quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

1968 e as Olimpíadas da Paz

O ano era 1968 e irrompiam protestos de canto a canto do Globo. Uma geração inteira de jovens, nascida no pós-Guerra, se via tomada por um furor revolucionário que se espalhou como um efeito dominó por todos os lados. Nos EUA, a luta pelos direitos civis seguia firme e forte atingindo seu ápice - bem como a luta pelo fim da Guerra do Vietnã, cujo único significado era a própria crueza que lhe era inerente -; na França, os jovens partiam para o confronto contra uma patética reforma educacional que nada mais era do que a ponta do iceberg da esclerose do Gaulismo tardio - e só o início dos problemas -; do outro lado da Cortina de Ferro, as multidões se debatiam sob o sol primaveril de Praga por um Socialismo com face humana; no Brasil, nos víamos sitiados por uma Ditadura Militar implementada em meio ao transe geral - que se consolidava lentamente - e a reação tardia e desorganizada daquele momento, como sabemos, não foi suficiente para deter seu recrudescimento logo em seguida.


Um fato que passa desapercebido sobre 1968 é que ele também era, vejam só, ano olímpico e em sua sede, aliás, as coisas não foram muito diferentes: O Governo Díaz Ordaz - mais um da nefasta tradição do priismo que governou aquele país por 70 anos - gastara uma fábula para que a Cidade do México fosse sede daquelas Olimpíadas e seguia, por conseguinte, firmemente uma política de cerco aos movimentos sociais e às liberdades individuais - o álibi era a realização do espetáculo, mas a medida que se apertava, as inquietações aumentavam e ao passo que isso acontecia, se justificava mais aumento do cerco. A opressão a serviço do espetáculo global e um espetáculo global a serviço da opressão. Assim, a democracia de partido único do México seguia seu ritmo, multipartidarizando-se mais tarde, mas sem perder seus trejeitos.

Exército Mexicano na Praça do Zócalo
As coisas pioraram com a chegada das Olimpíadas em Outubro, os protestos estudantis ganham força até o episódio da Praça das Três Culturas, de triste lembrança, que ficou gravado na História como o Massacre de Tlatelolco: Milhares de jovens, há poucos dias da cerimônia da abertura, se reuniram para o maior protesto desde então. Eis que franco-atiradores instalados no alto dos prédios abrem fogo contra a multidão, matando um sem número de manifestantes - cujos corpos foram simplesmente desaparecidos, talvez  jogados ao mar pelos militares - e milhares foram presos por tropas do exército. Tais eventos passaram em pune; dez dias mais tarde, Díaz Ordaz inaugura os Jogos Olímpicos de 1968, as Olimpíadas da Paz...

Existe muita coisa para se dizer aqui. Seja o significado de 1968 pelo mundo, um tema digno de uma série de posts - ou quem sabe de um blog inteiro - e o outro é a própria natureza dos espetáculos globais, o que eles demandam dos governos e o como eles servem de álibi para políticas de efetivação do próprio domínio deles sobre corpos e mentes: Como a urgência da sua demanda justifica ações violentas e como é possível o Poder brincar com a possibilidade de urgência para executar políticas das mais diversas naturezas. É como nos diz Murilo Duarte Costa Côrrea, com sua habitual sagacidade: Trata-se do argumento transcendente da necessidade inscrito no desejo, em outras palavras, o que faz com que o descalabro nem precise mais ser justificado, posto que suas premissas, já estão, há muito, naturalizadas no inconsciente da multidão. No Rio, sede das Olimpíadas a se realizarem em menos de dois anos, a política de pacificação se mostra como de extermínio - se é que poderia se mostrar de forma diferente -,  no qual, independentemente de qualquer política de combate ao tráfico - certa ou errada -, estamos diante de uma urgência que nos leva à guerra pelo controle territorial daquela maneira e, ao mesmo tempo, justifica uma política para as favelas - e aqui, o tráfico é álibi, não o alvo - que desejávamos há muito.

O sujeito histórico do militante estudantil sai de cena e entra o sujeito histórico do favelado rebelde. Ambos são elétrons livres que circulam, por diversos motivos histórico-culturais, fora do alcance da esfera de controle da Ordem. Em ambos os casos, um falso cosmopolitismo, iluminista e autoritário, faz uso de um de seus principais espetáculos para representar uma confraternização universal que não passa, vejam só, de normalização universal a serviço do processo civilizatório, com a Paz como grande significante vazio a nos assombrar em seu altar - a paz perpétua pela vigilância e guerra perpétua. O caminho que seguimos não é animador, as chances que temos de escapar é a subversão da ordem posta e, nesse sentido, o Governo petista que ocupa o poder há oito anos significa, quem sabe, um ponto de fuga à desdita (quase) certa: Entre seus trancos e barrancos, nenhuma força política conseguiu concretamente subverter o funcionamento histórico de uma verdadeira máquina (cordial) de segregação como o Estado brasileiro com ele. Conseguirão os petistas no poder escaparem à miopia racionalista que ainda os purga para, eles mesmos, não se sujeitarem aos desmandos da sujeição alheia? Em outros palavras, a aparente vitória petista de trazer as Olimpíadas para o Brasil se assume como o seu maior desafio, como não se deixar usar pelo clamor das massas que deliram seus Díaz fictícios ou reais? 




terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Wikileaks: A Prisão de Assange e os Próximos Passos

Assange no Tribunal de Westminster
E, hoje, Assange foi preso e já teve a fiança negada na Inglaterra, depois de ter tido sua conta bancária bloqueada na Suiça ontem por erro de endereço, em um dos episódios mais tragicômicos da história. A polícia metropolitana de Londres cumpriu mandado de prisão expedido pela Justiça Sueca em relação a um obscuro processo de assédio sexual contra o fundador da Wikileaks que, coincidentemente, veio à baila apenas com a explosão das denúncias daquele site contra as desventuras em série da diplomacia americana. Há pouco, o Judiciário Britânico afirmou que as provas contra ele são sérias e que há grandes chances que ele fuja. Além da fragilidade da acusação, é óbvio como ela está sendo usada numa tentativa de deslegitimar as denúncias feitas pelo site, na medida em que não há nenhum nexo causal ou relacional entre os episódios. Nada de novo sob o Sol, o que aconteceu é uma mera consequência do que já debatíamos aqui há alguns dias, a confirmação pura e simples do recrudescimento dos mecanismos de controle do capitalismo global - administrado por uma superpotência em decadência que, atolada em guerras sem sentido, orquestra atitudes precipitadas para mascarar efeitos e manter posições. Nesse jogo, o Governo Bush foi catalisador e o Governo Obama é apenas figurante na representação, sem desejo, consciência ou força para mudar a direção das velas. A potência ascendente China que, certamente, está pouco disposta a arcar com o ônus de administrar o mundo sozinha, seguiu o seu procedimento padrão e censurou o site, especialmente devido as revelações sobre o jogo chinês em relação à península coreana, sempre ambíguo no discurso, mas bastante claro nas ações. Esperemos os próximos movimentos nesse fim de ano, mas tudo leva a crer que a ação de violenta de abafa em relação ao Wikileaks caminha em direção do surgimento de um wikileakismo na rede, o que tenderá a manter a tensão alta por essas bandas (nem tão largas).

