sábado, 15 de janeiro de 2011

Sábado e Música: Area e o Rock Progressivo Italiano

 

Os italianos costumam referir-se à decada de 70 do século XX assim como a nossa, anos de chumbo. Cesare Battisti escreveu bastante sobre a sujeira debaixo do tapete democrático que apresentavam o PCI e a Democracia Cristã perante o mundo. Era uma época na qual as tensões políticas se infiltravam em todos os aspectos da sociedade. A música não era exceção, e o grupo Area, ilustre integrante do rock progressivo italiano era talvez a mais emblemática na militância política da arena musical, que se traduzia nas letras de protesto em obras como Arbeit Macht Frei e no conceitual Maledetti, cuja canção Giro Giro Tondo pode ser conferida aqui

[Nota d'O Descurvo: Dica musical e introdução de autoria do nosso amigo Luís Henrique Mello, com quem conversava agora há pouco]


Atualização de 16/01 às 14:46: E o Luis resolveu, finalmente, fazer um blog. Já estou acompanhando aqui, deem uma olhada lá no Som Imaginário.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O PMDB Pós-Quércia & Kassab

Temer e Kassab em encontro já este ano --  Fernando Pereira/Secom
No começo dos anos 80, uma briga de foice se instalou dentro do PMDB de São Paulo: O partido, uma artificialidade criada em 1965 pela Ditadura Militar que tomou o poder em 64 para ser sua oposição oficial - e assim lhe dar legitimidade -, via-se rachado por uma disputa entre Orestes Quércia e sua ala paulistana formada por gente como Franco Montoro, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e José Serra. Quércia, um político campineiro cujas vitórias nos anos 70 foram um marco na quebra da hegemonia dos apoiadores da Ditadura no estado - forçando o Regime, diante da perda de apoio eleitoral, a mostrar sua cara -, liderava um largo esquema político no interior com algumas ramificações na capital, baseado num estilo de política personalista e eloquente. Enquanto isso, seus rivais defendiam um estilo de política institucionalista e discreto, eram céticos quanto a aproximação do partido junto a antigos quadros arenistas e tinham um projeto de poder claro, embora dentro das regras da estrutura do partido. Montoro disputou a indicação para ser cabeça de chapa nas eleições para governador de 82 com Quércia - que antes de perder a quebra de braço, aceitou ser candidato a vice -, eis que a chapa venceu a eleição, mas Quércia foi antes de um vice, o pior opositor de Montoro. E o cabo de guerra continuou até Quércia se tornar ele mesmo o governador - eleito em 86, sucedendo Montoro -, assumindo assim o controle total da máquina, o que forçou seus rivais a saírem do partido e fundarem uma nova agremiação chamada, por sinal, PSDB. O resto da história é conhecida, o PSDB toma o lugar que antes era do PMDB, seja por seus méritos eleitorais ou pela maneira como o segundo murcha devido a liderança centralista de Quércia - que, no entanto, permanece incólume na liderança estadual do partido até a sua morte, nos fins do ano passado. Como dizia na ocasião do falecimento de Quércia lá no João Villaverde, o desaparecimento de Quércia era um momento histórico, dado que Michel Temer estava prestes a assumir a vice-presidência da República pelas negociações todas com o PT em nível nacional e, mesmo que nunca tenha disputado o poder dentro do PMDB em nível estadual, agora ele via a possibilidade de reorganizar a agremiação em São Paulo, trazendo quadros que Quércia afastava: Um alvo certo de assédio era o prefeito paulistano, Gilberto Kassab (DEM) - quem, insisto, trata-se de um político com senso de oportunidade único e uma incrível consciência de suas limitações -, que ganharia espaço, largando o engessante esquema do PSDB-DEM por uma legenda nacionalmente poderosa que, vejam só, poderia muito bem recepcionar o centrão paulista, difuso hoje numa série de partidos menores - e Kassab teria a oportunidade única de ser a face pública do partido, enquanto Temer regeria a orquestra nos bastidores. As negociações para tanto, pelo visto, seguiram quentes nos primeiros dias de 2011 e já são públicas. Na prática, isso seria a criação de uma nova força no estado, conservadora, fisiológica - e, pelo segundo motivo, tendente a se apresentar como uma terceira via entre PT e PSDB, o que não é verdadeiro. Se os desacertos internos de PSDB e PT produziram a desastrosa eleição de Kassab em 2008 na capital - seja porque ele soube jogar com os rachas do primeiro ou porque os rachas do segundo inviabilizaram uma candidatura competitiva -, hoje, enquanto os tucanos parecem cada vez mais reféns políticos do atual mandatário, no processo de sucessão da Prefeitura, os petistas seguem titubeantes. Enquanto o PSDB degringolou de vez enquanto uma legenda conservadora e sem criatividade, o PT de São Paulo padece de um arranjo interno ruim para o partido - o que limita sua força eleitoral e política -, o que agora se soma ao fato do risco claro de surgimento de um grande consórcio fisiológico - e de Kassab se tornar um interlocutor importante, um fiel da balança na disputa pelo poder no estado, o que é o inverso dos bons ventos que pareciam soprar na São Paulo do fim dos anos 90, quando PT e o PSDB de Covas inviabilizaram o Malufismo.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O Futebol e o Espetáculo: Ronaldinho Gaúcho

