sábado, 10 de dezembro de 2011

Montanha Russa

Manifestantes nas Ruas
Enquanto a agonia do Euro prossegue no Oeste, Moscou viveu um dia agitado hoje: milhares de manifestantes marcharam nas ruas da capital russa contra as possíveis (e plausíveis) fraudes nas últimas eleições parlamentares. Também estavam presentes outros tantos manifestantes pró-Putin, além de um contingente imenso de policiais e forças de segurança, isolando o Kremlin. Não que fraudes não sejam uma comuns naquele país: em 1996, até as pedrinhas da rua sabem que Boris Yeltsin, que em 1993 rasgou a Constituição e jogou tanques contra o Parlamento legalista, venceu o comunista Gennady Ziuganov em uma enorme fraude e que a tônica dos anos seguintes, sob Vladimir Putin, era do esmagamento contínuo das vozes dissonantes, com direito a supressão de partidos e com trapaças  mais ou menos descaradas nas urnas. No entanto, as medidas putinistas de combate aos efeitos da crise, sem dúvida, trouxeram à tona uma revolta considerável.

Cerco ao Kremlin
O resumo da ópera das eleições do último dia 04 é simples: o Partido Rússia Unida - uma espécie de PMDB russo comandado pela figura pessoal e personalista de Putin - perdeu a maioria constitucional e ficou, em tese, com apenas metade das cadeiras na duma estatal - a câmara dos deputados local -, mas ao que tudo indica, esse resultado se deve a fraudes grosseiras que escondem uma queda de votos ainda maior, talvez até uma derrota daquele partido para os comunistas. A metade das cadeiras serviria para garantir a governabilidade do país nos termos putinistas, coisa que uma "maioria relativa" não daria conta. Putin e Medvedev, seu fantoche presidencial, certamente não esperavam por essa derrota, daí os gestos desesperados e acintosos. Agora, só resta mobilizar sua militância e partir para o enfrentamento nas ruas, enquanto que, por outro lado, se manobra com as forças de segurança e de espionagem, em um movimento que deve endurecer o autoritarismo local. 

Mais caminhões militares
As manifestações por parte do possível vencedor das eleições russas, o Partido Comunista da Federação Russa (PCFR), são, até o presente momento, tímidas. É provável que tenha acontecido novos acordos de bastidores com o Kremlin, como é comum de Ziuganov. Aliás, em um primeiro momento, convém esclarecer que o atual Partido Comunista russo não é herdeiro real do velho Partido Soviético, uma vez que grande parte dos burocratas da URSS se converteram em oligarcas - bilionários em dólar que enriqueceram por terem surrupiado as velhas estatais soviéticas e as terem inserido, como propriedade suas, no mercado global - ou em apparatchiks do Rússia Unida -, portanto, resta ao PCFR a posição de pastiche, mera alegoria de saudosistas dos tempos soviéticos, todos unidos por um discurso nacional-popular, que apela para o estatalismo, o tradicionalismo e, até, para o cristianismo ortodoxo (!).

Ziuganov, eterno líder do PCFR, comporta-se como um príncipe herdeiro de monarquia derrubada: sonha com a volta dos velhos tempos, o que irremediavelmente lhe devolveria o poder que é seu "por direito". No entanto, é óbvio que se a velha União Soviética não tivesse sido implodida, não seria ele o secretário-geral ou um burocrata de segundo escalão ao menos. Ele é só um líder demagogo que reconstruiu em torno de si o saudosismo soviético depois que Yeltsin permitiu a volta de uma legenda "comunista" na Rússia - uma vez terminado o perigo do verdadeiro partido ressurgiu. A oposição que Ziuganov fez para Yeltsin e, depois, para Putin é tão ambígua que nem parece ser concreta. Como agora. 

Declaram os comunistas russos, em todo o seu ecletismo e ostentando velhos quadros de Stalin, que desejam um "modelo chinês" para seu país, mas nos parece claro que se não há muitos chineses na Rússia, também não há muitos stalinistas na China. O eleitorado russo, frustrado com os rumos do salvacionismo putinista e suas medidas de repasse dos custos da crise para os pobres, está desorientado, mas também não está animado com o PCFR. Outros partidos que também cresceram nas últimas eleições, como o Rússia Justa (social-democrata e filiado à Internacional Socialista) também parece ter vínculos demais com Kremlin e projetos de menos. Já o Partido Liberal-Democrata, do tragicômico Vladimir Zhirinovsky, é voto de protesto. A tendência eleitoral aqui é a mesma de outros lugares pelo mundo, punição das forças governistas por erros que cabem a todo o sistema partidário, diminuição do comparecimento nas urnas e desilusão com a democracia representativa - sem, no entanto, a organização de novos modos de intervenção política.

