contra-ataque onde pegou a defesa adversária aberta, mas parou por aí, os hondurenhos voltaram a marcar e o jogo ficou por isso mesmo. Até agora, nada impressionante o time espanhol, ainda que tenha demonstrado qualidade. Disputará a vaga na última rodada contra o bom Chile. Resta saber se Honduras irá atrapalhar ou não a vida da zebra suiça. Pela inaptidão de ambos no ataque, talvez sim.

Foto 2 e 3 AP 

Dicas de Livros: Negri/Hardt e Deleuze/Guattari

(Toni Negri, foto retirada daqui)

Ontem, enquanto internetava após o jogo do Brasil, deparei-me com boas dicas de livros. A primeira, veio pelo twitter do João Telésforo, por conta do qual eu parei no Outras Palavras, mais especificamente numa resenha sobre Commonwealth, o novo trabalho de Toni Negri e Michael Hardt - a mesma dupla de Empire. Conheço lateralmente a obra dos dois e espero, quando terminarem as infinitas provas - que nunca se acabam, muito embora acabem comigo - para seguir com minhas leituras de Spinoza e chegar na obra dos dois - assim como em Deleuze, sobre o qual falarei logo em seguida. Em se tratando dos dois - e da excelente resenha - estamos falando de coisa boa, segue um trecho:


"Para fazer bom proveito de Commonwealth, não é preciso recorrer à obra pregressa da parceria Negri e Hardt. O livro arremata os dois anteriores e amadurece as suas questões, problemas e conceitos. Se o robusto estofo filosófico é assegurado pelo intelectual padovano de 76 anos, a prosa fluida, simples e atlética é tributária de Michael Hardt – professor de literatura de língua inglesa. Indicado, portanto, para quem desgosta de penosos e herméticos livros de filosofia e concorda com Ortega y Gasset: “a clareza é a cortesia do filósofo.” Hardt, por sinal, é autor de uma das mais límpidas introduções ao pós-estruturalismo francês (Gilles Deleuze: um aprendizado em filosofia, 1993).



Um amor que mobiliza a cidade dos homens,



é combinação produtiva de desejos e afetos








passa longe da família, carreira profissional e nação



Voltando ao texto, Commonwealth resgata Dante e sua noção de vita nuova. Esta se realiza na comunhão de amor que mobiliza a cidade dos homens em busca da autonomia, da riqueza e da igualdade. Amor nada sentimental, que se desdobra ética, estética e politicamente. Cupidez que é causa e consequência, em ciclo virtuoso, da liberdade e potência de cada um, na sua combinação produtiva de desejos e afetos. Portanto, amor que passa longe da família, da carreira profissional e da nação – três vilões a bloquear o comum e expropriá-lo em nome de felicidades atrofiadas, impotentes e socialmente desiguais. A família corrompe-o pela exclusividade afetiva, hierarquia paternal, narcisismo filial e mecanismos de transferência de propriedade. A carreira profissional compromete-o pela alienação do trabalho, o individualismo, o controle patronal e a concepção unidimensional de tempo. E a nação pela homogeneização das diferenças, a imposição das maiorias, a xenofobia intrínseca e os ideais abstratos de glória, sacrifício e destino coletivo."


Um dos conceitos mais fantásticos em Spinoza é o amor, cuja construção se dá sobre o legado do pensamento de Leão Hebreu - cuja obra tem significativa influência sobre a sua, ainda que Spinoza refute a ideia da divisão entre corpo e alma - e consiste, grosso modo, em um afeto pelo qual nos ligamos a um determinado objeto que reconhecemos como capaz de aumentar nossa força de existir e, mediante o qual, ampliamos a nossa potência de agir - e assim nos aproximamos mais de nos realizarmos, o que consiste no gozo de uma alegria constante, a suma felicidade ou beatitude. Esse afeto "que mobiliza a cidade dos homens" é a base necessária para a construção do Estado Democrático, afinal, Spinoza não era contrário às instituições, mas defendia - tal como faziam os círculos racionalistas da Holanda de sua época - uma espécie de organização política institucionalizada que combinasse - e assim concretizasse - o seu ideal social ao seu ideal libertário: Falamos em um artifício astucioso que cumpriria a dupla função de garantir a vida em grupo - haja vista que as paixões são inerentes ao homem - realizando seu ideal social e, ao mesmo tempo, construindo um ambiente suficientemente livre para que os cidadãos pudessem se expressar e assim se realizar - sendo o Estado Democrático aquele onde os atritos entre o corpo estatal e a multidão acabariam sendo mais facilmente absorvidos, sendo ele, portanto, a forma de organização política mais sustentável e efetiva (note, a ideia de multidão se difere da ideia de povo, o conjunto das pessoas que vivem em grupo não reduzidas a uma determinada unidade, mas sim compõem uma espécie de conjunto ambivalente que, simultaneamente, é cada um e todos). É em cima dessa concepção, conjuntamente com a reflexão econômica radical de Marx, que levam Negri e Hardt a verem o amor como uma força econômica - logo, transformadora da economia, ora dominada por um sistema que frustra a realização do potencial dos indivíduos e, por tabela, da própria sociedade.

