Finalzinho do mês. O clima em São Paulo prossegue alterado: O frio habitual se soma a estranhas chuvas de granizo - que não chegam a ser incomuns no Verão, mas que agora são um verdadeiro ornitorrinco alado -, num dos meses de Julho mais chuvosos da história de São Paulo. Reflexo óbvio da alteração climática, seja em âmbito global ou no esfera local, onde da superpopulação da Região Metropolitana surgem fenômenos que vão desde a degradação do verde, a destruição de áreas de manancial à poluição severa dos rios, do solo e do ar - sendo essa última modalidade piorada pelo desastre de políticas de transporte público na região, em especial na capital, que exceção feita ao Governo Marta, viu todos os governos municipais de quinze anos pra cá não fazerem nada na área; em relação aos governos estaduais, me nego a comentar.
A situação na política municipal prossegue estranha com o Kassabismo de afirmando; de piloto automático de um Serrismo voraz e ambicioso, Kassab pouco a pouco vai deixando sua marca de administrador; como já disse aqui, ele mistura elementos tucanos pós-covistas com uns tiques malufistas - devido a sua formação política, por certo - mais um ponto que eu me olvidei de maneira imperdoável da última vez: O Quercismo está ali também - na figura da sua vice, Alda Marco Antônio. Some isso às relações incestuosas entre prefeitura e especulação imobiliária às portas de uma Copa do Mundo no Brasil e os favelados e moradores de rua mal podem se preparar para ser varridos - desta vez, só Deus (ou o Diabo) sabe pra onde.
No âmbito estadual, o Governo Serra segue no piloto automático com o governador enquanto garoto-propaganda de medidas publicitárias, enquanto seus secretários tocam o barco na medida em que não é fácil fazer as articulações necessárias pra ser candidato à Presidência da República, não é mesmo?
Frente a isso, o fragmentado PT pouco se faz notar na política municipal e estadual e se há vinte anos atrás era possível ver uma Luiza Erundina como prefeita de São Paulo, hoje, o candidato mais à esquerda possível que se desenha para o governo do Estado é um inesperado - e inexplicável - Ciro Gomes - várias vezes melhor do que qualquer demo-tucano do momento, mas longe de ser o nome para tirar São Paulo da paralisia mental e moral em o estado se encontra desde que Quércia chutou o balde. Creio que é hora da esquerda do estado acordar.
Pelo Brasil, segue o mais recente - e nauseante - factóide; agora a mídia corporativa descobriu que Sarney é mal e tirou ele pra Cristo; Tudo não passa de um joguinho sujo que envolve uma mídia emporcalhada e um governo que faz cálculos de poder infantis - próprios de quem passou a vida inteira dizendo soyons réalistes, demandons l'impossible e agora faz o movimento pendular tentando simular a prática de uma realpolitik e de um maquiavelismo que lhe é intrisecamente estranho.
A Conferência Nacional de Comunicação (CONFECOM) que se desenrola é uma possibilidade de, pelo menos, cutucar o Oligopólio, algo impossível de se imaginar há alguns anos.
Isso acontece num momento em que o desemprego arrefece diante da recuperação da economia. Um pouquinho mais de criatividade e estaríamos até melhor nessa foto, ainda assim frente a uma oposição tucana que teria nos mexicanizado, creio que estamos bem - pelo menos, por ora, ou até quando a República aguentar o tranco dentro dentro desse sistema que funciona com um Legislativo soterrado por medidas provisórias e agora súmulas vinculantes (ou, sabe-se lá, até onde essa capitalismo global nos levar social e ambientalmente).
Lá fora, o sistema dólar prossegue numa crise que eu julgo crônica; para além da metafísica da análise dos cabeças de planilha, há bolhas demais sendo criadas por minuto e creio que a viga mestra e universal de tudo, a exploração intensiva do trabalhador chinês pelo Partido Comunista local, chegou ao seu limite, afinal, o dia não tem vinte cinco horas - assim como a sobrevivência da China depende, nesse momento, de um mudança de rumo nesse externalismo socialmente estéril e que ele se utilize do profundo acúmulo de capital das últimas três décadas para gerar algum bem-estar social e ambiental. Estariam prontos os líderes chineses para cederem os anéis para não perderem os dedos e desmontarem aos poucos a aristocracia que seu país é? Na História, nunca estiveram nem o fizeram, dessa vez dou o benefício da dúvida porque eles seguem uma tradição supostamente ilustrada.
Em Honduras, prossegue esse jogo cínico, onde o Governo Obama bate cabeça nos seus corredores escuros e precedentes perigosos se abrem para a felicidade de grupos ancrônicos ciosos pelo medievo. Pelo resto do mundo, o fantasma do Nazismo volta a ser medida possível - em toda a ambiguidade que isso possa vir a conter -, seja no Velho - e carcomido - Mundo ou nos dizeres de políticos nacionais que sequer têm origem na direita.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Sobre a CONFECOM
No Liberdade de Expressão, blog coletivo sobre a Conferência Nacional de Comunicação (CONFECOM), você encontra os informes sobre as etapas regionais que antecedem a realização da Conferência assim como uma série de outros pontos e questões sobre a problemática da Comunicação no país. Só para não passar batido, a pré-conferência de comunicação em São Paulo será realizada no dia 1º de Agosto (sábado próximo) no Sindicato dos Engenheiros (Rua Genebra nº 25, Centro de São Paulo - do lado da Câmara Municipal).
terça-feira, 28 de julho de 2009
Reflexões sobre a Política de São Paulo
Pegando o período de 88 para cá, temos um quadro interessante no estado. Paralelamente ao processo de redemocratização - pelo menos no aspecto formal -, São Paulo prossegue no seu ritmo alucinante de transformações econômicas, mas desta vez, o viés é oblíquo na região metropolitana: Se a região se tornou superpopulosa principalmente nos anos do regime militar a desindustrialização dela resulta numa hecatombe social.
Por outro lado, o interior, depois de passar anos vendo sua população emigrar para a Capital, acaba não padecendo dos problemas urbanos dela - ou não na mesma intensidade -, movido pelo crescimento da agroindústria e recebendo muitos investimentos que fogem da Metrópole, ele passa a ser o motor do crescimento do estado, o que, no entanto, não significa muito: Em um período em que o país se encontra no refluxo do modelo desenvolvimentista, com baixas taxas de crescimento e altos índices de inflação, o estado cresce menos do que a média nacional.
Nesse quadro, tivemos a divisão das forças políticas quase de maneira perfeita entre direita, centro e esquerda:
1.Um terço se alinha no campo conservador, saudoso dos tempos da ditadura e ainda crente de que é o modelo industrialista que vá salvar a economia local. Esse grupo se alinha com o Malufismo, corrente demagógica personificada na figura de Paulo Maluf, o herdeiro político da ditadura no estado assim como ACM no nordeste.
2.Polarizando com esse grupo, temos a esquerda, que finalmente sai do campo restrito da Academia com o advento do novo sindicalismo nos fins dos anos 70 - que já refletia a preocupação dos trabalhadores com o fenômeno de desindustrialização. São um grupo heterogêneo que por vezes briga entre si, mas é unido pela repulsa à Ditadura Militar e a preocupação com os direitos sociais. O PT, naquele momento, é o grande catalisador dessas forças.
3.Temos, por fim, o centro. Ele é formado por pessoas que são céticas demais em relação ao que foi a Ditadura, mas que por outro lado, não são socialistas. Nesse momento histórico, o PMDB, histórico representante dessa ala já começa a ser aparelhado pelo Quercismo e o PSDB já se forma, vindo a ser herdeiro dessa tradição nos anos 90.
