terça-feira, 15 de março de 2011

A PUC e a Nova Morte de Paulo Freire

Quinta última, aconteceu mais um episódio trágico na vida da Faculdade de Direito da PUC - uma tragédia anunciada, mas, ainda assim tragédia. Honestamente, eu me sinto bastante deprimido com o rumo que as coisas andam tomando não só lá como em toda PUC: De uma universidade vanguardista, capaz de criar mecanismos de eleição direta para Reitor nos anos 70 - e eleger, ainda por cima, uma mulher -, o que nos resta hoje é a expressão do mais cínico autoritarismo, o uso de um passado libertário e democrático como mote para vender sua marquinha no mercado e nada mais. A democracia universitária, longe de um delírio estudantil, é causa de excelência acadêmica como a própria história puquiana, para o bem e para o mal, prova: A democratização acadêmica dos anos 70 só produziu mais e mais qualidade no ensino e, hoje, seu esmagamento produz o efeito contrário. A relação intrínseca  entre liberdade e excelência acadêmica é algo que passa batido nas (raras) vezes em que se debate a problemática acadêmica no Brasil - e é isso que está em jogo aqui, o permanente diálogo entre criação e liberdade, ora interrompido. Segue a íntegra que redigimos em resposta ao ocorrido na semana passada: 

Manifesto de Março



A decisão tomada pelo Conselho da Faculdade na reunião da quinta-feira (10/03) em relação ao aumento da nota de aprovação de 5,0 para 7,0 em 2012 tratou-se, sem sombra de dúvida, de algo que vai para além de um grave erro pedagógico: ela foi um sintoma claro de uma crise muito maior, na qual, atentem para isto, a Democracia está gravemente ameaçada. Basicamente, as reuniões do Conselho deveriam ser ambientes democráticos de deliberação, mas a atual Diretoria as transformou – como evidenciado na última reunião – em um mero espaço de legitimação de decisões já tomadas e verticalmente impostas; ao aprovar o aumento da nota e indeferir autoritariamente a audiência pública sobre os problemas do curso, a Diretoria simplesmente passou por cima de um abaixo-assinado com mais de 1.600 assinaturas – isto é, mais de 50% dos alunos da Faculdade de Direito –, no qual os estudantes mostravam sua disposição em melhorar a relação educacional e, de forma justa e razoável, se posicionavam contra o intento da Diretoria em responsabilizá-los unicamente pelos problemas da Faculdade.

Pior, a multidão de estudantes que compareceu à reunião – a despeito de uma data curiosamente adversa – foi desrespeitada pelo atraso injustificado do início dos trabalhos – causado pela vergonhosa reunião a portas fechadas entre a Direção e a atual gestão do Centro Acadêmico, realizada em uma sala ao lado (que permaneceu trancada) – e, mais grave ainda, pela tentativa da Direção em impedir os representantes discentes naquele Conselho – todos eleitos e no gozo pleno do seu mandato – de se pronunciarem e votarem, dando mostras de truculência, desconhecimento do Regimento Interno da Faculdade e, até mesmo, dos mais elementares princípios democráticos. Em outras palavras, para além do equívoco material de decisão, a maneira como ela foi tomada ilustra uma crise muito maior do que se supunha.

Reiteramos: os problemas do nosso curso são responsabilidade não somente dos estudantes, mas sim, de uma crise na relação educacional que se precariza a cada dia, seja pelos problemas no ensino – a dificuldade em retirar maus professores, a falta de diálogo etc. –, pelo sucateamento da infraestrutura, pela desatualização da Biblioteca ou, não nos esqueçamos, pelo próprio descaso com projetos de pesquisa e extensão – que, conjugados com o ensino, são o tripé da Educação Superior nos termos da nossa Constituição. Também vale lembrar que a suposta instituição de mecanismos de recuperação e exame pela presente decisão do Conselho da Faculdade é enganosa, haja vista que tal direito do estudante já se encontra no atual texto do Regimento Interno da Faculdade (nos temos do artigo 88, de acordo com as formas de avaliação válidas, previstas no artigo 91, I e II), como, aliás, não poderia ser diferente, observado que tal direito já é previsto por força de Lei – especificamente, pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, Lei Complementar que regula a educação no nosso país.
Diante da gravidade da situação, nós, que participamos de forma independente na Frente Unificada Contra o Aumento da Média – mesmo não concordando seja com negociações a portas fechadas com a Direção, seja com extremismos e falta de diálogo –, resolvemos nos manifestar para propor, através do diálogo, um novo modo de atuação. Dessa forma, conclamamos a todos para se juntarem ao nosso Grupo e à Frente na elaboração de uma proposta pedagógica e na luta pela melhoria na qualidade do nosso curso, invocando os princípios republicanos, democráticos e sociais, além da excelência acadêmica que sempre caracterizaram a nossa Faculdade, mas que ora jazem pisoteados pelo autoritarismo.


Assinado: Grupo Disparada



*cujo link já está na lista desta Casa assim como o incentivo à sua leitura, seja para a comunidade puquiana ou para os interessados em questões acadêmicas.

domingo, 13 de março de 2011

O Desastre Japonês e o Destino Americano em Wisconsin

Miyagi destruída -- AP

Nos anos 80, a vitória dos Estados Unidos na Guerra Fria já se anunciava claramente em um horizonte próximo, diante de uma União Soviética presa no atoleiro do Afeganistão e, sobretudo, na própria camisa de força de sua economia hiperburocratizada, os americanos - que já tinham vencido a corrida espacial e tinham absorvido o choque da derrota no Vietnã - caminhavam a passos largos para a hegemonia não só do Ocidente como do Mundo. A Perestroika só foi o anúncio oficial para que os sovietistas ortodoxos pudessem acreditar no que seus olhos testemunhavam - mas fé é sempre um assunto complicado. O fato novo naqueles tempos era o Japão, um país situado em um arquipélago com uma cultura milenar e profundamente singular que, desde os anos 70, surpreendia o mundo seguidas vezes com suas inovações tecnológicas - os japoneses produziam uma tecnologia simples e eficiente que de fato melhorava a vida cotidiana das pessoas, o que era o exato oposto dos soviéticos que com sua tecnologia militar e espacial grandiosa eram, no entanto, incapazes de produzir bons liquidificadores. Os ganhos de produtividade dos japoneses assustavam o mundo e já o país já era colocado como futura maior potência econômica global. 