"onde está o pecado, eles riem" -- um tanto ortodoxo, não?
Por ora, de todos os Brics, a Rússia foi a mais afetada pela crise global e isso não parece ser aleatório. O Rússia Unida é, aí sim, o velho PCUS, Igreja velha de crença renovada, ortodoxamente voltado à adoração de um capitalismo que, hoje mais do que nunca, vive de pura fé. A incapacidade dele resolver os três problemas centrais da Rússia desde a agonia do tzarismo, é patente: restam aí a questão nacional - o genocídio cultural das minorias não-russas, sobretudo as não-eslavas, o que se agravou depois do fim da URSS, embora nela a questão ainda estivesse em aberto -, a questão da desigualdade - que passa da aristocracia imperial para os oligarcas contemporâneos, passando pelos velhos burocratas 'comunistas' - e questão da liberdade - sempre fagocitada pelas reterritorializações que representam o engessamento da máquina despótica ortodoxa. Nisso, putinistas fracassam tão fragorosamente quanto os ultra-liberais dos anos 90 ou os bolsheviks. Se livrar da linha rígida, seja da política ortodoxa ou da religião stalinista, por meio de linhas de fuga mundialistas, como o trostskysmo - apesar de sua crítica moralista - tentou a seu tempo, nunca deixou de ser a melhor saída para os russos.

Uma possível implosão da Rússia, junto com o destino nada animador do Euro - à deriva no mar de hesitações, recuos e boçalidades infinitas do eixo franco-germânico - podem marcar um agravamento seríssimo do cenário europeu; as décadas de paz da Europa Ocidental podem estar chegando ao fim com a implosão do europeísmo, ao mesmo tempo em que na Rússia, Putin e os seus estão entrando em uma espiral de deslegitimação que podem fazê-los perder o controle das coisas mais rápido do que se supõe no Ocidente - para forças ainda desconhecidas, mas que podem perfeitamente passar por fora, e a despeito, do decrépito sistema partidário russo. Isso, aliás, acende uma luz amarela para China e Brasil, sobre a qual voltaremos a falar tão logo. Enfim, próximos dos vinte anos do fim da União Soviética, ainda estamos às voltas com os ecos do fracasso enormíssimo da Perestroika.

*Fotos do meu amigo Lucas Barducco, que foi testemunha ocular, auditiva e olfativa das manifestações russas de hoje.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A Crise da Economia Global: O Futuro e o Direito à Insolvência

Recentemente, o nosso Bruno Cava, publicou uma bela resenha a respeito de A Crise da Economia Global (Civilização Brasileira, 364 páginas), coletânea de nove ensaios organizados por Andrea Fumagalli e Sandro Mezzadra que traz, por sua vez, o resultado de uma série de discussões acumuladas pelo pessoal da UniNomade da Itália acerca da crise atual. A contribuição do pessoal ligado ao pós-operaísmo, nem preciso dizer, é fundamental para a compreensão das transformações no Capitalismo nos últimos quarenta anos e, por tabela, para entender o presente momento. 

Não vou repetir o que o Bruno colocou lá, até porque não conseguiria fazer de forma tão precisa, mas o argumento central que perpassa o livro é que a financeirização não é um mero acidente, uma anomalia do capitalismo contemporâneo,  mas sim uma consequência imediata do seu desenvolvimento, no qual o lucro converte-se cada vez mais em renda financeira - marcando, assim, uma sólida objeção ao neokeynesianismo. Tampouco, é a financeirização um fenômeno meramente "econômico", uma vez que ele toma a forma de governança - o que está definitivamente escancarado na Europa contemporânea, mas não deixa de ser uma realidade ali, acolá, aqui... 

O que me interessa fundamentalmente no livro em questão, mais do que aquilo que ele diz, é o debate que ele abre. Duas coisas me chamam a atenção nesse sentido: a questão do tempo e o direito à insolvência. 

Sobre a primeira, se o bom pensamento contemporâneo se atém com certo êxito à questão da teologia-política - e também da teologia-econômica, como o fez Giorgio Agamben no Reino e a Glória -, mas é preciso pensar como isso se articula com a teologia-histórica. E quando falamos em História, a questão do conceito de tempo é fundamental - como nos lembra Peter Pál Pelbart. O conceito moderno de tempo - que, na verdade, é elemento fundamental e fundante da própria modernidade - é uma diacronia tripartida: Passado, Presente, Futuro, se concatenam numa linha reta que teria natureza substancial. Uma ideia com efeito, tão formidável quanto é fantasiosa.

Qual o fundamento desse conceito de tempo? Sem dúvida, o Futuro, uma vez que ele é, dentre todos os três elementos constitutivos que não tem fundamento; se o tempo é  duração da existência, logo, o que haveria de ser algo que, por definição, não existe ("ainda", dirão os incautos, mas é fato que o amanhã jamais chega enquanto amanhã). O Futuro está para o tempo como o Deus-Pai está para a Trindade, portanto; é dele que derivam Presente e Passado, uma vez que a perspectiva de marcha progressiva, inadiável e incontrolável transforma o aqui-agora em mero "presente", isto é, uma mera etapa, cujo princípio estaria em um "antes" (o Passado) e se voltaria ao que interessa (o Futuro, na verdade o movimento "para frente", uma abstração destinada a coordenar o movimento...).

Trata-se de um esquema trinitário, cujas feições, incontestavelmente, o equiparam a um dispositivo - no sentido etimológico de dispositio, que sendo uma das traduções latinas possíveis para oikonomia (e sendo a última uma ideia aristotélica ou de sua escola), passa sempre pela lógica da mediação articulada sempre na forma trinitária...