Atualização das 18:33: O último artigo de Assange, antes de ter sido preso.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Brasileirão 2010: Fluminense Campeão

Fluminense campeão -- retirada daqui

Em sua oitava edição no sistema de pontos corridos, o Fluminense sagrou-se campeão ontem na última rodada do torneio. Foi o segundo título brasileiro do time, que só havia vencido em 84, mas que, entretanto, se coaduna com os últimos - e particularmente produtivos - anos do tricolor carioca: Depois do título da Copa do Brasil em 2007, se seguiram vice-campeonatos da Libertadores (08) e da Sul-Americana (09) e, agora essa nova vitória, o que coloca o time das laranjeiras entre os melhores do país nos últimos anos. No papel, com jogadores como Conca, Deco, Fred e Washington e companhia, o Fluminense era mesmo o melhor, muito embora, não tenha conseguido engrenar a ponto de definir logo o título, ao contrário, precisou de todas as rodadas para isso, enquanto se via perseguido pelo Cruzeiro e pelo centenário Corinthians.

O Brasileirão, novamente, teve uma tônica de rali, as rodadas iniciais em um clima de ajustes seja pelas melhores equipes estarem disputando as finais da Libertadores e da Copa do Brasil e início de projetos - o que agravou-se este ano, ainda, pela disputa da Copa do Mundo -, onde quem desviou contornou melhor os buracos e desviou dos abismos se deu bem. E Muricy soube, à sua maneira, fazer seu time aproveitar as rodadas pré-Copa do Mundo e depois administrar o torneio, ajustando a defesa - a melhor do torneio - em um esquema fechado e de certo modo burocrático,  deixando os jogadores de frente livres para definir. O centenário Corinthians acabou prejudicado pelas últimas rodadas, nas quais o Fluminense pegou seus rivais Palmeiras e o São Paulo sem mais pretensões de chegar a lugar algum no torneio.

Dos meus favoritos iniciais, Cruzeiro e Grêmio, depois de uma início particularmente preocupante, se recuperaram, mas não deu - no caso do Cruzeiro, diria que faltou força em um dado momento do Segundo Turno, ao Grêmio, sobraram problemas no elenco, só resolvidos com a tardia chegada de Renato Gaúcho ao comando do time. O Santos já classificado pela Copa do Brasil e desmontado ao longo do ano apenas administrou o torneio e o mesmo vale para o Inter, surpreendentemente campeão da Libertadores e classificado para o Mundial. O Atlético-MG viveu o inferno na terra e quase caiu. Dos rebaixados, a surpresa fica por conta do Vitória, vice da Copa do Brasil, que perdeu o prumo. Goiás, Guarani e Grêmio-SP eram candidatos desde o início.

Aliás, outro destaque fica pela queda de dois paulistas para a Séria B, nenhuma ascensão da Séria B para a A e um mal campeonato de Palmeiras e São Paulo somado a uma participação desinteressada do Santos. Os cariocas, além de levarem com o Fluminense, ainda tiveram o Botafogo disputando com dignidade, apesar do mau desempenho de Vasco e Flamengo. A surpresa positiva mesmo ficou pela boa campanha do Atlético-PR que capengou bastante no início do campeonato.  E o pontos corridos segue como sistema de disputa. Eu, particularmente, não gosto muito. Claro, detalhes como o calendário atravessado atrapalham, mas não me resta dúvida que o Brasileirão era mais empolgante nos tempos em que era disputado em turno único e play-offs. Agora, o campeonato é letárgico como uma palestra chata.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Os Ecos do Wikileaks, Assange e Keynes

Agamben nunca pareceu tão certo: O funcionamento dos mecanismos de dominação e controle de hoje parecem claramente superar os que existiam nos países fascistas da Europa dos anos 30. A reação contra Julian  Assange, diretor do Wikileaks, é uma prova difícil de refutar, nesse sentido:  Não foram poucos os políticos americanos que defenderam que ele fosse caçado ou simplesmente fuzilado - como fizeram a presidenciável republicana (deusmeu) Sarah Palin e o ex-presidenciável republicano Mike Huckabee; republicanos de todas as matizes, e até alguns democratas, vociferam insanidades nas quais o australiano Assange é acusado de traição aos EUA enquanto a administração Obama, sequestrada por um Departamento de Estado incontrolável, age de forma inequívoca para censurar o Wikileaks e, pasmem, até mesmo para intimidar seus universitários que ousarem postar algum cable no Twitter ou no Facebook.  

Em um primeiro momento, não há nada ali - nada -, enquanto prática de jornalismo, que já não tenha sido feito nos anos 60 e 70 nos EUA, durante toda efervescência da Guerra do Vietnã. A única coisa de nova que poderia ser apontada aqui é, mais até do que a quantidade de material, o alcance da difusão de sua publicação (e o modo como isso dá), fenômeno possível apenas com o uso da Internet. Não poderia ter sido mais feliz Antônio Luiz Costa, na reportagem de capa da última CartaCapital, ao lembrar do famoso caso dos "Papéis do Pentágono" no qual o analista militar Daniel Ellsberg vazou 14 mil páginas de relatórios sobre as atrocidades americanas no Vietnã. O mesmo jornais americanos que hoje se calam em relação ao Wikileaks, foram os mesmos que lutaram no judiciário americano pelo direito de publicar os relatórios - e venceram. Os agentes a mando de Nixon que tentaram vasculhar a vida de Ellsberg foram punidos enquanto ele mesmo foi absolvido judicialmente da acusação de traição. Isso foi no longínquo ano de 1971. Em menos de quarenta anos, a superpotência americana virou de cabeça para baixo, acusando definitivamente o golpe de sua decadência.