Enfim, são essas três forças que vão se equilibrar no poder dali em diante: O Malufismo, o Tucanismo (ao centro com o Covismo) e o Petismo. É esse equilíbrio político-partidário tênue conjugado com os ditâmes da desindustrialização da região metropolitana, avanço do interior e favelização urbana que, a via de regra, explica os resultados das eleições de lá pra cá.
Pegando especificamente a capital, temos um vitória inesperada de Luiza Erundina em 88. É o momento em que se afirma o terço esquerdista - e mesmo que o eleitorado de centro ainda não considerasse votar em um candidato de esquerda, a ausência de segundo turno favoreceu a candidata do PT. O governo Erundina é um emaranhado de boas intenções, traz um secretariado de peso (com figuras como Marilena Chauí e Paulo Freire), mas esbarra nas brigas internas dos campos do PT e numa inoperância interna. Os efeitos disso são desastrosos: Maluf é eleito prefeito em 92 e faz sucessor em 00. A decadência econômica da cidade que não é contida pelo Governo Erundina é catalisada pela administração Malufista: A cidade encolhe e empobrece nos anos 90.
Paralelamente a isso, o Quercismo deixa um estado em frangalhos e Mário Covas vence e inicia o aquele que seria o longo período do PSDB no estado. Se elege e reelege em meio a tensão Malufismo x Petismo e em 1998, vence com o apoio providencial de Marta Suplicy que disputou voto a voto com ele a vaga no Segundo Turno contra um ainda poderoso Maluf. Essa aliança se repete em 00 nas eleições municipais na Capital, quando Marta passa pelo candidato tucano Geraldo Alckmin e vai disputar com Maluf o Segundo Turno - do qual sai vitoriosa.
As vitórias de Marta e Covas jogam a direita paulista na maior crise de sua história: Graças a elas, o Malufismo implodiu. Eis que a grande mudança de rumo acontece e muda o panorama: Covas morre e os caciques tucanos manobram o partido para a direita pra abraçar o antigo eleitorado malufista. O vice de Covas, Alckmin, é manobrado pelos oligarcas do interior e o PSDB rapidamente se torna o partido conservador do estado. É nessa condição que ele entra nas eleições de 2002 e que o partido se estabelece desde então - e marca a vitória de Alckmin contra Genoíno no estado. Marta perde em 2004 para um Serra que foi varrido por Lula nesse clima. 2006 é o ano em que Suplicy é o único petista a vencer no estado, frente as derrotas de Mercadante e Lula no estado para Serra (agora como governador) e Alckmin (na presidencial que Lula acaba vencendo). Em 2008, Marta perde para Kassab numa eleição estranha, onde o Serrismo começa a se autonomizar em relação ao Tucanismo.
Teses como as de Chico Oliveira que falam em um certo teto em São Paulo são um engano. A desindustrialização da capital não podem ser o início do fim da esquerda no município, pois esse campo político se afirma politicamente devido a iminência desse fenômeno. Mas ela exige um novo modo agir para os mais variados setores da esquerda, haja vista que estamos uma realidade que não é mais industrial e dificilmente voltará a ser. Eleitoralmente falando, o que hoje é o eleitorado tucano mais raivoso e extremista era justamente aquela ala que votava em Maluf nos anos 90 - e não necessariamente o eleitorado covista clássico -, portanto, a explicação de um conservadorismo crônico do estado que muitas vezes é levantado por alguns petistas, nada mais é que uma cortina de fumaça para campanhas mal-feitas, brigas internas intermináveis e a falta de elaboração de políticas públicas voltadas para o estado - ou uma crítica mais decisiva sobre os (muitos) problemas do estado gerados ou não resolvidos no longo governo tucano. Também é um paradoxo, porque aponta que o eleitorado mais antigo do PSDB é justamente aquele que é mais propenso a votar no PT numa eleição e é o mais volátil - o que também diz muito sobre a fragilidade do partido azul e amarelo.
Por ora, os três campos permanecem emparelhados.
Por outro lado, o interior, depois de passar anos vendo sua população emigrar para a Capital, acaba não padecendo dos problemas urbanos dela - ou não na mesma intensidade -, movido pelo crescimento da agroindústria e recebendo muitos investimentos que fogem da Metrópole, ele passa a ser o motor do crescimento do estado, o que, no entanto, não significa muito: Em um período em que o país se encontra no refluxo do modelo desenvolvimentista, com baixas taxas de crescimento e altos índices de inflação, o estado cresce menos do que a média nacional.
Nesse quadro, tivemos a divisão das forças políticas quase de maneira perfeita entre direita, centro e esquerda:
1.Um terço se alinha no campo conservador, saudoso dos tempos da ditadura e ainda crente de que é o modelo industrialista que vá salvar a economia local. Esse grupo se alinha com o Malufismo, corrente demagógica personificada na figura de Paulo Maluf, o herdeiro político da ditadura no estado assim como ACM no nordeste.
2.Polarizando com esse grupo, temos a esquerda, que finalmente sai do campo restrito da Academia com o advento do novo sindicalismo nos fins dos anos 70 - que já refletia a preocupação dos trabalhadores com o fenômeno de desindustrialização. São um grupo heterogêneo que por vezes briga entre si, mas é unido pela repulsa à Ditadura Militar e a preocupação com os direitos sociais. O PT, naquele momento, é o grande catalisador dessas forças.
3.Temos, por fim, o centro. Ele é formado por pessoas que são céticas demais em relação ao que foi a Ditadura, mas que por outro lado, não são socialistas. Nesse momento histórico, o PMDB, histórico representante dessa ala já começa a ser aparelhado pelo Quercismo e o PSDB já se forma, vindo a ser herdeiro dessa tradição nos anos 90.
Enfim, são essas três forças que vão se equilibrar no poder dali em diante: O Malufismo, o Tucanismo (ao centro com o Covismo) e o Petismo. É esse equilíbrio político-partidário tênue conjugado com os ditâmes da desindustrialização da região metropolitana, avanço do interior e favelização urbana que, a via de regra, explica os resultados das eleições de lá pra cá.
Pegando especificamente a capital, temos um vitória inesperada de Luiza Erundina em 88. É o momento em que se afirma o terço esquerdista - e mesmo que o eleitorado de centro ainda não considerasse votar em um candidato de esquerda, a ausência de segundo turno favoreceu a candidata do PT. O governo Erundina é um emaranhado de boas intenções, traz um secretariado de peso (com figuras como Marilena Chauí e Paulo Freire), mas esbarra nas brigas internas dos campos do PT e numa inoperância interna. Os efeitos disso são desastrosos: Maluf é eleito prefeito em 92 e faz sucessor em 00. A decadência econômica da cidade que não é contida pelo Governo Erundina é catalisada pela administração Malufista: A cidade encolhe e empobrece nos anos 90.
Paralelamente a isso, o Quercismo deixa um estado em frangalhos e Mário Covas vence e inicia o aquele que seria o longo período do PSDB no estado. Se elege e reelege em meio a tensão Malufismo x Petismo e em 1998, vence com o apoio providencial de Marta Suplicy que disputou voto a voto com ele a vaga no Segundo Turno contra um ainda poderoso Maluf. Essa aliança se repete em 00 nas eleições municipais na Capital, quando Marta passa pelo candidato tucano Geraldo Alckmin e vai disputar com Maluf o Segundo Turno - do qual sai vitoriosa.