Se deixamos de viver pela expectativa de tristezas que ainda não aconteceram (medos) e pela resignação de alegrias que serão, supostamente, vividas (esperanças), então é fundamental fazer com que o Futuro seja tomado como concretude. É um jogo de espelhos baseado na ilusão de que o depois chega enquanto depois. Uma farsa. Mas não basta para tal construção um binarismo simples, um agora e um depois, é preciso tirar do aqui-agora toda sua potência, enunciando que os fundamentos do agora estão no antes e não na atualidade dos efeitos do que foi construído. 

No capitalismo contemporâneo, o mercado, enquanto instância alegórica fundamental do exercício do arbítrio, converte os medos na indústria dos seguros (e dos seguros dos seguros, as imagens de imagens) e converte as esperanças no mercado acionário, como bem observado pelo Bruno. A própria Teologia-Política - a força que se põe, agora, de forma oculta, na medida em que é importante não desnaturar a naturalidade das relações econômicas - se vale desse conceito de tempo: a concretude da ficção da dívida é fundamental para o Estado, máquina teológico-política definitiva, que subjuga os viventes enquanto súditos sob o discurso de que eles lhe devem a vida (e partir dessa dívida fundamental, surge o fundamento de legitimidade de qualquer espécie de dívida). 

É aí que encontramos o gancho para a questão do direito à insolvência. O direito surge da dívida (finitas e em blocos móveis, mas já visando a sua infinitude e sua imobilidade) como nos lembra Nietzsche. O sistema de direitos e obrigações (não à toa identificadas com "deveres") corresponde à bipartição crédito-débito, isto é, alude a uma dívida cuja existência é hipotética. O direito estatal é uma das formas mais brutais de domínio porque prevê uma dívida infinita e não realocável - basta pensar no sistema de pagamento de tributos. Um direito à insolvência é a subversão máxima do direito estatal porque representa a neutralização do conceito de dívida infinita - na forma de afirmação do aqui-agora, da potência -, a fantástica ideia de ser creditado a um sujeito poder não ser debitado pelas condições impostas. 

Isso tem todo significado em uma economia na qual as pessoas produzem o valor que não lhes é retornado e, para que tal valor se realize, lhe é "emprestado" a riqueza social que elas mesmas já produziram para compra...o que elas produziram...O homem endividado é uma das expressões máximas da nossa época, como nos lembra Negri, mas é possível, a partir daquilo que ele se empoderou por conta da dívida, que se reconecte as partes que atritam no vazio e, assim, se realize sua potência perdida. Um passo importantíssimo para tanto é dizer que o rei está nu - e hoje, isto é o mesmo que dizer que o Futuro nunca chega. Se o Homem não é nada e o tempo é tudo, é preciso construir um conceito de tempo, material, potente e funcional para operarmos o corte Histórico do qual depende nossa sobrevivência.





segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O Título do Corinthians

Na esteira da morte do Doutor Sócrates, seria uma indignidade o Corinthians perder o título brasileiro ontem. Justo o Doutor, que declarou querer morrer num domingo com o seu Corinthians campeão. Mas, verdade seja dita, o alvinegro de Andrés corresponde pouco ao que Sócrates sonhava para um clube - certamente menos do que o Vasco de Dinamite - e, sejamos honestos mais uma vez, o time de Tite corresponde menos ao que ele gostava de ver em campo do que, por exemplo...o Vasco de Ricardo Gomes/Cristóvão. Ainda assim, o Corinthians era o clube que Sócrates desejava, justamente, porque ele via no alvinegro mais do que cartolas, a comissão técnica e o elenco do momento. E o Corinthians mereceu o título. Foi o time mais regular em um campeonato marcado pela irregularidade, suportou a pressão dos cariocas - que, pela primeira vez em anos, fizeram um torneio melhor do que os paulistas no cômputo geral - e cravou seu nome, pela quinta vez no panteão dos campeões brasileiros - segunda, nos pontos corridos. O sistema defensivo corintiano foi fundamental: a começar por Júlio César no gol, a linha de dois laterais defensivos, um bom miolo de zaga e, sobretudo, a excepcional dupla de volantes Paulinho/Ralf. Na frente, faltou criatividade, alguma disposição, talvez condição física, mas deu para o gasto. Tite, com seu estilo gauchesco, tem todos os mérito, goste-se dele ou não: ele tirou o time da draga em que se encontrava desde a saída de Mano Menezes e, ainda, lidou no ínicio com a problemática de Ronaldo, queridíssimo de Ricardo Teixeira, relutante em se aposentar dos gramados no início do ano.

P.S.: O Brasileiro deste ano pode ter sido liderado na maioria das rodadas pelo campeão, mas sua hesitação em vários momentos, o sobe desce da tabela, o tornaram qualquer coisa engraçada. As equipes teimavam em não definir o torneio. Vergonha mesmo fica pela conta do rebaixado moral Atlético-MG - e os 6x1 tomados para o seu maior rival, o Cruzeiro, que lutava, ainda naquela última rodada, contra o rebaixamento -, do Cruzeiro - que mesmo goleando o Galo foi uma tragédia -, Palmeiras e São Paulo - os dois últimos, embora atrapalhados por problemas internos, simplesmente não podiam ter sentado na bola como sentaram no returno.