Não, meus caros, Julian Assange não faz parte de nenhuma conspiração comunista ou anti-capitalista. Ele mesmo se identifica como um libertário americano, isto é, uma espécie radical liberal, defensor de uma mercadificação total da economia como forma de garantir a liberdade. Em seu idealismo extremo, Assange beira o niilismo, construindo uma oposição entre empresas fechadas e corruptas e empresas abertas e honestas, numa busca por um capitalismo "ético" e "humano", o que, sem embargo, não passa de uma miragem no deserto, mercados articulam relações sociais e até políticas, não dirimem contradições - e tal afirmação só é possível se formos esquecer do fato de como dentro dos mercados se estruturam relações de poder sobre a população. Nada mais comum no nosso mundo internético, fundado sobre ideais não tão diferentes.

Assange é um Keynes às avessas. Se os meios escolhidos os separa, algo central os une, a saber, os fins: Em suas respectivas épocas, ambos estão tentando desesperadamente salvar o Capitalismo - que, no limite, eles nunca compreenderam bem - dele mesmo, ignorando  o quão inerente ao seu funcionamento são as próprias contradições que os ameaça. A compreensão do problema da realização do valor em Keynes, o fez elaborar uma teoria na qual o Estado, enquanto expressão legítima do poder público, acabaria por ter de intervir na economia para absorver o impacto das crises cíclicas, o que, na prática, acabou por instituir mecanismos de controle coletivo sobre o funcionamento do Capital - prática que levada ao extremo ameaçava sim o Capitalismo enquanto sistema, pois inibiria os mecanismos de reprodução incessante, o que, no fundo, é o que lhe dá identidade. 

Por meios opostos, Assange identifica como o Estado e empresas não éticas necessitam do encobrimento  de certas informações para exercerem seu mando, mas ele se perder onde se encontra, qualquer empresa, dentro de um sistema capitalista, está sujeita ao exercício do poder para poder realizar seu fim de permanente auto-reprodução, o que em outras palavras, as obriga a produzir um discurso no qual sempre é mais importante o que foi encoberto - e o mesmo vale na interconexão das mesmas no plano do Mercado. A construção de um mecanismo que tornam públicas informações estratégicas sobre a vida de todos, na prática seria uma ameaça a toda e qualquer unidade de produção capitalista ou do referente Mercado, pois instituiria um controle público sobre o que fazem ou deixam de fazer as empresas, submetendo ao interesse público o seu funcionamento.

Se Keynes, a seu tempo, tornou-se inimigo número um dos liberais, embora ele mesmo se afirmasse como liberal, isso não foi à toa: O ocaso do keynesianismo nos anos 70, aliás,  é um expressão da contradição elementar de sua teoria, enquanto ele via uma conciliação entre seu projeto de política econômica, o funcionamento do capitalismo e o bem-estar social, empiricamente demonstrou-se que havia uma contradição em termos aí, o que forçou os ideólogos capitalistas a projetarem algo para substituir seu próprio projeto: E esse projeto pôs o bem-estar social em função do Capitalismo de forma definitiva e clara, invertendo a premissa Keynesiana. Esse movimento estratégico simplesmente afirmou a noção de que o Capitalismo é mesmo anômico - e que qualquer tentativa de racionaliza-lo, salvando-o de si mesmo, vai produzir qualquer forma de socialismo porque, em último caso, ruma para o desaparecimento das relações que justificam a existência do próprio Estado como nós o conhecemos hoje.

Já Assange, por sua vez, entende que suas medidas estão implodindo esse Capitalismo ainda de Estado, no qual ainda reside a lógica de uma "costura vertical", evento pelo qual alcançaremos um "Capitalismo ético e livre", mas ele se esquece que todo Capitalismo é, no fundo, Capitalismo de Estado. Isso não parece claro devido ao discurso recorrente da própria esquerda não-anarquista de que vivemos sob a égide de qualquer tipo de "neoliberalismo", quando no máximo prática e instrumentais a serviço do próprio liberalismo são postas em prática pelos ideólogos e tecnocratas do Capitalismo - cuja relação com o Estado, desculpem, é um pleonasmo. Implodir o Estado, nesse sentido, levaria a dois caminhos: O primeiro, e mais provável deles, seria aquele que aponta para a construção de outro Estado pelos atores mais fortes - justamente os mais proeminentes agentes de Mercado -, que implodiriam os próprios mecanismos de difusão de informação e de transparência que acabaram com a velha ordem, ou a implosão do próprio Capitalismo, com redes colaborativas de produção se formando e substituindo o próprio Estado, posto que isso basicamente colocaria o modo de produção e troca a serviço do interesse coletivo. 

Não há como fugir disso, Assange pode não entender o que está acontecendo, mas se ele se tornou um verdadeiro homo sacer, isso não foi à toa: Que a intenção de sua crítica ao sistema é inofensiva para as linhas gerais da ordem, isso ninguém tem dúvidas, mas o ponto aqui são como as medidas que ele tomou via Wikileaks, colateralmente, acertam no alvo que certamente ele não gostaria de ter acertado. É por essa responsabilidade objetiva que ele está sendo caçado e, venhamos e convenhamos, não existe incoerência nisso, a menos que sejamos tão cândidos a ponto de não conseguir reconhecer, ainda, a relação entre esquizofrenia e Capitalismo.  