Tudo isso, claro, não passava de uma análise apressada, ideológica e deslumbrada. Os japoneses produziam avanços tecnológicos de forma paranoica porque não dispunham de recursos naturais e, principalmente, porque a derrota na Segunda Guerra os alijou não só do controle territorial da Ásia como dos meios para retoma-lo (ou mesmo instituir uma relação soberana e amistosa de intercâmbio político-econômico com os países da Ásia), cedo ou tarde o país bateria em um teto, ainda mais porque sua política externa estava (como ainda está) posta em função do interesse dos EUA que continua, curiosamente, a ocupar o país com gigantescas bases militares e uma presença ostensiva de sua Marinha em torno do arquipélago. Ademais, a problemática do sistema financeiro local nunca foi bem compreendida no Ocidente e isso foi dos fatores que mais expôs as próprias limitações do aparentemente bem sucedido sistema político japonês - no fim das contas, uma mistura de Capitalismo de Estado Ocidental com uma indisfarçável manutenção da máquina despótica asiática e sua oligarquia intangível: O Estado japonês nunca foi capaz ou teve o interesse em construir mecanismos que afetassem os privilégios que sua nobreza tinham a partir do controle do seu sistema bancário. A crise japonesa do final dos anos 80 ilustra a chegada ao teto do modelo instituído no pós-Guerra na medida em que o sistema política se mostra incapaz de enfrentar a sua elite e seus interesses específicos junto às finanças nacionais, resultando em uma socialização dos prejuízos que estagnou o país desde então.

Os Estados Unidos, como já largamente debatido neste espaço, perdiam a olhos vistos sua importância relativa junto ao Globo, mas a partir de Reagan passaram a insistir em compensar isso com o aumento do seu poderio militar e, mais grave ainda, partiram para uma jornada imperialista dezenovista com Bush Filho, algo cujas perdas sobre a economia é incalculável. O mundo globalizado usou a estrutura econômica americana como seu núcleo e seu ponto de apoio, mas não percebeu que aquele edifício nem tinha bases suficientemente firmes nem quem estivesse disposto a fortifica-las.  Para além disso, a própria problemática da realização do valor no Capitalismo acabou por vir à tona quando seus mecanismos de fuga passaram a falhar - o que cedo ou tarde aconteceria mesmo.

A tragédia profunda que se abateu sobre o Japão na última sexta - um formidável Sismo que produziu um tsunami, cujo resultado foi a destruição de cidades inteiras e a morte de milhares de pessoas - expôs o drama econômico e político de um país estagnado e, também, particularmente atingido pela Crise Econômica mundial. Pior, as inúmeras usinas nucleares do país, substitutivo arriscado para o petróleo e saída para o alto padrão de consumo energético do país, estão ameaçadas e o risco de se produzir uma tragédia maior com o envenenamento radioativo de vastas áreas é permanente. Analisar a atual situação pelo viés da tragédia pessoal ou mesmo do acaso natural é falso, é necessário pensar no caráter socioeconômico da crise japonesa e suas implicações - ou melhor, como as variáveis socioeconômicas não brotaram do nada e como o resultado de uma tragédia natural só pode ser pensado conjugado com elas. Por exemplo, o que dizer do fato do Governo Japonês ter ignorado os alertas sobre a segurança do seu sistema de produção de energia atômica? Em suma, isso só é uma página da história japonesa, mas que certamente tornará incontornável o debate sobre o sistema local. 

Do outro lado do Pacífico, a crise americana não é menor. A luta do Governo de Wisconsin contra os sindicatos - com direito a golpe do Senado local -, o que gerou essa resposta brilhante do cineasta Michael Moore: A América não está Quebrada - ou melhor, essa crise atual também não brotou do nada, mas tem origens muito claras, sobretudo nas causas da atual Crise e, principalmente, na forma como o Governo Obama tem enfrentado o quadro desde que assumiu, onde passar a mão na cabeça de executivos incompetentes e corruptos  com a injeção de uma massiva quantidade de dinheiro público, sem garantia de retorno algum em troca, tornou-se uma constante enquanto os trabalhadores perdem seus empregos - e veem agora, até mesmo, sua liberdade de organização ser atacada. O movimento de trabalhadores em Wisconsin é chave para o futuro dos Estados Unidos agora que o desastre Obama  prova que os problemas locais vão para além do Partido Republicano.