Ronaldinho no Flamengo
Este blogueiro que vos escreve já gostou tanto de futebol, mas tanto, que é até difícil dizer. Hoje, não muito. Sim, um pouco do meu desgosto tem a ver com as desditas do bom e velho Palmeiras - não tanto pelas derrotas, mas pela maneira particularmente tristes como elas se sucederam nos últimos anos -, mas o desânimo tem muito mais a ver com dinâmica do futebol mundial nos últimos anos e, em particular, do brasileiro. Muitas coisas colaboram para isso, desde o derretimento do futebol numa massa pastosa e indeterminada à luz de holofotes tantos até a degeneração do craque em celebridade e garoto-propaganda que (eventualmente) joga bola, passando, ainda, por uma imprensa esportiva que cansa (e como). Boa parte dos jovens craques brasileiros, nascidos e crescidos numa época em que os "empresários" controlam o mundo da bola e o grande objetivo é jogar num clubegrandedaeuropa - que, não raro, se torna um clube da segunda divisão italiana que lava dinheiro para máfia -, se perderam ainda tão novos e hoje fazem bons comerciais de Televisão, mas não conseguem construir uma carreira minimamente estável. Um grande exemplo da nossa época é Ronaldinho Gaúcho. Era para ter se tornado um dos nossos grandes, mas se apequenou (e como) num mundo de glamour, altos salários e paparicação sem limites; depois de grandes temporadas no Barcelona, refugou vítima do próprio ego, se omitiu de responsabilidades, desapareceu numa Copa do Mundo na qual tinha tudo para brilhar e diminuiu no próprio futebol de clubes. Eis que depois de uma mal-fadada ida para a Itália, ele reaparece num verdadeiro leilão, onde seu irmão-agente - o equivalente contemporâneo da mãe de miss - o oferece para clubes ávidos por darem satisfações às suas torcidas, tudo em troca de um salário maior do que aquele que ele ganhava no Milan. De repente, todos ganharam o que queriam, Ronaldinho volta a ficar em evidência e irá ganhar um baita salário no Flamengo, enquanto dirigentes de Palmeiras e Grêmio se mostraram pró-ativos. Um grande espetáculo midiático que, naturalmente, não garante nenhum espetáculo futebolístico futuro - como tem sido a tônica da carreira do meia gaúcho nos últimos anos. Torço para que ele dê certo na Gávea, apesar de duvidar que isso aconteça - e se acontecer, tenho dúvidas que isso seja minimamente duradouro -, mas não tenho como não ficar feliz por ele não ter ido para o Palmeiras...