*imagem -- R7.com/tirada daqui

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Algumas Pensatas Sobre o Dia do Meu Aniversário

Escrevo este post hoje porque, provavelmente, não terei tempo de escrever nada novo amanhã, dia em que, por sinal, será o meu aniversário de 23 anos. Sim, foi um ano duro, um ano bem pesado. Diria que já tive anos mais atribulados, mas poucos se igualaram em riqueza de experiências como este. Especialmente na Faculdade, o que me fez refletir o que é esse ser humano, que tanto me preocupei em ver por fora, por dentro, no canto mais escuro do seu íntimo - talvez pela atuação no movimento estudantil ou a aspereza da sala de aula mesmo. Isso mudou completamente os rumos das minha reflexão e produção teórica, casou-se com o Spinoza que desde o ano passado levo debaixo do braço e que se junto ao Deleuze, apresentado pela minha amiga Flávia, fez-me chegar à questão central da descoberta de uma coextensão entre o campo social e o campo do desejo, o que não poderia ser mais congruente, em teoria, com o problema com o qual me deparava na prática. Aprendi a dar mais valor aos amigos todos e a gente querida que, na verdade, é tão pouca em relação à multidão, mas são tantos em relação ao que eu mereço - por isso, os cito aqui na minha cabeça, sem medo de errar, posto que a memória é, sempre foi e será, sentimental mesmo, mas fica o meu agradecimento a todos aqueles que estão no nosso pequeno (e verdadeiro) Grupo e a mais alguns outros. Página virada, tivemos ainda uma Copa do Mundo melancólica e uma eleição tenebrosa me tomaram bastante o tempo, mas creio que colaborei com ambas no que pude, entediando-me com a primeira e sofrendo bastante com a segunda - malditas noites sem dormir em Outubro, malditas sejam -, sem mencionar a humilde cobertura que fiz de ambos os eventos nesta Casa, o que teve um surpreendente retorno do público. Cá do blog - e da blogosfera - apesar das agruras, não tenho muito do que me queixar, creio que conseguir tornar as coisas mais assertivas por aqui, dentro das minhas limitadas capacidades, blogando melhor, escrevendo melhor e, vejam só, até tendo o prazer de conhecer pessoalmente - supondo que nem toda realidade seja mesmo virtual - gente que conheci por aqui como o Alexandre e a própria Flávia, o João, depois o Idelber, além de ter mantido contato com o Tsavkko e um pessoalzinho todo que acabei conhecendo. Sim, acho que consegui cumprir uma tarefa complicada, continuar aumentando a qualidade do produzido neste blog junto com um aumento do público - ambos em doses modestas, mas que não deixam de me orgulhar bastante, sobretudo pela qualidade da interação de tantos comentaristas queridos, uns tão antigos, outros que me surgiram há pouco. Sei lá, estou um pouco sentimental mesmo, talvez seja sinal da idade chegando.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Wikileaks, o Destino Manifesto dos EUA e o Brasil


Enquanto a guerra civilizatória prossegue no Rio de Janeiro - e o que é a civilização e seus interesses superiores, não? -, estoura de forma definitiva, no mundo já civilizado, o caso Wikileaks: Aproximadamente 250 mil documentos de embaixadas americanas pelo mundo foram* serão tornados públicos na Internet, no site da organização. Aqui, mais do que nunca, seria necessário inverter o anátema, posto que isso tudo seria trágico se não fosse cômico. O conteúdo já revelado apenas comprova aquilo que - como diria o velho Carta - até o mundo mineral já sabia, seja o fato da diplomacia americana realmente fazer intensa espionagem de outros governos, corpos diplomáticos e da própria ONU ou como seus diplomatas-espiões enxergam de forma limítrofe o mundo que deveriam, ao menos, entender tão bem. Nada de novo sob o Sol, mas agora algumas horas de argumentação com americanófilos cegos (ou nem tanto) pode ser resolvido com um link com uma foto de satélite provando que a terra é redonda mesmo.


A reação de especialistas ocidentais - os de verdade, por favor - não poderia ser muito diferente daquela que teve o lendário jornalista britânico Robert Fisk: Uma boa dose de sarcasmo e uma conclusão perfeita, "não que os diplomatas americanos não entendam o Oriente Médio; é que eles já não sabem ver a injustiça". De fato, não é uma mera questão dos dados que eles têm em mãos - cujas fontes são tão precárias quanto de um jornalista ocidental médio, portanto, certamente piores do que as de Fisk -, mas como sua forma de pensar está de tal forma poluída pela ideologia e pelo discurso hegemônico, que já não há mais capacidade crítica, tampouco desejo, que lhes faça tentar enxergar a situação por outros ângulos e, muito menos, fazer uma crítica moral do que estão fazendo. Nem todos os melhores dados do mundo lhes seria suficiente.

Eu iria até mais longe, a natureza de certas informações parecem responder ao que deseja que seja dito e descoberto pelo Departamento de Estado americano, tal como pesquisas sociológicas em comunidades oprimidas, na quais os entrevistados tentam responder ao entrevistador perguntas sobre si mesmos como se devessem responder a pergunta certa - uma consequência óbvia pela maneira como as relações sociais são postas e como, não raro, o entrevistador se põe acima do entrevistado, tratando-o como uma cobaia. Na sua função atípica de espiões, os diplomatas americanos tentam "responder" as questões do jeito certo. 

Impossível não remeter ao Nosso Homem em Havana de Greene: Como um pacato inglês radicado em Cuba chamado Wormold,  dedicado ao humilde ofício de vendedor de aspiradores de pó, acaba aceitando uma proposta irrecusável do serviço secreto de seu país natal para espionar a efervescência da Ilha nos anos 50. Da paranoia da Guerra Fria à comédia, Wormold precisa criar uma boa dose de factóides a todo momento para vender o seu peixe, chegando ao cúmulo de enviar para seus sinistros chefes uma planta de aspirador de pó como se fosse uma instalação nuclear. Nada muito diferente daqui. Temos desde textos que falam o óbvio até outros que levantam balões de ensaio. Há coisas sérias, como a divulgação de reuniões, lobbies, mas sobretudo resta a revelação de como o sistema imperial americano se tornou insuficiente em si mesmo, uma verdadeira Sátira - o que, desde Spinoza, sabemos que é o inverso da Ética.

Chegamos ao Governo Obama. Se o atual presidente, primeiro negro a assumir a liderança daquele país, mesmo que tenha assumido numa das piores crises de seu país, o fez numa das conjuntura favoráveis da história para um presidente americano: Poderia, perfeitamente, ter levado a cabo um processo de distensão e integração no continente americano e da construção, no plano global, da multilateralidade. Dada a crescente diminuição dos EUA em relação à economia mundial, seus problemas econômicos e o próprio esgotamento de seu modelo, o atual posicionamento do país enquanto mandatário global só favorece a certos grupos de interesse específico, notadamente a indústria bélica e petroquímica, fora isso, são os trabalhadores que estão arcando com tudo. Obama e seus aliados no partido democrata, no entanto, estão mais preocupados a se deixar pautar por qualquer rumor pautado pela direita local e a nortear sua política externa nesse sentido, o que é não apenas catastrófico como insustentável. Aquele Estado é como um corpo sem cabeça, andando por aí, não muito diferente da União Soviética dos anos 70.  Também aí, nada de novo. 