O momento atual em ambos os países é dramático e o resultado disso será fundamental não só para a sobrevivência, mas também para os rumos da humanidade que vive a agonia do Capitalismo tardio.



quarta-feira, 9 de março de 2011

Uma Esquerda para o Aqui-Agora

Retrato de um Sans-Culotte - Boilly
Pois, afinal de contas, não existe Amanhã. Sim, este post é uma pequena provocação ao nosso querido Murilo Corrêa, mais precisamente em relação ao seu Uma Esquerda para Depois de Amanhã- cujo tema, por certo, será recorrente nos anos Dilma. Sim, os anos Lula embaralharam a tradicional disposição dos espectros políticos no Brasil: Se por um lado, ele pôs em prática a maior política de inclusão da história deste país, por outro, ele o fez debaixo de uma retórica que, desde 2002, puxava o debate para o centro - e, cedo ou tarde, puxaria a prática também. A candidatura Dilma foi a expressão clara desse processo, bastava olhar para a própria espinha dorsal de sua própria campanha: Apresentar-se como a administradora do projeto de transformações iniciado em 2003, não como uma proposta assumidamente política da continuidade - embora deixasse no ar certa essência de politicidade, algo completamente ausente nas campanhas tucanas há muito tempo.

Nesse sentido, a reflexão de Murilo sobre a importância dos movimentos de Gilberto Kassab é perfeitamente válida: Como diabos pode ser sequer cogitado que o direitista prefeito paulistano irá criar "um novo partido de esquerda"? Ou mesmo, acrescentamos, como poderia estar se discutindo a ida de Kassab para o PSB, um partido histórico de esquerda brasileira? Cá da nossa parte, entendemos isso como um processo complexo, que envolve desde as peculiaridades brasileiras - a caminhada para o centro provocada pelo Lulismo, algo deflagrado agora, mas que nunca deixou de ser horizonte próximo de um país onde o cordialismo sempre imperou -, mas também da marcha de um fenômeno global, no qual a democracia representativa produz um descolamento das forças políticas organizadas do próprio solo social do qual são originárias - e no grande mundo da política, longe dos olhares e gritos plebeus, o Consenso se torna uma saída cômoda. Existe também, claro, a própria problemática da esquerda mundial.

Sem fazer um resgate histórico do que se passa, a redução da política nacional a esse caldo consensual pode ser até mesmo tomada como algo bom. O grande ponto é: Por que esquerda? Ou melhor, por que, algum dia, falou-se em esquerda? Como retomam Deleuze e Guattari no Anti-Édipo ao falarem sobre Plekhanov - o patriarca do marxismo russo -, a própria luta de classes é criação da Escola Histórica Francesa como forma de exaltar o papel da classe burguesa na Revolução. Isso que se chama de direitismo, portanto,  nasce do intento hegemônico burguês, uma forma de fazer uma particularidade da Revolução (a participação burguesa no processo de derrubada da aristrocracia) tornar-se seu universal (a participação burguesa, da maioria, do homem branco proprietário de terras e fábricas, ser a causa do processo, a despeito da atuação dos sans-culottes, mulheres e outras minorias). A esquerda não nasceu como o outro lado da moeda da direita, mas sim como a busca pelo reconhecimento de uma pluralidade alijada em prol de uma particularidade, cujo fim é a garantia da vida para todos.

Todas as vezes nas quais a esquerda colocou-se - seja pela afirmação ou pela negação - como o mero outro lado da moeda em relação à direita, algo de ruim aconteceu. A afirmação do binarismo produz o antagonismo paranoico, capaz unicamente de fazer a esquerda produzir uma saída semelhante ao que confrontamos, só que às avessas - e a União Soviética, o leviatã caiado de vermelho, foi um belo exemplo disso. Quando esse binarismo é reconhecido porém negado, reduz-se à política ao Consenso, uma anestesia geral no debate que veda indeterminadamente o questionamento da vida social - capitula-se, portanto, ao império do Normal. Não seria errado dizer que no momento atual, o PT aproxima-se perigosamente de se converter total e completamente à religião do Consenso, ao passo que a única força relevante assumidamente de esquerda, o PSOL, apenas afirma tal antagonismo binarista pela negação. Em outras palavras, sim, existe um esgotamento da esquerda no nosso país, pois a própria intelligentsia canhestra não consegue se livrar de categorias essencialmente binaristas.

A saída é descobrir o Novo - e o Novo só se descobre no Aqui-Agora, posto que o Ontem já não é mais e o Amanhã jamais é; vou mais longe, é necessário o reconhecimento do caráter multitudinário da Vida e o confronto aos objetos parciais e aos reducionismos. Hoje, mais do que nunca, a atuação livre no solo social abandonado pelas forças políticas - quase que isoladas na torre de cristal do Planalto - é central. Esse debate, reitero, só está começando.

terça-feira, 8 de março de 2011

Hoje é Dia Internacional das Mulheres e também Carnaval

Il rinoceronte - Pietro Longhi


Hoje é o Dia Internacional das Mulheres e, ao mesmo tempo, Carnaval. Honestamente, eu não gosto nem um pouco de Carnaval - sim, eu sou um pernambucano atípico -, mas essa capciosa coincidência é interessantíssima: O dia em que as máscaras emergem - num país onde elas são usadas às escondidas durante o ano inteiro - coincidir com uma das muitas realidades mais mascaradas da nossa sociedade - a condição de opressão da mulher - é uma bela provocação. E isso aconteceu, vejam só, no primeiro ano de governo da primeira mulher a ocupar a cadeira presidencial. Este humilde redator está longe de ser a velhinha de taubaté da democracia representativa, mas ele também não deixa de reconhecer que, em uma sociedade hierarquizada como a nossa, o fato de uma mulher ocupar o mais importante cargo político ajuda sim a abalar a normalidade masculinista - e, quem sabe, lança dúvidas também sobre a própria normalidade como um todo. Não, não será o Governo Dilma que, por si só, mudará a tônica dessa triste dinâmica - nem que ela se esforce e ponha em prática a melhor política de gênero concebível -, mas é possível sim considerar que a partir do fenômeno Dilma seja construído qualquer coisa concreta na área - talvez um cadinho para além das encenações e fantasias habituais da nossa sociedade. E talvez este Carnaval sirva para alguma coisa, ou melhor, para algo além de ser apenas a tediosa comemoração da nossa insustentável condição cultural, quando resolvemos mascarar a vida abertamente numa festa