As vitórias de Marta e Covas jogam a direita paulista na maior crise de sua história: Graças a elas, o Malufismo implodiu. Eis que a grande mudança de rumo acontece e muda o panorama: Covas morre e os caciques tucanos manobram o partido para a direita pra abraçar o antigo eleitorado malufista. O vice de Covas, Alckmin, é manobrado pelos oligarcas do interior e o PSDB rapidamente se torna o partido conservador do estado. É nessa condição que ele entra nas eleições de 2002 e que o partido se estabelece desde então - e marca a vitória de Alckmin contra Genoíno no estado. Marta perde em 2004 para um Serra que foi varrido por Lula nesse clima. 2006 é o ano em que Suplicy é o único petista a vencer no estado, frente as derrotas de Mercadante e Lula no estado para Serra (agora como governador) e Alckmin (na presidencial que Lula acaba vencendo). Em 2008, Marta perde para Kassab numa eleição estranha, onde o Serrismo começa a se autonomizar em relação ao Tucanismo.
Teses como as de Chico Oliveira que falam em um certo teto em São Paulo são um engano. A desindustrialização da capital não podem ser o início do fim da esquerda no município, pois esse campo político se afirma politicamente devido a iminência desse fenômeno. Mas ela exige um novo modo agir para os mais variados setores da esquerda, haja vista que estamos uma realidade que não é mais industrial e dificilmente voltará a ser. Eleitoralmente falando, o que hoje é o eleitorado tucano mais raivoso e extremista era justamente aquela ala que votava em Maluf nos anos 90 - e não necessariamente o eleitorado covista clássico -, portanto, a explicação de um conservadorismo crônico do estado que muitas vezes é levantado por alguns petistas, nada mais é que uma cortina de fumaça para campanhas mal-feitas, brigas internas intermináveis e a falta de elaboração de políticas públicas voltadas para o estado - ou uma crítica mais decisiva sobre os (muitos) problemas do estado gerados ou não resolvidos no longo governo tucano. Também é um paradoxo, porque aponta que o eleitorado mais antigo do PSDB é justamente aquele que é mais propenso a votar no PT numa eleição e é o mais volátil - o que também diz muito sobre a fragilidade do partido azul e amarelo.
Por ora, os três campos permanecem emparelhados.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
A Questão do Ateísmo
Como a grande maioria dos brasileiros, venho de família católica. Como, ainda por cima, sou pernambucano, a significação que o catolicismo tem dentro da minha família tende a ser maior do que a média do que se vê numa família paulista, por exemplo; a geração dos meus pais, o pessoal que nasceu ali pelo final dos anos 50 e início dos 60, já convivia com uma cultura laica aqui em São Paulo, enquanto em Pernambuco, isso só veio acontecer mais tarde e, ainda assim, a prática da religião católica permanece mais arraigada e profunda lá do que aqui.
Papai sempre teve uma posição mais cética em relação a Igreja do que mamãe, mas ambos se tornaram cada vez mais laicos ao longo do tempo - hoje, raramente vão à missa. Eu, por minha vez, nunca gostei muito de religião quando era pequeno; sou batizado, fiz Primeira Comunhão, mas parei por aí. Meus pais nunca me obrigaram a nada e nunca me condenaram. Sempre fui uma figura inquieta, questionadora e isso não se coaduna com o dogmatismo que se exige de um bom fiel.
Em suma: O que sempre me incomodou foram os dogmas. A doutrinariedade. Por isso sempre fui cético em relação a um certo cientificismo que se vende por aí - e que se ampara também num dogmatismo. Ironia das ironias, fui estudar Direito numa faculdade católica - ainda que o clima que respiremos lá ainda seja laico, o problema mesmo é o caráter dogmático que os teóricos do Direito imprimem em relação ao que produzem e como isso convive com o seu desejo de dar um status científico a esse campo do saber humano (se científico por quê dogmático? se dogmático como científico?).
No que toca a religião e a relação comigo, me mantenho alheio ao discurso religioso; do ponto de vista político, aí sim, as coisas mudam de figura porque a religião é também um fenômeno político e que nem sempre tem uma convivência tranquila com os valores republicanos e democráticos.
Deus existe? Claro, mas a pergunta a ser respondida não é essa, mas sim quem criou quem: Foi o Homem quem criou deus ou foi Deus quem criou o homem? A resposta para isso, obviamente, não pode ser dogmática porque daria numa resposta negativa ou positiva imediata e acrítica. A fé está fora de questão, portanto. A via tem de ser racional e ao mesmo tempo zetética - se é que se pode ser dogmático e racional simultaneamente. Também creio que isso que chamamos de ciência está longe de responder a essa questão. A Filosofia, como sempre, é o melhor caminho. Por ora, não tenho resposta ara essa pergunta, algum dia talvez a tenha, mas seja como for, ela virá ou não por via de uma tentativa racional.
Papai sempre teve uma posição mais cética em relação a Igreja do que mamãe, mas ambos se tornaram cada vez mais laicos ao longo do tempo - hoje, raramente vão à missa. Eu, por minha vez, nunca gostei muito de religião quando era pequeno; sou batizado, fiz Primeira Comunhão, mas parei por aí. Meus pais nunca me obrigaram a nada e nunca me condenaram. Sempre fui uma figura inquieta, questionadora e isso não se coaduna com o dogmatismo que se exige de um bom fiel.
Em suma: O que sempre me incomodou foram os dogmas. A doutrinariedade. Por isso sempre fui cético em relação a um certo cientificismo que se vende por aí - e que se ampara também num dogmatismo. Ironia das ironias, fui estudar Direito numa faculdade católica - ainda que o clima que respiremos lá ainda seja laico, o problema mesmo é o caráter dogmático que os teóricos do Direito imprimem em relação ao que produzem e como isso convive com o seu desejo de dar um status científico a esse campo do saber humano (se científico por quê dogmático? se dogmático como científico?).
No que toca a religião e a relação comigo, me mantenho alheio ao discurso religioso; do ponto de vista político, aí sim, as coisas mudam de figura porque a religião é também um fenômeno político e que nem sempre tem uma convivência tranquila com os valores republicanos e democráticos.
Deus existe? Claro, mas a pergunta a ser respondida não é essa, mas sim quem criou quem: Foi o Homem quem criou deus ou foi Deus quem criou o homem? A resposta para isso, obviamente, não pode ser dogmática porque daria numa resposta negativa ou positiva imediata e acrítica. A fé está fora de questão, portanto. A via tem de ser racional e ao mesmo tempo zetética - se é que se pode ser dogmático e racional simultaneamente. Também creio que isso que chamamos de ciência está longe de responder a essa questão. A Filosofia, como sempre, é o melhor caminho. Por ora, não tenho resposta ara essa pergunta, algum dia talvez a tenha, mas seja como for, ela virá ou não por via de uma tentativa racional.
domingo, 26 de julho de 2009
A Despedida de Jorginho
Hoje, o Palmeiras venceu o Corinthians por 3x0 em Presidente Prudente. Era a despedida de Jorginho como técnico e, cá entre nós, foi um vareio de bola do alviverde. Mais do que isso: Jorginho deu um nó tático em Mano Menezes - certamente o pior que o técnico corintiano já levou num clássico e o maior desde a final da Copa do Brasil do ano passado. O Palmeiras matou o Corinthians graças ao seu sistema de marcação no jogo de hoje: Souza, Pierre e Edmílson acabaram com o trio de armadores corintianos Dentinho, Douglas e Jorge Henrique. A bola não chegava em Ronaldo que, num lance em que voltava para buscar a bola no meio, se contundiu ao cair sobre a própria mão. Péssima modificação de Mano Menezes botando Moradei. Belo cruzamento de Pierre para Obina (fazendo falta em Chicão) concluir e abrir o jogo. No segundo tempo, o Corinthians volta mais ofensivo, mas num contra-ataque, Chicão faz penâlti em Cleiton Xavier. Obina bate e faz segundo gol. No fim do jogo, novo contra-ataque, Cleiton Xavier enfia a bola para Obina fazer o terceiro gol dele e do time e jogar a pá de cal. Foi o melhor clássico do Palmeiras desde os 4x1 contra o Santos no comecinho do ano. Uma bela despedida de Jorginho que agora será auxiliar de Muricy Ramalho que assistiu o jogo da Tribuna. Muricy é especialista em pontos corridos e tem uma bela chance de ser tetra - e levar o Palmeiras ao penta-, mas que Jorginho seguraria o tranco, sim, ele seguraria.