A outra dica, que eu pesquei no excepcional a Navalha de Dali do Murilo Côrrea, não é menos relevante: Trata-se da nova tradução de O Anti-Édipo: Capitalismo e Esquizofrenia de outra grande dupla, Gilles Deleuze e Felix Guattari - igualmente conhecedores da obra do velho polidor de lentes de Amsterdã - pelas mãos de Luiz Orlandi:









 Este é um livro revolucionário, em múltiplos sentidos. Não só porque seus autores o escreveram sob o influxo de Maio de 68, mas sobretudo porque seu alvo é compreender e libertar a potência revolucionária do desejo, dinamitando as categorias em que a psiquiatria e a psicanálise o enquadraram.
     No centro do conflito está a concepção freudiana do inconsciente como teatro e representação — e sua pedra de toque, o drama de Édipo. Para Deleuze e Guattari, ao contrário, o inconsciente não é teatro, mas usina; não é povoado por atores simbólicos, mas por máquinas desejantes; e Édipo, por sua vez, não passa da história de um longo "erro" que bloqueia as forças produtivas do inconsciente, aprisiona-as no sistema da família e assim as remete a um teatro de sombras.
     Com agilidade impressionante, O anti-Édipo combina dispositivos da filosofia, da literatura, da antropologia, da arte, da economia, da ciência, da política e da biologia — além de um sem-número de alusões e citações que correriam o risco de passar despercebidas não fosse o trabalho rigoroso do tradutor Luiz B. L. Orlandi, que dotou esta edição de valiosas notas informativas —, para articular uma crítica radical da cultura que acabou por definir uma das linhas de força do pensamento contemporâneo.


Vale a pena conferir.

domingo, 20 de junho de 2010

Notas da Copa: Brasil 3x1 Costa do Marfim


(Batalha campal, imagem retirada daqui)

Agora há pouco, a Seleção Brasileira derrotou por 3x1 a Costa do Marfim. Foi o melhor jogo de uma grande seleção mundial nesta Copa. Um belíssima resposta de Dunga para uma imprensa esportiva que pouco - ou nada - entende de futebol e fica batendo em treinadores que não satisfazem sua communis opinio degenerada e idiota - e se possuem algum mérito, é o de provocar efeitos manada usando-se na mentes ingênuas que acompanham futebol de 4 em 4 anos. Foi também a pior arbitragem de uma Copa de boas arbitragens - e a mais flagrante postura antidesportiva de uma seleção nessa Copa, como comprova a postura dos marfinenses que bateram a rodo e tiraram Elano do jogo, oxalá, não da Copa. Mais do que isso, a Seleção Brasileira, se classificou antecipadamente para a segunda fase da Copa do Mundo - repetindo a Holanda e confirmando um ciclo quadrienal virtuoso, iniciado com uma vitória por 3x0 sobre a Argentina, e que esteve abaixo, em aproveitamento, apenas da seleça no ciclo 58/62, treinada por Feola, e da média de Zagallo.

O Brasil entrou em campo no 4/2-3/1, o 4/3/3 falso, com Julio Cesar onde Maicon era lateral-direito, Lúcio (pela direita) e Juan (pela esquerda) faziam o miolo de zaga e Michel Bastos era lateral-direito; Gilberto Silva e Felipe Melo eram os volantes, o trio de criadores foi Elano (ponta pela direita), Kaká (armador central) e Robinho (ponta-esquerda) e, na frente, Luís Fabiano era o centro-avante. Em suma, o mesmo que o jogo passado. A Costa do Marfim, fez o mesmo, como os esquemas se anulam, eram quatro zagueiros marcando três atacantes de lado a lado e três meias se batendo. Drogba jogou. Sven-Göran Eriksson armou o time para empatar e tirar o Brasil na base do saldo contra a Coreia do Norte - e provou pela centésima nonagésima vez que não sabe fazer outra coisa senão falar javanês.

O jogo começa tenso, com os marfinenses recuados em seu campo defesa com Kalou e Dindane fazendo marcação sob pressão nos laterais e dando bem o bote. Drogba ficava entre os dois zagueiros. O jogadores de meio marfinenses corriam bastante, Kaká sentia a parte física e não corria, Gliberto Silva e Felipe Melo não saiam para o jogo. Maicon era quem, apesar dos pesares, tentava sair com a bola e Robinho mostrava a maior fome de jogo, enquanto Elano pouco aparecia e Luís Fabiano estava desabastecido no comando de ataque. Era um jogo de xadrez com nervosos saltados, mas Kaká foi entrando no jogo e junto com ele veio Elano. Numa jogada individual do nosso dez, Luís Fabiano entrou na área e fez um baita gol, recebeu na direita e chutou sem ângulo. Costa do Marfim ainda reequilibrou no fim do Primeiro Tempo que terminou equilibrado, execeto pela posse de bola, ligeiramente maior por parte do time brasileiro.

Veio o Segundo Tempo. O Brasil começa bem. Logo no comecinho, a bola sobra para Luís Fabiano que dá um chapéu, dá outro e conclui de primeira. Golaço. Brasil 2x0. O time fica eufórico e a defesa dá sua primeira navalhada: Drogba, livre, cabeceia para fora - dentro fosse e o deslocado Júlio César teria levado. O Brasil segue melhor e Kaká vai à linha de fundo cruzar para Elano, vindo de trás, só empurrar e fechar a fatura, Brasil 3x0 - lance trágico de dois jogadores que encontrariam sua sorte (ou falta dela) logo mais. Num contra-ataque marfinense, dois minutos depois do gol, Elano antecipa, é inocente ao entrar de carrinho de frente, Tioté entra por cima o tira de campo. O árbitro nada faz e Costa do Marfim começa a bater - e muito. Daniel Alves substitui Elano pela ponta-direita e a pancadaria come solta Kaká é provocado, toma cartão. Um contra-ataque que deveria ter sido morto logo no meio resulta no gol de Drogba frente uma zaga brasileira distraída e mal posicionada. As provocações continuam e Dunga erra em não tirar Kaká. Aos 44, um jogador marfinense simula ter sido agredido por Kaká e provoca a expulsão do jogador. O jogo termina, Brasil nas oitavas.