sexta-feira, 4 de março de 2011

Notas de um Tempo Presente

Cronos (Saturno) de Rubens
A letargia resultante dos anos 90 - onde, com o fim da União Soviética, a hegemonia americana se tornou inquestionável - só arrefeceu à base do choque: Dois aviões acertando em cheio o coração da superpotência americana há quase dez anos atrás. Ainda que aquele atentado pareça ter sido ontem, o período de tempo de lá para cá parece ter durado uma eternidade. Aquele ato horrendo de repente se torna a deixa para que ultraconservadores - que desde os anos 70 insistiam em uma doutrina paranoicamente belicista - lancem seu país (e o sistema global) à guerra sem maiores explicações - tal como um Stalin e como o conveniente atentado que ceifou a vida de Kirov na União Soviética dos anos 30 serviu para exterminar seus adversários nos processos de Moscou.  Do mesmo modo que da morte de Kirov seguiu-se a eliminação de toda a intelectualidade soviética não-alinhada, o atentado ao World Trade Center serviu para que os Estados Unidos invadissem o Afeganistão - sem, no entanto, encostar um dedo na Arábia Saudita, das maiores financiadoras do terrorismo internacional - e, mais tarde, falsificar provas para invadir o Iraque e derrubar seu desafeto Saddam Hussein. Tempos duros e assustadores. A crise econômica mundial é consequência direta do extemporâneo - e insustentável - imperialismo norte-americano sobre uma economia mundial, onde seus déficits gigantescos tornaram-se um ônus pesado demais para a economia mundial. A "guerra justa" das hienas kantistas como um Bobbio ou um Habermas segue em curso, enquanto o terrorismo torna-se álibi para que mecanismos de controle sejam não só aperfeiçoados como espalhados por toda parte. As poucas alegrias de um mundo em corrosão é o influxo democratizante na América Latina do mesmo período, apesar de todas as suas limitações e contradições - que agora vêm à tona com o decorrer dos anos. Desde que a crise estourou mesmo, a única boa notícia que tivemos foi esse efeito dominó no mundo árabe, que não apenas colocou a ordem mundial em xeque como trouxe em seus contornos o mais intenso devir revolucionário - a vida escapando da máquina paranoica que serve à sua captura numa luta (desigual), entretanto, ainda em curso. O nosso Brasil, no início de seu mais novo governo (de sempre) é outra esfinge; se por certo aspecto nunca estivemos tão bem, por outro lado, há algo que se opera debaixo do grande debate político, quem sabe apenas um cansaço - mas pode ser uma certa degeneração, por que não? -, algo que se viu materializado nas últimas eleições e acendeu um sinal amarelo em qualquer ufanismo. Há um refluxo normalizador muito forte em curso ao mesmo tempo em que a luta de classes está mais agitada do que nunca, para que lado isso apontará? É difícil dizer, mas eu diria que a experiência das ruas ajuda mais do que a simples teoria agora, embora uma coisa não exclua, de modo algum, a outra.

quinta-feira, 3 de março de 2011

A PUC-SP e a Pedagogia do Trogloditismo

A PUC  de São Paulo foi uma das casas do Professor Paulo Freire. Para quem não o conhece, eu falo de um dos maiores expoentes da história da Pedagogia: Freire teve o mérito inconstestável de ter posicionado tal ramo enquanto instrumento da emancipação humana - em suma, na sua obra, a finalidade de aprender era, nada menos, do que libertar-se. Infelizmente, sua obra é profundamente mal lida, seja nos corredores acadêmicos brasileiros ou mesmo puquianos: O ensino bancário, disciplinador e autoritário sempre grassou pelas salas da Gloriosa, embora a PUC nunca tenha aberto mão de associar seu nome ao do velho mestre. Hoje, em um momento no qual a crise eterna da PUC - movida, vejam só a ironia, por uma dívida infinita - chega em níveis gravíssimos, essa situação piora cada vez mais. O que dizer dos cortes arbitrários de cursos e matérias na Faculdade de Psicologia e de Economia e Administração? Ou melhor, o que dizer do fato disso ter sido (mais) uma medida imposta pela Igreja, a despeito dos órgãos competentes da Comunidade? 

A gravidade da crise atual é tão grande que chega até mesmo a antes intocável Faculdade de Direito onde este humilde redator estuda. A primeira medida é administrativa e autoritária, haverá cortes de docentes que dão poucas aulas por semana, independentemente do seu mérito acadêmico, a outra é o resultado da degradação pela qual o curso passa nos últimos anos: O Conselho da Faculdade de Direito pretende aumentar a nota média de aprovação de 5,0 para 7,0 como forma de fazer os "alunos estudarem mais" - dado os maus resultados da Faculdade no último exame da OAB. O primeiro problema está em perfeita harmonia com a política insana que a PUC adotou desde a crise de 2004: Resolver os problemas da PUC por meio de cortes de gastos e não pela geração sustentável de receita, algo cuja consequência prática é ter professores sobrecarregados e afastar bons nomes. O segundo problema se enquadra na pedagogia obtusa que, infelizmente, não é incomum à Faculdade de Direito: focar o ensino em exames e concursos e tentar resolver o que dá errado punindo os estudantes - como se numa relação educacional, só uma parte pudesse ser o problema ou mesmo se o fim ao qual está sendo a FD não seja completamente indesejado. 