Curiosos mesmo são os cables sobre o Brasil. Um deles, certamente o mais intrigante, foi a pressão americana para que aprovássemos uma lei antiterror. Um excremento, sem dúvida. A ideia não vingou por pressão, inclusive, de Dilma Rousseff, atual chefe de estado e de governo. O argumento usado por ela é bem simples, como isso poderia ser usado para criminalizar movimentos sociais e, quem sabe, políticos. Interessante também o vazamento do nome do "analista" da Escola Superior de Guerra, André Luís Woloszyn**, que dizia que era impossível uma lei antiterror sem incluir o nome do MST - o que é revelador do que ainda é a ESG, uma centro de estudos estratégicos brasileiros, mais alinhado com os interesses americanos do que, talvez, West Point (como a nosso ditadura nos prova), o que apenas comprova o afã da direita nacional, ela sim, de incluir aquele movimento no rol de "grupos terroristas" a todo custo. Novamente, o PT, ele mesmo, acaba sendo, em seus defeitos e contradições, a última linha de defesa do país em relação ao descalabro generalizado.

A maneira como é narrada o aparente descaso do governo brasileiro com o "terrorismo" é uma peça antropológica, sem dúvida. Os americanos e os analistas nacionais - mais gringos que os próprios -, na verdade, não entendem como o Governo brasileiro ainda não descobriu o potencial de como controlar os seus, por meio do potencial de subjetivação dos seus cidadãos como "terroristas", mas a maneira como isso é narrado é deliciosamente cínica, os tecnocratas apontam o governo como "imaturo" do mesmo modo como se fazia com os países que não queriam aderir ao livre-mercadismo nos anos 90: A nossa vontade é tamanha que quem não se dobra a ela, só pode ser um idiota. Uma forma de idealismo perversa, na qual os próprios ideólogos começam a acreditar nas mentiras que repetem - e aí, caríssimos, só o inferno é o limite.

Atualização das 13:48: *segundo me informa o nosso Idelber, nem todos os 250.000 documentos foram tornados públicos ainda, e **o sobrenome do analista da ESG é Woloszyn e não Soloszyn (sim, o nome dele foi grafado errado no cable como vocês poderão notar a seguir). 

P.S.: Segue a íntegra, na quebra de página, do cable sobre a lei antiterrorismo, antes que alguém a tire do ar:

domingo, 28 de novembro de 2010

Ainda o Rio: Padilha e a Favela Eterna

Complexo do Alemão, a nossa faixa de Gaza, segundo entrega até mesmo O Globo 


Segue a guerra civil no Rio de Janeiro. Guerra de domínio entre forças assimétricas, narrada como espetáculo - lindamente absurdo e absurdamente lindo, o velho conquistar corações e mentes. Nem adianta argumentar o quanto, racionalmente, essa retomada do controle total daquela área pelo Estado tenha nuances inaceitáveis - ou seja de um todo despropositado -, o que importa ali - e para quem projetou aquilo - é produzir o delírio um específico delírio na multidão. Enquanto isso, os intelectuais se degladiam por versões, análises, soluções, críticas. O discurso oficial, claro, tem seus intelectuais. Um deles, trata-se do sujeito que ganhou certa proeminência nessa área, o glorioso José Padilha, aquele mesmo, o autor da série Tropa de Elite - que em relação ao segundo fiquei em falta com os visitantes desta Casa no que toca uma crítica. Diante desse episódio desditoso e de recém alçada proeminência como especialista em violência urbana e Rio pela mídia nacional, eu não podia perder essa oportunidade e ir um cadinho além.


Não, eu não gostei do Tropa de Elite 2. Nem poderia gostar. Em toda sua pretensão de nos iluminar sobre a conjuntura atual do Rio, o filme não passa de um pastiche de filme hollywoodiano, obedecendo, inclusive, às suas premissas mais elementares: (I) O elogio permanente à violência, demonstrada como forma máxima da expressão humana; (II) A castração das personagens, assexuadas até quando se insinuam (aqui, nem isso), reles autômatos sem libido; (III) A invisibilização da questão social, o Trabalho inexiste, tampouco qualquer menção à sua exploração. Está tudo lá, a violência é o ápice da expressão, quem domina a técnica para emprega-la mais e melhor é justamente para quem os holofotes se voltam, não existe troca de libido - ou possibilidade de -, tampouco - e principalmente - não existe questão social: Onde é que estão os fundamentos econômicos de tudo aquilo? A favela é demonstrada como um amontoado de pequenos empreendedores explorados pelos aneis burocráticos do Estado - pior do isso, a favela é narrada como se sempre estivesse ali o que, por tabela, sempre estará. Sem embargo, uma naturalização imperdoável. 


De repente, toda a problemática do Rio de Janeiro, narrada pela voz estranhamente onipresente do ex-Capitão Nascimento - uma personagem inserida no plano, ao mesmo tempo, que consegue enxerga-lo de forma transcendental e assim nos explicar o que se passa, até quando corrige seus erros de avaliação -, é reduzida a um problema de gestão do mecanismo vigilantista-policial - e talvez de um certo gigantismo do Estado, destinado a produzir corrupção e explorar os empreendedores. Boa parte dessa perspectiva está presente em um artigo de Padilha publicado ontem no Estadão, sobre aquela crise: De repente, qualquer ligação da violência carioca com a luta de classes é produto da imaginação de uma certa "esquerda naïve" - e a esquerda naïve, sempre ela, serve como  meio de desqualificar toda a esquerda ou, de repente, de álibi para dizer que "essa história de luta de classes não existe". Outro ponto da sua argumentação é como toda a problemática social do Rio, de repente reduzida no número do IDH, não faz diferença alguma, afinal, baseado nele, existem cidades piores e menos violentas. Vamos ao texto:

Afinal, por que o Rio de Janeiro é assim?