P.S. 2: O Brasileirão do ano que vem tende a ser mais legal por conta de quem subiu e de quem desceu, mas o torneio, ano a ano, segue menos alentador - cada vez mais carcomido por uma estrutura podre.

domingo, 4 de dezembro de 2011

A Partida de Sócrates

Sócrates, à direita, nas Diretas Já
Hoje, dia de encerramento do Brasileirão, acordo com uma notícia das mais tristes:  faleceu, pela madrugada, o Dr. Sócrates, dos maiores jogadores que este país já viu jogar. Magrão, diga-se, não foi apenas um grande jogador, foi também dos raros boleiros pátrios que, dentro e fora dos gramados, sempre se colocou contra o esquemão que decide, cada vez mais, os rumos da paixão nacional - e sempre o fez da forma mais intransigente, insistente e até mesmo mais chata possível. 

Aliás, o silêncio deste blog sobre o mundo do futebol, ora rompido, se explica: estou triste com o rumo das coisas, desde a maneira como essa Copa está sendo articulada, com todos os teixeirismos possíveis, até as desditas cada vez mais angustiantes do meu Palmeiras, passando pelo processo de erosão do esporte bretão, engolido pela máquina e banalizado - olhem só para essa Seleção Brasileira, por exemplo, é possível torcer com prazer para ela?

Dessa forma, o evento Sócrates precisa ser visto historicamente: ele remonta à Democracia Corintiana e sua participação no movimento pelas Diretas Já!, ainda nos anos 80, passando por sua postura de resistente, enquanto cronista futebolístico, coisa que estava exercendo.

Nesse sentido, se a notícia da morte do Doutor nos afeta negativamente, ela é, ao mesmo tempo, um estalo: a nossa passividade é, justamente, o que pretende todo o aparato discursivo tirânico do futebol, e ela sequer é colateral - quando um tirano como Teixeira vomita sua verborragia em entrevistas, ele o faz justamente com esse propósito; ele precisa nos ver tristes, logo, imóveis. 

É claro que a morte do Sócrates homem, por osmose da nossa cultura transcendentalista e ascética, nos provoca essa sensação dolorosa. Exigir algo diferente seria desumano. Ainda mais depois dos problemas de saúde pelos quais ele passou, que o levaram para a UTI, e da sua recuperação dolorosa. Mais parece que ele só se recuperou para ter tempo de se despedir.

É preciso, pois, ver o lado sublime disso tudo: a morte não é nada - ou é, justamente, enquanto inexistente. O que há é uma vida que, do ponto de vista fantasioso da duração, se extinguiu - o que, na verdade, não passa de uma ilusão, uma vez que os afetos que aquela vida produziu, em sua intensidade, não podem ser apagados e estarão inscritos para sempre na Existência. 

Toda vida, no fim das contas, é eterna - e só não desfruta da eternidade quem não se descurva diante da morte. Superemos, então, a desdita, pensemos o evento Sócrates como um todo, sobretudo em sua dimensão política - o que certamente é a maior homenagem que pode ser prestada para ele - e, assim, tomemos sua vida como inspiração para as lutas que nos aguardam. 
 

sábado, 3 de dezembro de 2011

Meu Aniversário

Ando um tanto sumido, perdido no massacre interminável das provas da Faculdade - ó, a mimética, a arte mais extenuante dentre todas! - e em busca de boas notícias, embora elas  se recusem a aparecer - quero crer que elas só estejam tardando (verdade seja dita, eu que não estou me empenhando em produzi-las, talvez por pura preguiça). Segue a vida, a existência insiste - e eu, narcisisticamente, reapareço cá para postar que, hoje, faz qualquer número de ciclos solares desde que eu, por qualquer motivo, apareci por aí. Vivemos um tempo curioso, as utopias nos levaram às utoyas e o presente está largado para morrer: resgatar a memória de um aqui-agora em processo de esquecimento torna-se, pois, a nossa grande, e primeira, tarefa positiva. O presente que me interessa hoje é o próprio e verdadeiro presente - ou mesmo sua ausência, desde que ela se dê por alguma astúcia de resistência e não por seu sequestro, como vemos acontecer agora, vítimas que somos todos de uma promessa impossível: o futuro.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Cartas Persas

Ao contrário do que se supõe habitualmente, não existe um anti-americanismo tão profundo no Irã. O título de grande inimigo é, e será ainda por muito tempo, do Reino Unido. Isso remonta há muitas décadas atrás, quando o governo democrático de Mohammed Mossadegh nacionalizou a Anglo-Iranian Oil, tornando a relação com os britânicos impossível. Os súditos da rainha guardaram aquele ato de insubmissão na geladeira e, rapidamente, se movimentaram como poucos para derrubar Mossadegh, no processo que resultou na ditadura do Xá Reza Pahlavi, cujas implicações - sobretudo a destruição da vida política e econômica do país, o que jogou todo uma geração para dentro das mesquitas - desembocou na Revolução Islâmica do final de 1979.

A presente invasão dos estudantes iranianos à embaixada britânica em Teerã, portanto, não é fato isolado ou simplesmente uma consequência dos fatos recentes, nos quais os iranianos foram acossados pelas Nações Unidas por conta de seu programa nuclear - em relação ao qual, pouco interessa para as potências ocidentais qualquer acordo com o Irã, mas sim, simplesmente, sua condenação, sua elevação a bode expiatório. E os tambores de guerra que rufam contra o Irã não são pouco barulhentos. Se o regime atual do país nada tem a ver com o fluxo libertário que perpassa o Magreb - muito pelo contrário -, por outro lado, a comunidade internacional, mais do que nunca precisa de um álibi, um demônio do momento.