Ademais, os doutos juristas (e eventuais acadêmicos) também se esquecem que tais "maus resultados" são, inclusive, efeito inercial da própria degradação do mecanismo de seleção puquiano somado, ainda, ao aumento de vagas na Faculdade: Se por um lado massificou-se o curso, por outro, isso foi acompanhado de sua elitização por meio de um aumento massivo das mensalidades como visto nos últimos anos. O problema, claro, não está em aumentar vagas, mas sim fazê-lo de maneira desordenada e desastrosa. Infelizmente, existe muito pouca gente disposta em atacar frontalmente essa causa, afinal, há quem veja com bons olhos essa elitização (em um sentido social não intelectual) do curso, embora até mesmo os resultados nos concursos e exames da vida caiam - o que é sintomático, essa estruturação sequer sustenta uma excelência meramente técnica. Aumentar a nota de aprovação para melhorar a   a qualidade do ensino é algo tão irreal quanto congelar preços para acabar com a inflação, em suma, um reles cavalo de pau acadêmico para tentar melhorar a aprovação na OAB - como se isso quisesse dizer alguma coisa academicamente no fim das contas. Onde está a discussão sobre o plano pedagógico? Será que ninguém percebe que a combinação de fatores da "solução" encontrada não fecha? Que algo sempre vai ser sacrificado (normalmente, a excelência acadêmica)? Ou melhor, será que ninguém percebe o impacto disso sobre o próprio rendimento, produzindo dependências e, inclusive, a evasão de bolsistas carentes (sobretudo, os prounistas)? 

A sequência do movimento foi uma revolta dos estudantes e dos mais variados grupos políticos locais, afinal, até o mais decidido chapa-branquismo tem limites. As manifestações contrárias e o abaixo-assinado batendo de frente com as mudanças receberam, inclusive, uma resposta mal-educada da Diretoria da Faculdade via e-mail, que preferiu tentar bater na chapa derrotada das últimas eleições do Centro Acadêmico para tentar dividir um movimento que é de todos os estudantes - em um dos maiores atos de infantilidade que eu já vi em toda a minha vida. O verdadeiro clima de guerra das últimas semanas é assustador, enquanto lutamos cá do nosso lado contra isso - e isso explica a ausência deste blogueiro de seus afazeres -, mais parece que toca ao fundo da confusão toda o réquiem para a nossa Faculdade de Direito, uma Casa que nasceu, vejam só, para superar o tradicionalismo tacanho do ensino jurídico paulista e durante anos, de fato, conseguiu levar isso adiante.

Voltando à PUC, não existe outra saída para toda a Universidade senão a estatização neste momento, mas existe um pequeno fator de desequilíbrio nessa conversa toda (e não é só o Estado): A Igreja, sempre mais preocupada em garantir seu domínio sobre a produção de conhecimento do que em qualquer saída acadêmica. E é fato que desde a explosão da crise de 2004, a Igreja sempre se usou habilmente da situação para aumentar seu grau de influência sobre a PUC - vejam bem, universidades são autônomas no Brasil e instituições confessionais não se confundem com apêndices acadêmicos de nenhuma religião -, o que levanta dúvidas sobre os reais motivos da falta de ânimo em buscar soluções para essa crise financeira mal-explicada. Hoje, a ingerência do Conselho Administrativo - composto pelo Reitor e dois padres que representam a mantenedora - sobre assuntos acadêmicos não é apenas absurda como também é assustadora. Na Faculdade de Direito, as ações impensadas da burocracia local são desesperadoras e decepcionantes. Estamos diante de uma verdadeira pedagogia do trogloditismo.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

O Consenso Brasileiro: Kassab e São Paulo

Na quinta-feira última, ocorreu o sétimo grande ato pela redução das tarifas de ônibus em São Paulo. Trata-se de um intenso processo de mobilização contra a política de transporte do atual governo municipal da capital paulista, o que invariavelmente resvala em um embate direto contra toda lógica do projeto que há quase oito anos dita os rumos da maior cidade do Brasil. O atual mandatário de São Paulo, Gilberto Kassab, surge como o improvável vice de José Serra nas eleições de 2004, assume como vice e, após um ano, ascende à chefia da principal Prefeitura do país, com a esperada saída de cena de Serra para disputar o Governo do estado em 2006 - dentro de uma estratégia que visava à Presidência da República em 2010, projeto que, como sabemos, fracassou há alguns meses. O Kassabismo, como já debatido exaustivamente por aqui, é a reterritorialização definitiva de São Paulo, afinal, não é possível conceber uma amálgama de projetos conservadores maior do que ele: Um pouco da direita "empresarial" ao estilo Afif, o velho Malufismo, o espectro do demismo e a frieza gerencial tucana.

Em São Paulo, ergueu-se um modelo desumano de cidade durante a segunda metade do século 20º, a mais perfeita e acabada expressão urbana do Regime Militar: Uma urbe centrada no transporte individual, no isolamento da massa trabalhadora mal-paga nas periferias e entristecida em tons cinzas e duros. As tentativas humanizadoras de dois governos de esquerda na era democrática tombaram diante da insuficiência dos projetos frente à complexidade do consenso político do núcleo duro local. A cidade, neste exato momento, está esgotada, vítima dessa camisa-de-força urbanística, na ausência de projetos à altura de suas demandas e na obstinação em manter tal projeto em curso. O aumento das passagens de ônibus para R$ 3,00 só segue uma trajetória de reajustes altos de um serviço que está esgotado há alguns anos, mas que no Kassabismo chega a um nível considerável de sucateamento, o que levou à onda de protestos em questão. Esse ato em específico narrado aqui atraiu quase cinco mil manifestantes para a frente da Prefeitura, o que marca um fortalecimento do movimento, um marco importante depois da dura repressão promovida pela Polícia Militar paulista e a Guarda Civil Metropolitana - devidamente coberta neste post lapidar do Tsavkko sobre o 17 de Fevereiro.