P.S.: Cem anos de clássico Sport e Náutico celebrados num 3x3, empolgante, mas que mantém os dois times na parte de baixo da tabela. O Goiás fez outra partida maravilhosa e bateu o líder Galo no Mineirão. O Santos de Vandeco Luxemba perdeu de virada para o Flamengo, em casa e graças a um gol contra - que fase, não?
P.S.: Cem anos de clássico Sport e Náutico celebrados num 3x3, empolgante, mas que mantém os dois times na parte de baixo da tabela. O Goiás fez outra partida maravilhosa e bateu o líder Galo no Mineirão. O Santos de Vandeco Luxemba perdeu de virada para o Flamengo, em casa e graças a um gol contra - que fase, não?
A Crise Tecnológica Russa
Nos fins dos anos 50, a União Soviética viveu o ápice do seu desenvolvimento tecnológico, seja por ter largado na frente na corrida espacial ou por estar desenvolvendo uma tecnologia bélica de porte - sendo que os dois campos se colaboravam entre si. Era qualquer coisa espetacular em se tratando de um país que se formara há pouco mais de trinta anos em condições terríveis: Sua economia fora arruinada pela guerra, ele estava cercado pelas potências ocidentais e tinha problemas políticos na medida em que a nova organização do Estado permanecia uma incógnita.
Obviamente, a relativa estabilidade dos anos 50 não tinha sido conquistada sem menos sofrimento: Por detrás disso, havia os expurgos dos anos 30 quando Stalin varreu a influência trotskista das fileiras da burocracia e do exército vermelho assim como eliminou boa parte dos intelectuais que não aceitaram ser enquadrados. Sua vitória se consolida com Constituição Soviética de 1936, onde as concepções marxistas do Direito e do Estado elaboradas por um Pachukanis caem por terra em prol do normativismo de um Vynchinsky, um dos maiores responsáveis pelo esboço das bases jurídicas do Stalinismo - cá entre nós, a prostituição intelectual dos juristas e sua relação com os regimes autoritários merecia um livro.
Temos ainda o agravante da Segunda Guerra Mundial e o massacre de 20 milhões de russos. Sem embargo, um russo nascido em 1900 que tenha sobrevivido a Primeira Guerra Mundial, a Guerra Civil, aos expurgos stalinistas e depois a Segunda Guerra Mundial, certamente viu mais sangue do que um ser humano mereceu ver.
Pois bem, chegamos aos 50, onde os soviéticos produziam armas nucleares, foguetes, satélites artificias e estavam às portas de produzirem naves espaciais. O cidadão soviético médio não tinha muitos bens de consumo e eles tinham qualidade questionável, no entanto, o país era autosuficiente na sua produção - que, ainda assim, crescia em quantidade e em qualidade. Que veio a acontecer então para gerar a estagnação tecnológica do país?
Em primeiro lugar, apontaria a deficiência do sistema político em realizar aquilo que se pretendia - como já tratado aqui -, a tecnologia produzida deveria focar na construção do Comunismo, livrando os homens da escravidão do trabalho - agrícola e industrial -, transformando-os em administradores de um sistema pós-industrial. Lenin, acertadamente, previu que a divisão do trabalho não permitiria que a Rússia superasse o Capitalismo dentro dele mesmo e que era possível, dentro de uma ditadura revolucionária, produzir uma expansão capitalista administrada pelo povo como forma de contornar isso. Lenin estava certo, mas não desenvolveu uma teoria do Estado suficiente para abarcar esse processo e depois de sua morte restou um vácuo que resultou no descalabro stalinista.
Enquanto os americanos dentro da esfera capitalista produziam tecnologia bélica e espacial de ponta, mas repassavam isso para os demais campos da indústria de bens de consumo e de capital numa ação extremamente coordenada, os soviéticos esbarravam na disfuncionalidade da burocracia em realizar esse processo; a URSS não acaba em 91, mas sim quando uma conspiração da burocracia militar derruba Khruchiov por conta de seu bem-intencionado plano de investir pesado na expansão da fronteira agrícola soviética por meio de incremento tecnológico. O ciclo do desenvolvimento não se completava porque a tecnologia bélica e espacial não era reaproveitada pelos outros ramos da economia - ou o era, de maneira incipiente.
Do ponto de vista educacional, a URSS sempre investiu pesado na ciência e tecnologia em detrimento das humanidades. Isso não era ocasional, nem teve impactos pequenos: Partia-se da premissa que a questão da Teoria do Estado e do Direito já estava pronta e acabada, sendo que a questão econômica estava destinada a ser resolvida técnica e matematicamente. A falta de liberdade de expressão também não era um cenário convidativo para a discussão política. Enfim, desconsiderou-se uma premissa óbvia que a necessidade de teorizar a Política é perene - e que o ensino das humanidades é o que vai gerar os teóricos para essa área. Evidentemente, isso decorre do dogmatismo do qual se revestia o Partido Bolchevique - o que sempre é mortal para a esquerda - e depois foi acirrado às últimos consequências pela visão Taylorista do Stalinismo.
Nos quase oitenta anos de duração da União Soviética, o país foi muito pouco pensado politicamente. Dos anos trinta em diante, ele foi, no máximo, debatido nos gabinetes fechados por meia dúzia de burocratas, enquanto a conjuntura política mundial se alterava continuamente assim como as necessidades internas e externas do país. Veja só que os países capitalistas, há muito, aprenderam que é importante investir no ensino de humanidades e que haja certa liberdade nisso, inclusive na Academia; o conhecimento perigoso pode ser fagocitado e o risco fica por conta dos movimentos sociais que ele poder gerar, o que tem de ser neutralizado por outros meios, claro. A relação entre a Academia e o Capitalimo sempre será problemática e contraditória, mas isso também vale em relação a qualquer sistema de organização política e econômica - em menor grau, claro -; os líderes soviéticos, no entanto, não souberam se utilizar disso como a História prova.
Nova cena: Anos 90 e a hecatombe promovida por Yeltsin. Desmonte das redes de proteção social e de emprego, privatizações fraudulentas - mesmo pela perspectiva liberal -, corrupção e criminalidade nas ruas. Saúde e Educação Pública entram em colapso qualitativo, a expectativa de vida desaba. Os ex-burocratas se tornam senhores do novo - e selvagem - capitalismo nascente e disputam o poder numa batalha campal. O país assiste a tudo isso atônito e a ciência e a tecnologia do país se encotram estagnadas. A aliança dos oligarcas de Moscou e de São Petersburgo em prol da salvação nacional gera Putin.