Nem é preciso dizer o quanto o Irã é curioso, autoritário internamente, mas, ao mesmo tempo, pacífico no plano externo há tempos. Ou o que dizer, mesmo dentro da ordem islâmica, dos esforços do governo Katami de aproximar-se do Ocidente para ser, em troca, humilhado? Certamente, não há o que defender do regime iraniano, mas para variar, um possível ataque contra o país nada terá a ver com seus defeitos. Isso seria a escalada para um desastre, sobretudo por conta do (natural) interesse russo em manter o Cáucaso o mais seguro possível - o que o regime islamo-nacionalista de Teerã o faz por manter o Ocidente longe sem, com isso, ter condições de produzir qualquer perigo substancial para a Rússia (ainda que se possa argumentar do perigo dos pequenos grupos islamistas do Cáucaso, naturalmente, um governo pró-Washington em Teerã seria outro nível de ameaça para Moscou). 

A necessidade de construir inimigos externos, é claro, não está fora do interesse do regime iraniano. A paranoia geral se instala. Não há superstição melhor do que o nacionalismo, ainda mais o nacionalismo de guerra, para fazê-lo lutar contra si como se por si fosse. Os riscos da eclosão de um conflito armado no Oriente Médio são perfeitamente reais.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O Corpo, a Mulher, o Egito

Recentemente, a Revolução Egípcia se viu em meio a um furor que não tem necessariamente a ver com tanques na rua ou milhões de pessoas lotando uma praça: falo do gesto nada covarde de uma jovem ativista em postar uma foto sua, nua, em seu blog. Em cima disso, veio uma reação pesada de vários setores da sociedade egípcia; conservadores islâmicos atirando pedras, democratas dizendo que isso era danoso para a Causa e quetais. Isso ilustra muito bem a dinâmica das coisas no Egito e o tamanho dos problemas que vivem o país, para muito além de uma discussão sobre falta de eleições livres: é como se dá a constituição das relações de poder e sujeição lá dentro.

Em um primeiro momento é importante tentar ser, pelo menos, um não-hipócrita: cá no nosso Brasil, dito libertário e carnvalizado, se alguma blogueira fizer isso, certamente não passará por poucos problemas. Não dispomos autonomamentete dos nossos corpos, as mulheres (muito) menos do que os homens, certamente. O papel da mulher está menos  pior neste canto do mundo em relação às arábias? Talvez, como já esteve pior em certa parte da história, não somos especiais, a conjuntura que desfavorece menos as mulheres ocidentais tem pouco a ver com alguma práxis social iluminada, mas sim com muita luta e algumas contingências históricas que o Poder certamente não controla, nem é capaz de controlar.

Considerando, ainda, que apontar toda a problemática religiosa e/ou moralista no Egito não é, pelo apontamento dessas ambivalências, causa de qualquer desencanto: não há espaço para encantamentos e mistificações em relação a processos revolucionários, o problema é ser contra eles pelos motivos errados - o que é frequente. Só  uma mente torpe é possível imaginar uma revolução de contos de fada, revoluções são feitas de ambiguidades porque as pessoas de verdade são assim. Por fim, também não é o caso de dizer que transformações sociais para melhor só sejam possíveis no Ocidente, basta pegar o mesmo exemplo da participação da mulher em revoluções, e Olympe de Gouges não me deixa mentir, para saber que a conversa é outra.

Voltemos, pois, a Aliaa Elmahdy, a moça em questão. Uma jovem de vinte anos, com seus  olhos grandes e assustados, longos cabelos cacheados, de uma beleza comum. A nudez que ela compartilha é espontânea - e é perfeitamente a espontaneidade e a partilha que o poder, cá e lá,  não pode tolerar. O corpo não pode estar livre, não pode ser mostrado, se se rompe a ilusão de que realmente podemos fazer o quiser com ele - atearmos nele fogo, em uma situação limite, que seja, como no caso de Mohamed Bouazizi e seu providencial suicídio, do eventos chave da Revolução dos Jasmins na Tunísia.

A questão que a Revolução Egípcia, uma revolução de multidões no contexto de uma multidão de revoluções, é mais complexo que a mola mestra dos acontecimentos, a Tunísia: muito mais pobre do que a vizinha, o Egito possui menos organizações no qual uma revolução poderia se apoiar; enquanto tunisianos possuem, bem ou mal, sindicatos fortes, organizações estudantis capazes e um movimento hacker potente, os egípcios vivem às voltas com a ambiguidade das suas forças armadas (a mais poderosa organização do país), movimento islâmicos mais ou menos radicalizados em maior profusão - como forma de apassivamento da massa de explorados - e um cenário mais degradado.

Quem fez a Revolução no Egito? Jovens como Aliaa. Com menos apoio do que na Tunísia e vivendo lado a lado com organizações até ontem anti-Mubarak, mas que eram incapazes de articular qualquer reforma que fosse; todos partilhavam de tamanho imobilismo conservador que aderiram  à Revolução apenas no seu curso, felizes pela oportunidade e desesperados pela caixa de pandora libertária aberta - sobretudo em relação à condição da mulher. Nesse sentido, gestos libertários como esse marcam um corte importante: o Egito que alguns pretendem construir é o mesmo, só que com eles no comando. Mubarak é e sempre foi um títere, um Berlusconi árabe, o que se enfrenta realmente não é uma pessoa, muito menos a dele, mas um sistema.