A grande questão que se impõe diante dos nossos olhos, para além da manutenção paranoica de um modelo de urbano insustentável - ou mesmo das agruras da repressão e do policialismo - é o consenso que se constrói no país e que tem, pelo seu lado, normalizado variadas formas de relação e convivência francamente opressivas que encontram lastro histórico seja na Ditadura ou em algum ponto mais longínquo da nossa vida enquanto coletividade: Não há indignação, Kassab é, hoje, um quadro disputado a tapas pelas principais forças políticas do país. Em vez de falarmos nesse consenso como elemento de manutenção de algum entulho histórico, equívoco elementar entre equívocos elementares dentre os decorrentes de uma compreensão linear do tempo - que posiciona, por sua vez, a História como uma espécie de marcha forçada -, é preciso trazer essa questão para o terreno da imanência, para o inescapável aqui-agora; não é de manutenção de nada que falamos, mas de um produtor atual de autoritarismo, logo, de obstrução ou mesmo captura da vida por meio do esvaziamento da politicidade - e da possibilidade de problematização e questionamento das coisas inerentes à vida comum, reduzidas cada vez mais a um gerencialismo tacanho.

Essa grande contemporização que se viu, há pouco, com o aprofundamento da aliança entre PT e PMDB e se adensou nos primeiros meses do Governo Dilma ascendem uma luz amarela relevante em relação a uma bola que temos levantado por aqui: O PT produziu mudanças incontestáveis nos últimos anos, mas um dos desfechos possíveis para essa história é ele ser engolido pela situação que criou e padecer esvaziado de seu potencial. A tentativa de aproximar Kassab da base aliada - seja no PMDB, no PSB ou no novo PDB - para desestabilizar o esquema demo-tucano faz algum sentido, mas ele não esgota o direitismo, ao contrário, apenas atinge um de seus tentáculos externos, sem deixar de trazer, paradoxalmente, para dentro do intrincado sistema governista um elemento ele mesmo direitista. Isso é parte da conversa que eu iniciei aqui no post anterior e que rendeu este belo post do Bruno Cava, em relação ao qual eu concordo com grande parte das assertivas e das preocupações, embora não seja tão pessimista quanto à situação atual (o que não quer dizer que eu esteja otimista também) e seja mais cético quanto ao peso da responsabilidade de Lula nisso: A proposta de Governo atual, sob a égide da Carta ao Povo Brasileiro, já é, em si, marcada por uma articulação complexa que caminha no limite entre a contemporização total e  a negociação com variados setores, item  que Lula, apesar de vários arranhões, conseguiu administrar sem cair em uma conciliação geral, embora não tenha conseguido afastá-la por completo também, o que não torna menores suas responsabilidades sobre o que se passa agora.

Apesar dessas nuvens negras no horizonte, o posicionamento de inúmeros parlamentares petistas nas mobilizações contra o aumento das passagens e suas declarações públicas contra o Governo Kassab são relevantes e, esperamos, conseguirão frutificar daqui a um ano na construção de uma alternativa eleitoral verdadeira ao projeto atual - em uma briga dura que passa, aliás, pela superação do coro de contentes dentro do próprio partido. O papel de ativistas das mais variadas espécies precisa, é claro, ser alheio a todo o jogo político-institucional, o qual deve ser reduzido a mero instrumento: É necessário se voltar ao que realmente interessa, a saber, mobilização, atuação, problematização. É preciso pôr o altar do consenso abaixo e isso só é possível de se fazer atuando nas ruas e nas diversas (info)vias da vida.

P.S.: As fotos que ilustram este post são do meu grande amigo Bruno Pegorari que fez essa bela cobertura fotográfica especialmente para O Descurvo
* um agradecimento ao Paulo Paiva pela revisão ortográfica.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O Terror do Consenso

Todos nós temos, pelo menos, uma cena aterrorizante na memória. A minha não remete a uma guerra, um desastre natural, uma tragédia pessoal ou algo do tipo; a imagem que não sai da minha cabeça, por sua natureza horrenda, remete à cena final do processo de cassação da imunidade parlamentar do então deputado Antonio Negri na Itália dos anos 80 - tal mandato de deputado conquistado pelo filósofo italiano foi o que, aliás, lhe valeu a soltura do cárcere, onde se encontrava por conta da condenação (inacreditável) na qual fora apontado como "mandante moral" do assassinato  de Aldo Moro e, ainda, ser um dos líderes das brigadas vermelhas além de ter sido acusado de usar seu cargo de professor universitário para corromper os jovens (isso não lembra vocês de algo, não?). A votação transcorria tensa até a derrota de Negri, que saiu cabisbaixo do plenário com olhar mortificado, enquanto a turba ignara comemorava. Um gigante como Negri, de repente, estava de cabeça baixa, curvado pelos idiotas do consenso - e eu, que sou tão pequeno, tremo diante daquilo até hoje. Olhando para o Brasil atual, onde a contemporização é quase geral e grande parte dos jovens estão praticamente mortos por dentro - embora ainda caminhem por aí -, aquela cena ganha um significado especial, se ver cercado, ser curvado. Aquilo é o terror em pessoa para mim e é aquilo que parece se avizinhar na esquina logo adiante.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A Revolução Árabe: Líbia