Uma resposta, a da esquerda naïve, postula que a violência no Rio de Janeiro decorre da miséria e da luta de classes, e diz que para combatê-la é necessário acabar com as diferenças sociais, distribuir a renda e educar a população. Há também a resposta da direita naïve, que reduz a violência do Rio a um problema de repressão e diz que ela se explica pela falta de firmeza da polícia e das leis.
As duas respostas estão erradas, contradizem fatos conhecidos.
A primeira não dá conta de cidades que têm índices de desenvolvimento humanos (IDH) piores do que os do Rio de Janeiro e índices de violência menores. A segunda está na contramão da história, que demonstra que incrementos na repressão podem piorar os índices de violência. Foi assim no governo Marcelo Alencar, quando o Estado adotou a remuneração faroeste e passou a premiar os policiais em função do número de criminosos que “abatiam”. A partir daí, o número de autos de resistência, de policiais que declararam ter matado criminosos que resistiram à prisão, cresceu e continua absurdo até hoje.

Não, favelas não são um produto da natureza. Mesmo a mais rústica esquerdinha socialista - aquela que Padilha gosta de usar para comprovar suas teses - sabe disso e o próprio Padilha, talvez,  o intua também. Aquela população está em permanente atrito, na esfera econômica, com quem lhe oprime, mas manifestação disso nos campos social e político se estrutura mediante o grau de entendimento que ela tem e, antes de mais nada, como a produção desejante dela é concretizada nessa conjuntura. Negar isso é pressupor uma simetria que não existe ou dizer que essa assimetria é neutra, não produz efeitos, o que é igualmente patético. Buscar refúgio em um número tão abstrato quanto o IDH é outra falácia óbvia, ainda que se trate de um referencial que nos ajude a tatear no escuro, ele não pode - nem deve e, suspeito, nem temo como - ser usado como instrumento definitivo para explicar fenômenos sociais desse porte; estamos falando de um elemento que é calculado a partir da produção bruta per capta - sequer da renda salarial - e da mera quantidade de educação e de vida das pessoas. 


A questão é que para entender um fenômeno de violência, antes de mais nada, é preciso qualificar e não quantificar esses dados, além de considerar mais alguns outros, entendendo, por exemplo, como essa população, dividida em classes que se antagonizam, está fisicamente disposta na urbe. A violência nas cidades passa além de segurança no emprego ou reles segurança alimentar - embora parta delas -, mas por um fator não menos importante: Segurança e dignidade habitacional. A ausência da reles garantia de um teto e/ou a existência de espaços urbanos incapazes de permitir que a comunidade interaja verdadeiramente são fatores importantes na composição da violência, posto que o confinamento de grandes contingentes explorados ou excluídos em pequenos e precários espaços físicos, tende a acirrar as contradições e tensões existentes - que já não são pequenas -, retirando qualquer possibilidade de melhora da vida, realidade da qual só possa nascer uma cultura de violência. Embora possa surtir algum efeito, colocar a melhora da gestão da polícia como meta central de resolução desta problemática é um engôdo à serviço de uma ideologia de repressão - não muito diferente daquela cultivada pela "direita naïve", embora o referido cineasta se ponha, estrategicamente, ao centro e acima desse debate político.


Enfim, o script da Tropa de Elite 3 está escrito, para Padilha, a saída está na melhora da administração da violência legítima do Estado, o que exige a redução dos seres sensíveis e afetivos das favelas a autômatos quantificáveis - mas não qualificáveis em sua condição humana - e, uma vez mais, a invisibilização de qualquer relação disso com o que se passa na esfera econômica. Sua conclusão e seu modo de se portar diante do debate público são fruto de uma sofisticada construção intelectual sobre a qual, atentem para isso, se assenta a nova direita brasileira, ciosa pela retomada da totalidade da hegemonia, justamente neste momento em que a luta de classes nunca esteve tão evidente neste país. É esse combate que a esquerda precisa ter bem claro em mente, isto é, se a cegueira que as luzes lhe causaram permitam ver para além do racionalismo insuficiente.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A Violência para muito além do Rio de Janeiro

foto ap
Ao longo de toda a quinta-feira, a operação militar realizada em algumas favelas cariocas com a finalidade de "combater o tráfico de drogas", com direito a confrontos semelhantes aos de uma guerra civil e uma boa quantidade de mortos e feridos, foi destaque nos telejornais - alguns, como o Jornal Nacional, narravam com demasiado entusiasmo o uso de alguns blindados da Marinha -, movimentou o Twitter, virou assunto na blogosfera e na imprensa mundial. Apesar das singularidades da situação carioca, não falamos de nada que destoe muito de como se estrutura a violência no mundo contemporâneo e do resto do Brasil. 


O impasse, no que toca às drogas, é claro: Proibições, sejam elas legais ou não, não neutralizam desejos, mas sim os desloca como nos ensina o velho Deleuze. Se existe um desejo por parte da sociedade, especialmente jovens, de consumi-las e - e isso é o que importa aqui - se no fim das contas disso resulta uma alta quantidade de viciados, a questão não se vincula de uma questão objetiva - apenas a natureza de tais substâncias -, mas também de uma questão subjetiva, por que tantos jovens estariam viciados em drogas? Porque desejam usa-las e desejam muito - e são os desejos que produzem nossas necessidades e não o contrário, pois se assim fosse, não teríamos como desejar o nosso próprio mal.


Não adianta surgir com argumentos racionalistas que apontam esse desejo como algo absurdo, posto que usar drogas não seria fruto da real necessidade humana, o que faria com que caíssemos num vazio no qual quem consome compulsivamente drogas é iludido, ignorante ou imoral - em suma, eu sugiro que abramos mão de Kant uma vez mais, camaradas. Deseja-se muito consumir certas substâncias porque vivemos numa sociedade cuja dinâmica impele grupos imensos de nossa sociedade a tanto, do mesmo modo que grandes quantidades de pessoas estão viciadas em comida, álcool, tabaco, internet e outras drogas perfeitamente lícitas. 


Portanto, não é sequer o escapismo o cerne da questão, mas sim como o Capitalismo, em sua particular forma de nos disciplinar física, psicológica e socialmente, faz com que as pessoas construam válvulas de escape na qual externam, de forma violenta, seu desejo reprimido, o que por vezes equivale a um vício, a um comportamento compulsivo. Em alguns casos, chegamos à fuga da realidade, no qual o consumo de álcool, maconha, cocaína e outras substâncias mais, acabam se tornando objeto dessa compulsão. No caso das drogas ilícitas, isso move um mercado, ou melhor, um compartimento seu, que articula tais demandas. O Mercado depende da lei, mas pode funcionar a despeito dela. Surge o tráfico e ele abastece tais usuários, movimentando uma boa quantidade de recursos, envolvendo os aneis burocráticos e movimentando, vejam só, até o mercado de armas de forma residual à sua atividade principal.