Valeu Dunga. Torçamos por Elano.

Atuação do Brasil

1. Júlio César: Sem culpa no gol, mostrou elasticidade e boa colocação - só errou em um lance que Drogba errou. 7,0
2. Maicon: Marcou em cima, apoiou menos do que no primeiro jogo. 6.5
3. Lúcio: Foi bem, mas deu espaços no segundo tempo. 6,0
4. Juan: O mesmo que Lúcio. 6,0
6. Michel Bastos: Apesar do erro ter sido coletivo, foi o maior culpado pelo gol e novamente foi mal. 3,5
8. Gilberto Silva: Bem na marcação, mas parece fora de ritmo. 5,5
5. Felipe Melo: Muito mal no começo, depois se recuperou e engrossou o caldo na marcação. 5,5
7. Elano: Entrou nervoso, depois se recuperou, coordenou as jogadas pelo meio, fez seu gol e foi vítima de uma entrada criminosa. 7,0
(13. Daniel Alves): Entrou numa verdadeira fogueira e se complicou em lances simples. 4,5
10. Kaká: Quando entra no jogo, mostra que é o principal jogador brasileiro. Foi vítima da arbitragem. 8,0
11. Robinho: Mostrou vontade, moveu-se bem, mas faltou um pouquinho de calma. 6,5
(18. Ramires): Deveria ter entrado bem antes no lugar de Kaká, não teve tempo. sem nota.
9. Luís Fabiano: Dois golaços. É um baita centro-avante. 9,0
Nota Média: 6,25

Dunga: Armou magnificamente bem para um dos jogos mais complicados da Copa, seja no que toca a disposição tática ou a de espírito. Errou no segundo tempo ao não ter tirado Kaká para poupa-lo das pancadas e da arbitragem esquizofrênica, mas fora isso foi muito bem. Não entendo porque leva tanta pedrada 7,5

Outras

A Itália é um time que em dez anos foi vice da Euro - em 2000, por covardia na final - e campeã mundial - num campeonato incrivelmente fraco, onde Parreira fez as escolhas erradas (veja só, as da imprensa esportiva!) e afundou o único time capaz de fazer algo naquele mundial. Fora isso, o time é bisonho, não exatamente pela qualidade, mas pelo anti-futebol que pratica. Não há como não torcer contra. Hoje empatou com a Nova Zelândia. Já o Paraguai venceu a Eslováquia e está a um empate da classificação para as oitavas. Uma maravilha para quem fica exaltando o futebol europeu e fazendo piada da América do Sul.

sábado, 19 de junho de 2010

Notas da Copa: Holanda, as Zebras e o Brasil Amanhã

A Holanda, sem muito brilho, bateu hoje de manhã o Japão, chute de fora da área de Seneijder com ajuda do goleiro. Novamente os holandeses foram superiores aos adversários, mas ainda estão longe do futebol da última Euro ou das eliminatórias para Copa: Jogam no seu 4/2-3/1 bem - afinal, foram eles que inventaram mesmo -, procuram manter obsessivamente a posse da bola e tentar entradas pelas laterais e chutes de longa distância. Tem funcionado, mas ainda é pouco. A classificação antecipada para as oitavas veio graças à vitória da Dinamarca por 2x1 sobre Camarões. Foi o melhor jogo que eu vi agora, com duas seleções jogando com três atacantes, indo para cima, jogando e deixando jogar - e muito embora os camaroneses tenham aberto o placar, pressionado bastante ainda no primeiro tempo, o time da Dinamarca mostrou disciplina tática, soube explorar as falhas do sistema defensivo adversário e, sobretudo, tinha um Rommedahl em tarde inspiradíssima para definir. Faltou pouco para os nórdicos conseguirem mais um gol, mas o Japão jogará pelo empate na última rodada.

A zebras mesmo, e essa é uma zebra considerável, foi a vitória da Sérvia por 1x0 sobre a Alemanha, botando fogo num grupo que parecia destinado a ser mais morno da disputa por vagas. Os sérvios entraram em campo para marcar a Alemanha e tentar o improvável, mas levaram; deu tudo errado para a Alemanha, desde a expulsão irresponsável de Klose, até o pênalti perdido Podolski, as chances jogadas pela janela, enfim, tudo. Os sérvios, depois da bisonha derrota para Gana, agora não só estão na briga, como devem leva-la. Gana foi lá e empatou com a Austrália, um time desequilibrado emocional e defensivamente, poderiam ter praticamente definido a classificação com uma vitória, mas agora terão de decidir a vaga contra a Alemanha enquanto a Sérvia, em tese, corre solta. Eu acho difícil que a Alemanha repita uma navalhada daquelas novamente, mas que a Sérvia pode surpreender negativamente, isso sim, não é um time confiável, muito embora esteja com a faca e o queijo na mão.