Condolezza e Kadafi: A reabilitação (AFP)
Desde que esse processo revolucionário multitudinário tomou conta do Mundo Árabe com a Revolução dos Jasmins, insistimos por aqui que se referir aos atuais acontecimentos como fruto de mera degradação na condição de vida das pessoas, quem sabe uma consequência direta dos efeitos da Crise Mundial, trata-se de um equívoco fortíssimo. Não, nem a Tunísia, tampouco os países afetados pelo efeito dominó, são os mais pobres, desiguais ou politicamente opressivos do continente africano ou do mundo, embora eles sejam pobres, desiguais e opressivos. Antes de mais nada, é preciso ponderar o que disparou essa fantástica explosão do desejo e entender como ele interferiu no campo social - enfim, uma economia política formalista, incapaz de considerar o desejo, jamais será capaz de produzir uma análise precisa da questão. O fato é que mesmo que a Crise Mundial tenha agravado as condições de vida da região, fatores demográficos - que propiciam uma enorme quantidade de jovens naqueles países, por exemplo - e políticos - a irrupção, finalmente, de um modelo de militância capaz de fazer multidão, alternativo ao enferrujado nacionalismo árabe ou ao fundamentalismo islâmico e suas ambiguidades - conseguiram reverter um quadro que, há pouco menos de um ano, era de mais perfeita servidão. A Bola da vez é a Líbia: País com as melhores taxas de qualidade de vida da África - iguais aos dos melhores países latino-americanos -,  onde o extremismo religioso amarga a insignificância e, em relação ao qual os analistas internacionais supunham que jamais seria afetada pelas circunstâncias, agora se vê diante de uma revolução que vem a se unir com a multiplicidade de revoluções do continente. A tirania local, sob o comando do controverso Coronel Kadafi - ou Gaddafi, dependendo da transliteração -, é uma mistura do socialismo autoritário do Leste Europeu em moldes árabes com um bocado do nacionalismo nasserista e boas doses de histrionices que, neste exato momento, tem protagonizado a mais dura reação vista em relação à Revolução Árabe até o presente momento - ao mesmo tempo em que desmistifica a lenda da viabilidade da "boa ditadura", o regime opressivo que produz boas "condições objetivas" de vida. Se a História nos ensina que nenhuma forma de socialismo autoritário é sustentável - se é que podemos considera-las como um socialismo, haja vista que não são os trabalhadores que controlam os meios de produção nelas -, o caso em questão suscita reforça a natureza libertária do processo em curso: Embora a Ditadura de Kadafi tenha sido reabilitada pelo Ocidente - seja por ter aderido à Guerra ao Terror americana ou à repressão à imigração no Mediterrâneo ao lado dos europeus -, a revolta contra sua autocracia reforça que os árabes não estão mais dispostos a tolerarem nem o Imperialismo, nem as degenerações autoritárias "contra-hegemônicas" que surgiram em sua decorrência - reconciliadas ou não com o Ocidente. Se a situação de submissão real daqueles países no sistema internacional não será mais tolerada, também não há espaço para um novo Nasser (muito menos para um novo Sadat) naqueles países, o que é maravilhoso. Aqui, no entanto, o desafio dos revolucionários é enorme pela violência da repressão. Seja como for, nada será como antes e é isso que importa. 


domingo, 20 de fevereiro de 2011

O Verdismo e o Nosso Tempo

As Flores de Bazarov -- retirado daqui
A Crise Econômica Mundial, ainda em curso, é um dos processos mais intrigantes da História: Embora ela tenha provocado um tremendo alarde quando se iniciou, logo veio o silêncio - e não arrisco em dizer que mais se cala do que se fala seja sobre seus efeitos, imaginem só sobre suas causas. Sim, porque ela não significa apenas um abalo no edifício das verdades majoritárias como também balançou as certezas, por assim dizer, "contra-hegemônicas". O fato é que o consenso imperante caiu por terra sem, no entanto, nada - de melhor ou pior - surgir em seu lugar, o que gera um quadro de apreensão e ansiedade. De onde estamos saindo, onde poderemos chegar? A pax americana acabou tão rápido quanto começou e não sabemos para onde vamos; a nau bateu nos rochedos, os que não se foram na desdita estão agarrados em suas tábuas de salvação - e há quem relute em aceitar que elas são apenas e tão somente isso: Uma pequena chance de chegar à terra firme.


No mundo rico, o que se vê na esteira da erosão do consenso político é a ascensão, quase que por inércia, da extrema-direita; o primeiro momento em que uma luz apareceu no fim do túnel nos últimos tempos foi agora, com a multidão de revoluções no mundo árabe, o que nos tirou de uma anestesia profunda cujos efeitos, quem sabe, possa ajudar a despertar os (antigos) países cêntricos do seu pesadelo. Claro, para além do esgotamento do modelo econômico, temos, também, uma crise ambiental que se opera de forma mais silenciosa ainda. Não, nós não estamos apenas às voltas com problemas nas vigas que sustentam a nossa Casa, mas também com um problema dentro dela mesma, em seu próprio ambiente. Mas não, também não se trata, frise-se, de dois problemas separados: As rachaduras na parede e as constantes confusões dentro da Casa se interrelacionam enquanto efeitos da atividade que é realizada ali dentro. Algo, em sua esquizofrenia, abala desde as estruturas da casa e, ao mesmo tempo, abala seu ambiente.


É um pouco do que fala Guy Debord em O Planeta Doente, artigo de 1971 publicado recentemente no Sopro. Em suma, ele fala do impacto da forma como os homens se organizam - não somente sobre a sua sociedade, mas também sobre aquilo que a sustenta, a saber, a própria natureza. Como anota Debord, o ambientalismo, já àquela época, estava na moda, mas é claro que os problemas ligados à poluição passavam bem longe de meras saídas administrativas, onde o Estado capitalista - ou sua tentativa de alternativa, os Estados socialistas burocráticos do Leste Europeu e da Ásia - mudariam isso ou aquilo e superariam o empecilho. É evidente que essa problemática passa por decisões políticas que tocam sim o cerne do sistema produtivo, sem concessões nem eufemismos. Discorde-se ou não de certos aspectos subsidiários da análise de Debord, o fato é que o desenrolar das coisas se deu na direção que ele anteviu. 