Em um país como o Brasil, onde suas grandes cidades são a expressão perfeita e acabada, em termos urbanísticos mesmo, da enorme desigualdade social - que opera enquanto processo dinâmico - reinante, essa conjuntura chega a um estado alarmante. Num lugar como o Rio de Janeiro, cuja história e geografia colaboram para piorar a situação, a coisa pega fogo. As favelas ficam nos morros, o tráfico mantém o controle dessas regiões e o Mercado - sempre ele - articula uma nova situação, a demanda de segurança nessas comunidades é suprida pelo surgimento das milícias - na península itálica do início do século 19º foi o mesmo: Os soldados desgarrados do exército napoleônico roubavam, estupravam e matavam, até que homens de bem se organizaram e passaram a vender serviços de segurança privada, foram-se os soldados, e a futura Máfia passou a vender serviços de proteção...de si mesma. 


Por outro lado, a erosão não só do controle do Estado como do próprio espaço público, por forças privadas completamente imprevisíveis, criam uma situação preocupante nas favelas, em relação a qual não se pode raciocinar com maniqueísmos vários. O fato é que o tráfico só é confrontável por meio de ações de inteligência no que toca a lavagem de dinheiro, ainda que ele só seria derrotado realmente no dia em que as drogas fossem liberadas mesmo, por, digamos, perda total do objeto.


A questão em tela, portanto, não pode ser vista como confronto ao tráfico, isso não passa de um álibi: Estamos diante de uma batalha pela retomada de certo espaço territorial perdido pelo Estado, em relação ao qual ele não prescinde por conta das Olimpíadas - não é, portanto, sequer criminalização da pobreza no combate ao tráfico, posto que não é combate ao tráfico, é luta pela hegemonia territorial pura e simples. Isso não necessariamente é ruim, mas evidentemente não é a solução do problema - nem o maior deles que envolvem essa questão -, assim como não é menos perigosa a maneira como o militarismo pode ser usado no imaginário das pessoas. De todo modo, que fique claro: o abismo aqui é muito maior e já foi aberto bem antes e diz respeito ao esgotamento social e psicológico que o nosso sistema econômico produz. 

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Os Pontos Corridos e a Semi da Sul-Americana

Felipão, peça chave até no Campeonato que já perdeu
O Brasileirão de 2010 segue tão melancólico quanto os melancólicos de esquerda e/ou saudosistas do futebol arte que integram a primeira divisão da nossa imprensa esportiva. O fato de Fluminense e Cruzeiro, clubes na disputa direta pela taça deste ano, enfrentarem um Palmeiras sem muitas chances levanta suspeitas: O Corinthians, arquirival verde, está na disputa pelo título e depende que seu nêmesis, mesmo não tendo mais o que ganhar neste Brasileirão - e ainda com o álibi de estar na disputa da Sul-Americana -, não entregue - como pode ter feito o São Paulo que tomou de 4x1 do Fluminense na última rodada. Por outro lado, Juca Kfouri e outros segue fazendo apologia ao sistema de pontos corridos. O problema é dos clubes, que não éticos, que entregam seus jogos para ferrarem com seus rivais, não do sistema. Parece até a União Soviética dos anos 80, onde a culpa pelo fracasso do Socialismo, em última instância, era do povo ou a Rússia dos anos 90, onde o fracasso do Capitalismo também é culpa do povo - ironia do destino, o mesmo Gaidar que liberalizava geral nos anos 90 era o mesmo que calava os críticos do bolshevismo nos anos 80 na sua função de censor. Ou, futebolisticamente falando, parece até aquele caso daqueles treinadores que pegam um elenco  sem bons alas, bota a turma para jogar para jogar no 3/5/2 e depois reclama dos jogadores. Não, o problema do Brasileirão não é só o calendário que mais atravessado impossível, é também do sistema mesmo, ganha quem souber ser mais morno durante longos oito meses - e isso, pelo visto, Muricy sabe fazer melhor do que ninguém, apesar de ter exagerado na dose no ano passado.

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Na Copa Sul-Americana, o Palmeiras, em um jogo horrível, bateu o Goiás por 1x0 fora - golaço de Marcos Assunção, o melhor jogador de um time que contratou Valdivia e Kléber a peso de ouro, mas que funciona a base das cobranças de falta, chutes de fora de área e do toque refinado do veterano volante, que veio quase de graça. É verdade que Deola e Tinga estão bem, Gabriel Silva tem futuro e Luan e Edinho estão suando a camisa, mas falta alguma coisa de qualidade nesse time verde, algo que precisará sobrar em termos de raça para levar esse título. Esse elenco atual do Goiás é o seu pior dos últimos dez anos. Do lado de lá da chave, LDU e Independiente fizeram um jogão e os argentinos voltaram com um 3x2 para seu país, depois de estarem perdendo por 3x0. É incrível como times argentinos crescem em torneios continentais, o Independiente amarga as últimas posições do seu nacional, mas conseguiu enfrentar de igual para igual o bom time da LDU em Quito, conseguindo um ótimo placar.

domingo, 21 de novembro de 2010

A Pontifícia, a Opressão e o Movimento Estudantil

Semana passada, a PUC de São Paulo teve dias agitados: Enquanto sua reitoria foi ocupada, seus e-groups andaram agitados pelo burburinho que envolvia uma outra discussão por e-mail, ocorrida durante a época das eleições, mas que se agravou bastante nas semanas que se seguiram, na qual uma estudante de quinto ano do Direito sofreu ofensas classistas e racistas. Na Ocupação, os estudantes se debatiam contra a política de mensalidades daquela Universidade, que desde os ajustes decorrentes do corte de verbas públicas para a universidades privadas nos anos Collor, da guinada da Igreja e, por fim, de uma crise subsequente em 2004, levaram a uma lógica de aumento das mensalidades e de seleção de ingressantes basicamente pecuniária, o velho entra quem pode pagar - e bem -, salvo os poucos prounistas (algo em torno de 10% dos estudantes da Faculdade de Direito, das outras, desconheço o número exato) que entram nas cotas desse conhecido programa do governo federal, o que permite que pessoas como a Meire, negra e de origem humilde, andem pelos corredores na condição de estudante - não de forma incólume, como podemos perceber: Os estudantes negros (pagantes ou não) e os bolsistas formam um corpo estranho em um meio cada vez mais homogêneo, contra o qual ocorre uma reação. 