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Por um Projeto de Urbanidade: As Enchentes e o Belas Artes

O Belas Artes em 1971
No post anterior, discutíamos o problema das enchentes em São Paulo. Ele é gravíssimo, em poucos dias de chuva - para falar a verdade, depois das primeiras chuvas realmente fortes de todo o Verão -, o resultado são bairros inteiros da Capital alagados, represas abrindo suas comportas, cidades da Grande São Paulo na mesma situação - e outras tantas isoladas por conta da inundação das cidades vizinhas -, inúmeros desabrigados e mortos.  A cobertura jornalística vista desde a publicação do post anterior até agora é pífia, voltada à isenção dos aliados políticos das empresas de mídia e à espetacularização da tragédia para ganhar audiência - o que, por consequência lógica, esconde as causas. Onde é que estão os bons debates sobre a política urbanística das grandes cidades brasileiras? Ou isso seria arriscado demais porque obrigaria a contar a perigosa história que trata, no fim das contas, da materialização geométrica, concreta e mais visível da política econômica, que é a política urbanística? Certamente. 

O outro episódio tão paulistano que reflete a mesma problemática é o fechamento do Cine Belas Artes. Falamos de um cinema de arte com quase sete décadas de vida que está às portas do fechamento por conta de um entrave burocrático quanto à renovação do aluguel, causada pelas dificuldades do dono do cinema em arrumar patrocínio - o que foi resolvido, mas cuja demora provocou a negativa da renovação por parte do dono do prédio. Existem possíveis saídas jurídicas para o caso, mas o cerne da questão é como a atual gestão municipal reproduz essa política urbanísitica tradicional, mostrando um desdém total pela proteção do patrimônio cultural do município - público por excelência e, para além dos locais físicos em que se manifesta, diz respeito a uma construção imaterial e coletiva de afetos (de tão boas lembranças para mim, que assisti ao Segredo de Seus Olhos lá não tem nem um ano...). De repente, o fato desse espaço desaparecer não é encarado, simplesmente, como um problema. Muito embora durante a gestão petista de Marta Suplicy leis de incentivo a esse tipo de atividade tenham sido aprovadas, infelizmente, elas não contemplaram a proteção legal permanente para esses espaços - talvez por não terem antevisto corretamente os riscos de uma velha concepção de cidade retomar o controle da administração pública e simplesmente ignorar a importância da própria cultura, como se vê agora com o inefável Kassab

Sim, no Brasil leis precisam ser redigidas sempre baseadas na pior expectativa possível de entendimento judicial e execução de políticas públicas futuras

Há quem tenha uma fé cega no mercado e ache que ele resolverá tudo no fim das contas, o que é completamente falso, o máximo que teremos de retorno são as gigantescas salas de cinema de shoppings e seus blockbusters americanos. Há quem pense, pela esquerda, que os recursos públicos não devam ser mobilizados em prol de uma empresa privada, o que é um equívoco muito grande: Confunde-se, assim, a ficção jurídica da propriedade com a função do empreendido junto à coletividade, compactuando com o fechamento de um espaço localizado em um local de fácil acesso, que cobra preços baratos e cuja existência histórica é parte do patrimônio imaterial do município - falo daquilo que diferencia um monte construções de concreto e aço ordenados de uma cidade. 

A ligação entre os dois episódios está, justamente, em um problema que transcende, até mesmo, às críticas aos mandatários tradicionais que ocupam o poder reproduzindo políticas segregativas e desumanas - e forças analogamente reacionárias fora dele -, mas que pode ser definida no seguinte questionamento: Nossas cidades funcionam como e para quem? Essa indagação não é menor nem menos importante do que pensar sobre as abstrações da economia política manifestadas na elaboração da política econômica, mas sim uma forma de enxergar o mesmo processo por outro ângulo. É sair da aritmética para a geometria para falar  do mesmo. Pensemos nisso agora.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