Pelo Grupo D, a Inglaterra foi bisonha contra a Argélia e, depois de noventa minutos e acréscimos, torturando a bola, a torcida e a própria dignidade, não saiu do zero. Do outro lado, Eslovênia e EUA fizeram um jogo melhor, os eslovenos enfiaram dois gols logo no no primeiro tempo, os americanos empataram jogando com o coração e, se não fosse pela arbitragem, teriam virado. Tudo fica em aberto para a última rodada, mas os americanos devem levar da Argélia e os ingleses devem bater os eslovenos, se algum anglo-saxão rodar, não será os EUA, acreditem.

Por fim, teremos o Brasil amanhã. Jogo duro contra Costa do Marfim, do inefável Eriksson, que já disse que vai jogar todo seu time na retranca para empatar e conseguir saldo contra a Coreia do Norte. Bem, quase todas as táticas de Eriksson em grandes torneios - copas, euros e eliminatórias - tem falhado, mas não deixa de ser inteligente fazer isso com o Brasil amanhã. Pegamos na última rodada uma Coreia do Norte sem qualidade que armou-se totalmente na defesa, praticou um anti-jogo capaz de parar boa parte das seleções que estão nesse mundial e furamos o bloqueio só no segundo tempo. Fazer o mesmo tendo um time mais qualificado à disposição como a Costa do Marfim, não é nada burro. Do nosso lado, temos Gilberto Silva como dúvida, o que não é necessariamente um problema porque há tempos Ramires merecia entrar no time no lugar de um dos volantes - claro que Felipe Melo merecia sair mais do que ele. Temos o velho problema de marcação pela esquerda, mas temos força pela direita com Maicon e Elano. Creio que teremos um jogo duro, mas o Brasil deve evoluir em relação à estreia e vencer o jogo.

(foto 1,3 e 4 Getty Images, foto 2 AP)

O PT, o Maranhão e a Ética Política

(Domingos Dutra e Manoel da Conceição - por Janine Moraes /Esp. CB/D.A Press)

A improvável aliança entre Lula e Sarney no plano do Congresso Nacional talvez tenha sido o ponto mais emblemático da realpolitk que o PT adotou para governar. Isso é uma decorrência necessária da estratégia que o PT traçou para manter a governabilidade: Ao invés de optar por governar junto com os movimentos sociais para pôr em xeque as instituições representativas como o Congresso, ele preferiu governar sobre os movimentos sociais, seguindo uma via essencialmente institucionalista, o que o obrigar a negociar e fazer alianças com os donos do poder. Isso quase levou à queda do governo nos primeiros anos, até que finalmente se acertou um acordo de construção de uma coalizão tácita, divindo-se ministérios, acenando com a proposta de deixar os estados para o PMDB assim com dar-lhe o cargo de vice na chapa presidencial.

O fenômeno é muito mais complexo do que uma mera capitulação do PT às oligarquias. A política do Governo Lula para o Nordeste, por exemplo, não é a mesma política de Sarney, muito embora ele estejam aliados. É diferente, por exemplo, do que FHC fez ao se aliar com ACM no plano parlamentar, pois naquela ocasião toda região nordestina lhe foi entregue como se fosse ela um vice-reinado ou coisa do tipo. O Maranhão mudou e foi favorecido pelos avanços do governo Lula no plano econômico-financeiro, ele não ficou alheio como um feudo total e completo, mas politicamente não se tocou, nem se pensou em tocar, no domínio dos Sarney, muito pelo contrário, a cabeça de Jackson Lago foi entregue placidamente ano passado, como bem sabemos.

A família Sarney procurou não confrontar Lula. Primeiro, porque restam mágoas imensas contra Serra e o PSDB pelo abortamente da carreira política de Roseana, isto é, das suas chances de chegar à Presidência, pois como é público e notório, o atual candidato do PSDB - e candidato em 2002 - usou a Polícia Federal para denunciar os esquemas nos quais estavam envolvidos ela e seu marido. Segundo, porque os programas de desenvolvimento econômico e de redistribuição de renda teriam um particular impacto no Nordeste, lutar contra isso seria o suficiente para ser linchado pela turba - pelo menos eleitoralmente - como foi ACM e seu establishment na Bahia. Em troca de apoiar Lula, o que lhe é muito cômodo, Sarney só exigiria, claro, alguns ministérios escolhidos a dedo por seus aliados e a manutenção do controle da máquina no Maranhão. Foi o que aconteceu e as partes cumpriram o acordo.

Essa ferida exposta porém ignorada pelo campo da esquerda ficou lá, mas é óbvio que vem à tona nos tempos de eleição. Primeiro porque o PT maranhense - como em boa parte do PT nordestino - foi construído na luta contra o coronelismo que sobreviveu a todas as tranformações sofridas no Brasil na segunda metade do século 20º. Quando você pega uma figura como Manoel da Conceição, falamos de um cidadão que construiu sua carreira política lutando contra uma ditadura que, por sua vez, exercia seu poder, no Nordeste, por meio dos coroneis como toda e qualquer tirania estabelecida no poder central desde nossa independência. Isso significa que luta dele como de todo o PT do Maranhão se estruturou no confronto direto com os Sarney. Ver a centralização do PT nacional no sentido de que o PT local deveria apoiar Roseana, mesmo depois do diretório estadual ter deliberado por apoiar a candidatura do deputado do PC do B Flávio Dino, sem dúvida, lhe foi com um tiro no peito - para ele e seu companheiro de partido no Maranhão Domingos Dutra.