Com o dinheiro do petróleo e o redesenho da administração do país, encabeçada por Putin e a inteligentsia da Faculdade de Direito de São Petersburgo. Recomeça a reconstrução de alguns setores estratégicos do país e a paralisia mental da era Yeltsin é varrida por um impulso progressista. Ainda assim, o que se vê não é suficiente. Vem a Crise Mundial e os defeitos e incongruências vêm à tona. Num post do blog de José Milhazes, encontramos:
José Milhazes, para quem não sabe, é um jornalista português que reside na Rússia por volta de três décadas, foi por conta de sua militância comunista - ora, abandonada -, estudou História lá - em Lomonossov - e é correspondente da Agência Lusa naquele país. Pode se criticar negativamente certas posições políticas de Milhazes, as que teve e as que tem hoje, mas não dizer que ele não tem informações ali de dentro. É apenas um ponto de vista possível, mas é um ponto de vista de quem está lá dentro há tempos.
O que temos, é que o modelo que o Estado Russo tem tentado levar adiante desde sua refundação nos anos 90 - seja pelo Consensualismo de Washington de Yeltsin ou pelo desenvolvimentismo putinista - fracassou. Sobe Yeltsin, nem tecerei mais comentários. Sobre Putin/Medvedev, o que temos é a permanente incompetência na reutilização das tecnologias espaciais e bélicas para demais setores do mercado interno e uma certa inocência no que envolve a ideia de que a mera comercialização de armamento no mercado externo vá financiar as demandas de defesa da Federação Russa. É um processo muito mais complexo do que isso que envolve desde a reconstrução do sistema educacional para se reformular a política até um plano estratégico para usar os setores de ponta como propulsores do mercado interno. Tudo isso, claro, esbarra nas limitações intelectuais e até morais das forças políticas que dominam a cena da Rússia contemporânea.
Obviamente, a relativa estabilidade dos anos 50 não tinha sido conquistada sem menos sofrimento: Por detrás disso, havia os expurgos dos anos 30 quando Stalin varreu a influência trotskista das fileiras da burocracia e do exército vermelho assim como eliminou boa parte dos intelectuais que não aceitaram ser enquadrados. Sua vitória se consolida com Constituição Soviética de 1936, onde as concepções marxistas do Direito e do Estado elaboradas por um Pachukanis caem por terra em prol do normativismo de um Vynchinsky, um dos maiores responsáveis pelo esboço das bases jurídicas do Stalinismo - cá entre nós, a prostituição intelectual dos juristas e sua relação com os regimes autoritários merecia um livro.
Temos ainda o agravante da Segunda Guerra Mundial e o massacre de 20 milhões de russos. Sem embargo, um russo nascido em 1900 que tenha sobrevivido a Primeira Guerra Mundial, a Guerra Civil, aos expurgos stalinistas e depois a Segunda Guerra Mundial, certamente viu mais sangue do que um ser humano mereceu ver.
Pois bem, chegamos aos 50, onde os soviéticos produziam armas nucleares, foguetes, satélites artificias e estavam às portas de produzirem naves espaciais. O cidadão soviético médio não tinha muitos bens de consumo e eles tinham qualidade questionável, no entanto, o país era autosuficiente na sua produção - que, ainda assim, crescia em quantidade e em qualidade. Que veio a acontecer então para gerar a estagnação tecnológica do país?
Em primeiro lugar, apontaria a deficiência do sistema político em realizar aquilo que se pretendia - como já tratado aqui -, a tecnologia produzida deveria focar na construção do Comunismo, livrando os homens da escravidão do trabalho - agrícola e industrial -, transformando-os em administradores de um sistema pós-industrial. Lenin, acertadamente, previu que a divisão do trabalho não permitiria que a Rússia superasse o Capitalismo dentro dele mesmo e que era possível, dentro de uma ditadura revolucionária, produzir uma expansão capitalista administrada pelo povo como forma de contornar isso. Lenin estava certo, mas não desenvolveu uma teoria do Estado suficiente para abarcar esse processo e depois de sua morte restou um vácuo que resultou no descalabro stalinista.
Enquanto os americanos dentro da esfera capitalista produziam tecnologia bélica e espacial de ponta, mas repassavam isso para os demais campos da indústria de bens de consumo e de capital numa ação extremamente coordenada, os soviéticos esbarravam na disfuncionalidade da burocracia em realizar esse processo; a URSS não acaba em 91, mas sim quando uma conspiração da burocracia militar derruba Khruchiov por conta de seu bem-intencionado plano de investir pesado na expansão da fronteira agrícola soviética por meio de incremento tecnológico. O ciclo do desenvolvimento não se completava porque a tecnologia bélica e espacial não era reaproveitada pelos outros ramos da economia - ou o era, de maneira incipiente.
Do ponto de vista educacional, a URSS sempre investiu pesado na ciência e tecnologia em detrimento das humanidades. Isso não era ocasional, nem teve impactos pequenos: Partia-se da premissa que a questão da Teoria do Estado e do Direito já estava pronta e acabada, sendo que a questão econômica estava destinada a ser resolvida técnica e matematicamente. A falta de liberdade de expressão também não era um cenário convidativo para a discussão política. Enfim, desconsiderou-se uma premissa óbvia que a necessidade de teorizar a Política é perene - e que o ensino das humanidades é o que vai gerar os teóricos para essa área. Evidentemente, isso decorre do dogmatismo do qual se revestia o Partido Bolchevique - o que sempre é mortal para a esquerda - e depois foi acirrado às últimos consequências pela visão Taylorista do Stalinismo.
Nos quase oitenta anos de duração da União Soviética, o país foi muito pouco pensado politicamente. Dos anos trinta em diante, ele foi, no máximo, debatido nos gabinetes fechados por meia dúzia de burocratas, enquanto a conjuntura política mundial se alterava continuamente assim como as necessidades internas e externas do país. Veja só que os países capitalistas, há muito, aprenderam que é importante investir no ensino de humanidades e que haja certa liberdade nisso, inclusive na Academia; o conhecimento perigoso pode ser fagocitado e o risco fica por conta dos movimentos sociais que ele poder gerar, o que tem de ser neutralizado por outros meios, claro. A relação entre a Academia e o Capitalimo sempre será problemática e contraditória, mas isso também vale em relação a qualquer sistema de organização política e econômica - em menor grau, claro -; os líderes soviéticos, no entanto, não souberam se utilizar disso como a História prova.
Nova cena: Anos 90 e a hecatombe promovida por Yeltsin. Desmonte das redes de proteção social e de emprego, privatizações fraudulentas - mesmo pela perspectiva liberal -, corrupção e criminalidade nas ruas. Saúde e Educação Pública entram em colapso qualitativo, a expectativa de vida desaba. Os ex-burocratas se tornam senhores do novo - e selvagem - capitalismo nascente e disputam o poder numa batalha campal. O país assiste a tudo isso atônito e a ciência e a tecnologia do país se encotram estagnadas. A aliança dos oligarcas de Moscou e de São Petersburgo em prol da salvação nacional gera Putin.
Com o dinheiro do petróleo e o redesenho da administração do país, encabeçada por Putin e a inteligentsia da Faculdade de Direito de São Petersburgo. Recomeça a reconstrução de alguns setores estratégicos do país e a paralisia mental da era Yeltsin é varrida por um impulso progressista. Ainda assim, o que se vê não é suficiente. Vem a Crise Mundial e os defeitos e incongruências vêm à tona. Num post do blog de José Milhazes, encontramos:
"Vladimir Visotski, comandante-chefe da Marinha da Rússia,reconheceu, numa entrevista à agência Ria-Novosti, que os fracassos nos testes do míssil balístico intercontinental 'Bulava' se devem 'à crise no desenvolvimento das tecnologias na Rússia'. Seis dos onze ensaios, nomeadamente os últimos dois, falharam."Realmente, hoje existe uma crise nas áreas tecnológicas. O 'Bulava' é uma prova fundamental que provará se a Rússia irá superar essa crise", acrescentou o almirante."