As Enchentes de São Paulo


Foto retirada daqui
São Paulo é o maior município brasileiro e, junto com a população de sua região metropolitana, soma um total de moradores semelhante a um país como a Austrália. Como qualquer metrópole brasileira, os problemas são vários, causados em grande parte pelos anos do desenvolvimento incessante e autoritário dos militares - que, entretanto, surge mesmo com feições mais simpáticas já no Governo Juscelino -, onde assistimos a um esquema que misturava a institucionalização da irresponsabilidade em política econômica, ausência de política social e liberdades políticas e uma industrialização inclemente que unia o capital estrangeiro ao estatal e privado nacional num certo tripé - com os dois últimos dando suporte ao primeiro - na qual o capitão da indústria se uniu definitivamente ao coronel extemporâneo: Enquanto o primeiro dependia de mão-de-obra em larga escala, o segundo precisa se livrar de excedentes populacionais que em poucas décadas levariam a uma pressão insuportável por Reforma Agrária. Os resultados disso tudo são vários, mas do ponto de vista da questão urbana, temos a superlotação das grandes cidades, com verdadeiros anéis de miséria e pobreza se formando em seu entorno, alterando definitivamente a dinâmica da vida urbana brasileira. São Paulo, que nesse período toma o protagonismo nacional do Rio, torna-se um laboratório particular das experiências de política urbana que irão influenciar o país inteiro: Mas é só sob a égide de Maluf, no início dos anos 70, que o projeto será definitivamente delineado; uma cidade construída para automóveis e indivíduos, dentro de uma perspectiva de atomização, cujo propósito é o de reproduzir o jogo do grande capital. Se contra isso se levanta a oposição institucional e pequeno-burguesa por parte do MDB - justo a ala que irá se tornar mais tarde o PSDB -, por outro, os movimentos sociais organizados em torno do PT tentam produzir uma saída contra-hegemônica. As desventuras são imensas, depois da primeira gestão petista - que produziu bons planos e deu frutos, mas não conseguiu construir um projeto transformador à altura da empreitada - vimos o retorno dramático do malufismo, sucedido por mais quatro anos de PT - novamente nos mesmos termos - até ver a transformação do PSDB em um partido cada vez mais tradicional, o que gerou, por vias oblíquas, a ascensão de um político "aliado" como Gilberto Kassab do DEM - herdeiro da tradição malufista e fruto das guerras internas do PSDB entre Alckmin e Serra -, uma figura dotada de um senso de oportunidade e de uma consciência de suas limitações incomuns entre os políticos nacionais. Depois de herdar três quartos do mandato de Serra e vencer uma eleição com enredo de tragédia, o barco segue à deriva, com uma política de moradia sendo traçada para o setor imobiliário, a despeito dos soberbos problemas habitacionais e ambientais do município. A tragédia das enchentes agora é parte disso, o esgotamento físico da cidade causado por uma política que não considera a variável humana ou ambiental, somado às chuvas normais que caem em São Paulo durante o mês de Janeiro. O enredo da trama é o mesmo que vimos nas enchentes da Zona Leste no ano passado. A cobertura seguirá o tom do que o consenso hegemônico imagina que seja mais apropriado para sua auto-preservação e, por conta disso, talvez ainda vejamos matérias lenientes, que  atribuam a São Pedro a desdita, embora a tendência é que os próximos anos sejam mais difíceis para Kassab do que se pensa, principalmente se ele realmente quiser levar a cabo seu sonho de ser o fiel da balança da política paulista, o que pode pôr em risco a atual correlação de forças da política bandeirante.