Depois de uma rebelião inicial, quando algumas figuras da coordenação da campanha de Dilma foram levados para apagar o fogo - isto é, dizer que não tinha jeito e era aquela a ordem - veio a ordem final, o que levou Manoel e Domingos a entrarem em greve de fome, o que pôs o PT nacional em xeque. Manoel além de ter um histórico no nordeste é idoso e diabético, ao se negar a se alimentar e a não tomar seus remédios não aguentaria por muito tempo. E eles não estavam brincando. O fato foi que o PT nacional recuou e permitiu que o PT-MA apoiasse Dino. Como o acordo nacional entre a base governista estabelece que se existirem dois ou mais candidatos a governador que apóiem Dilma, ela terá de subir no palanque de ambos, a candidata petista, então, estará obrigada a subir no palanque de Dino também, o que representa uma derrota profunda para os Sarney.

Eu poderia usar da mesma argumentação de um José Genoíno de que os dois fizeram o jogo da oposição, mas não faço porque estaria faltando com a verdade. A oposição, claro, se utilizou disso como se utilizaria - e se utilizará - de qualquer coisa contra Dilma e a fragilidade lógica da estratégia de alianças do PT é um ponto a ser explorado - como em sentido contrário, também se utiliza o racha do PSDB entre Aécio e Serra como uma arma contra a candidatura presidencial do último. De uma perspectiva de análise da política-partidária brasileira, os rachas no PT - pela incongruência de suas alianças regionais - e o racha tucano - pela falta de legitimidade da forma como seus candidatos são escolhidos - apenas são mostras da crise do sistema partidário brasileiro. Ademais, partindo de uma análise da história do PT, encontramos o precedente de tudo isso na célebre intervenção do Diretório Nacional no PT-RJ, o que simplesmente matou qualquer possibildade de desenvolvimento do partido da estrela regionalmente naquele estado.

O problema, claro, é mais profundo. Um exemplo de sua profundidade é como os socialistas russos deixaram os socialistas chineses à própria sorte contra os nacionalistas nos anos 20 e 30 porque a realpolitik stalinista apontava que, de uma perspectiva da anti-imperialista convinha apoiar os nacionalistas e não enfraquecê-los, propondo inclusive uma aliança dos socialistas com eles, apesar de que a conjuntura política interna tornasse tal tática completamente desprovida de lógica interna, isto é, a relação da burguesia chinesa com os camponeses e trabalhadores urbanos era insustentável. É a contradição entre tática e estratégia no campo político, isto é, entre meios e fins: Tenho determinados fins que são estruturam diante de toda uma produção teórica, mas eu preciso concretiza-los, a dificuldade que se enuncia desde o primeiro momento é que a complexidade da realidade concreta obriga a qualquer um a desviar-se, recorrer a artimanhas e astúcias para contornar as tortuosidades do caminho, mas não raro, isso pode levar a um desvio de finalidade.

Trata-se, portanto, de uma profunda questão Ética. No Brasil, quando se fala de "Ética na Política" logo se pensa na ideia de que todos devem ser bonzinhos no trato com a coisa público que tudo dará certo, uma ideia ingênua, sem dúvida oriunda, da superstições católico-medievais que herdamos - daí, surgem aqueles que defendem intransigentemente o cumprimento dos princípios e os realistas d'antanho propondo seu total descumprimento. Evidentemente, não isso que tratamos aqui. A Ética é a arte de se comportar, isto é, adequar os meios aos fins e vice-versa para resultar numa ação efetiva, e a Política quando assume função de adjetivo é a esfera de convivência da coletividade. De tal forma, temos uma situação em que o PT tem de adequar astuciosamente seus meios à conjuntura sem, no entanto, desviar-se de seus fins. Do ponto de vista eleitoral e nacional é evidente que o caminho a ser seguido seria o de um apoio à candidatura Roseana, mas isso não é, de uma perspectiva interna maranhense, logicamente congruente. O fato do PT nacional ter deliberado ter se aliado ao PMDB num plano nacional deve ordenar as alianças no plano estadual também, mas não deve ser o único fator a ser levado em conta, pois em matéria de conhecimento da situação estadual interna, a esfera competente é, sem dúvida, o diretório estadual.

Sopesados todos os fatores, a tendência deve ser que o diretórios estaduais larguem mão das candidaturas estaduais mesmo - já que essa é a parte do acordo estabelecido -, mas isso não deve ser estanque - isso partindo do pressuposto da inevitabilidade do acordo, tese da qual eu discordo, pois penso que se do ponto de vista eleitoral-nacional, ela parece ser necessária, da perspectiva progamático-governista, ela não é boa, em suma, eu tendo a discordar dela porque muito provavelmente a alta popularidade de Lula e a ideologia governista do PMDB tornassem essa aliança desnecessária. Como já está feito, que o PT oriente seus diretórios estaduais a apoiarem candidatos aliados para os governos estaduais, mas o faça por uma lógica - intrínseca e extrínseca - e que se use como baliza limitadora aqui que o velho Manoel da Conceição disse em carta para Lula: “Companheiro, tudo precisa ter algum limite, e tal limite é nossa dignidade.”