José Milhazes, para quem não sabe, é um jornalista português que reside na Rússia por volta de três décadas, foi por conta de sua militância comunista - ora, abandonada -, estudou História lá - em Lomonossov - e é correspondente da Agência Lusa naquele país. Pode se criticar negativamente certas posições políticas de Milhazes, as que teve e as que tem hoje, mas não dizer que ele não tem informações ali de dentro. É apenas um ponto de vista possível, mas é um ponto de vista de quem está lá dentro há tempos.
O que temos, é que o modelo que o Estado Russo tem tentado levar adiante desde sua refundação nos anos 90 - seja pelo Consensualismo de Washington de Yeltsin ou pelo desenvolvimentismo putinista - fracassou. Sobe Yeltsin, nem tecerei mais comentários. Sobre Putin/Medvedev, o que temos é a permanente incompetência na reutilização das tecnologias espaciais e bélicas para demais setores do mercado interno e uma certa inocência no que envolve a ideia de que a mera comercialização de armamento no mercado externo vá financiar as demandas de defesa da Federação Russa. É um processo muito mais complexo do que isso que envolve desde a reconstrução do sistema educacional para se reformular a política até um plano estratégico para usar os setores de ponta como propulsores do mercado interno. Tudo isso, claro, esbarra nas limitações intelectuais e até morais das forças políticas que dominam a cena da Rússia contemporânea.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
E a Esquizofrenia Pós-Moderna se Fez Golpe e Habitou em Honduras
Só é isso que se pode concluir em relação ao que se passa em Honduras ao longo desse mês. A começar por um golpe daqueles que há muito não se via - e cuja possibilidade de acontecer se supunha extinta -, passando por uma rejeição consensual da comunidade internacional e das organizações internacionais, chegando na tentativa frustrada de retorno de seu presidente constituicional, Manuel Zelaya. As próximas horas decisivas as quais eu me referia logo após ao Golpe se prolongaram a ponto do tempo deixar de fazer sentido.
De lá pra cá, os golpistas permaneceram em aparente isolamento e a Costa Rica, país mais estável da América Central, se apresentou como mediadora do conflito, numa estranha negociação envolvendo presidente legítimo e tirano. Os golpistas, claro, se usaram disso para levar adiante sua estratégia de transformar a exceção em regra pela força normativa dos fatos. Nem pode se dizer que essas negociações fracassaram, elas já nasceram fracassadas.
Zelaya tentou retornar hoje para Honduras novamente. Cruzou a fronteira por algumas metros e os militares, impassíveis - e impossíveis - não permitiram sua entrada. Simultaneamente, a Cúpula do Mercosul transcorria no Paraguai e os líderes do bloco mantiveram sua posição contrária ao golpe assim como declararam a favor de um endurecimento maior em relação aos sequestradores daquele país. Diante disso, não deixam de pairar dúvidas sobre o que realmente se esconde por detrás desse inusitado fato, afinal, nunca antes se viu um golpe que sofreu tamanho rechaço formal não cair em poucos dias.
Em tempos tão bicudos como esse, onde o Nazismo volta a ser medida possível - em toda a ambiguidade que essa expressão possa conter - mesmo na fala corriqueira de dirigentes políticos que não se originaram na extrema-direita, o golpe na pequena e pobre Honduras é um precedente perigoso e espantoso - mais do que o golpe em si, a tosquice dele salta aos olhos. O golpe nesse país centro-americano é, insisto, a expressão acabada da loucura de nosso tempo.
De lá pra cá, os golpistas permaneceram em aparente isolamento e a Costa Rica, país mais estável da América Central, se apresentou como mediadora do conflito, numa estranha negociação envolvendo presidente legítimo e tirano. Os golpistas, claro, se usaram disso para levar adiante sua estratégia de transformar a exceção em regra pela força normativa dos fatos. Nem pode se dizer que essas negociações fracassaram, elas já nasceram fracassadas.
Zelaya tentou retornar hoje para Honduras novamente. Cruzou a fronteira por algumas metros e os militares, impassíveis - e impossíveis - não permitiram sua entrada. Simultaneamente, a Cúpula do Mercosul transcorria no Paraguai e os líderes do bloco mantiveram sua posição contrária ao golpe assim como declararam a favor de um endurecimento maior em relação aos sequestradores daquele país. Diante disso, não deixam de pairar dúvidas sobre o que realmente se esconde por detrás desse inusitado fato, afinal, nunca antes se viu um golpe que sofreu tamanho rechaço formal não cair em poucos dias.
Em tempos tão bicudos como esse, onde o Nazismo volta a ser medida possível - em toda a ambiguidade que essa expressão possa conter - mesmo na fala corriqueira de dirigentes políticos que não se originaram na extrema-direita, o golpe na pequena e pobre Honduras é um precedente perigoso e espantoso - mais do que o golpe em si, a tosquice dele salta aos olhos. O golpe nesse país centro-americano é, insisto, a expressão acabada da loucura de nosso tempo.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Ponderações Sobre o Governo Lula

Já tem um pessoal postando sobre o balanço do Governo Lula. Creio que é muito difícil - para não dizer impossível- mensurar qual será o peso de seu legado histórico nesse exato momento, portanto, não é isso que pretendo nesse exato momento, só quero fazer algumas ponderações que já deveria ter feito antes por aqui. O grande ponto é que Lula, goste-se dele ou não, é um incontestável fenômeno de massas e sim, consegue sozinho ter um peso capaz de ofuscar seu próprio partido em vários momentos. Também ofusca a visão de muita gente. Se elegeu dentro adotando uma agenda reformadora moderada - em substituição da agenda reformadora mais radical - de antes numa conjuntura onde os EUA já começavam a entrar na grande crise que se torna clara - e cruel - agora e onde o modelo tucano já estava total e completamente esgotado.
Os primórdios do Governo Lula são marcados por uma ajuste fiscal duro e demasiadamente intenso - em virtude do estreito espaço de manobra deixado por conta do, digamos, modus vivendi que foi traçado junto com o Mercado Financeiro. A internalização da dívida seria feita mediante altas taxas de juros compensadas por um alto superávit primário conjugado com um câmbio desvalorizado - muito mais pelas intemperes da flutuação cambial do que de algum plano estratégico herdado do Governo Anterior - conjugado com um cenário positivo da economia mundial - o que foi catalisado pelo competente diplomacia comercial do país.
O país cresce pouco em 03 (1,15%), mas compensa isso em 04 (5,71%). Em 2005/2006 e vê às voltas com superávits gigantescos em conta corrente devido ao superávit na balança comercial e aí começa um processo de neutralização da dívida externa. Por outro lado, os spreads bancários estão altos, mas o crédito para os mais pobres é ampliado e a dívida é internalizada. O país nesse biênio, no entanto, cresce de forma medíocre (3,16% e 3,97%). Na política, o primeiro mandato de Lula termina manchado pela expulsão de algumas correntes do partido e de escândalos como o Mensalão. A desigualdade social, por outro lado diminui assim como os níveis de emprego e renda sobem pela primeira vez em décadas
Na conjuntura política, a intelectualidade de esquerda racha: Lula se torna uma obsessão; uns abraçam o lulismo como se fosse a última chance da esquerda brasileira, enquanto isso, outros assumem uma postura radical contra o Governo como se a chegada ao poder de um Governo verdadeiramente de esquerda no país dependesse de seu desalojamento. A figura de Lula perde as matizes nos meios esquerdistas: Torna-se o messias para uns e o demônio em pessoa para outros num cenário onde a direita não consegue, mesmo com todo o apoio da mídia, fazer outra coisa senão desenhar um crítica ratasqueira e muitas vezes preconceituosa
Lula se reelege e o Governo volta sua bateria para o mercado interno e com o PAC consegue crescimento de 5,67% e 5,08% do PIB, crescimento no emprego, na renda e mais queda na desigualdade social - o que, obviamente se materializa em um enorme popularidade. É o auge do governo Lula, o cenário de um mercado internacional aquecido e de um mercado interno funcionando alivia as tensões e alguns problemas como as estranhas concessões para o mercado financeiro passam desapercebidas num momento em que todos ganham.