domingo, 9 de janeiro de 2011

EUA: O Atentado no Arizona e sua Crise Política

Populares na cena do atentado - Eric Thayer/Reuters
Ontem, em Tucson, no estado americano do Arizona, a deputada federal pelo Partido Democrata Gabrielle Giffords sofreu um atentado no qual foi baleada por um franco-atirador e está entre a vida e a morte, enquanto pelo menos seis pessoas morreram e quase duas dezenas ficaram feridas. Ela estava em uma espécie de encontro público com seus correligionários e, quando discursava para a multidão, foi abordada. Gabrielle está em sua terceira legislatura - cuja duração é de um biênio cada - pelo conservador 8º distrito do Arizona (fronteiriço ao México) para a qual ela foi reeleita no ano passado, por uma margem estreita, depois de duas vitórias relativamente fáceis em 2006 e 2008 - ademais, e isso é um adendo importante, ela também estava na lista da inefável Sarah Palin, ex-candidata republicana à vice-presidência e presidenciável em 2012, de pessoas que deveriam ser mantidas sob a mira de uma arma (sim, ela fez isso) por conta de suas posições "esquerdistas demais" (Sarah, aliás, tirou desesperadamente o material da Internet contra Gabrielle logo após o atentado). O suspeito é um jovem de 20 e poucos anos que mistura discurso nazista com o dos libertarians americanos - "libertários", uma ala da direita americana, ultraliberal e anti-Estado, o que é no mínimo curioso e ilustra seu grau de perturbação mental. O episódio é, ao mesmo tempo, um exemplo da grave crise política americana, na qual o Governo Obama encontra-se paralisado depois da derrota nas eleições legislativas do ano passado - causada por erros de cálculo político seus, uma tentativa de contemporizar e se pôr ao centro do debate político enquanto a extrema-direita passou a pautar a conversa - e a velha problemática da violência americana, uma mistura de sua cultura bélica, comércio de armas de fogo banalizado e uma dinâmica social ímpar no mundo desenvolvido no que toca à produção de neuroses graves. Trata-se de uma tragédia anunciada numa sociedade em convulsão, na qual o sistema é incapaz de se sustentar sobre suas próprias pernas; o american way of life agoniza vítima da constatação mais óbvia que pode existir em termos de economia: Recursos são finitos e nenhum modelo baseado em expansão esquizofrênica tem vida longa, especialmente quando começa a se tornar cronicamente perdulário. Obama, pelo seu lado, ainda que seja dos quadros mais capazes da política americana, não é o reformador capaz de reverter essa tendência - nem tem um grupo político capaz de fazê-lo -, o que torna tudo mais dramático; em um país que vive às voltas com um sistema eleitoral jurássico e concepções de política completamente distorcidas e ideologizadas, é difícil pensar em saídas. Os EUA de hoje formam um país onde movimentos como um Tea Party conseguem pautar o debate propondo um liberalismo do século 19º, acusando Obama de socialista e, não raro, de liberal demais também (?!). O Caso do atentado de Tucson é uma verdadeira hecatombe que expõe tanto o formidável barril de pólvora da política local quanto cumpre uma função positiva - como o relógio quebrado que marca a hora certa duas vezes ao dia - ao ligar a luz vermelha de, pelo menos uma parte, da população americana sobre os riscos reais dessa radicalização direitista e dá argumentos fortes aos democratas contra o Tea Party. Aqui fica a torcida pela recuperação da deputada Giffords, mas resta também uma preocupação imensa  em relação ao futuro dos EUA - e do próprio mundo.


P.S.: Em relação a esse lamentável acontecimento, reforçam-se alguns comentários do lado esquerdo da blogosfera/tuitosfera em prol de "regulamentação" da rede, principalmente por conta das manifestações no Twitter propondo o assassinato da Presidenta Dilma. Pois bem, a incitação ao ódio é um problema grave que precisa ser enfrentado, mas é preciso ter bem claro que isso não pode servir à abertura de restrições da liberdade na rede. A linha que separa uma coisa da outra é tênue e, uma vez aberta a caixa de pandora, não é possível fecha-la sob a prerrogativa da urgência de políticas de segurança. Não custa lembrar, também, que Internet é meio virtual e medidas visando restringir genericamente a liberdade por aqui é o mesmo que, por exemplo, instalar um grampo geral em todos os telefones pelo risco de pessoas serem ameaçadas de morte em uma ligação. Mantenhamos os olhos abertos, mas lei não é panaceia e nem vigilantismo deve ser tomado como catarse.


Atualização das 21:35: O Pádua Fernandes fez um post interessantíssimo sobre a política de alvos de Sarah Palin. Deem uma olhada lá - o desfecho dele, aliás,  levanta um debate parecido com o feito aqui sobre o papel do direito, a liberdade e condutas claramente inaceitáveis.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Caso Battisti: O STF e o Golpe de Estado