Enfim, esses fatos de repercussão pública são apenas a ponta do iceberg do que assistimos no nosso dia-a-dia, são apenas pontas mais salientes de todo um estado de coisas daquele que já foi o principal centro de pensamento e agitação política de São Paulo - provavelmente do país - nos anos 70-80, se duvidar, pesquise a biografia de boa parte das figuras mais influentes do PT, por exemplo, basicamente, a maioria passou pela Gloriosa. As duas prefeitas paulistanas egressas do PT, Erundina e Marta, tiveram passagem pela Casa, uma enquanto Professora, a outra enquanto aluna. José Dirceu, José Eduardo Cardozo são graduados no Direito, Mercadante foi professora da FEA e por duas vezes presidiu a associação de professores. Tudo isso, num momento no qual o Concílio do Vaticano II soprava bons ventos que, curiosamente, encontravam ressonância cá nos confins do Império Cristão. Atribuir as atuais mudanças pelas quais passam a PUC a problemas meramente administrativos-financeiros é falsificação histórica, pois nega a inegável inflexão política pela qual ela passou; vamos ser sinceros, cobrar quase três salários mínimos de cada estudante é um esforço semelhante ao de buscar saídas de financiamento - público, inclusive - para aquela Universidade.


A ocupação aconteceu, ironicamente, enquanto eu estava num grupo de estudos assistindo ao monumental Terra em Transe. Aparentemente, ela se deu na esteira de uma manifestação contra o aumento das mensalidades, cujas reivindicações foram negadas pelo conselho de administração - dois Padres que representam a Igreja e o Reitor - que desembocou na entrada deles naquele órgão -; ela terminou entre a noite de sexta e a madrugada de sábado, depois de um dia e meio. O que não só pode - como deve - ser questionado é maneira como ocorreu sua construção, afinal como mecanismo de pressão não resta dúvida que se trata de um ponto que pode ser válido, ainda que extremo. Não é segredo para ninguém que, não raro, o movimento estudantil comete erros e aqui foi um deles. A politização feita em relação a uma pauta consensual como essa - cuja discordância está no elitismo atroz ou entre aqueles que têm um um inominável rabo preso com a hierarquia - foi ruim e o processo de pressão, construído em cima da hora, novamente se perdeu em partidarismos e clichês. A forma repentina - e inexplicável - como ela começou foi a mesma de seu término. 


Isso tudo levanta uma questão central. Se por um lado a burocratização das universidades brasileiras, processo nascido na ditadura e consolidado a seguir, torna os corpos administrativos acadêmicos em verdadeiros anéis burocráticos incapazes de responder ou, ao menos, de entender as demandas, por outro lado, o Movimento Estudantil está preso num modo de agir cristalizado, decorrente de uma leitura marxista equivocada: Parte-se de uma leitura iluminista, na qual as pessoas não fazem algo por que desconhecem o que se passa ou são impedidas de sabê-lo ou, em último caso, porque são inibidas por mecanismos policialescos-repressivos - e o que quem escapa a isso teria necessariamente um problema moral, resultando em vitimizações ou perseguições -, o que é um erro comum aos pensadores da tradição de esclarecimento, que de certa forma ainda está em Marx, muito embora ele tenha dado passos importantes para fora disso - mas que passa batido no ME, posto que o leninismo residual não assimilou a temática da Ideologia Alemã por motivos lógicos, afinal, Lenin morreu antes de sua publicação. No fim as contas, isso acaba se expressando de um modo mais radical no marxismo vulgar.


Claro, o elemento chave que acaba escapando a essa forma de análise é o Desejo. A lição que Spinoza nos legou, Reich redescobriu e o Deleuze e Guattari trouxeram à baila com maestria no Anti-Édipo é que mesmo os sistemas mais terríveis são fruto do desejo das pessoas, da produção de seu inconsciente. A omissão diante do descalabro também se motiva por isso, o desejo de estar alheio, de não se envolver de não se comprometer. Por que os explorados não fazem greve o tempo inteiro, se o mecanismo que lhes oprime não cessa? Falta a compreensão que a economia política é uma economia libidinal, não somos autômatos que produzimos e trocamos formalmente coisas, a produção e a circulação do produto na forma de mercadorias é, antes de mais nada, uma permanente interação de afetos. Compreender essa coextensividade entre os campos do desejo e o social é central, mas isso escapa ao que está posto no ME, que é dos meios mais conservadores que se pode conceber. Isso faz com que a não-participação dos estudantes na vida (e na política) acadêmica, fenômeno cada vez mais recorrente, se torne algo próximo de uma contradição indissolúvel para a esquerda acadêmica. É necessário incluir, mas não se abre mão de suas concepções e práticas, além do fato de que as pessoas devem estar enquadradas em um certo padrão, do contrário, não servem. 


Por outro lado, uma direita universitária passa a se afirmar com força, e não é dentro de um crítica liberal ao esquerdismo, mas na figura de uma direita raivosa, sem consciência social e que, não raro, se articula com os anéis burocráticos que administram as Universidades - na PUC não é diferente, na USP também não -, mas esses setores sabem manusear com cada vez mais habilidade o desejo. Enquanto a esquerda está presa num racionalismo insuficiente - que chega ao autoritarismo por não saber como lidar com questões como a sujeição voluntária, portanto, ao autoritarismo não como política, mas como sintoma de pane -, essa direita se impõe pelos preconceitos, por uma intervenção clara e direta no imaginário geral, construindo fantasmas plausíveis e alimentando esperanças vãs, em troca do seu bilhete para ascender à primeira divisão partidária. Em cursos com um projeto ideológico firmado, como na maior parte das humanidades (à esquerda, naturalmente), ocorre uma desmobilização bem grande, enquanto em cursos como o de Direito, onde isso não ocorre, surge uma polarização entre esses dois projetos estudantis - o mesmo acontece em disputa para DCE's, como na própria USP e UFRS. No nosso contexto, isso se cruza com os interesses da Igreja e os interesses de sobrevivência de uma burocracia acadêmica, enquanto os estudantes ficam no fogo cruzado. Nessa ambiente de degeneração, casos de discriminação e agressividade se constroem nas rachaduras formadas. O espanto da sociedade em relação aos absurdos que se passam no meio Acadêmico é o escândalo decorrente na fé cega no potencial do Esclarecimento. É esse o quadro complexo que temos em mãos agora.