Vem a Crise. Depois do pais gerar um superávit de mais de dois milhões de empregos de Janeiro a Novembro de 2008, em Dezembro a Crise Mundial passa a afetar o país e resulta num déficit de 600 mil empregos. A oposição de ambos os lados vê no catastrofismo a esperança de se contrapor ao Governo. Em 2009, o país recebe um choque pequeno em relação a muitas economias grandes de relativamente grande em relação a suas possibilidades - a taxa de juros de curto prazo, abaixada ontem para 8,75% ao ano, permanece incongruente com uma previsão de queda de 0,8% do PIB e uma projeção de inflação na casa de 5%. O desemprego, porém, cai e fica no patamar de 8%.
Os primórdios do Governo Lula são marcados por uma ajuste fiscal duro e demasiadamente intenso - em virtude do estreito espaço de manobra deixado por conta do, digamos, modus vivendi que foi traçado junto com o Mercado Financeiro. A internalização da dívida seria feita mediante altas taxas de juros compensadas por um alto superávit primário conjugado com um câmbio desvalorizado - muito mais pelas intemperes da flutuação cambial do que de algum plano estratégico herdado do Governo Anterior - conjugado com um cenário positivo da economia mundial - o que foi catalisado pelo competente diplomacia comercial do país.
O país cresce pouco em 03 (1,15%), mas compensa isso em 04 (5,71%). Em 2005/2006 e vê às voltas com superávits gigantescos em conta corrente devido ao superávit na balança comercial e aí começa um processo de neutralização da dívida externa. Por outro lado, os spreads bancários estão altos, mas o crédito para os mais pobres é ampliado e a dívida é internalizada. O país nesse biênio, no entanto, cresce de forma medíocre (3,16% e 3,97%). Na política, o primeiro mandato de Lula termina manchado pela expulsão de algumas correntes do partido e de escândalos como o Mensalão. A desigualdade social, por outro lado diminui assim como os níveis de emprego e renda sobem pela primeira vez em décadas
Na conjuntura política, a intelectualidade de esquerda racha: Lula se torna uma obsessão; uns abraçam o lulismo como se fosse a última chance da esquerda brasileira, enquanto isso, outros assumem uma postura radical contra o Governo como se a chegada ao poder de um Governo verdadeiramente de esquerda no país dependesse de seu desalojamento. A figura de Lula perde as matizes nos meios esquerdistas: Torna-se o messias para uns e o demônio em pessoa para outros num cenário onde a direita não consegue, mesmo com todo o apoio da mídia, fazer outra coisa senão desenhar um crítica ratasqueira e muitas vezes preconceituosa
Lula se reelege e o Governo volta sua bateria para o mercado interno e com o PAC consegue crescimento de 5,67% e 5,08% do PIB, crescimento no emprego, na renda e mais queda na desigualdade social - o que, obviamente se materializa em um enorme popularidade. É o auge do governo Lula, o cenário de um mercado internacional aquecido e de um mercado interno funcionando alivia as tensões e alguns problemas como as estranhas concessões para o mercado financeiro passam desapercebidas num momento em que todos ganham.
Vem a Crise. Depois do pais gerar um superávit de mais de dois milhões de empregos de Janeiro a Novembro de 2008, em Dezembro a Crise Mundial passa a afetar o país e resulta num déficit de 600 mil empregos. A oposição de ambos os lados vê no catastrofismo a esperança de se contrapor ao Governo. Em 2009, o país recebe um choque pequeno em relação a muitas economias grandes de relativamente grande em relação a suas possibilidades - a taxa de juros de curto prazo, abaixada ontem para 8,75% ao ano, permanece incongruente com uma previsão de queda de 0,8% do PIB e uma projeção de inflação na casa de 5%. O desemprego, porém, cai e fica no patamar de 8%.
Para além da economia, o Governo vive pressionado em relação às suas alianças parlamentares. A mídia corporativa que faz às vezes de oposição destila um moralismo seletivo. A bola da vez são alianças de Lula no Nordeste. Antes de mais nada, não custa lembrar que o Lulismo teve sua importância cabal em varrer o esquema político Carlista da região com ACM ainda em vida. Fez isso se aliando com velhos aliados como a estrutura do PSB na região e com algumas oligarquias mais progressistas como os Gomes no Ceará, mas se aliou também aos Sarney e com figuras como Renan Calheiros ou Collor. Isso tudo é paradoxal; Lula não rompeu com a velha prática brasileira de ter um Governo instalado no centro-sul se aliando com oligarquias nordestinas por conveniências políticas, mas também o fez trazendo em contrapartida uma evolução social considerável na região.
Tais conveniências, claro, decorrem de uma política institucionalóide que não passa pelo crivo do desenvolvimento da democracia em sentido material nem pelo desenvolvimento das instituições propriamente ditas; o Lulismo tenta explorar toda a potencialidade das instituições e de um forma de fazer política que herdou de FHC, o que o faz ter avanços e ao mesmo tempo se torna refém político de figuras improváveis e porque não impossíveis. No Brasil, os governantes estão esquecidos e anestesiados em relação à violência que criou as instituições, ignoram a espada de Dâmocles que pesa sobre a sua cabeça, o Lulismo aceita a sua com devoção cristã, mas não lembra aos demais dirigentes dessa realidade, catalisando muito mal o apoio das massas que lhes são entusiastas.
No caso de Sarney, Lula sempre cedeu mais do que ganhou do Senador amapaense e desgasta desnecessariamente. No caso de um Collor, uma figura que foi a marionete útil de 89 e o bode expiatório da vez em 92, as coisas já são um pouco diferentes porque o Governo cedeu, no máximo, a foto divulgada de maneira espetaculosa por uma mídia corporativa hipócrita - afinal, quem elegeu Collor em 89, mesmo?
No âmbito do debate no meio esquerdista, prossegue a falsa dicotomia entre os racionalizadores das ações que o Governo enseja e os aqueles que acusam Lula até dos raios que acertam as árvores. A crítica, nesse momento, se encontra praticamente falida na Academia e nos meios de comunicação só dá sinais de vida em alguns lugares da Blogosfera ou, ocasionalmente, numa Carta Capital. Para além de apoios ou oposições, a esquerda tem de ter em mente que saídas simplórias que apontam Lula como a última bolacha do pacote ou o diabo em pessoa não explicam, nem de longe, esse momento histórico.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
A UNE [atualizado]
Ontem, o Nassif fez um post sobre a UNE em cima da seguinte pergunta de um leitor seu, o Paulo Cavalcanti:
Eu, honestamente, sou extremamente cético em relação a UNE. Mesmo sem participar de uma chapa, acompanhei o processo eleitoral para o referido Congresso na PUC-SP e não gostei nada do que eu vi, especialmente da atuação da UJS, a juventude do PC do B, partido que aparelha aquela organização há muito tempo. Sou entusiasta de que o Governo atue junto aos movimentos sociais, não acima, abaixo ou alheio a eles. No caso da UNE, o PC do B, partido da base governista, leva a cabo uma espécie de peleguismo que eu desaprovo por completo. Ademais, nem pode se dizer que o debate que a organização promove é ruim na medida em que o fato da UNE estar representando um partido e não os estudantes o torna nulo. As críticas da mídia corporativa, no entanto, não dizem respeito a isso, mas sim que a UNE não está defendendo as posições dela, nada mais do que isso.