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Resquiescat in Pacem Saramago

(foto retirada daqui)

Faleceu hoje, aos 87 anos, em sua casa nas ilhas Canárias, o escritor, jornalista, militante comunista e, no fim da vida, blogueiro  José Saramago. Uma perda, sem dúvida, irreparável. Saramago nasceu em 1922 e pertenceu a uma geração de intelectuais - da qual foi o maior expoente artístico - que nasceu e viveu sua mocidade num Portugal que, muito embora já tivesse se livrado de uma monarquia perdulária e inepta - se é que não estou sendo redundante -, encontrava-se sob o jugo de uma ditadura fascista que corrompeu a República ainda em sua meniníce, levando-a à inquietação, à crítica social e ao ativismo político - de uma maneira um tanto romântica - o que se concretizou naquela que talvez tenha sido a maior inflexão modernizadora portuguesa de todos os tempos, cujo momento-chave foi a Revolução dos Cravos. Dono de um ceticismo cortante e de um estilo literário desafiador e polêmico, Saramago desafiava desde os dogmas patéticos da gramática até os cânones católicos, pendores nacionalistas e, até mesmo, convicções racionalistas. Foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1998 e, seguramente, foi o maior escritor de língua portuguesa do século 20º.

Dentre tantas polêmicas em que se envolveu, uma delas se deu quando a indicação de O Evangelho Segundo Jesus Cristo - meu livro favorito dele - para o prêmio europeu de literatura foi vetada pelo Secretário de Estado da Cultura português Sousa Lara. A alegação? A obra seria elemento de desunião para o povo português, afinal, o livro faz uma crítica ácida aos evangelhos ao narrar a vida de Jesus despida de qualquer aura divina, retratando-o como um homem entre os homens, irritando o clero católico e muitos fiéis - curiosamente, sua última obra, Caim, segue a mesma temática, batendo desta vez no Antigo Testamento. Recentemente, irritou os portugueses ao propôr que seria melhor para Portugal ser integrado à Espanha formando uma espécie de Federação - o que, como se não bastasse a perseguição religiosa que sofria em pleno século 21º, ainda lhe valeu críticas dos nacionalistas d'antanho de seu país.

Foi comunista até o último dia de sua vida e nunca deixou de denunciar a crise da democracia nos dias atuais - como também não deixou de relegar a direita de seu país ao devido escárnio, chamando Cavaco Silva, atual Presidente da República e maior líder conservador do país no pós-Revolução dos Cravos, de "gênio das banalidades". Enfim, foi-se um dos grandes e pouco a pouco o século 20º vai nos deixando - enquanto o projeto desumanista dos dias atuais avança, apesar da geração de Saramago o tenha refreado substancialmente em seu tempo. Agora é conosco.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Notas da Copa: A Alegria de Don Diego e a Mexicanada

(Maradona & Messi - Foto Ap)

O futebol latino-americano segue jogando bem: Até agora, só Honduras perdeu e foi para outro time do continente, o Chile. Hoje, tivemos a vitória da Argentina sobre a Coreia do Sul (4x1) e a vitória do México contra a França (2x0) - além dos dois primeiros gols e da consequente primeira vitória da Grécia numa Copa, 2x1 sobre a Nigéria, o que lhe colocou novamente na disputa.

Começando pelo começo, a vitória da Argentina sobre a Coreia do Sul foi um massacre. Maradona repetiu o 4/2-3/1 do primeiro jogo, com Di Maria armando pelo centro, Tevez pela esquerda, Messi pela direita e Higuaín no comando de ataque. Muito embora a defesa tenha navalhado novamente - o gol tomado hoje foi brincadeira -, é lindo ver o ataque dessa equipe jogar, é bom demais. Essa vitória foi uma bela cutucada naqueles que falavam que a Argentina não tinha chance nenhuma - parece até que ninguém se lembra de 2002, quando o Brasil chegou na Ásia desacreditado e contando apenas com um técnico carismático que unia um time cujo acerto foi se deu ao longo do próprio torneio. Claro, não vejo a Argentina como a favorita, mas ela está na briga sim pelo título e cresceu do primeiro jogo para cá. Aliás, não deixa de ser digno de nota a alegria de Maradona à beira do gramado. É contagiante.

Também pelo grupo B, os gregos bateram os nigerianos, conseguindo assim não apenas marcar seus dois primeiros gols em copas como também arrancar sua primeira vitória, botando fogo no seu grupo, onde a Argentina simplesmente sobra - para não perder a deixa, que participação horrível do futebol africano em uma Copa que sedia, não? Os nigerianos tiveram boas chances contra uma Argentina que se acertava, mas não marcaram nem um golzinho, agora apanham dos gregos, que coisa.


O jogo que eu vi na íntegra mesmo foi México 2x0 França pelo fechamento da rodada do Grupo A - que teve ontem a elástica vitória do Uruguai sobre a África do Sul por 3x0. Basicamente, o primeiro tempo foi horrível, com as equipes se anulando e pouco produzindo: Se de um lado os mexicanos alternavam um esquema 4/4/2 para um 3/5/2 sem sucesso algum, os franceses viam seu 4/2-3/1 - o esquema da Copa - naufrgar pela falta de um armador decente e de pontas criativos. Se Peréz não tinha trabalho no gol mexicano, Osório pouco fazia pela direita - e Malouda colaborava, anulando o jogo por aquele lado do campo -,  os bons zagueiros Rodríguez e Moreno anulavam Anelka, mas não tinham com quem sair, daí Salcido começou a fazer essa função se tornando um ala - até porque Ribéry nada fazia. No meio, Govou não armava para a França, mas os volantes mexicanos, Rafa Márquez e Juárez pouco faziam - principalmente o último -, enquanto dos volantes franceses, só Toulalan aparentemente entrou em campo - alguém aí, honestamente, viu Diaby? - e os meias mexicanos se negavam copiosamente a armar o jogo - Dos Santos e Torrado, que horror. O ataque mexicano, com Franco e Vela nada fez contra uma zaga francesas mal posicionada - Gallas e Abidal estavam irreconhecíveis -, enqaunto só apareceu para tomar um amarelo, o segundo só o fez quando saiu contundido para a entrada de Barrera, cuja atuação foi inscipiente no primeiro tempo.