Nesse sentido, não é de se estranhar que as Forças Armadas, sorrateiramente, tenham se apoderado do Estado e, como se nada estivesse acontecendo, começaram a pôr em prática uma ditadura militar. O exército de Tantawi, tão anti-sionista quanto consumidor voraz de armas americanas, segue na sua arrogância, produzindo mortes sobretudo nos últimos e agitados dias: com dezenas de mortos na Praça Tahrir, caíram os ministros civis do regime e agora pesa sobre os líderes do país o peso de realizar eleições.

As relações de poder que os revolucionários precisam desconstituir são poderosas e complexas ao extremo. Com ou sem as necessárias eleições. O pode que eles enfrentam só caiu porque foi surpreendido, seu tapete foi puxado de forma magnífica, deixando seus próceres e apoiadores mundo adentro em pânico. Mas a capacidade de reconstituição e rearticulação dessas forças é imenso, vide a situação atual. Em uma sociedade que pode nos investigar e encontrar em qualquer parte e de qualquer forma, o devir partisan passa por se mostrar mais ainda: como Wikileaks, ou o começa dessa história toda, prova, o sistema contemporâneo é tanto mais um vampiro do que qualquer outra coisa, incapaz de lidar com a luz sobre si mesmo ou sobre os nossos corpos e mentes.



domingo, 20 de novembro de 2011

Dia da Consciência Negra, Egito, Espanha

Um dia agitado. Enquanto no Brasil comemora-se o Dia da Consciência Negra, um feriado importantíssimo para resgatar parte fundamental da História - precisamente, a resistência do Quilombo dos Palmares -, o que, mesmo com todas as apropriações toscas e oportunistas, não pode ter seu valor diminuído: ele é parte importante das lutas do movimento negro que, nos últimos anos, conseguiu importantes vitórias, desde aprovar o mecanismo de quotas étnicas em várias universidades até construir a autoestima da população de fenótipo negro que, cada vez mais, se declara negra.

Enquanto isso, várias cenas se sucedem pelo mundo - duas em especial: a Junta Militar que governa o Egito resolveu dispersar os manifestantes - que reivindicam eleições livres - à força, o que dá mais e mais contornos de ditadura militar à anômica situação na qual se encontra o Egito pós-Mubarak; a direita pós-franquista está prestes a levar as (esvaziadas) eleições espanholas - dois episódios que ilustram a profunda tensão no Mundo Árabe e no interior da Europa e nos fazem pensar os rumos que o mundo toma.

O aparente paradoxo entre a reivindicação de eleições de um lado e o esvaziamento delas no outro se esvai rapidamente: em ambas estamos diante da mais intensa luta por liberdade. O problema é que a multidão nas ruas do Cairo compartilha alguma noção tática - é preciso tomar o Estado neste momento -, enquanto a multidão espanhola sabe o que não quer, mas o esvaziamento dessas eleições não deixa de ser preocupante: não, eles não deveriam mesmo apoiar o PSOE, o problema está em não ter construído uma alternativa para ele. E não é questão de salvacionismo, é de prudência mesmo: a aproximação de um horizonte verdadeiramente emancipador para o mundo não poderia vir desacompanhado do fantasma do fascismo - ou mesmo de uma nova (e última?) guerra mundial, como sugerem os tambores de guerra sendo batidos aqui e acolá.

Nada de meios e fins, pensemos nas causas e nos seus efeitos, sem teleologismos - esperancismos - e inconsequências pueris. A luta dos negros no Brasil entra nesse contexto como exemplo de experiência válida: cá, o devir negro veio acompanhado de um enorme devir partisan, é disso que precisamos nos investir quando pegamos as armas durante a nossa fuga: sentir a emoção intensa de resistir ao fascismo, devir táticos, devir estrategistas, construir uma práxis intensa que nos permita produzir alegria mesmo quando o próprio ambiente no qual ela pode ser produzida nos é negado - e o será, cada vez mais de agora em diante: pôr o partisan para sambar com o quilombola e, assim, tocar a bola adiante.


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Occupy Wall Street: Crise e Estratégia

A multidão marcha pelas ruas de NY
Ontem foi um dia histórico para o movimento Occupy Wall Street: dezenas de milhares de pessoas ocuparam as ruas da Big Apple, depois do gesto oportunista do prefeito nova-iorquino, Michael Bloomberg*, que esperava conseguir dissuadir o movimento com um ataque rápido e rasteiro na calada da noite, na última terça, ao ordenar que a polícia removesse os manifestantes enquanto dormiam - sob os auspícios da emergência na segurança e na saúde pública.

Até ontem, o movimento OWS era muito mais o catalisador de uma série de acampadas, maiores e até mais intensas, por várias cidades americanas e ao redor do mundo, do que propriamente um movimento de massas. Mas isso mudou. Não se trata de um fato pontual no qual o poder disciplinar, ressuscitado na forma de arcaísmo pela sociedade de controle, potencializou o movimento, mas sim que sua natureza multitudinária, rizomática e intensa é particularmente potencializável por essa forma de intervenção. 