Luis Roberto Barroso no Julgamento de Battisti no STF -- Dida Sampaio/AE

"A manifestação do presidente do Supremo, sempre com o devido e merecido respeito (afirmação que é sincera e não meramente protocolar), constitui uma espécie de golpe de Estado, disfunção da qual o País acreditava já ter se libertado"
Declaração do constitucionalista Luís Roberto Barroso, advogado de defesa de Cesare Battisti, nessa reportagem do Terra, em resposta ao mais novo capítulo da novela que tornou o processo envolvendo seu cliente: Dessa vez, Cezar Peluso, Presidente do Supremo Tribunal Federal, tomou uma estranha decisão que ainda manterá Battisti preso, muito embora sua extradição tenha sido negada pelo Presidente da República e não pese nenhuma condenação contra o escritor italiano no Brasil; o habeas corpus impetrado foi remetido ao relator do caso, Gilmar Mendes, e será apreciado apenas em Fevereiro, ao fim do recesso. Trata-se de um dos casos mais bisonhos da Suprema Corte do deste país, seja pela maneira como o ato de concessão de refúgio foi considerado ilegal, pelo julgamento da extradição ter sido anterior ao julgamento de quem daria a palavra final sobre ela - como se precisasse -, pela forma insistente dos atuais ministros contrariarem a própria jurisprudência do tribunal sobre a matéria e, se não me escapa mais nada, a manutenção de Battisti preso - afinal de contas, se o próprio STF mal acabou de reconhecer que o Presidente da República era a autoridade competente para decidir sobre a extradição - e que ninguém pode ficar preso em um lugar  onde não cometeu crime algum -  do que estamos falando agora, afinal? Não resta dúvida que é uma violação aos direitos humanos de Battisti e (uma nova) sobreposição de poderes, dessa vez, mais acintosa do que no episódio do julgamento da legalidade do ato de concessão de refúgio - no qual toda a argumentação jurídica ultrapassou o controle dos atos administrativos para baixar no solo firme da administração -, somada a uma sobreposição da decisão recente daquela própria corte. Enquanto Battisti torna-se uma cortina de fumaça para uma Itália em grave crise, ele também expõe as fragilidades das instituições no Brasil  e, mais até do que as frágeis escolhas de Lula para aquele tribunal - coisa que até lulistas roxos entre lulistas roxos reconhecem -, revela-se mais do que nunca que o arranjo institucional brasileiro padece da falta de mecanismos de controle para aquela Casa - e, em última instância, toda essa conversa revela as próprias limitações práticas do que chamamos de Estado de Direito.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A Blogosfera (de novo) e o Necessário Anti-Anti-Intelectualismo

Que tal um Rizoma?*
Bacana começar o ano e ter material para socializar por aqui sobre gente do porte de um Negri ou de um Viveiros de Castro - é procurando por esse tipo de coisa que você percebe o quanto a Internet é incrível, a possibilidade de encontrar artigos e, sobretudo, arquivos de vídeo é simplesmente fantástica e eu, por mais que esteja habituado com essa joça toda, não deixo de me surpreender. O blog, por suas próprias potencialidades lógicas, acabou se desdobrando em direções magníficas: De  um mero espaço para compartilhar pitacos e coisas várias para uma rede colaborativa de informação, cuja capacidade tem abarcado a enorme necessidade de análise crítica na forma e intensidade que o nosso tempo demanda. É claro que por mais que a blogosfera seja maravilhosa, é fato que se trata de um elemento instrumental e, mesmo que ele traga consigo certa função que permite desviar de problemas como hierarquização e controle, ele não deixa de ser tal e qual uma faca (de dois gumes) na mão desses magníficos símios que nós somos. Os rumos da blogosfera nesses tempos pós-modernos e pós-lulistas são curiosos, ao mesmo tempo em que me choco com o delírio paranoico puro de um lado, me deparo com belos espaços de crítica refinada que vão se afirmando ou nascendo. Do primeiro caso, falo, claro, de blogueiros "do bem" que, por conta do episódio daqueles tweets verdadeiramente estúpidos contra Dilma, estão se aproveitando do ensejo para propor que encaremos o AI-5 digital "de forma desapaixonada" - cujos riscos, como bem nos aponta o excelente post do José Paulo Remor, são enormes - ou mesmo, de outros tantos, que a cada vez que tentam debater o feminismo aparecem com um termo machista novo ou destilam ódio e anti-intelectualismo. Do segundo caso, me refiro a espaços privilegiados como o Godot não virá da Aline - por posts como esse ou esse, para não fuçar nos arquivos dela - ou ao Quadrado dos Loucos do Bruno Cava - que descobri há poucos dias - e por conta disso, tive oportunidade de ler coisas como isso ou isso -, isso para não tornar a repetir o nome que consta na lista de blogs ali do lado. Ainda assim, eu prefiro ser otimista e as coisas novas que eu estou encontrando, ainda fazem isso valer a pena. Enfim, para encerrar essas divagações, vou me apoderar de uma ideia do Bruno: Sejamos anti-anti-intelectuais, por favor.