Javier Aguirre, no entanto, soube mexer no time mexicano no intervalo e a equipe voltou com outro espírito. Saiu o insosso volante Juárez para entrar o atacante Hernández e, logo depois, saiu Franco, uma nulidade no ataque, para entrar Blanco. O efeito prático das duas substituições foi uma mudança no jogo mexicano: O ataque ganhou velocidade - até Barrera cresceu no jogo - e o meio, com Blanco, ganhou o toque de bola e a qualidade na saída de bola que não teve no primeiro tempo - com Rafa Márquez dando sinal de vida também. A França prosseguia morta, Domench tirou Anelka - muito mais uma vítima de um meio de campo ineficiente do que culpado do que quer que seja - e pôs Gignac - porra e o Henry? - e nada, como era de se esperar, mudou. O México, numa linda enfiada de bola de Rafa para Hernández, que entrava em velocidade, pegando a linha-burra da França no contra-pé deu no primeiro gol do time latino-americano. A França não cresceu, ao contrário, foi dominada cada vez mais, lançando-se ao ataque sem vontade, sem alma e sem responsabilidade também: Barrera, em jogada individual penetrou na área, foi derrubado para o veterano Blanco bater com firmeza e definir o placar.

Rodada encerrada no Grupo A e B e não tivemos ainda nenhuma equipe matematicamente classificada. Claro, se Uruguai e México, na próxima rodada, fizerem um joguinho de amigos e empatarem ambos passam, a questão é saber se os mexicanos aceitarão passar em segundo e assim, possivelmente enfrentar a Argentina - sim, porque o Uruguai tem um gol a mais de saldo -, o que poderia criar alguma situação. No Grupo B, pelo que se viu até agora, a Argentina deve enfiar uma cacetada na Grécia pela última rodada, mas ainda não está garantida - claro, ela precisaria levar uma goleada para ficar fora e ainda ver a Coreia do Sul vencendo a Nigéria bem, o que é extremamente improvável. O outro time que passa nesse grupo, aí, já é um mistério, tamanha a ruindade de parte a parte.

(A segunda foto é da EFE)

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Os Caminhos da Social-Democracia

Enquanto a Copa segue rolando em gramados sul-africanos, a campanha eleitoral segue, como era de se esperar, num ritmo mais lento, enquanto se prepara para retomar o ritmo anterior e superá-lo. O factóide pré-Copa fica por conta de Serra e a questão do aparelhamento do Estado pelo PT. Evidentemente, trata-se de uma peça meramente retórica que falseia uma realidade muito mais complexa. Eis o comentário que eu fiz  sobre o assunto para o blog do Nassif:


Um dos pontos que passam desapercebidos é como os partidos bolsheviks europeus orientais e asiáticos- e suas cópias mal-sucedidas na Europa Ocidental e América Latina - guardam uma raíz profunda com a social-democracia kautskyana - e que fique claro que a reflexão que eu estou propondo se dá para além do binarismo maniqueísta, e por tabela moralista, que é comum ao debate político nacional. Essa raíz se expressa historicamente no entendimento comum do partido enquanto instrumento de vanguarda organizador das massas, organizado internamente como organização técnico-burocrática, cujo meio para promover as transformações sociais - e assim dirimir a contradição capital/trabalho - é a conquista da hegemonia do Estado.