Não que historicamente sempre que a força do Estado tenha sido posta a funcionar de forma total, não houvesse um esvaecimento da ordem, uma vez que o medo passa a dar lugar a qualquer outra: a capacidade de agir de uma coletividade é neutralizada sempre pela expectativa de violência contra seu corpo, não pela sua aplicação sistemática dela, o que cria um efeito de nada a perder. 

O meu ponto é que a natureza desse movimento produz um sentimento de partilha e co-pertencimento efetivo - o que permite às singularidades sentirem o que, de fato, é um corpo, e não o absurdo hierárquico que Descartes legou no nosso imaginário -, lhe possibilitando uma capacidade única de atualização e produção intensa de afetos ativos, quando sob o ataque direto do Poder Soberano. Portanto, não é a vanguarda na qual depositamos esperança sob ataque, somos nós que partilharmos este devir multidão sendo atacados. Isso muda tudo.

É algo semelhante ao que vimos na Tunísia, cuja Revolução foi iniciada, há quase um ano, não pelo empobrecimento ou pela desdita, como insistem os catastrofistas, mas sim pela ação efetiva de hackers organizados e empoderados pelos dados de Wikileaks - da repressão estatal tradicional surgiu um modo de resistência novo, pelo menos naquela escala, que levou à pane os dispositivos de controle. Aliás, do recrudescimento da repressão veio o sacrifício do homem da plebe, o camelô sem perspectivas e humilhado, que se imolou mostrando que o Poder Soberano não tem, nem pode ter, controle sobre tudo; o resultado de tudo aquilo, para a população, foi produzir a faísca necessária para fazê-la multidão: nada a temer, o rei está nu e sempre haverá linhas de fuga, nem que seja a própria morte.

Não houve Revolução como consequência necessária do empobrecimento, mas sim como possibilidade de um processo deflagrado a partir da pobreza causada pela exploração da capacidade produtiva daqueles que estão, inexoravelmente, incluídos na máquina por ela mesma: pelos mãos daqueles que estão incluídos (na produção do valor) enquanto excluídos (da realização do valor). E os Estados Unidos compartilha um laço muito mais profundo com a Tunísia - e o efeito libertador que ela disparou pelo Magreb, Egito incluso - do que parece a uma primeira vista: não são os tunisianos os mais miseráveis da África, mas certamente eram, como ainda são, explorados e cada vez mais, ao passo que a capacidade produtiva só aumenta, para além das amarras existentes, ou que podem ser postas em prática, pelo Biopoder. 

Assim, não é o empobrecimento que explica tais processos: é o avanço da exploração do Biopoder sobre uma riqueza comum em ascensão, uma riqueza que dá subsídios para a própria construção da resistência - e falamos de uma riqueza imaterial, afetiva, cognitiva. E o Poder Soberano, pelos arredores do globo, não sabe o que fazer com esse enorme horror que lhe percorre a alma. Se o conservador Bloomberg deu um tiro no pé, Obama conseguiu ser pior ainda, na sua infinita capacidade de irritar a todos, ao comparar o OWS ao Tea Party - demonstrando um alheamento soviético, talvez gorbatchioviano, em relação às ruas e às praças públicas de sua própria terra.

A questão mais visível do processo, portanto, torna-se o autismo, em menor ou em maior grau, dos partidos institucionalizados da esquerda (ou próximos disso), seja nos EUA - talvez o Partido Democrata caiba razoavelmente nessa classificação - ou na Europa. Antes de mais nada, convém esclarecer que os movimentos que colocam o dedo nessa ferida não surgiram do nada, anarquicamente, mas sim pela organização autônoma da multidão - e aqui concordamos com Agamben: anárquico mesmo, só a forma como o poder é exercido no Ocidente, sempre baseado na ausência de um fundamento, seja por conta de um Deus infundado ou o que lhe faça as vezes. Esse enriquecimento cognitivo, que se opera a despeito do sistema, nas brechas que ele próprio precisou permitir - a Universidade, a Internet etc - ou no que foi conquistado pelas lutas - liberdades civis etc - é a base potencial da emancipação, não o processo emancipador, que só é deflagrado e operacionalizado pela organização. 

Isso requer realismo, algum senso de engenharia e sensibilidade. Por maior que seja a torpeza da centro-esquerda parlamentar ao redor de todo mundo - e, em certa medida, do próprio PT governista brasileiro -, a questão não é agir como se todas as forças institucionalizadas fossem iguais, idênticas, mais do mesmo - raramente é, embora nos EUA se aproxime disso enquanto no Brasil a distância entre elas seja um pouco maior -, tampouco deixar de agir sob o medo de "fazer o jogo da direita" - a outra parte da falsa dicotomia. Não é deixar de agir ou agir irresponsavelmente, mas agir tendo em vista a construção de uma alternativa efetiva. Não é apenas responder o que não queremos e o que queremos - como OWS  já é capaz de dizer -, mas como pôr isso em prática. É hora da tecnologia - em seu sentido mais amplo e, ao mesmo tempo, mais profundo - ser pensada e posta em prática.