*tanto a origem da figura quanto para mais explicações, ver o volume 1 de Mil Platôs.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Viveiros de Castro, Deleuze e Guattari


Viveiros de Castro - Lucas Zappa

DELEUZE E A ANTROPOLOGIA
Para a minha geração, o nome de Gilles Deleuze evoca de pronto a mudança de orientação no pensamento que marcou os anos em torno de 1968, durante os quais alguns elementos-chave de nossa presente apercepção cultural foram inventados1. O significado, as conseqüências e a própria realidade dessa mudança são objeto de uma controvérsia que ainda grassa. Para os servidores espirituais da ordem, aquelas muitas "petites mains" que trabalham pela Maioria2, a mudança representou sobretudo algo de que foi e continua a ser preciso proteger as gerações futuras – os protetores de hoje tendo sido os protegidos de ontem e vice-versa e assim por diante –, difundindo a convicção de que o evento-68 se consumiu sem se consumar, ou seja, que na verdade nada aconteceu. A verdadeira revolução se fez contra o evento e foi ganha pela razão (para usarmos o eufemismo de praxe), força que firmou o Império como a máquina planetária em cujas entranhas realiza-se a união mística do Capital com a Terra – a "globalização" – e a sua transfiguração gloriosa em Noosfera – a "economia da informação", ou "capitalismo cognitivo". (Se o capital não está sempre com a razão, dir-se-ia que a razão está sempre com o capital.) Para muitos outros, ao contrário, os inservíveis que não conseguiram não escolher uma trajetória minoritária, insistindo romanticamente (para usarmos o insulto de praxe) que um outro mundo é possível, a propagação da peste neoliberal e a consolidação tecnopolítica das sociedades de controle só poderão ser enfrentadas se continuarmos capazes de conectar com os fluxos de desejo que subiram à superfície por um brilhante e fugaz momento; já lá vão quase quarenta anos. Para esses outros, o evento puro que foi 68 ainda não terminou, e ao mesmo tempo talvez nem sequer tenha começado, inscrito como parece estar em uma espécie de futuro do subjuntivo histórico.3
(Filiação Intensiva e Aliança Demoníaca -- artigo de Eduardo Viveiros de Castro na Edição n. 77 da Revista Novos Estudos da Cebrap)


Eduardo Viveiros de Castro é, certamente, um dos maiores intelectuais brasileiros em atividade. Antropólogo reverenciado no mundo inteiro, dileto discípulo de Lévi-Strauss, seus estudos sobre as etnias amazônicas são de lapidar importância para a compreensão desse enorme enigma no qual consiste o humano - sobretudo no que concerne ao chamado perspectivismo ameríndio, conceito me relação ao qual ele foi um dos criadores, a partir de suas experiências junto às etnias ameríndias do Brasil, nas quais ele buscou investigar seu particular modo de enxergar a vida, o mundo e a si mesmos e recorreu ao conceito filosófico de perspectivismo - e ao aparato conceitual de Deleuze-Guattari - para traduzir, antropologicamente, os comos e os porquês daquelas culturas aos nossos olhos. A Antropologia é uma ciência fascinante, ela retira muitas das certezas que nós temos do mundo, verdades que nos são dadas e que somos incapazes sequer de questionar, na medida em que elas são postas de modo a parecer que sempre foram assim e, portanto, sempre serão - e se não foi, devia ter sido e deverá ser. Ela rompe essas nossas certezas e seguranças mais profundas, cumprindo a função fundamental de desfazer o véu do dito discurso ideológico - que articula as coisas para demonstrar os únicos caminhos possíveis - e nos faz refletir sobre as possibilidades da Ética - cuja função é chegar aos caminhos devidos (na verdade, aos caminhos possíveis para a felicidade) - e sobre a própria validade de ambos os conceitos, sobretudo, que o nosso modo de vida um entre inúmeros possíveis e que a possibilidade não cessa; é na obra de Deleuze e Guattari que a filosofia ocidental encontrará dos seus mais potentes arcabouços conceituais, cuja força formidável é capaz de sustentar o ingrata empreitada a qual se presta a Antropologia, tão dependente de ferramentas conceituais capazes de construir uma ponte entre a diversidade cultura e a nossa, tarefa para a qual a Filosofia clássica, a escolástica ou a racionalista-moderna se mostram insuficientes por conta de suas certezas tão profundas. Só uma filosofia assentada em devires - e não em deveres - como a vista no Anti-Édipo é capaz de tanto - cujo terceiro capítulo é dedicado a uma antropologia. Vale muito a pena ler a íntegra do artigo acima, pois além da bela apresentação ao essencial da obra daqueles filósofos franceses, Viveiros de Castro traz a problemática deles para o campo antropológico.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Toni Negri e a Revolta Eterna