Atualização: Bem escrevi esse texto sucinto ontem e o Maurício Caleiro sugeriu via Twitter que eu o ampliasse. Pensava em escrever um texto sobre a UNE há um tempo, mas acabei não o escrevendo. Ontem, por conta dessse post no blog do Nassif, acabei dando a minha visão. Creio que a análise do que foi o Congresso da UNE (CONUNE) está muito poluído por questões eleitorais - o longo 2010 que já começou há muito e pode ser que nunca acabe. A minha crítica ao PC do B é que ele não é democrático e aparelha a organização. Não tem nada contra estudantes que simpatizem com um partido - ou que façam parte dele - venham a disputar cargos em qualquer organização, mas é bem diferente de você ter a mão forte de uma executivapartidária por detrás. A UNE deveria servir para a representação dos estudantes. Não está servindo. Ela representa os interesses de uma agremiação partidária. Na última eleição para delegados para o CONUNE na PUC-SP nem mil alunos votaram no campus de Perdizes. Os estudantes não se sentem representados na UNE, chegam lá e tudo já está pronto e decidido. A atuação da UJS, diga-se, foi patética com as práticas não muito convencionais que ela faz uso.
A questão do CONUNE só veio à baila por conta das críticas que a mídia corporativa fez à entidade na sua cruzada anti-Lula. Daí, os setores anti-Lula passaram a criticar a UNE por conta de Lula e, por outro lado, os lulistas passaram a defender a entidade pelo mesmo motivo. A direita surge com sua defesa seletiva da Democracia. A esquerda pró-Governo vem e defende o aparelhamento, argumentando que ele é "normal", que na FIESP rola o mesmo e é "natural" que partidos integrem organizações desse tipo. Sobre o posicionamento da direita, nem vou me alongar mais. Agora, da esquerda pró-governo vem a relativização do centralismo nem um pouco democrático e a defesa da tese da naturalidade do aparelhamento de organizações de representação, o que se pode comentar diante disso?
Não vamos confundir alhos com bugalhos. Não é porque aplaudiu Lula ou se manifesta apoio a certas medidas - que eu também entendo como boas - que ela se torna boa e pura. A questão é o motivo pelo qual ela está fazendo isso e como ela está fazendo isso, logo, as consequências que isso terá. Um relógio quebrado também marca a hora certa duas vezes ao dia, mas o faz pelos motivos errados.
Atualização de 23/07/09 às 14:49: O Tsavkko postou sobre o tema. Vale a pena dar uma olhada.
"Caro Nassif, gostaria de ler no seu blog comentários sobre o congresso da UNE (findado ontem), bem como a atuação da UNE na década de 90 e nos últimos oito anos. "
Eu, honestamente, sou extremamente cético em relação a UNE. Mesmo sem participar de uma chapa, acompanhei o processo eleitoral para o referido Congresso na PUC-SP e não gostei nada do que eu vi, especialmente da atuação da UJS, a juventude do PC do B, partido que aparelha aquela organização há muito tempo. Sou entusiasta de que o Governo atue junto aos movimentos sociais, não acima, abaixo ou alheio a eles. No caso da UNE, o PC do B, partido da base governista, leva a cabo uma espécie de peleguismo que eu desaprovo por completo. Ademais, nem pode se dizer que o debate que a organização promove é ruim na medida em que o fato da UNE estar representando um partido e não os estudantes o torna nulo. As críticas da mídia corporativa, no entanto, não dizem respeito a isso, mas sim que a UNE não está defendendo as posições dela, nada mais do que isso.
Atualização: Bem escrevi esse texto sucinto ontem e o Maurício Caleiro sugeriu via Twitter que eu o ampliasse. Pensava em escrever um texto sobre a UNE há um tempo, mas acabei não o escrevendo. Ontem, por conta dessse post no blog do Nassif, acabei dando a minha visão. Creio que a análise do que foi o Congresso da UNE (CONUNE) está muito poluído por questões eleitorais - o longo 2010 que já começou há muito e pode ser que nunca acabe. A minha crítica ao PC do B é que ele não é democrático e aparelha a organização. Não tem nada contra estudantes que simpatizem com um partido - ou que façam parte dele - venham a disputar cargos em qualquer organização, mas é bem diferente de você ter a mão forte de uma executivapartidária por detrás. A UNE deveria servir para a representação dos estudantes. Não está servindo. Ela representa os interesses de uma agremiação partidária. Na última eleição para delegados para o CONUNE na PUC-SP nem mil alunos votaram no campus de Perdizes. Os estudantes não se sentem representados na UNE, chegam lá e tudo já está pronto e decidido. A atuação da UJS, diga-se, foi patética com as práticas não muito convencionais que ela faz uso.
A questão do CONUNE só veio à baila por conta das críticas que a mídia corporativa fez à entidade na sua cruzada anti-Lula. Daí, os setores anti-Lula passaram a criticar a UNE por conta de Lula e, por outro lado, os lulistas passaram a defender a entidade pelo mesmo motivo. A direita surge com sua defesa seletiva da Democracia. A esquerda pró-Governo vem e defende o aparelhamento, argumentando que ele é "normal", que na FIESP rola o mesmo e é "natural" que partidos integrem organizações desse tipo. Sobre o posicionamento da direita, nem vou me alongar mais. Agora, da esquerda pró-governo vem a relativização do centralismo nem um pouco democrático e a defesa da tese da naturalidade do aparelhamento de organizações de representação, o que se pode comentar diante disso?
Não vamos confundir alhos com bugalhos. Não é porque aplaudiu Lula ou se manifesta apoio a certas medidas - que eu também entendo como boas - que ela se torna boa e pura. A questão é o motivo pelo qual ela está fazendo isso e como ela está fazendo isso, logo, as consequências que isso terá. Um relógio quebrado também marca a hora certa duas vezes ao dia, mas o faz pelos motivos errados.
Atualização de 23/07/09 às 14:49: O Tsavkko postou sobre o tema. Vale a pena dar uma olhada.
A Contratação de Muricy
foi, na minha visão, um erro. Beluzzo conduziu mal a negociação de início, expôs Muricy e deu com os burros n'água - disse isso aqui e reitero: Em Futebol, negociações, especialmente as de treinador, devem ocorrer sob o maior sigilo possível porque se der xabu, o ônus é menor. A culpa da negociação ter sido pública não foi de Muricy, mas ele poderia, à época, ter dado uma resposta logo. Não deu, enrolou e depois não aceitou os termos. Nesse meio tempo, o interino Jorginho arrumou taticamente o time, fechou com o elenco, empolgou a torcida e venceu praticamente todos os jogos. Beluzzo chegou a declarar que ia efetiva-lo após a vitória contra o Flamengo no Maracanã, mas no mesmo dia - sabe-se lá porquê - desdisse. Hoje de manhã, acordo com a notícia que Muricy assumirá o time na segunda. Ele já vai chegar sob o olhar desconfiado da torcida por conta de toda essa lenga-lenga para acertar. Se, por exemplo, perder o clássico para o Corinthians, terá problemas. Se inicialmente a culpa não era de Muricy, agora ela é, se era para ter aceitado, deveria ter sido antes, não agora. O time prossegue com boas chances, se não perder gente na janela europeia que se abre, pode até arrancar, mas Beluzzo vem patinando demais como presidente.
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