Se a direita, em suas várias vertentes, fracassou tremendamente como essa crise nos prova, a esquerda precisa assumir a responsabilidade daquilo que ela, via de regra, se escusa: é preciso delinear claramente como vão ser operacionalizadas suas boas intenções - aquelas doces ideias que estão a abarrotar os infernos -, não adianta dizer que não é preciso pensar em alternativas porque seus princípios são corretos, é preciso fazer as coisas acontecerem.  Depois, não adianta reclamar da ascensão do fascismo, dos governos tacanhos da centro-direita ou da capacidade trôpega da centro-esquerda em responder às demandas - a Primavera Árabe está aí para nos provar, com a junta militar no poder no Egito, a Otan se utilizando da situação e os entraves à jovem democracia tunisiana. É essa tarefa positiva que o movimento tem aqui e agora.


*Bloomberg atualmente é independente e não mais membro do Partido Republicano - como constava originalmente do texto -, partido pelo qual se elegeu nos seus dois primeiros mandatos (2001 e 2005) e com o qual acabou rachando em 2007, mas se manteve tendo como opositores os democratas, que derrotou, já como independente, no pleito de 2009.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A Itália e o seu Bello Monti

Monti em coletiva de imprensa hoje
Não, eu não podia perder a piada. Embora estejamos a falar sobre algo que, certamente, tenha mais contornos trágicos do que cômicos: hoje, a Itália testemunhou o anúncio de que  Mario Monti aceitou o cargo de primeiro-ministro. Daí, vocês perguntam: quem elegeu Monti? Ninguém. A que partido ele pertence? Nenhum. Onde está a democracia na Itália? Na melhor das hipóteses, em alguma loja de penhores. O burocrata Monti, sob os auspícios da sua capacidade "técnica" e de sua credibilidade - junto aos bancos -, é um recém-nomeado senador vitalício: láurea curiosa dentre láureas curiosas existentes naquele país, ela consiste na nomeação, pelo Presidente da República, de qualquer cidadão local, por seus préstimos à pátria-mãe, como parlamentar perpétuo, somando um total de cinco na câmara alta daquele parlamento - o que não se confunde com os senadores de direito e vitalícios, isto é, todos os ex-presidentes da república, como disposto imediatamente antes no mesmo artigo daquela Constituição.

A recentíssima nomeação de Monti - no dia 09 deste mês -, pelo Presidente Giorgio Napolitano, sequer é capaz de esconder que seu verdadeiro motivo repousa menos nos méritos do nomeado do que na crueza da conspiração para arrancar Berlusconi do poder - e substituir-lhe por alguém de confiança da Troika, o triunvirato formado pelo Banco Central Europeu, FMI e a própria UE, que tenta salvar uma unidade monetária falida, de acordo com os interesses do bancos, a qualquer custo e do jeito errado. 

E se um monstro de três cabeças manda na Europa hoje, também fazemos questão de  reiterar novamente que uma aparente quimera de duas cabeças continua a determinar os rumos da Itália (dentro do que ela ainda pode se determinar, mesmo que seja para obedecer ordens): é a criatura que emerge do Compromisso Histórico, marcada pela inusitada aliança entre democratas cristãos e comunistas, que revela, no entanto, a ligação íntima entre os políticos tradicionais e os apparatchiks reacionários nos quais se tornaram os membros do que foi o partido de Gramsci.

Napolitano quer fazer tudo parecer o mais legítimo possível, dando cores de transitoriedade à pílula, o que esbarra na não convocação de novas eleições até agora: assim, Monti deve guiar o governo até, no mínimo, 2013 - embora ele tenha sido nomeado há apenas sete dias para aquela Casa, é bom lembrar que tal parlamento tem mandato de cinco anos e foi eleito em 2008. Esse curioso interregnum branco reserva aos italianos ajustes duros, com a suspensão de direitos sociais e um arrocho nunca antes visto. Seu modelo -político e econômico -, não por coincidência, foi implementado nos últimos dias pela Grécia com Lucas Papademos e parece se tornar uma tendência na Europa.

O ridículo do conceito de governo técnico grassa. Antes de mais nada, tomar o conceito de técnica como um conjunto de saberes neutros, "objetivos" e universais, já é por si só absurdo - seja na etimologia ou na lógica -, imagine supor que esse tipo de saber pudesse ser aplicado na chefia de governo de seja lá onde for: é como se as decisões pudessem ser exatas. Um mundo de necessidades extremas como regra - uma construção ideológica que visa naturalizar a emergência enunciada e alude, é claro, ao franco autoritarismo. É um velho binarismo sujeito-objeto servindo ao enquadramento das multiplicidades, produção de subjetividades em larga escala, produção de caminhos únicos do outro lado para contê-las.

A dívida italiana é impagável nas atuais circunstâncias. Seja pelo salvamento irresponsável do sistema financeiro, sem garantias de devolução aos cofres públicos daquilo que foi de lá para os bancos, seja pela dinâmica do Euro, completamente inviável para grande parte de seus signatários. Os 7% de juros sobre os títulos da dívida italiana, que representa mais do que a totalidade do PIB local, são o fim da linha do bem estar e importam em cortes impraticáveis, mas que vão ser levados a cabo pela banca - portanto, apertem os cintos. O sucesso da democracia social europeia, com isso, cai por terra, miragem que sempre foi: a máquina teológica-política chamada Estado estará sempre vinculada à economia da dívida, não à factualidade da dívida, mas ao permanente endividamento que sempre volta para cobrar sua conta. Como o velho Mefistófeles.

Atualização de 19/11 às 17:16: vale a pena ler este artigo da Uninômade italiana sobre a ascensão de Monti.