Negri 
Poucos pensadores do nosso tempo honraram tão bem o que disse Marx, nas Teses sobre Feuerbach, de que não basta apenas interpretar o mundo, mas que é preciso muda-lo, do que o italiano Antonio Negri. Arquétipo de intelectual engajado, ele viveu intensamente a Itália da segunda metade do século 20º, quando a industrialização tardia - e regionalmente desigual - acirrava brutalmente a polarização política e a consequente insurreição contra o Estado - particularmente corrupto e disfuncional, se comparado com seus pares da Europa Ocidental. Tratava-se de uma polarização de tal ordem que chegava a  ser paradoxal, alternando do horror - as medidas sim de exceção do Estado, os atentados sob bandeira falsa para acusar a esquerda, os processos judiciais falsos - ao esplendor - um cinema político radical, um movimento estudantil e operário radical, uma crítica voraz. Nesse cenário, Negri foi o grande nome de uma geração de intelectuais que  rompiam com a concepção de vanguarda, o imobilismo dos sindicatos - alinhados e enebriados pela corrupção e pelo ilusão do nacional-desenvolvimentismo - e burocratismo de um PCI - o maior partido comunista do ocidente, já praticamente esterilizado pela dupla vassalagem que prestava, a Moscou e ao institucionalismo do Parlamento. E Negri estava junto dos intelectuais por detrás do Potere Operaio, das organizações autônomas de mulheres, estudantes e operários extra-parlamentares e extra-sindicais, o que lhe valeu a maior honra que cabe a um filósofo: A acusação de terrorista e corruptor de jovens - cattivo maestro - por parte do Poder, acusado de ser mandante moral do assassinato do primeiro-ministro democrata-cristão Aldo Moro. A partir daí, sua vida é uma saga, da condenação e posterior prisão até o refúgio para a França da Doutrina Mitterrand, que abrigou tantos e tantos refugiados políticos italianos - passando pela sua breve libertação entre um fato e outro, ao ser eleito deputado pelo Partido Radical, o que lhe valeu uma imunidade parlamentar rapidamente cassada pelos seus pares. Seus anos na prisão, seu contato com a obra de Spinoza e depois sua estadia na França, na qual teve outro bom encontro, com Guattari e Deleuze que lhe deram toda assistência e lhes abriram as portas dentro da comunidade intelectual parisiense, produziram uma inflexão na sua obra, catalisando uma inquietação que já estava no jovem Negri. A história de Negri, narrada no documentário L'Eterna Rivolta é uma ode à única postura aceitável do intelectual em nosso tempo assim como é, também, uma obra sobre a História, não a que contam, mas a que deixam de contar sobre a Itália, que explica muito sobre o estado de coisas que aquele país está a viver e, também, sobre episódios específicos que chegam a interferir na nossa própria realidade política brasileira, como no caso Battisti. Para além de toda a parafernália jurídica que se possa alegar no caso do escritor italiano - e, acreditem, não é pouca coisa que pesa contra a extradição - ainda existe um pequeno detalhe chamado História, dentro da qual a história de Negri - como a de Pasolini e tantos outros - é chave para a compreensão do que foram os anni di piombo, compreensão elementar para o início dessa conversa e de tantas outras sobre a Itália de hoje.

P.S. Seguem aqui os seis capítulos de L'Eterna Rivolta (que também está na íntegra no link acima);