Lenin, que bebeu das águas do pensamento kautskyano por um bom tempo, pode ter rompido com o inspirador - política e teoricamente -, mas isso não foi de um dado a ponto de transformar o Partido Bolshevik em algo que não guardasse qualquer semelhança com a linha dominante da social-democracia alemã da época. A verdade é que o elemento central e prático que levou à distinção entre bolsheviks e social-democratas foi a condição da Rússia Tzarista, o que tanto deu aos teóricos bolsheviks uma visão mais privilegiada da divisão internacional do trabalho como também o vácuo de instituições burguesas - partidos, parlamento etc - e organizações proletárias coesas - os soviets estavam longe do que significavam em amplitude e profundidade o sindicatos alemães contemporâneos.
Dessa bifurcação necessária, surgiu o regime de partido único na Rússia e a modernização tecno-burocrática do Estado em boa parte da Europa Ocidental - e ambos os movimentos se ligavam por uma concepção semelhante de História e de "progresso".
Com Brasil não é diferente, a síntese dialética entre a miscelânea de teorias políticas socialistas - europeias orientais ou ocidentais ou não, até mesmo chinesas - desembocaram no PT que guarda em suas origens não um partido revolucionário, mas sim um partido de massas reformador e reformista, uma social-democracia tupiniquim, contando com participação ativa de sindicados e movimentos sociais. O PSDB, apesar do nome, foi construído de cima para baixo e ainda que em seus primórdios correspondesse ao ideal social-democrático, na prática nunca poderia ser confundido com um - fenômeno semelhante se viu acontecer em Portugal com o partido social-democrata local.
Por outro lado, temos as peculiaridades brasileiras. Um Estado arcaico, cuja última inflexão modernizadora aconteceu nos anos 30/40 e nos anos 80 encontrava-se em grave crise. É nesse cenário que surge a Constituição de 88, positivando direitos e garantias individuais e sociais -ainda que as segundas o tenham sido apenas programaticamente na maior parte das vezes- , instituindo a função social da propriedade privada, fazendo prevalecer a doutrina germânica dos contratos. Enfim, foi criado um instrumento destinado a ser a pedra de toque da modernização do sistema jurídico, o que criou uma tensão dialética entre o projeto dos fins dos anos 80 e a materialidade política débil, disfuncional e pré-iluminista sob a qual vivia boa parte do país.
É dentro dessa ambiente de tensão que passam a se dar as disputas eleitorais entre PSDB e PT, seus respectivos governos. Trata-se de uma relação de oposicionismo para obter a hegemonia de um Estado tensionado pelo que ele sempre foi e pelo que ele está se tornando, com o advento da globalização aparecendo e tornando o jogo mais complexo ainda. Isso transformou internamente tanto PT quanto PSDB. Isso, evidentemente, vai para além da retórica barata de palanque de Serra, que nem é útil para disputa nem avança no debate sobre a organização do Estado e as possíveis implicações disso.

P.S.: O novo blog do Nassif é muito bom, as funcionalidades implementadas são muito bacanas bem como o layout é mais bonito do que o interior e ainda mais "acolhedor" - como era o primeiro blog dele no IG. Acho sensacional a ideia de construir uma comunidade de comentaristas, muito embora discorde que só possam comentar os cadastrados - que também não podem, até onde eu sei, linkar a própria URL no nick. De qualquer modo, vale a pena dar uma passada lá.



Notas da Copa: Fim da Primeira Rodada e a Tragédia Sul-Africana


(Forlán, o carrasco de hoje - foto retirada daqui)

Hoje, terminou a primeira rodada da primeira fase da Copa e também tivemos o primeiro jogo da segunda rodada. O Chile de Marcelo Bielsa e Valdivia, como era de se esperar, bateu Honduras, mas ainda que tenha tido amplo domínio do jogo, não conseguiu fazer mais do que um gol sobre o adversário centro-americano - que, assim como boa parte das equipes desse torneio, se prestou apenas a ficar na defensiva arriscando um ou outro contra-ataque, ainda que tivesse um pouco de mobilidade. Fechando o Grupo H, aquilo que muitos consideravam impossível, aconteceu: A Espanha perdeu para a Suiça. O ponto é que os espanhóis são bons, leves, tocam bem a bola, mas lhes falta a figura do craque para romper sistemas defensivos funcionais. O ponto é que a Suiça aguenta tranco, ainda que não tenha um ataque dos sonhos - se tivesse, brigaria pelo título. Craque é o jogador que consegue fazer do imprevisível sua normalidade e só ele consegue furar esse tipo de retranca - o exemplo emblemático disso é o nosso Mané Garrincha contra a União Soviética na Copa de 58, não que eu espere um craque desse porte na Espanha, mas lhe falta um jogador capaz de superar esse tipo de defesa sim e é necessário um deles para levar a Copa. Desse jeito, a festejada Espanha acabou sucumbindo à marcação suiça e ainda tomou um gol no contra-ataque - por isso não falem besteira sobre a vitória apertada do Brasil na estreia, é para poucos furar as retrancas gloriosas dessa Copa. Terminada a primeira rodada, a Alemanha está uns degraus acima de todo o resto.

Tragédia mesmo ficou por conta da África do Sul de Parreira, cotada como provável desastre antes do mundial, a equipe teve um estreia interessante contra o México, onde só não ganhou por azar dos atacantes e uma infelicidade defensiva. A alegria da torcida, toda a animação, enfim, tudo foi por água abaixo frente ao disciplinado Uruguai de Forlán que lhe enfiou, agora há pouco, 3x0. Posicionado defensivamente da mesma maneira que esteve no jogo contra a França, o Uruguai abriu o placar com Forlán, chutando de fora da área ainda no primeiro tempo, aguentou a pressão desordenada da África do Sul, fez o segundo de pênalti e marcou o terceiro numa falha abissal da defesa adversária no fim do jogo. O placar praticamente qualifica o Uruguai para a outra fase e reforça três pontos centrais: (I)A boa campanha que o futebol da América do Sul realiza nesta Copa, refletindo o bom nível das eliminatórias locais, (II) A má campanha do futebol africano, haja vista que apenas Gana conseguiu vencer um jogo - ainda assim, jogando bisonhamente - e só a Costa do Marfim fez um jogo convincente e (III) as boas arbitragens, pois um ver um país-sede com poucas chances não ser ajudado não é pouca coisa - assim como o cômputo geral da coisa, onde os árbitros têm sido eficientes e corretos.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Novo visual

Basicamente, dei uma repaginada no blog usando a nova ferramenta de design do blogger - que facilitou uma maravilha a vida de símios blogosféricos como eu. O tema e as cores são praticamente os mesmos de quando eu adotei o thisaway como modelo, a vantagem é que eu dei uma limpada e ampliei o campo de leitura. Vamo que vamo