Àquela época, um novo grande consenso começa a ser edificado, ele considera sim os problemas ambientais, mas enquanto ameaça ao Capitalismo - ou melhor, à "Economia".  É também nos anos 70, um ano depois do artigo de Debord, que a ONU entra na parada com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), mais uma das infernais boas intenções das Nações Unidas, cuja finalidade é resolver os problemas segundo as regras do velho universalismo. Isso também coincide com ano do nascimento do movimento verde na Austrália, o que se espalha pela Europa na mesma década e chega, nos anos 1980, ao Brasil. Ainda que o verdismo nasça com uma proposta libertária, ele se vê permanentemente rondado pelo espectro do ambientalismo conservador, teses de crescimento zero - o que favorecia, por óbvio, quem já é desenvolvido - e o mais roto neo-malthusianismo possível - e suas capciosas teses sobre o excesso de população.


No Brasil, o verdismo surge no Rio de Janeiro, tocado por militantes anti-Ditadura que encamparam a questão ambiental, normalmente posta de lado pela esquerda tradicional - campo político em relação ao qual também se afastavam pela sua oposição ao bolshevismo e suas variantes. Falo de gente como Sirkis, Minc, Gabeira e tantos outros. Muito do conteúdo esquerdista do partido se dilui com o tempo, seja pela maneira como ele se expande pelo país - o verdismo, por sua natureza, é um movimento aberto, o que o faz ter predominâncias variadas pelo mundo, o que se verifica na composição do partido no Brasil também - ou por não ter conseguido se colocar de maneira clara em relação à questão social, talvez do mesmo modo que a esquerda tradicional jamais tenha conseguido realmente encarar a questão ambiental frontalmente, como aborda Alexandre Nodari - o que, ressalto cá do meu lado, no Brasil possui um complicativo maior em relação à Europa, aqui, o elemento plebeu, da massa mestiça das periferias e do campo, não é das coisas mais fáceis de se decifrar, item em relação ao qual, sem dúvida, o PV brasileiro falhou.


O PV brasileiro segue um tanto erodido até que ocorre o ingresso de Marina Silva para disputar a Presidência, o que o coloca de novo nos holofotes, algo relevante depois dos anos 90 o ter condenado, aparentemente, a ser um pequeno - o que, no entanto, nem a votação gigantesca de Marina parece ter mudado. A questão é para onde esse verdismo vai ou pode ir, seja aqui ou no mundo. Neste exato momento, para muito além de um surrado Deep Ecology, ascende um verdismo de mercado que parece bastante sedutor agora, onde falar em "economia criativa" e numa saída clean para as contradições sociais - se é que elas vão ser levadas em consideração. O que nos resta? Mercadificar a temática ambiental e construir todo um circuito de consumo de bens ecologicamente corretos, instituindo, quem sabe, todo um sistema complexo e eficiente de trocas de créditos de carbono? Levando em consideração que a atual Crise Econômica, longe de ser um mera sazonalidade - antes de mais nada, ela é efeito de um problema agudo na própria realização do valor -, vemos que o buraco é mais embaixo, por mais que isso nos ajude a lidar com nossas culpas, isso não parece ajudar a fazer muito mais do que isso.


De fato, cá ficamos com as linhas gerais do velho Debord, longe de ser ingênuo, a eficiência da produção administrada pelos próprios trabalhadores e o fim de uma perspectiva de ciência alienada são as únicas chances de enfrentar uma situação que, por sua vez, antes de ensejar um neo-malthusianismo, nos diz exatamente o contrário: Existem bocas de menos para o que se produz, se elas terminam mal-alimentadas é porque há algo de verdadeiramente perverso no sistema econômico, o que se torna problemático se essa produção excessiva, ainda por cima, oneram o meio-ambiente. Não será uma volta a uma espécie de essencialismo naturalista, um platonismo qualquer, que mudará isso, tampouco será a social-democracia aparentemente triunfante como via política que nos salvará; a ideia curiosa de um Estado que explora um sistema perverso, corrigindo suas falhas e se aproveitando da sua capacidade de produzir, além de não passar de um paliativo político-econômico, não será capaz de deglutir as toxinas produzidas por esse sistema que, por seu turno, envenenam aquilo que sustenta a própria vida.


São tempos interessantes esses, para além de uma crise no nosso modo de vida (uma crise econômica), se opera uma crise que põe em xeque nossa própria vida (uma crise ecológica). Cá no Brasil, o PT ainda é um raro exemplo de esquerda com pés na realidade social que o engendrou - ainda que tenha caminhado em uma direção ruim nos últimos anos, me parece a única alternativa relevante ao tecnocratismo kautskyano - e, talvez por isso, conseguiu mudar a ética de funcionamento do Estado tornando a garantia da vida de todos bem mais que um interesse refratário, mas precisará encarar com mais seriedade a questão ambiental - o que passa por mais coisas do que se pode supor.  Se, em um primeiro momento, seria ótimo que o PT unisse sua prática social-democrata a um ambientalismo decidido - assim como seria se Marina conseguisse dar um caráter social-democrata ao PV -, o desafio que está posto no horizonte é mais complicado do que isso: O único meio de salvar o meio-ambiente é traçando como fim para tal atividade a preservação da vida, o que não coincidirá com a preservação do Capitalismo. A dificuldade disso, diante da própria crise crônica no nosso sistema político, não é pequena, mas a boa luta nunca deve deixar de ser lutada.